Quinta-feira, 23 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

PRIMEIRAS EDIçõES > CORONELISMO ELETRÔNICO

Luiz Claudio Latgé

Por lgarcia em 15/08/2001 na edição 134

TEMPO DA NOTÍCIA

"O jornalismo acaba de criar uma nova fração de tempo. Na busca pela informação on-line ? o noticiário em tempo real, na linguagem dos computadores ? é preciso sair na frente, dar a notícia primeiro.

A competição é intensa. Não se pode perder um segundo. Há muito os meios de comunicação perseguem essa rapidez, estar onde os fatos acontecem, na hora certa. A notícia ao vivo. Mas a entrada dos sites de informação na disputa mudou os parâmetros da cobertura jornalística.

Já não basta anunciar o que aconteceu. É pouco transmitir o que está acontecendo. O jornalismo 24 horas no ar é voraz: precisa produzir notícias o tempo todo.

Passamos então a antecipar o que vai acontecer. Notícias que aparecem e desaparecem, numa fração de tempo ? o tempo que separa o jornalismo do erro. Ser rápido, em alguns casos, parece ser mais importante do que ser preciso.

Os limites de tempo na divulgação de notícias foram caindo ao longo da evolução da espécie. Da pintura nas cavernas à imprensa de Guttemberg, dos primeiros livros aos jornais diários, do telégrafo às ondas de rádio, do videoteipe às transmissões ao vivo ? todo o desenvolvimento sempre caminhou no sentido de tornar mais rápida a comunicação entre os homens.

Já nos acostumamos a acompanhar, ao vivo, qualquer evento sobre a face da terra. Ou no espaço. O avanço da tecnologia, tornando os equipamentos mais baratos e portáteis, ampliou a cobertura. Surgiram novos canais, TVs a cabo ou por satélite, emissoras locais. As cidades ganharam câmeras, nas ruas e nos prédios. De tal forma que chegamos a discutir, como na ficção do Grande Irmão, de George Orwell, a invasão da vida privada.

Sempre há uma câmera por perto. No acidente de trânsito, no assalto ao banco, na enchente, na queda do avião.

O jornalismo ganhou muito com isso, transformando em repórter o cidadão comum, o chamado cinegrafista amador.

A multiplicação dos veículos de comunicação ? jornais, rádios e TVs ? democratizou a informação. Permitiu que a sociedade se fizesse representar em todos os seus segmentos. Existem publicações e programas cada vez mais específicos. Economia, política, esporte, saúde, negócios, carreira. E a internet, neste sentido, torna tecnicamente possível que cada cidadão crie o seu canal de comunicação com o mundo. Não há governo, associação ou entidade de interesse público ou privado que não tenha a sua página. O recurso é quase uma garantia de que toda informação será divulgada. Este é um grande salto para o exercício da cidadania.

Trata-se de um avanço irresistível. Mas a velocidade da informação não pode roubar do jornalista o tempo de confirmar a notícia. A certeza da veracidade da informação deve ser o ponto de partida para a divulgação da notícia. Segurança, antes da rapidez. A notícia apressada, sem confirmação, protegida por fontes ocultas ? ou por entidades como o mercado, nas matérias de economia ? tem o mesmo valor do boato. Em alguns casos, o da calúnia ou da mentira.

É claro que a notícia errada, a chamada barriga, no jargão do jornalismo, não é invenção da internet. Mas os erros estão se repetindo com maior freqüência.

Nos últimos dias, o noticiário on-line, na ânsia de antecipar os fatos, levou Jader ao Congresso para renunciar ao mandato, mesmo enquanto se escondia em casa. Decretou intervenção do Exército em Alagoas, o que nunca aconteceu. Divulgou pareceres que o Supremo não produziu. Revelou cifras improváveis de acordos e de pacotes econômicos. Quebrou sigilos, investigou denúncias, revelou fraudes e lançou suspeitas com uma rapidez que nem os mais afoitos procuradores do Ministério Público conseguiram acompanhar. Tais notícias sequer chegaram a ser desmentidas, quando os fatos revelaram o seu equívoco.

Os jornais impressos e a fita gravada das TVs sempre serviram de prova material, no erro e no acerto. O jornalista sabe que será cobrado, confrontado com os fatos.

No texto virtual, as notícias aparecem e somem nos bites da tela do computador, sem deixar rastro.

A dinâmica deste processo é, muitas vezes, perversa. Uma informação divulgada, verdadeira ou falsa, produz uma verdadeira corrida de jornalistas. Mobiliza governos, empresas, provoca coletivas, notas oficiais, declarações públicas. Em alguns casos aciona a polícia e a Justiça. Se falsa, impõe prejuízos. Da perda de tempo a danos morais, irreparáveis.

No tempo de notícias apressadas, é de se esperar que também os leitores sejam apressados. Então, cabe repetir, para que não fique dúvida, que não se pretende neste artigo questionar o avanço fabuloso que se produz com a informação on-line.

A imprensa esteve à frente de quase todos os processos de afirmação da democracia brasileira, do impeachment de Collor à defesa dos direitos do consumidor. E o noticiário.com já demonstrou que tem uma contribuição efetiva a dar para melhorar a vida do país. Mas precisa definir melhor o seu código de conduta.

