Sábado, 23 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

PRIMEIRAS EDIçõES > ***

Luiz Garcia

Por lgarcia em 22/01/2003 na edição 208

DIPLOMA EM XEQUE

“Começo de conversa”, copyright O Globo, 21/1/03

“O ensino de jornalismo interessa a todo o mundo: boa formação igual a bom jornalismo igual a cidadão bem informado igual a sociedade mais bem defendida igual a Estado mais bem comportado.

No Brasil, a lei considera que só pode ser bom jornalista quem tem diploma de escola de comunicação. Mas há poucas semanas, em São Paulo, uma juíza decidiu que o diploma não deve ser obrigatório. Para muita gente, isso pode parecer uma desvalorização da profissão ? e os argumentos da juíza, infelizmente, são generalizações que contribuem para essa impressão.

Pouco importa: continua sendo equívoco considerar o canudo uma garantia de boa formação profissional.

No resto do mundo civilizado, futuros jornalistas procuram escolas especializadas em busca de boa formação, não de diplomas exigidos por lei. Ou não procuram, e encontram outros caminhos para se transformarem em profissionais competentes. No Brasil do diploma obrigatório, há um punhado de boa escolas ? e uma legião de outras que devem sua sobrevivência à exigência legal, e cobram mensalidades com grande competência. Não há de ser por acaso que entre as melhores se destacam as públicas, que são gratuitas e não precisam desperdiçar verbas com anúncios em jornal.

A proliferação de escolas pagas teve duplo efeito cruel: criou nos jovens a esperança de que existiria equivalência entre número de vagas nas faculdades e de oportunidades no mercado de trabalho (nada mais falso) e ajudou a baixar o nível do ensino. Simplesmente não há bons professores em quantidade suficiente.

A resistência ao diploma obrigatório costuma ser associada a uma visão do jornalismo como profissão menor. Não é por aí. A competente formação profissional é fundamental; leva tempo e não é para qualquer um. São variadas e podem ser bastante complexas as formas eficazes de obtê-la.

Sobre isso, conversamos sexta-feira. Desculpem parar a conversa no meio, mas dizem que o formato minissérie é bom de ibope.”

“Diploma: a opinião da chefia (1)”, copyright Comunique-se <www.comunique-se.com.br>, 14/1/2003

“Fui ouvir a opinião de diretores de redação de São Paulo acerca da cizânia deflagrada pelo (até agora) fim da obrigatoriedade do diploma de jornalismo. A visão deste colunista-profissional-diplomado: não à exigência do diploma, sim ao estudo universitário, à leitura compulsiva e a um controle de qualidade da profissão, seja ele qual for. Não vou me estender.

Aí vão eles. O Sérgio Xavier foi o primeiro a falar; o Sandro Vaia, o último.

Sérgio Xavier, diretor de redação da Revista Placar:

?Não muda nada. Sou a favor de uma faculdade híbrida, de quatro anos, os dois primeiros para a formação técnica, os dois últimos para uma especialização em uma outra atividade, como administração, medicina, economia. Na prática, a exigência do diploma já acabou há muito tempo. Nunca perguntei aos meus free-lancers se tinham diploma ou registro. É difícil alguém perguntar, não dá tempo de fazer isso. Acho que só as pessoas ?diferentes? se preocupam em checar.?

Angela Rímoli, diretora da sucursal paulista da Radiobrás:

?Qual a raiz do medo? Quantos monstros ocultos estavam à espreita dessa medida para invadir em hordas, barbaramente o ?campo profissional valorizadíssimo? dos jornalistas? De que falamos? As empresas, pela própria lei de mercado, querem os melhores! Jovens, velhos, de direita, de esquerda, naturalizados, deficientes, cegos, surdos, mudos… com ou sem diploma! Um diploma, não se deve negar, obtido por alguém com verdadeira vocação só dinamiza competências, acrescenta! O que se fala agora é do diploma como exigência para o inalienável direito de se registrar na profissão exercida. Só habilidades autênticas e comprovadas vão permitir a prática do jornalismo! Esse direito real, esse não pode ser negado! Na redação que dirijo nada muda, mesmo porque é esfera federal e só são admitidos novos profissionais via concurso, a exemplo do último, em meados de fevereiro de 2002. Tudo é muito delicado nesse âmbito já que, além do caso dos jornalistas, teríamos ainda a velha questão dos radialistas e sua área de atuação ainda bastante questionável…?

