Sábado, 23 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

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Luiz Antonio Magalhães

Por lgarcia em 15/01/2003 na edição 207

PERSPECTIVAS / 2003

“2003 na mídia”, copyright Correio da Cidadania (www.correiocidadania.com.br), 9/01/03

“Na semana passada, comentamos neste espaço as razões da boa vontade da mídia brasileira com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante a campanha, no ano passado. E terminamos o artigo afirmando que boa parte da grande imprensa está em lua de mel com Lula, especialmente após a divulgação de seu ministério, tão ao gosto do mercado e dos marqueteiros.

Se a crise do setor de comunicação fez os barões da mídia digerirem a eleição de Lula, como explicamos na coluna anterior, as perspectivas da relação imprensa-novo governo para o ano que entra são bastante alvissareiras, pelo menos do ponto de vista do presidente eleito. É muito difícil acreditar que o Brasil poderá viver um quadro semelhante ao da Venezuela, onde todo mês o magnata das comunicações Gustavo Cisneiros trama um golpe contra Hugo Chávez, em uma guerra permanente do mais forte grupo de mídia do país contra o presidente da República.

No Brasil, o maior grupo de comunicação está à espera de uma ajuda substancial, que nesta altura do campeonato só pode ser estatal. A rigor, o mesmo vale para os Grupos Folha, Estado, Editora Abril, SBT etc. Não é só a Rede Globo que vive uma situação dramática, mas todo o setor. A megalomania dos empresários de mídia, que superavaliaram a demanda por novos meios (internet e TV a cabo, principalmente), e a conjuntura econômica extremamente desfavorável nos últimos dois anos foram os principais fatores que colocaram os grandes grupos em uma situação de quase insolvência.

Como o capital estrangeiro parece decidido a não entrar no Brasil tão cedo, os barões da mídia tupiniquim terão mesmo de negociar com os petistas. Eles não poderão, nesta altura do campeonato, simplesmente adotar uma postura de franco-atiradores, como faz Gustavo Cisneiros, que possui uma companhia sólida e é parceiro comercial da AOL-Time Warner, maior conglomerado de mídia do planeta.

Assim, se Lula tiver o mínimo de habilidade na condução da política econômica e o país não naufragar em uma crise aguda no primeiro ano de seu mandato, é possível que ele consiga pelo menos neutralizar as críticas que a imprensa burguesa certamente lhe faria se estivesse em melhores condições para tanto.

Por outro lado, abre-se todo um novo cenário para a chamada imprensa alternativa, que, espera-se, terá espaço e incentivo do novo governo para crescer. Não se está aqui defendendo a subvenção estatal dos pequenos jornais e revistas alternativos, mas um tratamento equânime da parte do governo em relação a toda a imprensa. Hoje, apenas os veículos de grande tiragem conseguem obter os recursos da propaganda oficial, criando um círculo vicioso onde só quem é grande recebe ajuda, permanecendo uma barreira para o crescimento dos pequenos.

Evidentemente, todos esses cenários dependem fundamentalmente da situação da economia. Se a crise se agravar muito, é possível que a imprensa saia desde o começo do mandato de Lula malhando o novo governo, a fim de desgastar o presidente e recolocar no poder os tradicionais aliados do baronato da mídia brasileira.

Luiz Antonio Magalhães é editor-assistente do Observatório da Imprensa (www.observatoriodaimprensa.com.br).”

 

ÁFRICA

“A insustentável complexidade da África”, copyright O Estado de S. Paulo, 12/01/03

“?A África é uma eterna permanência?, escreve Ryszard Kapuscinski no final de Ébano – Minha Vida na África (Companhia das Letras, 358 págs., R$ 37, tradução Tomasz Barcinski). Esse jornalista polonês sabe o que é permanência africana: passou 40 dos seus 70 anos viajando pelo continente, como correspondente da agência PAP e colaborador de revistas americanas e européias. Ébano, assim como seus outros livros, Imperium (sobre o desmoronamento da União Soviética) e Another Day of Life (coletânea de coberturas jornalísticas, inclusive na África), não faz parte da coleção de jornalismo literário que a editora brasileira inaugurou recentemente com Hiroshima, de John Hersey. Mas bem poderia estar. Não é de hoje que as reportagens e os livros de Kapuscinski são estudados nas faculdades de gabarito, como modelos de descrição objetiva sem ser anódina, de interpretação sensível sem ser sentimental.

