Sexta-feira, 18 de Agosto de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº954

PRIMEIRAS EDIçõES > AINDA O ROCK IN RIO

Luiz Caversan

Por lgarcia em 31/01/2001 na edição 106

QUALIDADE NA TV

AINDA O ROCK IN RIO

"Carlinhos Brown, o mico e a globalização", copyright Pensata (www.folha.com.br/pensata), 20/01/01

"O percussionista baiano Carlinhos Brown é um excelente músico e um péssimo artista.

Que é um grande músico ele já provou em diversas oportunidades: shows aqui e no exterior, dois discos solos, vários outros com sua Timbalada, que anima e enlouquece o Carnaval da Bahia.

Que é um artista equivocado demostrou em sua participação no Rock in Rio.

Afinal, o artista, além de ir aonde o povo está, como diz a letra do não por acaso mineiro Milton Nascimento, ele também deve conseguir se comunicar com seus interlocutores, transmitir sua mensagem, seja ela qual for, ser aceito ou não, mas necessariamente ouvido, apreciado.

Brown não conseguiu nada disso em seu show e pagou o mico: foi vaiado, agredido e provocou a ira da platéia com um discurso moralista e careta, coisa de pai antigo para filho rebelde. Confundiu empatia com nacionalismo (cantou trechos do Hino Nacional enquanto era vaiado, como se ele fosse o único brasileiro ali, e o resto, um bando de zumbis dominados pelo imperialismo) e se deu mal.

Brown pisou na bola não apenas no palco. Falou besteira depois de sua tentativa de show. Disse que aquilo não aconteceria na Bahia e que aquela garotada não quis ouvi-lo porque era mal-educada, ‘criada com toddy’. Uma mentira e um grande preconceito.

A mentira: quando lançou seu primeiro disco, anos atrás, em um show ao ar livre em Salvador, Carlinhos Brown cantou sob vaias e protestos porque o povão não queria saber de canções ‘cabeça’, como são algumas do CD ‘Alfagamabetizado’. Eu vi e ouvi: os baianos, muito na deles, exigiam a animação da Timbalada, seus tambores, seu Carnaval. Brown, muito convenientemente, esqueceu isso.

O preconceito: creditar a não aceitação de seu trabalho à condição social dos ouvintes é uma vergonha para um artista negro e de origem humilde.

Comportou-se como os racistas e/ou preconceituosos que torcem o nariz para seu trabalho e sua figura original.

Justo ele, que poderia ser um símbolo da capacidade da cultura autóctone, original, criativa e universal se impor diante da hegemonia da globalização. Aliás, Brown deu um ótimo exemplo negativo. Mostrou que não se impõe nada no grito, ao contrário do que pensam alguns detratores do processo inevitável de globalização, aqueles que acham que tudo que é original e autêntico vai desaparecer, pisoteado pela inexorável marcha das culturas dominantes.

Mesmo que isso fosse possível, a melhor maneira de se contrapor a essa força seria ocupando adequadamente todos os espaços que pudessem servir a uma causa preservacionista e que garantam o respeito das culturas predominantes (norte-americana, européia e branca) ao que se produz na periferia do mundo. Como? Fazendo parte da globalização, utilizando seus meios e instrumentos, jogando, ainda que em desvantagem, o jogo político que está em curso e do qual não se pode escapar, principalmente quando se pensa em arte e cultura. Cantar, tocar e conquistar a platéia do Rock in Rio, por exemplo, teria sido uma excelente demonstração de força cultural."

"A volta dos mortos vivos", copyright no. (www.no.com.br), 23/01/01

"Como todo mundo sabe, sofri um pequeno acidente e fui parar no hospital. Mas não comento o assunto. Não falo sobre a minha vida pessoal. Especialmente sobre a minha vida hospitalar. Só digo que agora virei ermitão. Fico em casa jogando games, comendo potes e mais potes de coisas light e assistindo TV. Vivo dias de coitadinho diante do circo de horrores da telinha. E é claro que estou falando do Rock in Rio. E da volta dos anos 80. Sim, porque o ‘período oitentista’ – como já estão falando por aí uns sujeitos meio, digamos, parnasianos – agora está em todas. É ‘Roque Santeiro’ passando de novo na Globo e as peruas voltando a usar penteado em formato de capacete. Tudo bem. Normal. Tudo o que vai volta. Mas o Rock in Rio foi a celebração da década de oitenta, para o lado ruim.

