Quarta-feira, 22 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

PRIMEIRAS EDIçõES > DOSSIÊ CREDIBILIDADE

Luiz Garcia

Por lgarcia em 22/08/2001 na edição 135

DOSSIÊ CREDIBILIDADE

"Depois da Igreja, nenhuma instituição tem mais credibilidade para os brasileiros do que os jornais. É o que diz pesquisa do Datafolha, divulgada em congresso da Associação Nacional de Jornais (ANJ).

Tudo que está nesse parágrafo aí em cima é absolutamente verdadeiro ? e mostra como a verdade é uma enguia.

Acontece que o índice de confiança na Santa Madre é de 30%, e o dos jornais, num segundo lugar perdido na poeira, é de 15%. Reponha-se, portanto, a rolha no champanhe. Acresce que o último lugar da pesquisa é ocupado pelos partidos políticos ? com índice de zero. Portanto, não é absurdo creditar parte dos nossos 15% ao papel que a opinião pública nos atribui, neste momento, no fascinante esporte de caça aos políticos. Ou seja, a credibilidade da imprensa escrita ainda é muito baixa. Alguém deveria tomar uma providência. Acabar com essa mania de fazer pesquisas, por exemplo.

Reciclando algumas coisas que disse outro dia num plenário da ANJ e que o freguês também tem o direito de saber, seguem-se algumas meditações sobre a questão.

Para algumas empresas jornalísticas e alguns jornalistas é correto ou conveniente empurrar a credibilidade ? o que também significa o respeito da comunidade ? para segundo plano. Seria mais importante ganhar mais dinheiro, promover um credo ideológico ou religioso, eleger aliados, fazer amigos etc.

Não dá para ficarmos muito indignados: afinal de contas, era exatamente assim que agia quase toda a imprensa brasileira, não muitas décadas atrás. Hoje ? vamos ser justos com nós mesmos ? as coisas mudaram. Há outros valores mandando; principalmente, uma consciência muito clara de que a imprensa tem um serviço público a desempenhar, e a credibilidade é indispensável a essa missão. Há também a consciência de que o descrédito é mau negócio. O leitor de hoje é consumidor exigente e o anunciante de hoje foge do veículo no qual os leitores não acreditam ? provavelmente por achar que eles não acreditarão também nos seus anúncios.

Por tudo isso, não vem ao caso fazer o elogio da credibilidade. Precisamos dela, ponto final. Mas é útil discutir as circunstâncias em que perdemos credibilidade por incompetência.

Um dos erros mais comuns é o exagero no jornalismo que apela para o apetite do leitor pelo que é sensacional, indiscreto, excitante. Não há mal algum em incluir esse lado da vida no pacote de temas relevantes que levamos diariamente ao leitor. Mas há exagero ? e perda de credibilidade ? quando invadimos a privacidade de personagens fora da vida pública ou a área de privacidade delimitada por quem transita na vida pública. Pior ainda quando a notícia sensacional é caluniosa, contém apelo ao preconceito, à violência etc. E o pior dos piores: quando a imprensa, para afagar a curiosidade vulgar do leitor, causa sofrimento pessoal a quem não cometeu crime algum, ou, se cometeu, o fez em desproporção com a tragédia que a publicidade causará em sua vida.

Resumindo esse capítulo: a oferta de sensação é negócio limpo, a venda de sensacionalismo (que rende mais a curto prazo) é negócio sujo. E tem alto preço em credibilidade.

Nos veículos ditos sérios, as armadilhas são outras. Na área do interesse público, há perda de credibilidade na informação leviana ou precipitada, na história mal contada, na falta de vigilância contra a notícia oferecida na bandeja ? principalmente se for pelo dono da bandeja. Três exemplos de mau comportamento comuns nessa área:

Primeiro. Uma fonte não identificada anuncia como iminente ou mesmo garantida tal providência oficial importante. A incompetência consiste em não conferir. E os burros vão dar na água quando aceitamos como provável ou certo o que era apenas aquilo que a nossa fonte defendia num debate interno ainda longe de qualquer decisão. Por falta de tempo, por medo de que a concorrência chegue primeiro ou por simples desconhecimento das normas do ofício, deixamo-nos manipular por um burocrata de segundo escalão. No mundo dos negócios, como mostraram fatos recentes, são adversários comerciais que incluem em seus arsenais a manipulação de jornais como arma eficaz para ganhar dinheiro. Quando o leitor descobre, corre a depositar seus percentuais de credibilidade na caixa de esmolas da igreja mais próxima.

Segundo: para levar vantagem sobre a concorrência ou por não conhecer o significado preciso das palavras que usa, a imprensa brasileira é viciada em ?esquentar? seus títulos, suas chamadas e seus textos de abertura. Na manchete tal coisa vai acontecer, no título interno provavelmente acontecerá, no texto só acontecerá se ocorrer determinada combinação de fatores. Em algum lugar, acaba-se por reduzir a notícia à sua verdadeira dimensão. Mas o leitor já se sentiu logrado.

Terceiro: um homem público acusa outro de um delito qualquer. E temos a infantil ingenuidade de achar que o problema se resolve ouvindo o outro lado. Fulano diz que Beltrano é ladrão de galinhas ? e Beltrano nega. É uma postura preguiçosa, que contribui para a impressão de que a imprensa brasileira é viciada em denuncismo. Porque a nossa obrigação não é simplesmente ouvir os dois lados, e sim apurar o que há de verdade na história. Inclusive, se for o caso, para concluir que não há história. Temos a mania de colher declarações a granel ? e investigar muito pouco. Disso, com certeza, nasce boa parte da desconfiança com que muitos leitores nos folheiam.

Perdemos credibilidade também por usar mal o idioma. O excesso de erros de português irrita o leitor e diminui a sua confiança em alguém que, pelo menos nessa área, sabe menos do que ele (o que vale também para erros primários de geografia, história etc.). Além disso, o mau uso das palavras e a pobreza do vocabulário freqüentemente deformam a informação, ou a tornam vaga, imprecisa. É ingenuidade achar que o leitor não percebe. Principalmente, o leitor mais atilado, formador de opinião, aquele que temos a obrigação de carregar no colo.

O que fazer? Para todos os profissionais, que tal se preocupar mais em administrar corretamente a informação, ao apurá-la e ao escrever e editar? Para os donos de jornais, que tal verificar se seus comandados são em número suficiente e têm a qualificação necessária, e tempo, para fazer isso que cobramos deles?

Sempre se pode escolher: ou mergulhamos nesse mar de preocupações e cuidados, ou nos agarramos aos 15% do Datafolha."

    
    
                     

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