Sábado, 24 de Agosto de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1051
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Luiz Carlos Merten

Por lgarcia em 25/07/2001 na edição 131

JORNAL HOJE

"O telejornal do almoço, que pretende
ser mais informal, insiste no show de variedades

Jornalismo? Não, show de variedades. Há tempos que os teóricos de comunicação e analistas políticos alertam para uma tendência das grandes redes de televisão. Não é um fenômeno brasileiro, mas mundial. O telejornalismo está ficando cada vez mais superficial. Baseado na imagem, é diferente do jornalismo impresso, que pode ser mais dissertativo. Na TV, o interesse por novidade esgota-se rapidamente, o telejornal vale pela primeira página.

A Globo resolveu mudar o Hoje. O novo formato começou a ir ao ar esta semana. Deve melhorar, com o tempo. E, se não melhorar, pelo menos vai ficar mais fluente, os apresentadores Carlos Nascimento e Carla Vilhena terão de mostrar mais entrosamento, senão a coisa não vai emplacar. A Globo vai mudar um, os dois ou mudar o formato.

A primeira mudança, que salta aos olhos, é que o Hoje migrou do estúdio para a redação. O próprio Nascimento, jornalista respeitado, propôs a reformulação do programa. Por achar que o Hoje estava muito engessado num formato que já se esgotara, ele chegou para o diretor de Jornalismo de São Paulo, Amauri Soares, propondo um programa mais informal, baseado na reportagem de autor. Soares deu ao Hoje sua nova versão, prevendo um jornal mais humanizado, com conversa entre os âncoras e o repórter.

Parece interessante, e é, mas os primeiros dias estão sendo permeados por dificuldades. Nascimento e Carla ainda não entraram no mesmo ritmo, a conversa entre eles não flui, permanece formal, com frases um tanto banais para fazer a ligação dos assuntos ou esboçar comentários que não chegam a ser (nem pretendem ser) opinativos como os de Boris Casoy, por exemplo. Talvez seja uma questão de treino. Os dois precisam de certo tempo para colocar-se à vontade, embora, no passado, já tenham apresentado juntos o Jornal Nacional.

E existem, talvez mais graves, os problemas de edição do próprio jornal. Não faz muito tempo, para enfrentar uma inesperada queda de audiência, o Jornal Nacional, também da Globo, virou um show de variedades, entremeando notícias superficiais de economia e política com curiosidades médicas e bichinhos a todo momento. O Hoje, até pelo horário, é um jornal diferente, no gerúndio, como diz Nascimento. É feito no meio do dia, quando os fatos ainda estão ocorrendo.

Veja-se o programa de quarta. Uma reportagem sobre o pé do brasileiro, que está crescendo, e as dificuldades daí decorrentes. Você não pode imaginar como é difícil comprar sapato para quem tem pé grande. Como jornal se faz com personagens, acompanhamos a pobre moça que correu meia dúzia de lojas até achar a bota que queria. Irrelevante, mas, enfim, a direção de Jornalismo da Globo escora-se em pesquisas para dizer que é disso que o povo gosta. Seguiu-se uma reportagem sobre o juiz Lalau e a impunidade dos corruptos no caso do TRT de São Paulo. E outra sobre a instabilidade política no Oriente Médio. Tudo muito variado e superficial. Notícia é espetáculo, telejornal é variedades, também. O Hoje mudou para ficar mais informal. Na verdade, continua o mesmo. E talvez tenha ficado um pouco pior."