Para começar, odeio festivais como esse. Não fui ao primeiro, ao segundo, ao terceiro e muito provavelmente não irei aos próximos. Tem uma pá de coisas inaceitáveis que acontecem nesses eventos. O Guns’n Roses ser a estrela principal foi de matar. O Axl Rose é um engano. O cara estava lá drogado, prostituído e largadão na mansão dele em Los Angeles. Ninguém lembrava mais dele e de sua cara de foca. Aí vem um empresário brasileiro, totalmente desavisado, e oferece uma grana e milhões de toalhas para o sujeito vir gritar na nossa orelha. Que ridículo. E nesse dia quase lincharam o Carlinhos Brown. Eu achei muito engraçado, claro. Mas o Brown teve sua vingança: o show do Guns’n Roses. Os caras tocaram Tim Maia e no final ainda enfiaram uma escola de samba na parada. Muito tosco. Como se não bastasse, no dia do Metal, colocaram o Iron Maiden para fechar a noite. O típico caso da compulsão nacional de beijar as mãos das atrações internacionais. Vá lá se fosse o Rob Halford, que mostrou a verdadeira força do Metal. Por isso é que eu digo: brasileiro é paga-pau de gringo. O Sepultura é que deveria encerrar a noite. E os caras mandaram muito bem. Lá fora eles seriam a consagração do dia. É o Rock in Rio por um mundo melhor. Para os Medina, claro.

No meio desse desfile de gringos bregas, promovido pelo idiota responsável pela programação, lá estava os anos 80. Tudo bem. Mas aí a gente vai ver os ícones da década escolhidos para tocar. E aparece o Sylvinho Blau Blau. E o Capital Inicial. O que me faz pensar seriamente que essa década deveria ser proscrita dos livros de História, do almanaque Abril, das rádios. A bem da verdade, foi um período que já começou de um jeito meio traumático mesmo, com aquele festival de MPB que passou na Globo. Quantas crianças não tiveram a mente desvirtuada pelas apresentações de Oswaldo Montenegro, Jessé, Amelinha, Eduardo Dusek e Trio Los Angeles etc. É por isso que, quando vejo o Sylvinho Blau Blau no Rock in Rio faço o sinal da cruz e temo que todas essas coisas voltem para arrastar correntes no meu castelo.

Com tanta porcaria tocando nos nossos ouvidos, os anos 80 acabaram criando algumas coisas legais. Afinal de contas, uma hora as pessoas se revoltam. Não é à tôa, por exemplo, que o movimento punk começou no Brasil nessa época. Em 1982, aconteceu ‘O começo do fim do mundo’, o primeiro festival de banda punk do país. Foi no Sesc Pompéia. Vinte bandas, a maior baixaria, um monte de moleques em cana. Aquilo chocou a população. Era no pós ditadura, a polícia dando coro em todo mundo e os certinhos espantados com o movimento. Um pouco depois desse show eu entrei no Ratos. Isso foi em junho de 83. Os anos 80 também serviram para dividir o rock em tendências. Mas, apesar de tudo, as pessoas eram mais liberais, se misturavam mais. Os anos 90 trouxeram mais radicalismo, todo mundo se fechou na sua própria tribo. Pintou uma pá de coisa meio intolerante desde o black metal até os skinheads.

Como pude ver pela televisão, o Rock in Rio escolheu os piores defuntos dos anos 80 para exumar. Mas tem gente por aí indo nos túmulos certos. Algumas bandas americanas estão fazendo revival legais da década. Os caras se intitulam ‘bandana trash’ e adotam aquele visual da época. Calça ou bermuda jeans, tênis de skate, camisa xadrez, bandana e boné. Está virando meio modinha esse negócio de cross over, um estilo de som que mistura punk, hardcore e metal.

