Terça-feira, 23 de Abril de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1033
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Luiz Garcia

Por lgarcia em 05/03/2003 na edição 214

GOVERNO LULA

“De gatos e lebres”, copyright O Globo, 28/02/03

“Durante seus anos de oposição, o PT abasteceu seus alforjes, para as investidas contra o Poder Central, com indiscrições, voluntárias ou acidentais, colhidas em corredores, salões e sites dos palácios oficiais. Nas mesmas fontes bebeu boa parte da imprensa brasileira. Foi em parte graças a vazamentos que ruiu em três anos o império que Fernando Collor planejou para durar 20. O mesmo sistema de vasos irregularmente comunicantes deu dores de cabeça em penca – merecidas e injustas – a Fernando Henrique Cardoso, nos seus anos de mandarinato.

A imprensa, nestes anos de liberdade, acertou muito, e errou sempre que aceitou informações passivamente. O procedimento correto tem regra simples e trabalhosa: denúncia é pauta, não é notícia. Só vira notícia quando confirmada por duas fontes independentes. E apurar uma denúncia não se resume apenas a ouvir acusador e acusado: isso é apenas uma parte necessária, mas nem sempre fundamental do jornalismo investigativo.

Pode parecer que o PT está pondo trancas em portas que ele mesmo ajudou a arrombar quando baixa a severa lei do silêncio agora imposta no Planalto. Ela proíbe a funcionários de qualquer escalão a divulgação de informações colhidas no ambiente de trabalho – na suposição de que sejam inoportunas, sigilosas ou incompletas.

Aparentemente, isso briga com instruções antes distribuídas aos assessores de imprensa do governo. Diz um decálogo, ao que se saiba também em vigor: ?A informação é um bem público…. é obrigação de todos fornecer informações aos jornalistas, mesmo que sejam desfavoráveis ao governo.? Belas palavras – mas não mostram contradição com as normas agora reveladas?

Em princípio, não acho, não. Os dois conjuntos de normas configuram – se existe boa-fé – o comportamento correto do Estado em face do jornalismo investigativo. Este pode ser, e tem sido com grande freqüência na imprensa brasileira, de melhor feitio: trabalhoso, de interesse público incontestável, gratificante. Mas também viceja o de outro tipo: passivo, apressado, irresponsável.

Homens públicos são craques em jogar aos ventos o desejado fantasiado de possível ou travestido de provável. Não é raro que a notícia de que o governo pretende fazer isto ou aquilo seja apenas parte da artilharia usada por setores da máquina oficial para ganhar disputas internas. Os fins podem até ser honestos: desonesto é o comportamento, e boboca é o jornalista que compra informação de cocheira sem gastar sola de sapato para descobrir se o cavalo existe. É forte a tentação de dar primeiro e conferir depois – seja por respeito reverente às fontes, ou por pressa em oferecer ao leitor informação quente: não importa se gato ou lebre, desde que bem temperado.

Qualquer governo tem o direito de se proteger da proliferação dos gatos, e o dever de não se meter a besta de criar obstáculos à difusão das lebres.”

“Governo impõe mordaça ao funcionalismo”, copyright Folha de S. Paulo, 2/03/03

“No passado recente, a junção do PT com a máquina de xerox interrompeu a carreira de vários segredos nas repartições públicas de Brasília. Infiltrado na engrenagem do Estado, o petismo abiscoitou dados sigilosos de sucessivas administrações, de Sarney a FHC.

Receando provar do próprio veneno, o governo do ex-PT adotou a política da língua presa. Submetidos a uma espécie de centralismo informativo, os funcionários públicos são ?aconselhados? a evitar contatos com jornalistas. Justo, muito justo, justíssimo.

Sob Lula, Brasília vive uma fase de oba-oba. Que não pode ser conspurcada pela desenvoltura de jornalistas fuçadores. Ir muito fundo na investigação de qualquer tema é um desserviço à causa da unanimidade.

O repórter que pergunta demais é um chato que deve ser contido. Pelo menos até entender que o ambiente de oba-oba não comporta a velha dicotomia entre certo e errado. Agora só há o conveniente e o inconveniente. E a crítica não convém.

A situação de Lula reclama compreensão. É dura a vida de um presidente que luta para salvar a biografia ao mesmo tempo em que cuida da unidade do PMDB, que quer um ou dois ministérios, não uma boa reputação. Não é fácil dividir uma cena que se pretendia renovadora com atores antiquados como José Sarney.

A hora é mesmo de ajudar o governo. Vai aqui, a propósito, uma sugestão: a censura deveria ser estendida ao primeiro escalão.

O que se depreende das declarações oficiais é que presidente e ministros não têm nada a dizer. Repetem idéias e conceitos de governos anteriores, sobretudo da gestão FHC.

A estratégia da língua presa pode estimular a suspeita de que a administração petista se autoconsidera impublicável. Mas não se deve enxergar na medida um viés antidemocrático.

Está preservado o direito de qualquer um de concordar inteiramente com o governo.

Iniciada na Presidência, a política da língua sitiada escala a Esplanada. É o que demonstra o documento reproduzido nesta página. Na SDE (Secretaria de Direito Econômico), órgão que pende do organograma da pasta da Justiça, os funcionários já não podem dizer um ?olá? aos jornalistas sem pedir autorização aos superiores. Justo, muito justo, justíssimo.

A SDE está na bica de analisar a fusão Varig-TAM. O negócio tende a impor ao consumidor passagens mais caras e serviços mais vulgares. Mas a transação é costurada sob os auspício$ do bom e velho BNDES. De modo que o questionamento não convém.

No Planalto, a gestão do cercadinho da informação foi confiada ao general Jorge Armando Félix, chefe do GSI (Gabinete de Segurança Institucional). O correio eletrônico dos funcionários vem sendo bombardeado com orientações sobre o que convém: evitar jornalistas, trancar portas e gavetas etc, etc, etc…

Informou-se em nota: ?Eventuais indiscrições e inconfidências podem prejudicar os órgãos detentores do conhecimento, as autoridades responsáveis, o governo e o país?.

O mais provável é que o esforço se revele inócuo. Em pouco tempo, o ex-PT vai descobrir que os funcionários ?impatrióticos? são tantos que não há número suficiente de militares para controlá-los. Sempre restará a alternativa de levar as línguas rebeldes ao paredão.”

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