ESPETÁCULO DA DOR

"Socorrismo e espetáculo",
copyright Folha de S. Paulo, 22/7/01

"A REDE Globo ganhou recentemente um prêmio internacional de televisão. A relação com a comunidade foi um dos aspectos destacados. A própria emissora, reportando o prêmio, apontava os casos de sua vertente comunitária: o tema das crianças desaparecidas, numa novela; doença transmissível, em outra; a homossexualidade numa terceira. A mesma emissora tem outro programa ?comunitário?, ?Desafio?, apresentado em seus noticiários e que põe em competição duas cidades para ver, por exemplo, qual limpa mais depressa uma praça pública. Enquanto isso, num canal religioso, uma telespectadora fala, sofrida, do vazio que sente na vida e da dificuldade de enfrentar a rotina diária. Não recebe resposta. O apresentador-pregador está ali para mostrar que é procurado, não para dar respostas. E domingo passado, a mais prestigiosa rua comercial dos Jardins, em São Paulo, é em parte fechada ao trânsito para que a mesma emissora vencedora do prêmio grave cenas de uma nova série. No fim de tarde, o ambiente é de cidade civilizada. Quatro situações distintas: novela com ?tema social?; notícia de limpeza pública transformada em competição ou vice-versa; confessionário existencial; desfrute temporário do espaço público. Situações distintas pela natureza (umas são de representação, como na novela e na competição; outra é de presentação efetiva, na rua) e no tom do contato (na novela, o clima é ?sério?; na competição de limpeza, o repórter parece narrar jogo de futebol, aos berros; no ?confessionário?, impera uma angústia que a pobreza intelectual do ?programa? não oculta; na rua, a experiência de socialidade é quase zen). E da maioria dessas ações se pode dizer que são intencionais e buscam efeitos determinados -entre eles, a autopromoção- enquanto a última, o domingo na rua, gera um cenário não planejado mas provocado pela televisão: se um circo quisesse cancelar temporariamente a realidade das ruas para fazer seu espetáculo, talvez não o conseguisse. O direito da televisão, este, parece natural… Digo isto não como crítica mas como constatação de uma sensibilidade cultural atual. Todas elas, no entanto, têm o mesmo epicentro: a TV. E todas caracterizam o que poderia ser identificado como ação sociocultural se por vezes não passasse de mero socorrismo e, em outras ocasiões, de puro espetáculo. É possível discutir a sinceridade dos motivos por trás disso. Há uma tendência, armada sobre hábitos de pensar endurecidos, para considerar que o interesse pelos assuntos comunitários por parte das grandes empresas é, antes, a busca por limpar ou dourar o próprio nome. Isso não impede que agências de publicidade abram departamentos de relação com a comunidade para orientar os clientes que ainda não despertaram para esse segmento de sua inserção social. E mesmo instituições que atuam apenas nesse terreno, como universidades e museus, vêem-se obrigadas a dedicar parte de sua atenção a uma atuação comunitária ainda mais ?social?: oferecer arte e cultura parece não bastar. Tudo isso pode ser visto como considerável mudança no comportamento geral (dos mais poderosos atores econômicos, em particular) quando se toma como referência a situação social ao final do século 19. Mas o simples socorrismo, ou o banal espetáculo, não pode ser tomado por ação sociocultural assim como a prática daqueles não impede que esta se concretize. O que vale destacar é o papel cada vez mais intenso que a televisão representa na construção da comunidade. A perda da função social de instituições como os partidos políticos, a igreja, a própria escola -perda não só exacerbada como provocada pela televisão em sua luta pela hegemonia da comunicação com todos os setores da sociedade- abriu um espaço imenso para a presença da TV nesse domínio e aponta para aquela que poderia ser uma de suas atuações mais relevantes numa sociedade de massas. Se é assim, a questão central não é tanto a sinceridade dos motivos para essa ação, mas uma outra que se constrói ao redor do direito de acesso da própria comunidade ao uso da TV para assim obter seus próprios fins comunitários: a construção de si mesma, como melhor entender. Um questão difícil: quem é a comunidade, afinal? Quem a representa? Uma dada religião? Uma universidade? Uma associação de bairro? A televisão pública é comunitária? A resposta, incerta, não é impossível: a questão é que é pouco enfrentada. Enquanto isso, a comunidade é antes uma comunidade destinatária, que recebe uma ação (neste caso, ação mais de socorrismo que sociocultural), e portanto uma comunidade-simulacro, do que uma comunidade que se faz a si mesma. De todo modo, a tendência é clara: a comunidade é cada vez mais objeto da televisão e pode fazer da televisão um instrumento de autoconstrução desde que tenha acesso direto ao veículo. Sem uma legislação básica, porém, o processo -passível de aceleração pela internet- pode ser no mínimo retardado. E, no limite, distorcido."

TV MATINAL

"Na TV há poucos programas educativos,
e a maioria vai ao ar antes das 6h; lei tem conceitos vagos e canais
agem como bem entendem

QUER QUE seus filhos assistam a algo educativo na televisão? Então coloque o despertador para tocar por volta das 5h -sábado e domingo. É nesse horário que é exibido o que consta da programação das emissoras de TV aberta como ?programa educativo?. Mas, a não ser que seus filhos sejam professores do ensino médio ou se interessem por discussões pedagógicas, você terá uma decepção. Esses programas ditos educativos são, na verdade, a mesma atração: ?Um Salto para o Futuro?, produção do Ministério da Educação voltada para professores.

Com algumas exceções -como os ?Telecursos? e atrações como ?Globo Ciência? e ?Globo Ecologia?, exibidas no começo das manhãs pela Globo- isso é tudo o que há na TV aberta comercial com a indicação de programa educativo.