Mas se nessa síndrome de ‘vale a pena ver de novo’ rolar a volta do comportamento ointentóide, aí vai ser divertido. Nos 80 rolou uma coisa meio boate, cocaína, pra frentex. As pessoas se achavam modernérrimas usando ombreira, polaina e gel. E cheirando pó. Nessa época cheguei a trabalhar na primeira boate new wave de São Paulo chamada Napalm. Ficava no centrão da cidade. Eu trabalhava no bar, como garçon, e na portaria. Mas o que mais marcou a década foi o Madame Satã, o lugar mais louco do mundo. Deve ter até fantasma lá. Imagine 500 pessoas loucas de ácido lá dentro naqueles sábados de 1984? Lembro de uma mulher pelada horrenda e gordona que ficava comendo repolho; da Cláudia Wonder, um traveco, fazendo performance dentro de banheira de groselha. Tinha nego tocando fogo em bíblia. A parada era surreal. Era uma mistureba, um monte de nego gótico, um monte de bicha, várias tribos misturadas. Tudo dentro do Satã. Lá fora uma guerra, porque liberalismo tem limite.

No campo dos costumes, os anos 80 foi a época do exagero. É só dar uma olhada na novela Roque Santeiro. Tem umas maquiagens meio brilhantes. As mina ficavam com cara de velório, com aquela boca branca. Até a Patrícia Pillar está com cara de defunto na novela. E aquele pessoal que usava blazer? De ombreira e com a manga dobrada? E os cabelos em forma de capacete, como aquele do Paulo Ricardo, do RPM? E as neuras coletivas? Na época havia a paranóia nuclear. Todo mundo com medo de alguma bomba atômica explodir. Aí veio o filme ‘O dia seguinte’ e chocou a galera. Isso mudou. Todo mundo agora esqueceu das bombas atômicas, ninguém fala mais dela. Qualquer dia desses alguém abre uma ONG para tirar as ogivas do esquecimento. Mas acho que a paranóia agora no terceiro milênio tem que ser a de evitar a volta da turma dos 80, com exceção da Lídia Brondi – que era uma delícia. Já pensou o Rádio Taxi tocando de novo? A volta do Metrô? O retorno do Biafra? O Ritchie compondo novos sucessos? Não é nem bom falar no nome deles. O pessoal do Rock in Rio pode escutar."

"Um injusto anticlímax", copyright no. (www.no.com.br), 22/01/01

"Como se sabe, se depender do empresário Roberto Medina, não teremos de esperar outros dez anos antes de assistirmos a um novo Rock in Rio. Mantida a Cidade do Rock e sua infraestrutura, a idéia é termos o 4 daqui a dois anos somente. No 3 – subtitulado ‘Por um mundo melhor’ – as coisas deram mais certo que errado. E é importante que nem as certas nem as erradas se percam no pó que substituiu a lendária lama da primeira edição realizada em Jacarepaguá (dessa vez nem mesmo chuviscou). A confusão do derradeiro dia, com o esmagamento da entrada, as invasões e os confrontos entre espectadores, seguranças e policiais, deve servir de lição para 2003. Foi um milagre que o desastre não tenha se infiltrado na área central do festival, ficando rondando na sua periferia. Milagres não costumam ocorrer duas vezes. A organização do Rock in Rio soube responder aos problemas – aumentando o número de ônibus, de latas de lixo e de banheiros, por exemplo – de um dia para outro ou, no máximo, de um fim de semana para outro. Com dois anos de dianteira, ela merece o voto de confiança num festival ainda melhor.