Kapuscinski leva para seu livro tudo o que leu sobre a África e lá vivenciou, mas sua síntese é transmitida com impressionante agilidade narrativa. Sem cometer alguns pecados normalmente associados ao jornalismo literário – diálogos fabricados, abuso de efeitos, opiniões travestidas de informações -, faz, à maneira de Hersey ou de Gay Talese, o leitor sentir o ambiente, confiar na realidade das personagens, penetrar em momentos reveladores das mentalidades. Também não cai no erro de se deixar obcecar por seu tema; afinal, tendo sido correspondente também na Ásia e na América Latina, que se gaba de ter testemunhado 27 golpes de Estado, ele não mitifica a África. Pelo contrário. Toda a pobreza, o atraso e a crueldade da vida cotidiana em países como Ruanda, Sudão, Uganda, Nigéria e Somália são expostos como fraturas, sob um sol inclemente que parece paralisar as pessoas.

Há, claro, diferença fundamental entre dizer um lugar-comum, como o autor diz logo no início que ?o problema da África reside na contradição entre o homem e o seu ambiente, entre a imensidão territorial do continente e o homem que o habita – pobre, indefeso, descalço?, e mostrá-lo. Kapuscinski mostra, mais que qualquer estudo acadêmico, a complexidade dos problemas africanos. Em parte, porque cobriu muitas das principais guerras de independência, desde os anos 50; mas também porque, ao contrário da maioria das pessoas, não vê o destino trágico da África como produto exclusivo da colonização européia. Um dos casos mais expressivos que descreve é o de Uganda, cujas fronteiras recentes, artificialmente definidas pelos ocupadores europeus, não satisfaziam os quatro reinos que ali estão desde tempos imemoriais e, portanto, eles entraram em choque logo depois da independência em 1962, retomando a rotina de lutas.

Kapuscinski nota o absurdo da colonização que, no século 19, sob liderança de Bismarck, quis repartir a África em 40 possessões – tendo o continente nada menos que 10 mil reinos, subdivididos em tribos das mais diversas etnias, com um vasto histórico de conflitos internos. Já a descolonização, na segunda metade do século 20, não atendeu ao requisito primordial de preservar aquelas ancestrais diferenças. Voltou-se subitamente à desagregação medieval. Em outro dos melhores capítulos, A Anatomia de um Golpe de Estado, Kapuscinski relata o pós-guerra e a ascensão da tirania militar em 1966: ?A pobreza e o desencanto dos que estavam na parte de baixo da pirâmide social, aliados à ganância desmedida dos que estavam na parte de cima, criaram uma atmosfera de instabilidade e insatisfação que foi detectada pelas Forças Armadas.? Latino-americanos não têm problema em entender isso. O problema maior é que na África essa é uma rotina muito mais antiga e contínua, da qual a colonização foi apenas mais um e terrível capítulo.

A condição tribal da África, a confusão étnica e religiosa, é seu nervo sensível. Kapuscinski mostra a total incompatibilidade entre tutsis e hutus na Ruanda. Descreve um Sudão em guerra civil eterna. Mostra a absoluta ficção que é um país chamado Libéria. No meio do livro, parece desabafar:

?Estamos num mundo paranóico e obsessivo de preconceitos, aversões e hostilidades enraizados na África. Conceitos como racismo e chauvinismo não surgem apenas das grandes diferenças, como entre brancos e negros, por exemplo, mas também, e às vezes ainda mais nítidos, acirrados e inclementes, no meio de uma mesma raça, entre pessoas da mesma cor de pele.? E diz o que poucos querem ouvir: ?A maioria das mortes de negros no século 20 aconteceu pelas mãos de negros, e não de brancos.? Lá, o que qualifica um homem é apenas a tribo a que pertence.