Alberto Luchetti Neto, diretor-geral da allTV:

?Não acho que o diploma deva representar uma reserva de mercado. Aqui na allTV, se for talentoso a gente contrata. E é assim em todos os veículos, mesmo naqueles que defendem a obrigatoriedade. Veja o exemplo do Dráusio Varella: quem pode exigir um diploma de jornalismo para ele escrever os seus artigos? Que veículo não gostaria de ter o Dráusio Varella? Mesmo nesses veículos, muitos articulistas não têm o diploma mas são especialistas e escrevem. Na hora de contratar, é preciso analisar caso a caso. Nos Estados Unidos, onde o diploma não é obrigatório, 80% a 90% dos profissionais que trabalham nos jornais são formados em comunicação?.

Celso Antonio de Freitas, chefe de redação da Rádio 2 e professor de Radiojornalismo da Universidade São Judas:

?Vai ficar como sempre esteve. Quem tem competência vai continuar conquistando o seu lugar, principalmente quem investir na própria formação, não ficar esperando só da faculdade. Muitos reclamam da não-obrigatoriedade do diploma mas não reclamam da falta de conhecimento. Nada vai mudar. Vão continuar existindo o diploma e as faculdades de comunicação, em número igual ou até maior, e os jornalistas formados e os não-formados, como sempre existiram?.

Carlos Manzano, diretor de programação da Rádio Capital:

?Não muda nada. Criatividade é tirar do nada, e talento é a ferramenta da criatividade. É claro que não devemos menosprezar a importância de uma formação acadêmica, para lapidar e emoldurar o talento. Eu entendo a indignação dos estudantes. Mas quem tem talento para se expressar e para convencer o leitor, o ouvinte, o telespectador, tem num curso superior uma bela oportunidade. Só não acho que tenha de ser um curso específico de comunicação. Acho até que a decisão pode melhorar a qualidade do jornalismo. No momento da contratação, tudo isso deverá ser pesado. O diploma, sim, mas principalmente o talento do candidato?.

Mario Andrada e Silva, editor-chefe da agência Reuters para a América Latina:

?O fim do diploma favorece o empregador, porque amplia o leque de contratações, e é bom para os candidatos, que podem se especializar no que querem. Também favorece as relações de trabalho, reduz as tensões com os sindicatos. Todos os veículos do Brasil têm jornalistas sem diploma. A decisão vai melhorar o nível das faculdades de jornalismo. Elas vão ter de competir com boas faculdades de outras áreas. Para a Reuters, que é uma agência internacional, vai ser muito melhor?.

Manuel da Costa Pinto, diretor de redação da Revista Cult:

?Não sou a favor da simples não-obrigatoriedade do diploma. Defendo a regulamentação, a mesma proposta feita pelo Cláudio Abramo: é preciso manter uma instância oficial, ou com curso de jornalismo, ou com um outro curso superior e uma especialização em jornalismo. Tirar a exigência desregulamenta a profissão, é um retrocesso. Devemos flexibilizar, não eliminar. A flexibilização poderá ser particularmente importante para as editorias de Cultura, Economia e Ciências. Nos grandes centros, como São Paulo, Rio, Brasília ou Porto Alegre, [a não-obrigatoriedade] não vai mudar muita coisa. A Folha de S.Paulo viola a exigência há anos, e isso não acarreta prejuízo nem ao jornal, nem aos jornalistas. A Cult teve três editores-assistentes, somente um era jornalista formado. De fato, acabou pesando mais o conhecimento de jornalismo e cultura do que o próprio diploma. Mas nos lugares distantes desses centros, nos chamados rincões do País, a simples extinção da obrigatoriedade pode viciar ainda mais a relação dos veículos e dos profissionais com os políticos locais. Vai ser o estouro da boiada…?

Sandro Vaia, diretor de redação de ?O Estado de S. Paulo?:

?Não acredito em nenhuma revolução no mercado jornalístico em função da decisão da juiza Carla; acho que os jornais, até por inércia, continuarão contratando preferencialmente jornalistas diplomados, mais por causa da experiência já adquirida do que pelo diploma. O que vai mudar é que se tornará mais fácil contratar outro tipo de profissionais para escrever sobre assuntos específicos; mas também não é muito fácil encontrar talentos perdidos em outras profissões. A política de contratações do Estado não vai mudar; continuaremos dando mais importância ao talento e à competência do que ao diploma. Agora, com respaldo de uma decisão judicial?.