Porque mais do que no primeiro Rock in Rio – caracterizado por um pioneirismo quase insano – e do que no segundo – socado dentro do Maracanã – a edição 2001 deixou claro o quanto o evento faz bem à imagem e ao ego da cidade, carreando-lhe simpatia, turistas e dinheiro, mais ou menos nessa ordem. Cerca de 1,2 milhão de pessoas passaram pela Cidade do Rock nas sete noites de festival sem se esquecer que um dos motes do festival era a paz. Foram poucas brigas em se tratando de tanta gente. Ponto para a segurança, discreta, e para o serviço médico, eficiente. Artisticamente, foi um acerto a distribuição das atrações por tendas, além do majestoso Palco Mundo. O público entendeu o espírito da coisa e prestigiou, nos intervalos dos shows principais, o grupo irlandês Dervish ou o maluco beleza Tom Zé. Há, entretanto, que se minorar o vazamento de som de um canto para outro e/ou sincronizar melhor os horários dos shows. Deve-se repensar, também, a subordinação das atrações nacionais às internacionais. Barão Vermelho e Capital Inicial, por exemplo, obscureceram quem vinha depois. Dos fechadores de noite, apenas R.E.M., Iron Maiden e Neil Young indubitavelmente fizeram valer o ingresso.

A seguir, o leitor encontra um relato dia a dia do que funcionou e do que não funcionou no palco principal do Rock in Rio.

Primeira noite, sexta-feira, 12 de janeiro: Difícil é começar. Depois que começa, a máquina se move por conta própria, em transe. A Orquestra Sinfônica Brasileira e o músico zairense Ray Lema abriram os trabalhos na Cidade do Rock com um certo distanciamento crítico, a lembrar as pretensões humanísticas por trás do evento. A platéia gostou tanto da suíte roqueira tocada pela OSB que pediu bis. Bacana mesmo, porém, foram os aviões da Esquadrilha da Fumaça surgindo de trás do Palco Mundo quando ninguém esperava. Show. Não se pôde dizer o mesmo de Milton Nascimento. Na hora de cantar ‘Imagine’ com Gilberto Gil, teve de ler a letra de John Lennon. É possível que seja a única pessoa do planeta Terra que não a conheça de cor e salteado. Ainda mais chocante, entretanto, foi ele ter de ler algumas de suas próprias letras no seu show solo. Passou a amarga idéia de um grande artista em franca decadência. Passou o bastão para Gilberto Gil, que, pelo contrário, está numa fase exuberante. Com ‘Esperando na janela’, da trilha do filme ‘Eu tu eles’, deu ao festival seu primeiro grande momento musical. E o primeiro artista estrangeiro a se apresentar, o americano James Taylor, carregou a platéia 16 anos para o passado, quando, em 1985, tirou o pé da lama existencial justamente no lamaçal de Jacarepaguá. Enfatizando todas as declarações de amor de ‘You’ve got a friend’ ou ‘How sweet it is’, Taylor renovou seus votos de amizade com o Rio de Janeiro, homenageado com ‘Only a dream in Rio’. Daniela Mercury o substituiu e fez um show competentíssimo, mas algo frio em se tratando da cantora baiana. Passou a bola para Sting, que, na sua quarta passagem profissional pelo Brasil (uma com o Police, três solo, sendo uma no concerto da Anistia Internacional no Parque Antártica, em São Paulo) tocou mais músicas de seu antigo grupo do que vinha fazendo no exterior. Ganhou a noite e os suspiros do mulherio.