Questões em evidência na imprensa mundial também surgem na narrativa, mas com ângulos um tanto diferentes. É o caso da própria atuação da mídia, que periodicamente destaca um país africano pela calamidade que vive – Biafra, depois Etiópia, depois Sudão, etc. -, seguida de shows de caridade e envios de alimentos. Mas a fonte do problema jamais é estancada. ?Muitas guerras na África são travadas em segredo, sem testemunhas, em lugares de difícil acesso, sem o conhecimento do resto do mundo ou, simplesmente, por ele ignoradas.? Se cada massacre e chacina ganhasse as páginas dos jornais, o estômago do planeta não suportaria. A atmosfera onipresente é a do medo, da brutalidade, da tensão – seitas conspirando à noite, milhares morrendo à luz do dia, roubos diuturnos. Não há educação, livros, direitos básicos; intelectuais de classe média tratam logo de se exilar na Europa ou nos EUA, caso contrário serão perseguidos e calados. A água é um bem escasso, precioso como ouro, mais valioso que a companhia de uma mulher digna. Outra questão é a ascensão do islamismo. Kapuscinski não trata especificamente dela; fica claro, porém, o que a crença na proteção de Alá pode implicar para a vida de um nômade africano.

Mas o livro não é um inventário de horrores. O olhar de Kapuscinski é também de compaixão, embora nunca seja de complacência. Há um intenso humanismo em cada uma de suas linhas. Pode ser criticado por às vezes tratar a África com um grau de generalização que suas próprias histórias negam. Não há continente com tanta diversidade e desigualdade. Mas Kapuscinski vê um traço comum no conceito de tempo – circular, indefinido, interior – e na espiritualidade que o sustenta, com seus ritos comunitários, com sua crença na magia e na presença constante dos antepassados. É esse mundo de costumes e dogmas que Kapuscinski descreve, para além de juízos. Seu relato vive como grande jornalismo.”

 

CHÁVEZ vs. MÍDIA

“Chávez ameaça mídia e setor alimentício”, copyright Folha de S. Paulo, 11/01/03

“O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, criticou ontem os empresários do país que apóiam a greve geral comandada pela oposição, desde 2 de dezembro, e fez ameaças aos donos de canais de TV e às empresas de alimentos.

Em um discurso em Cojedes (200 km a sudoeste de Caracas), transmitido em cadeia de rádio e TV, ele pediu às Forças Armadas que ?se preparem para tomar fábricas e depósitos de alimentos? paralisados pela greve, que vem provocando desabastecimento.

?Vão preparando planos para tomar militarmente as fábricas e depósitos de alimento. Também estou disposto a tomar ações para assegurar a distribuição dos alimentos?, disse Chávez. Anteriormente, ele já havia destacado os militares para retomar petroleiros controlados por grevistas e para operar refinarias paralisadas.

Ele acusou ainda as empresas de alimentos que seguem a greve geral de ?violentar a Constituição e as leis? e disse que os empresários são ?insensíveis?. ?Não se equivoquem com Hugo Chávez. Eu não permitirei que matem o povo venezuelano de fome?, disse.

?Tivemos que gastar bilhões de dólares em importação de alimentos. Por quê? Porque alguns empresários insensíveis deixaram de produzir farinha para pão e mantêm estocados arroz e milho?, afirmou.

O presidente da Câmara Venezuelana da Indústria de Alimentos, Rafael Alfonzo, criticou as ameaças de Chávez e disse que o desabastecimento é provocado pela ?falta de gasolina?, que prejudica a distribuição. Para ele, o presidente, com as ameaças, ?está complicando mais as coisas?.

Durante seu discurso, Chávez ameaçou ainda os donos de canais de TV. ?Ou cumprem a Constituição e as leis ou teremos que fazê-los cumprir… Não vamos continuar permitindo a propaganda de guerra?, disse.

