Quarta-feira, 19 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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PRIMEIRAS EDIçõES > SÍTIO DO PICAPAU AMARELO

Luiz Caversan

Por lgarcia em 17/10/2001 na edição 143

SÍTIO DO PICAPAU AMARELO

"Goiabada de banana", copyright Folha de S. Paulo, 14/10/01

"Na última sexta-feira, muito apropriadamente um Dia da Criança, retornou ao vídeo o ?Sítio do Pica-Pau Amarelo?. Motivo de comemoração, mas também de uma certa tristeza: ao contrário das versões elaboradas anteriormente para as histórias concebidas por Monteiro Lobato, o novo ?Sítio? não será propriamente um programa em si, mas apenas um quadro de um quarto de hora nas manhãs televisivas.

O importante, no entanto, é que tenha voltado e que se possa, aqui, refletir um pouco sobre a relação criança/televisão e a importância de José Bento Monteiro Lobato (1882-1948), tanto para essa relação (por intermédio de suas obras adaptadas) quanto para a formação de mais de uma geração de brasileiros, que usaram e abusaram do direito de fantasiar a partir das possibilidades fantásticas oferecidas pelo escritor.

Isso desde muito antes, diga-se, de a TV vir a ser uma realidade, já que a primeira versão do livro ?A Menina do Narizinho Arrebitado?, editada pelo próprio Lobato, um dos pioneiros da editoração nacional, é de 1921.

Para muitos, esse verdadeiro relacionamento com tudo aquilo que saía da mente fértil de Lobato dedicado aos jovens leitores se fortaleceu com a popularização da televisão no Brasil, e isso não é propriamente um paradoxo, embora possa parecer. Afinal, quanta gente terá sido estimulada a conhecer o universo lobatiano pela primeira versão do ?Sítio?, que foi ao ar pela extinta TV Tupi desde o início da década de 50 ao começo da de 60?

Muita, inclusive eu.

Foi a partir das peripécias improvisadas (ao vivo!) pela ?Emília? Lúcia Lambertini que veio o carinho por aquele mundo de ilusões, ampliado pelo livro ?A Reforma da Natureza?, lido, relido, mais que lido durante infância, adolescência e alguns anos atrás.

Uma maravilha, sem dúvida, todas as maluquices concebidas por Emília/Lobato. Divertidíssimas: da leiteira que apitava para avisar que o leite estava fervendo, evitando assim que o líquido transbordasse (artefato que, aliás, veio a ser ?inventado? muitos anos depois) à criação da noventaenovepéia, ou seja, a centopéia com uma perna a menos, por arte da boneca de pano de tantas e tão variadas traquinagens.

Numa passagem do livro, Emília fica inconformada com o fato de uma árvore forte e frondosa como a jabuticabeira produzir uma fruta tão pequenina, enquanto o frágil pé de melancia, com seu caule e folhas delicados, era obrigado a sustentar a fruta gigantesca. Mas bastou uma jabuticaba cair sobre sua cabeça para ela mudar rapidinho de idéia de fazer mais aquela reforma na ordem natural das coisas e trocar as frutas de árvore.

O mais delicioso das histórias em livro -assim como todas as histórias em livros- era poder ficar imaginando todas aquelas impossibilidades reais acontecendo nas fronteiras do sítio concebido por Lobato. Nas narrativas de Dona Benta, nas invencionices de Emília ou no dia-a-dia de qualquer um daqueles personagens, o céu era o limite, tudo era possível, tudo podia acontecer.

E acontecia mesmo na cabeça da criançada de uma época que parece estar a anos-luz dos avanços tecnológicos de hoje, quando se caminha para o teletransporte e se pode chegar, enfim, à fórmula do pó de pirlimpimpim, aquele que fazia com que seu portador fosse para onde quisesse imediatamente.

Como a antiga Grécia, por exemplo, para onde toda a turma do sítio se desloca para viver intensamente a história de ?O Minotauro?.