Segunda noite, sábado, 13 de janeiro: As coisas começaram a esquentar. Cássia Eller meteu o pé na porta, a língua no próprio peito e uma versão irada para ‘Smells like teen spirit’, do Nirvana, que deixou os espectadores de joelhos logo no primeiro ato. Fernanda Abreu manteve a peteca lá no alto, com seu funk-rap cheio de carioquíssimos ésses. Foi muito emocionante a participação de Evandro Mesquita na hora de cantar a clássica ‘Você não soube me amar’, sobretudo porque os dois reencenaram o show da Blitz no primeiro Rock in Rio, mandando para a galera a mesma bolona de futebol. Nesse clima BRock, o Barão Vermelho apareceu para realizar o melhor show de artista brasileiro no festival, uma sucessão vigorosa e madura de sucessos como ‘Pro dia nascer feliz’, ‘Por você’, ‘O poeta não morreu’, ‘Todo amor que houver nessa vida’ e ‘Quando o sol bater na janela do teu quarto’, da Legião Urbana. Dedicado a, nas palavras do cantor e guitarrista Roberto Frejat, ‘dois heróis brasileiros’ recém-falecidos, o atleta Adhemar Ferreira e o compositor Luiz Bonfá, foi um show de cachorro grande. Foi tão bom que, talvez, sem querer, tenha esmagado o correto mas morno show do americano Beck, sobre quem pesavam grandes expectativas – que não se concretizaram. Assim, o autor do hino ‘Loser’ foi a maior decepção do festival. Os galhofeiros Foo Fighters, do ex-baterista do Nirvana, Dave Grohl, que aniversariava naquela noite, acordaram a Cidade do Rock com a dialética de candura e desespero herdada de Kurt Cobain. Grohl não é apenas um roqueiro que não se engasga com o chiclete nem nas passagens mais viscerais de ‘Learning to fly’: é também um baita showman, como comprovam seus videoclipes histriônicos. Até mandar a platéia acender seus isqueiros como se estivesse ‘na porra de um concerto do Pink Floyd’ soou gracioso. Portanto, quando o R.E.M. entrou em cena, para êxtase dos fãs que aguardaram pacientemente durante 20 anos, a noite do primeiro sábado já havia ganho a parada de melhor do festival no quesito ‘conjunto das atrações’. O messiânico Michael Stipe comoveu os espectadores com ‘Everybody hurts’ ou ‘The one I love’. Visto de trás para a frente no telão, o vocalista jogando os braços para o alto, conforme a massa rezava ‘Losing my religion’, forneceu uma imagem fortíssima ao Rock in Rio 3.

Terceira noite, domingo, 14 de janeiro: Fadada a ser a mais cheia do primeiro fim de semana do festival, por conta da volta à ação do Guns N’Roses, ou melhor, de Axl Rose, a última noite do primeiro fim de semana começou menos que morna. O inteligente Patu Fu tocou apenas o bastante para não tomar garrafinhas de água mineral na cabeça. A doce voz da vocalista Fernanda Takai veio em porções para diabéticos. Emoção demais, possivelmente. Quem pisou na bola, contudo, foi Carlinhos Brown. Em sua onipotência baiana, deu importância demasiada e indevida às granadas improvisadas que visavam as câmeras de TV, bateu boca com uma platéia que a priori já lhe era antipática e perdeu o controle do espetáculo. Em vez de ter se tocado que estava num festival de rock – e logo numa de suas noites mais roqueiras – ele teve a pretensão de transportar todo aquele povo de bandana dos Guns N’Roses na cabeça para um ensaio do Olodum. Se estrepou de azul, vermelho e branco, cores da Bahia. Faltou humildade, experiência e sangue frio. Seu sucessor, o Ira!, estava em seu habitat natural e fez um pequeno (no sentido de curto) grande show, que superou até a agravada incapacidade de seu vocalista Nasi cantar. Ao passarem-lhe a bola com ‘Should I stay or should I go’, do Clash, os craques Edgard Scandurra (guitarra), Gaspa (baixo) e André Jung (bateria) botaram o Ultraje a Rigor na cara do gol. Roger Rocha Moreira, porém, mandou-a lá na bandeira de corner, oferecendo a uma platéia entregue um show amador – no mau sentido. Menos mau que a ‘atração’ internacional que lhe sucedeu, o grupo Papa Roach, foi uma nulidade absoluta, abusando dos clichês do funk metal. E a banda dos turbulentos irmãos Gallagher, o Oasis, fez um show mais curto e menos bom que os avulsos, dois anos atrás. O som – que parecia um radinho de pilha com problemas de recepção – não ajudou em nada. Por fim, saudado como Jesus Cristo reencarnado (e bota reencarnado nisso), Axl Rose deu à massa o que ela queria: velhos sucessos crus como ‘Sweet child o’mine’, ‘Paradise city’, ‘Patience’, ‘November rain’ e ‘Live and let die’ – além de uma boa nova, a sinfônica ‘Madagascar’. Seus fãs adoraram mas mesmo eles, isto é, os que tinham idade para tanto, devem ter sentido saudade das apresentações no segundo Rock in Rio, dez anos atrás, no Maracanã. O guitarrista Slash faz uma falta… Axl fala cobras (lógico) e lagartos dele. Axl Rose fala demais. E com tradução simultânea.