No próximo artigo, mais diretores de redação dos veículos paulistas. “

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“Diploma: a opinião da chefia (2)”, copyright Comunique-se <www.comunique-se.com.br>, 17/1/2003

Continuei ouvindo alguns diretores de redação de São Paulo sobre a suspensão da obrigatoriedade do diploma de jornalismo – leia ?Diploma: a Opinião da Chefia (1)?. Aí vai a segunda parte da enquete:

Rodrigo Manzano, diretor de redação da Revista Imprensa e professor do curso de Jornalismo da Unifiam-FAAM:

?Pode mudar para pior se assumirmos um discurso pessimista ou para melhor se o mercado mostrar que é inteligente. Poucos recém-formados são bons. Mas o diploma não é um acessório. A faculdade oferece várias plataformas importantes para a profissão, como linguagem, Teoria da Comunicação e História da Comunicação. É importante também para despertar a iniciativa, que as pessoas não sejam simplesmente mandadas nas redações. Muito se fala em ação social e pouco repórter conhece a periferia. Mas estamos dando muito valor para um papel e pouco valor para a formação. Não sei qual vai ser a posição da Revista Imprensa sobre a contratação de não-diplomados; eu não teria nenhum problema em contratá-los?.

Fernando Mitre, diretor nacional de jornalismo da Rede Bandeirantes de Televisão:

?A Bandeirantes segue a lei. Eu sou contra a exigência do diploma. Mas sou a favor de um curso universitário. Por que não uma pós-graduação de um ano em Jornalismo para o aluno que se formou em Economia? No jornalismo especializado isso faz sentido. O diploma obrigatório de jornalismo é uma camisa-de-força?.

Adriano Silva, diretor de redação da Revista Superinteressante:

?A obrigatoriedade não faz sentido. Se o diploma é bom e vale alguma coisa e indica mesmo uma qualidade profissional superior, não é preciso obrigar ninguém a ?comprá-lo?: os contratantes vão ?comprar? naturalmente, por interesse próprio. O resto é dirigismo, regime de cotas, ingerência sindical, a velha mentalidade totalitária e cartorial que nos assola. Que os melhores talentos sejam livres para disputar as melhores posições no mercado – e vice-versa. Carteiraços, reserva de mercado? Não, obrigado?.

Orivaldo Perin, diretor de redaç&atiatilde;o do Diário de S. Paulo:

?O Diário de S.Paulo (assim como os outros dois jornais da Infoglobo: O Globo e Extra) é favorável ao fim da exigência de diploma de Comunicação Social para jornalistas. Mas acatará o que a Justiça decidir. Como sabemos, está em andamento um recurso do Sindicato dos Jornalistas de SP, que poderá derrubar a decisão da juíza Carla Rister. A meu ver, um possível fim da exigência de diploma não revolucionará o meio jornalístico porque, nas últimas três décadas, as faculdades de comunicação mostraram-se capacitadas para formar e preparar bons profissionais. Todos os grandes momentos do jornalismo nos últimos anos foram protagonizados por profissionais que passaram pelas faculdades de Comunicação. Acho que se a decisão da juíza Carla Rister for mantida, será difícil para alguém, com diploma de outras áreas, competir de igual para igual com quem tem diploma específico para a nossa profissão. Se a lei for mesmo derrubada, o Diário vai, claro, contar com a possibilidade de contratar profissionais sem diploma de Comunicação Social. A ênfase na política de contratação não mudará: talento e capacitação profissional continuarão funcionando como critérios básicos na hora de escolher e contratar nossos jornalistas?.

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“Em busca de talentos”, copyright Comunique-se <www.comunique-se.com.br>, 16/1/2003

“Há no mercado de trabalho da comunicação uma área promissora e ainda carente de talentos. É a área de comunicação corporativa, cada vez melhor posionada no staff de empresas e instituições, mas que ainda se ressente de profissionais com experiência e estatura para enfrentar desafios gigantescos e que envolvem negócios, mercado, concorrência, relações institucionais, relações governamentais, imprensa, entidades de classe, comunidade etc.

Na verdade, temos, sim, vários talentos, mas eu arriscaria dizer que em número insuficiente para essa demanda que se avizinha e que tem a ver com os excelentes resultados obtidos por empresas que têm apostado forte num trabalho de comunicação consistente e profissional.

Nosso maior expoente nesta área é, sem dúvida, Miguel Jorge, colega que levou consigo para o segmento corporativo todo o prestígio e capacidade de liderança que tinha nos anos em que dirigiu a redação do jornal O Estado de S. Paulo. Miguel presidiu a Aberje e fez um trabalho histórico na Autolatina e depois na Volkswagen do Brasil, que lhe rendeu o honroso convite para ser o vice-presidente de Assuntos Corporativos do Grupo Santander/Banespa.