Jornais, rádios e TVs levaram décadas para estabelecer seus princípios. Talvez seja hora de os sites tomarem posição sobre esses valores. A questão é assegurar que o princípio básico a ser respeitado é o velho e bom jornalismo. Antes de ser on-line, deve ser jornalismo. A informação responsável, checada, a garantia do direito de resposta.

Na verdade, quando isso não acontece, sequer se deveria chamar de jornalismo."

CORONELISMO ELETRÔNICO

"No célebre Coronelismo, Enxada e Voto, o estudo de Victor Nunes Leal sobre o município e o regime representativo no Brasil, ?coronelismo? era definido como ?um compromisso, uma troca de proveitos entre o Poder Público, progressivamente fortalecido, e a decadente influência social dos chefes locais, notadamente dos senhores de terras?. A força dos coronéis provinha dos serviços que prestavam ao chefe do Executivo, para preparar seu sucessor nas eleições, e aos membros do Legislativo, fornecendo-lhes votos e assim ensejando sua permanência em novos pleitos, o que tornava fictícia a representação popular, especialmente em virtude do ?voto de cabresto?.

Com a instituição do voto secreto, o ?voto de cabresto?, como era praticado até 1930, se tornou impossível. Mas os vícios nacionais têm raízes profundas, e não é com simples penadas que se consegue acabar com eles.

O advento das mídias eletrônicas de massa e sua universalização, num país onde os baixíssimos níveis de educação média da população as transformaram num meio hegemônico de informação – e, mais grave que isso, num meio hegemônico de formação e de indução de modas e costumes -, ensejaram o surgimento de uma versão eletrônica do fenômeno do coronelismo, infinitamente mais abrangente e perigoso que a versão anterior.

Não por acaso, quem deu o impulso definitivo a esse ressurgimento foi um dos mais legítimos representantes dessa versão brasileira do caudilhismo, o ex-senador Antonio Carlos Magalhães que, quando ministro das Comunicações do governo José Sarney, distribuiu canais de rádio e televisão a todos os grupos políticos regionais dominantes, especialmente do Norte e do Nordeste do País, e articulou a filiação de muitos desses canais à mais poderosa das redes privadas de televisão, à qual ele estava, na época, umbilicalmente ligado.

Assim nasceu a relação de crescente promiscuidade entre o poder político e o poder da mídia que desvirtua a democracia brasileira. Reportagem publicada segunda-feira pela Folha de S. Paulo deu um retrato atualizado desse quadro.

Os políticos controlam 1/4 das emissoras comerciais de televisão do Brasil: 59 (daqui a dois meses serão 60) de um total de 250. Esse número se refere apenas aos veículos que detêm concessão governamental para gerar programação. A Rede Globo tem 21 filiadas pertencentes a políticos, o SBT tem 17, a Bandeirantes, 9. Entre os políticos que vivem de retransmitir e vender a programação da Globo em seus Estados estão os ex-presidentes da República José Sarney e Fernando Collor de Mello, os governadores Roseana Sarney (MA), Garibaldi Alves Filho (RN) e Albano Franco (SE), o ex-senador e ex-governador da Bahia Antonio Carlos Magalhães e o atual senador Antonio Carlos Magalhães Junior (BA), e mais um ex-senador, oito deputados federais e um estadual. Entre os que vivem do SBT, estão o governador Tasso Jereissati (CE), o presidente interino do Senado, Edison Lobão (MA), três ex-governadores (Quércia, Paulo Pimentel e Nilo Coelho) e mais quatro deputados federais. Ligados à Bandeirantes, há três senadores – entre eles o licenciado Jader Barbalho (PA). E há ainda as redes menores, todas com sua coleção de políticos.

Uma vez estabelecida a ligação entre essas duas pontas, ela ganha uma dinâmica própria virtualmente impossível de deter. Com uma legislação para o setor definida entre ?sócios? no Congresso Nacional, o País é dos poucos no mundo que permitem a ?propriedade cruzada? de diversos meios de comunicação – TVs abertas e fechadas, rádios, jornais, revistas, etc. – numa mesma praça, uns anunciando e subsidiando os outros. Freqüentemente – na Bahia isto foi tão escandaloso que mereceu um capítulo especial no relatório anual da Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP) -, os donos dessas redes, quando no Poder, carreiam toda a publicidade oficial para seus próprios veículos, o que lhes permite esmagar a concorrência e calar as vozes da oposição. Com isso, acabam se elegendo e se reelegendo graças ao domínio total de mídia que exercem em seus territórios. Metade do que é assim auferido vai para a rede à qual estão associados que, desse modo, pode reproduzir seu esquema de expansão e domínio de mercado – e, conseqüentemente, de poder político – em âmbito nacional.

E é para enfrentar esta realidade que o atual ministro das Comunicações está propondo uma Lei Nacional de Radiodifusão que enterra o projeto de Sérgio Motta de reservar as concessões de rádio e TV para a Anatel, uma agência com mandato próprio e mais distanciada do poder político partidário, e mantém essa prerrogativa no Ministério das Comunicações."

    
    
                     
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