Quarta noite, quinta-feira, 18 de janeiro (reconstituída a partir da transmissão direta da TV a cabo e de relatos idôneos, pois ninguém é de ferro): Moraes Moreira e seu trio elétrico aqueceram bem as meninas do Brasil, que eram muitas e estavam lá para se desidratar urrando por Five, Britney Spears & N’Sync. Levaram também Sandy & Júnior (um prato cheio para quem gosta) e Aaron Carter, um no name de 12 anos de idade. Ele, assim como o Five e a senhorita Spears, foram acusados de terem se apresentado em playback, ou seja, macaqueando as próprias (???) vozes pré-gravadas. Quem estava na Cidade do Rock ficou na dúvida, quem estava em casa não teve nenhuma. Era playback mesmo. E daí? Ninguém vai à noite adolescente para ver aquele povinho improvisar fora dos trilhos. Gente muito melhor que eles, tipo Michael Jackson ou Madonna, já fez isso e foi em frente. No caso deles, é difícil imaginar esse ‘ir em frente’ mas o futuro a Deus pertence. Fora do palco, a noite foi das menos tranqüilas do festival, pois os cardumes de belas mocinhas atraíram os lutadores de jiu-jitsu, que se pegaram feio perto da Tenda Eletro. Previsível, embora quem leve a fama de mau sejam os headbangers. Acerto mesmo – apesar do arranjo detestável – foi a senhorita Spears cantar ‘(I can’t get no) Satisfaction’, dos Rolling Stones. Ela não pode ter satisfação mesmo. É virgem. Ao menos da boca pra fora.

Quinta noite, sexta-feira, 19 de janeiro: Temida a ponto de ter tido a venda de ingressos limitada, a tradicional ‘noite do heavy metal’ do Rock in Rio, responsável por momentos antológicos na edição de 1985, foi pacífica. A escalação das atrações mostrou-se, de maneira geral, acertada. O impressionante Sheik Tosado e o polêmico Pavilhão 9 fizeram shows consistentes e tonitruantes, mantendo o pessoal satisfeito antes da entrada em cena das bandas propriamente pesadas. A primeira delas, a americana Queens of the Stone Age, que herdou três membros do Kyuss, era aguardada com a grande novidade do festival, depois de ter sido saudada em prosa e verso pela imprensa internacional. Não foi tão grande assim, como constatou-se depois que o vocalista e baixista Nick Olivieri – deveria se chamar Dick Olivieri, if you know what I mean – entrou inteiramente nu no palco. A banda foi bem até que se perdeu numa interminável névoa de capoeira metal. Foi posta para fora do palco aos gritos de ‘Sepultura’. Fora das vistas do público, Olivieri foi detido e advertido pelo Juizado de Menores. Não pelo de Maiores, certo? Única banda brasileira com status de atração internacional no Rock in Rio, o Sepultura não decepcionou – mas também não entusiasmou – com suas levadas marcializadas e letras de protesto. A seguir, Rob Halford, ex-vocalista do Judas Priest, fez um show de macho, apesar de ser muito gay. Seus agudos continuam lancinantes e sua banda de apoio atacou ferozmente a audiência, deixando o terreno lindamente aplainado para a grande atração da noite, o sexteto Iron Maiden. O vocalista Bruce Dickinson e seus colegas mandaram ver, dando tudo de si tanto pela empatia com o público brasileiro (foi a quinta vez em que eles estiveram aqui para se apresentar) quanto pela gravação de um DVD no qual aquele entusiasmado mar de gente levou Oscar de melhor coadjuvante. Hinos como ‘Wrathchild’, ‘The trooper’ e ‘Hallowed be thy name’, conduziram-nos a cinematográficas situações-limite nascidas da criatividade do seu baixista Steve Harris. Foi perfeito, duas horas de pau puro, o melhor espetáculo de todo o festival até… Neil Young pintar na área.