O primeiro ?Sítio? é uma grata e carinhosa lembrança. Lidava-se com a fantasia de maneira consciente, uma vez que a precariedade de condições com que o programa era produzido não deixava dúvidas de que se tratava de um estúdio, de que a perna única do Saci era possibilitada por uma meia, de que o Visconde não era, claro, feito de sabugo de milho, mas sim um ator fantasiado.

Isso tudo não diminuía o encanto, e a explicação está na força da narrativa ficcional em que se baseava a série de programas.

Seria ocioso ficar aqui relacionando exemplos da criatividade e do talento de Monteiro Lobato.

A intenção, de fato, não é essa, mas sim aproveitar o ensejo do retorno do ?Sítio? à TV, devidamente reformulado e atualizado, o que em princípio não é problema nenhum, a não ser que haja excesso de ?tempero?.

O que vale mesmo é o retorno de todo um arcabouço estético e ficcional brasileiro, com personagens ligados ao folclore nacional vivenciando situações direta ou indiretamente atreladas à nossa realidade e em cenários nos quais qualquer um poderá se situar.

Frente aos pokémons e dragões cuspidores de fogo, não deixa de ser um alento. Longa vida a Pedrinho, Narizinho, Emília, Quindin, Rabicó, Tia Anastácia…"

"Novo ?Sítio? é fiel à obra de Lobato", copyright Jornal do Brasil, 14/10/01

"Assisti ao primeiro capítulo da nova versão de Sítio do Picapau Amarelo cheio dos preconceitos de quem leu Monteiro Lobato nas primeiras edições da Cia. Editora Nacional e curtiu a primeira e respeitosa versão para TV de Tatiana Belinki, nos anos 50. Mas me confesso encantado por essa nova e não menos reverente produção da Globo. Dona Benta pilotando computador e recebendo e-mails da filha Tonica, avisando da vinda de Pedrinho ao Sítio, teria certamente o aval do velho José Bento – ele mesmo admirador ferrenho dos progressos tecnológicos, na época simbolizados pelos EUA, com automóveis Ford e fogões a gás.

Dediquei dez anos de pesquisa à obra infantil de Lobato e já propus que ele influenciou positivamente gerações de brasileiros que hoje têm de 50 a 70 anos e ocupam – ou ocuparam – posições de liderança na sociedade. Mas isso ocorreu na narrativa literária, não na TV. Os livros é que eram repletos das idéias do autor, idéias então revolucionárias sobre política, economia, história e temas tão atuais como a constituição da família (a boneca Emília era divorciada) e a igualdade da mulher (o Sítio é um matriarcado sob a direção da erudita e competente Dona Benta). Não acredito que um programa de TV, voltado ao entretenimento e à manutenção de índices elevados de audiência, seja o veículo ideal para resgatar o ideário de Lobato, nem na versão anterior, nem nesta. Ele continua lá, nos seus livros.

Mas, além de ter sido um dos maiores autores infantis de todos os tempos (se não o maior), pela extensão (4.500 páginas) e qualidade da obra, Lobato é, também, uma versão verde-e-amarela de Walt Disney – a quem admirava -, criador de um elenco maravilhoso de personagens, como o Visconde de Sabugosa, Quindim (o rinoceronte, ausente deste primeiro episódio) e Emília – a quem a escritora Zora Seljan qualifica como um dos maiores personagens da literatura universal. Como Mickey, Donald e Pateta, a turma do Sítio caiu no gosto e no domínio público, adquiriu vida própria e certamente continuará a encantar os netos e bisnetos de Lobato, pela TV, como enredo de escolas de samba ou de parques temáticos.