Mesmo assim, tecnicamente, nenhum dos canais está descumprindo a Constituição, que no artigo 221 determina que as emissoras de TV dêem ?preferência a finalidades educativas (…)?.

?A TV comercial não tem nenhuma legislação que a obrigue a cumprir a Constituição?, afirma o sociólogo e jornalista Laurindo Leal Filho, presidente da TVer, ONG que analisa o conteúdo da televisão brasileira. De fato, não há lei que determine o que é um programa educativo, nem que regulamente a inclusão dessas atrações na programação das emissoras.
?Alguém pode argumentar que o programa da Xuxa tem conteúdo educativo. Sob um certo ponto de vista, pode até ser verdade. Ser educativo é um conceito muito amplo, que nenhuma legislação consegue especificar?, diz o jornalista Geraldinho Vieira, que dirige a Agência de Notícias dos Direitos da Infância.

E é nessa amplitude que as emissoras podem se apoiar para explicar de que maneira o conteúdo de sua programação segue as normas instituídas pela Constituição. A Globo, por exemplo, segundo Luís Erlanger, diretor da Central Globo de Comunicação, procura ?contextualizar todos os programas em um tripé de valores: entretenimento, informação e educação. Mesmo dentro de obras de ficção, como as telenovelas, esta preocupação se faz presente?.

Atualmente, é o decreto-lei 236, de 1967, que regulamenta as telecomunicações no Brasil. No artigo 16, o decreto menciona a obrigatoriedade de transmissão de atrações educativas pelas emissoras e determina que os programas ?deverão ser transmitidos em horários compreendidos entre 7h e 17h?.

Mas um convênio entre o MEC e a Abert (Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão), assinado em 1991, de certa forma amenizou essa obrigatoriedade. Pelo convênio, renovado a cada dois anos, ?as emissoras de televisão divulgarão um programa com duração de 20 minutos aos sábados ou domingos, entre seis e 22 horas? -o tal programa educativo que aparece na programação dos canais abertos, produzido pela TV Escola, do MEC.

Mas o programa não é para crianças -no último domingo, foi exibido um debate com pedagogos sobre a alimentação escolar- nem vai ao ar no horário determinado. As emissoras costumam exibi-lo, geralmente, entre 5h e 6h.

Nem o projeto da nova lei de radiodifusão, que foi anunciado pelo ministro das Comunicações, Pimenta da Veiga, e está em processo de consulta pública, deixa mais clara essa questão. Segundo o artigo 88 do projeto, as emissoras deverão ?transmitir percentual mínimo de programas educativos e informativos dirigidos à criança, entre as sete e as 22 horas (…)? e deverão ?dispor de pedagogos e psicólogos para avaliação de seus programas educativos?; mas não há especificação do conteúdo desses programas.

No Senado e na Câmara tramitam projetos de lei sobre o assunto, mas que também não trazem uma definição clara do que é educativo.

O do Senado, que está sendo avaliado pela Comissão de Educação, diz que a veiculação de programação educativa deve atender ?em todos os aspectos, às necessidades educacionais e informativas da criança?. Para justificar o projeto, o autor, o senador Pedro Simon (PMDB-RS), cita como exemplo de programa educativo bem-sucedido o ?Vila Sésamo?, exibido no Brasil nos anos 70.

Na Câmara, o projeto, do deputado Givaldo Carimbão (PSB-AL) visa alterar o artigo 16 do decreto-lei 236, determinando que as emissoras reservem, diariamente, ?espaço não inferior a 30 minutos para veiculação de programas educacionais?.

Para Vânia Carneiro, professora da Faculdade de Educação da Universidade de Brasília e pesquisadora na área de TV e educação, a definição de um tempo mínimo obrigatório para transmissão desses programas é fundamental. ?Isso existe nos EUA e só melhorou o nível da programação infantil de lá.?

?Mas é preciso redefinir o que é educativo. Este conceito ainda está muito restrito ao conceito de ?teleaula?, e isso é incompatível com o principal objetivo das emissoras comerciais, a audiência?, diz. ?É preciso fazer programas que estejam ligados às necessidades do mundo da criança, que contribuam para que ela aprenda a lidar com questões tão diversas como a morte e fazer xixi na cama. ?Castelo Rá-Tim-Bum? e ?Sítio do Pica-Pau Amarelo? são exemplos disso.?

Procurados durante uma semana pela Folha, os diretores de programação da Record e do SBT, que com a Globo são as emissoras de maior audiência, não se pronunciaram sobre o assunto."

    
    
                     

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