Sexta noite, sábado, 20 de janeiro: Para quem só arredou o pé da Cidade do Rock depois do último acorde rasgado de Neil Young, já não está muito claro o que se passou antes do primeiro acorde rasgado de Neil Young. Não só as atrações anteriores, como todo o festival foram postos em perspectiva pelo show do canadense de 55 anos. A própria escalação da noite não deixava dúvidas de que ele se encontrava sem rival. Os Engenheiros do Hawaii começaram bem seu número, diante de uma platéia que lhe era amplamente favorável, ainda mais na hora de ‘Era um garoto que como eu amava os Beatles e os Rolling Stones’. Na hora de cantar ‘Rádio pirata’, do RPM, a participação especial de Paulo Ricardo ajudou a deixar o povo que chegava na mão de Humberto Gessinger & Cia. Contudo, a partir do momento em que Borghetinho foi chamado ao palco e ajudou a desacelerar ‘Toda forma de poder’, o espetáculo esfriou. Longe de serem roqueiros, os Ramalho, Zé e Elba, entenderam melhor o espírito da jornada na qual até fratura exposta e Carlinhos Brown seriam aplaudidos: botaram o público para bater o pé – assim levantando uma nuvem de pó que parecia uma reedição literal da Operação Tempestade no Deserto. Paula Toller, à frente do Kid Abelha, levantou a rapaziada com seu vestido curtinho, corpo bem torneado e velhos sucessos como ‘Como eu quero’. Mais uma vez, a nostalgia dos anos 80 calou fundo. Dave Matthews Band e Sheryl Crow fizeram shows competentes mas desimportantes, estimulando boa parte dos espectadores a pegar o caminho da roça mais cedo. Então, dessa nada em que havia se transformado o dia, Neil Young & Crazy Horse fizeram um mundo melhor, cheio de ruído, eletricidade, simplicidade e tristeza. Aquilo sim foi um show, uma experiência sensorial e emocional que exigiu da audiência a mesma entrega do protagonista . Foi como se tivessem sido feitas as apresentações: ‘Axl, isso é um show. Show, isso aqui é o Axl Rose.’

Sétima noite, domingo, 21 de janeiro: O dia mais populoso da Cidade do Rock, único no qual ela atingiu a capacidade máxima de 250 mil pessoas foi musicalmente inconsistente, apesar da disposição da garotada curtir o que desse e viesse, depois de passar pelo sufoco das roletas. No Palco Mundo, a banda vencedora do pré-festival Escalada do Rock, a Diesel, e o Surto mantiveram as pessoas pulando. Pularam tanto que se cansaram cedo, antes até da entrada em cena da grande atração da noite, os Red Hot Chili Peppers. Os Deftones demonstraram ter muita imprensa, pois seu rock pesado insípido passou em brancas nuvens, apesar da ameaça não concretizada de chuva. Seus sucessores imediatos, os veteranos do Capital Inicial deram-lhe um banho na comunicação com o público, que reagiu com entusiasmo a números como ‘Independência’, ‘Fátima’, ‘Natasha’. A falta de reação foi a tônica do bom show do australiano Silverchair, a ponto de levar o vocalista e guitarrista Daniel Johns a literalmente ter que dizer ‘oi’. As levadas lentas e pesadas de canções como ‘Emotion sickness’ parece que sedaram de vez um pessoal que só se levantou de todo na balada ‘Miss you love’. Era hora, afinal, de os Chili Peppers brindarem os brasileiros com uma boa apresentação – a anterior, num Hollywood Rock, foi sofrível. Mais uma vez, porém, eles pipocaram na dividida, insistindo nas baladas (que perdiam muito no som ruim) e jogando fora um bis incompreensível e digressivo. Teve-se até a impressão que fora de propósito, para que o admirável gado novo se dispersasse do lado de fora dos muros. Foi uma pena, porque assim o festival se encerrou num anticlímax. Não merecia."

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