Chávez acusa os grandes grupos de mídia de apoiar uma ?conspiração golpista? contra ele. Ontem, as principais empresas de comunicação do país anunciaram que apoiarão financeiramente a realização de um referendo sobre seu mandato no dia 2 de fevereiro. O governo é contra a consulta.

Chávez acusou nominalmente o empresário Gustavo Cisneros, um dos mais poderosos da América Latina, a quem chamou de ?golpista e fascista?. ?Ele já disse em algumas partes do mundo que não descansará até que Hugo Chávez esteja fora do poder ou morto. O senhor Cisneros está equivocado. Aqui não se trata de Hugo Chávez, se trata de um povo e de um país que se chama Venezuela?, disse. ?Nós, os revolucionários, não temos medo de nenhum oligarca, por mais dinheiro que possa ter.?

Ele citou especialmente os canais Venevisión, de Cisneros, Radio Caracas Televisión, Globovisión e Televén. ?Nós temos sido bastante tolerantes, mas não vamos continuar permitindo a propaganda de guerra que fazem esses quatro canais, os quatro cavaleiros do apocalipse?, disse.

Os meios de comunicação do país vêm apoiando a greve geral, convocada para forçar Chávez a aceitar um referendo sobre seu mandato, renunciar ou convocar eleições antecipadas.

Chávez, cujo mandato vence em janeiro de 2007, diz que não renunciará e que cumprirá a Constituição, que só permite a realização de uma consulta popular a partir de agosto, quando seu governo chega à metade.

Explosão

Uma granada explodiu na noite de anteontem na residência do embaixador argelino em Caracas, num ato que o governo chamou de ?conspiração contra as instituições? por parte da oposição.

A Argélia havia oferecido à Venezuela o envio de técnicos especializados em petróleo para ajudar a combater a greve geral, que afeta sensivelmente a indústria petroleira. Pedido de ajuda semelhante foi feito pelo presidente Chávez à Pretrobras.

A explosão da granada, no jardim da residência, provocou apenas danos materiais em um carro e feriu um cachorro. Segundo a polícia, ela teria sido atirada do lado de fora da casa. Ninguém se responsabilizou pelo atentado.

?Isso é parte da conspiração contra nossas instituições. Essa é a face golpista da oposição venezuelana?, afirmou o chanceler venezuelano, Roy Chaderton.

A explosão ocorreu após várias ameaças de bomba em embaixadas em Caracas. As sedes das representações de Alemanha, Canadá e Austrália foram esvaziadas anteontem após as ameaças.”

***

“Chávez ameaça revogar concessões privadas de rádio e de televisão”, copyright Folha de S. Paulo, 13/01/03

“O presidente venezuelano Hugo Chávez determinou ontem que as concessões de rádio e TV privadas sejam revistas. O presidente acusa os meios de comunicação de apoiar a greve geral ?subversiva e fascista? contra seu governo que paralisa o país há 43 dias.

?Ordenei uma revisão de todo o procedimento jurídico?, disse Chávez em seu programa ?Alô, presidente?, no qual voltou a afirmar que os meios de comunicação privados do país s&atatilde;o ?golpistas e fascistas?. ?Se eles insistirem em usar as concessões para fazer propaganda de guerra, eu serei obrigado a revogar as concessões?, ameaçou.

?Mentiroso?

Desde o início da greve, no dia 2 de dezembro, os quatro grandes canais de TV privados apóiam abertamente a paralisação. A cada intervalo comercial, transmitem propagandas do grupo opositor Coordenadoria Democrática (CD) acusando Chávez de ?mentiroso?, ?assassino? e ?fracassado? e pedindo a antecipação das eleições.

Opositores de Chávez fizeram ontem uma manifestação na região do QG militar de Caracas, retornando ao local onde, duas semanas atrás, choques entre manifestantes e militares deixaram dois mortos e dezenas de feridos.

Dezenas de soldados bloquearam a entrada do parque Los Próceres, nas cercanias do forte Tiuna. Quando os manifestantes tentaram passar, os militares responderam com bombas de gás lacrimogêneo e balas de borracha. Um fotógrafo ficou ferido.”

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