Livros – A modernização do Picapau Amarelo é tão inevitável quanto bem-vinda. O próprio Lobato não hesitou em fazer de Pinóquio, de Dom Quixote e de Peter Pan personagens de suas aventuras. Mas apesar do afã pela estréia de um novo programa de TV, os livros de Lobato estão ausentes das livrarias, em virtude de pendengas entre seus herdeiros e a editora Brasiliense. Esperemos que isso se resolva, para que – a par da diversão proporcionada pelos seus heróis e heroínas – não nos falte a referência viva da obra literária, certamente um dos melhores momentos de afirmação da identidade brasileira: coisa pela qual sempre batalhou Lobato em tudo que viveu e escreveu. (J. Roberto Whitaker Penteado é pedagogo e autor do livro Os filhos de Lobato – O imaginário infantil na ideologia do adulto)"

"Monteiro Lobato e seus meninos órfãos", copyright Jornal do Brasil, 12/10/01

"A partir das 11h30 de hoje, a TV Globo põe no ar um novo Sítio do Picapau Amarelo, apostando na reedição do sucesso da versão anterior, que saiu do ar em 1986, após nove anos, deixando órfãos milhares de crianças. O programa, inspirado nos livros de Monteiro Lobato, estréia na última parte do espaço infantil da programação da Rede Globo chamado Bambuluá, hoje com baixo índice de audiência, e abre a trama de O reino das Águas Claras, depois da apresentação de seus personagens.

Segundo a Rede Globo, o programa foi pensado ?para todas as idades??. Mas, por mais que a intenção seja conquistar os antigos espectadores, hoje adultos, é claro que o público infantil é o alvo da emissora. E é esse público que tem frustrado as expectativas da emissora quanto aos índices de audiência. A julgar pelos anúncios na Globo, o programa aposta na mistura de novidades com marcas já registradas do Sítio. Entre as novidades, uma Emília agora interpretada por uma criança e uma Dona Benta que tem internet em casa. Da antiga versão, são aproveitados a arte no título e os célebres temas musicais. A pergunta é: o novo Sítio vai conseguir sobreviver ao mito do antigo?

Remakes – As diferenças entre as versões sugerem que Lobato talvez não esteja recebendo a pompa que a circunstância exige. Apesar de toda a campanha e dos 150 produtos de merchandising lançados com a marca, existe o risco de a nova versão não ter um resultado muito diferente do de outros remakes da Globo, como A grande família, que, inspirado no sucesso de Oduvaldo Vianna Filho nos anos 70, ainda não conquistou o público.

Criado por Geraldo Casé, hoje diretor da área internacional da Globo, mas na época diretor da TV Educativa, o velho Sítio estreou em 7 de março de 1977. Casé formulou o projeto com o amigo José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, da Globo. A TVE ofereceu a infra-estrutura; a Globo, o elenco. Era exibido às 17h25, independentemente do resto da programação infantil do canal, com a reprise dos capítulos às 9h da manhã posterior. Na verdade, o programa já era uma nova versão. A primeira, semanal e ao vivo, foi criada por Tatiana Belinky em 1952, na TV Tupi, e foi exibida por 13 anos.

Duração – O novo Sítio vai ser exibido de segunda a sexta-feira, em episódios diários de 15 minutos cada, que podem ser, segundo a emissora, ampliados para até 25 minutos. A princípio, os 15 minutos serão ininterruptos, sem comerciais, mas isso pode ser revisto. As histórias vão durar uma semana. na versão anterior, elas funcionavam como mininovela, contando com episódios diários de 30 minutos que arrastavam tramas de até um mês de duração.

Segundo o diretor da Central Globo de Comunicação, Luis Erlanger, o formato do Sítio obedeceu ao critério de alocar a programação infantil da emissora no ?guarda-chuva?? que é o Bambuluá. Ele diz que a curta duração dos episódios não significa descuido para com o programa. ?A direção achou que esse seria o melhor formato. Será uma das principais atrações do Bambuluá??, acredita. André Valle, que há quase 20 anos é parado na rua por pessoas que reconhecem nele o Visconde de Sabugosa da versão anterior, está curioso para ver o programa. Para ele, os personagens de Lobato são muito fortes. ?Eles sobrevivem à passagem do tempo, a qualquer coisa?. Em breve saberemos se o sábio sabugo de milho está mais uma vez certo ou não."

    
    

                     

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