Outro expoente é Junia Nogueira de Sá, colega que construiu uma carreira brilhante na grande imprensa, em veículos como Folha de S. Paulo (da qual foi repórter, editora e primeira ombudsman mulher do País), Folha da Tarde (editora responsável) e Exame (editora executiva). Junia, que iniciou-se na área corporativa no Grupo Abril, estava já há três anos na Diretoria de Comunicação Corporativa do Grupo Telefônica no Brasil, mas acabou sendo convidada a assumir a Diretoria de Assuntos Corporativos e Imprensa da Volkswagen, exatamente para ajudar a montadora a retomar o velho prestígio que chegou a ter nos tempos de Miguel. Ali começa nesta quinta-feira (16/1). Ela deixa uma posição confortável – desenvolveu no Grupo Telefônica um trabalho decisivo para a estruturação da área de comunicação e para a mudança de imagem do conglomerado de empresas – para assumir o desafio de desenvolver um forte trabalho institucional para a Volkswagen, num dos mais competitivos mercados do País.

Não podemos esquecer outro nome importante da comunicação corporativa nos últimos 20, 30 anos, que é o de Walter Nori, colega que empreendeu projetos históricos e que sempre foi reconhecido pelo mercado como um dos mais competentes gestores da comunicação corporativa do País. Walter hoje dedica-se à sua própria agência, a WN&P, em sociedade com Monserrat Padilha, mas esteve na própria Volkswagen, Rhodia, Souza Cruz, Scania e Embraer, além de ter presidido a Hill & Knowlton do Brasil e o Grupo DCI/Visão, fora uma passagem pela Comunicação do Governo de São Paulo.

Temos alguns outros nomes de grande experiência em postos estratégicos e influentes, e também 30 ou 40 colegas da nova safra, na faixa dos 30 aos 40 anos de idade. Desses, talvez 50% já estejam ocupando postos diretivos ou de superintendência e os demais ainda frequentam a média gerência, procurando qualificação para vôos mais ambiciosos. Os nomes e currículos desse grupo (que eu chamaria da vanguarda da comunicação corporativa) são conhecidos de muitos de nós, mas prefiro não nominá-los pois certamente acabaria cometendo injustiças, esquecendo de alguém. Mas não são muitos, o que pode ser confirmado pelos mais importantes head hunthers do país, que todas as vezes que se defrontam com a necessidade de caçar algum talento nessa área enfrentam inúmeras dificuldades.

Pela impossibilidade de encontrar o profissional com o perfil ideal na própria área de comunicação corporativa, esses caçadores de talentos muitas vezes acabam convencendo as empresas a apostarem em profissionais de outras áreas. E outras vezes, desistindo de esperar, as próprias organizações resolvem internamente a questão, remanejando alguém de seu staff para assumir ou acumular um cargo considerado dos mais estratégicos.

Campo, como se vê, há. E muito. O que não há, em número suficiente, são profissionais da área empenhados em se preparar para ocupar esse estratégico espaço. Preparo que envolve idiomas, MBAs, cursos de especialização, participação em entidades de classe, circulação em áreas estratégicas como governo e imprensa, preparo intelectual, ambição, imagem pessoal junto a certos grupos formadores de opinião etc. E disposição para assumir, dentro das próprias organizações, outras áreas, expandindo o raio de atuação.

Como, apesar de estratégico, o cargo, na comunicação corporativa, não é essencial à vida das organizações, elas preferem esperar por um profissional até encontrarem a solução ideal. Ainda que isso custe um certo retrocesso em seus projetos, como aconteceu com a própria Volkswagen, que agora está levando Junia para lá.

O fator positivo é que, se são poucos os talentos na comunicação corporativa, eles sobram nas agências de comunicação e elas é que, de certo modo, têm suprido, quando possível, esta falta dentro das organizações.

Ajuda, sem dúvida alguma, embora o ideal seja que a empresa tenha dentro de sua estrutura um profissional com gabarito, talento e reconhecimento para cuidar da gestão da comunicação. E é isso o que um número cada vez maior de empresas tem feito. Os salários e benefícios ofertados, pelo que se pode acompanhar, são muito atraentes.”

“Justiça aos jornalistas não-diplomados”, copyright Comunique-se <www.comunique-se.com.br>, 13/1/2003

“Tenho horror ao papel de vítima. Geralmente é usado por quem o adota para a obtenção de privilégios, como vingança e para o revanchismo mais pueril. Assim como a doença, pode ser uma arma de chantagem. Por isso, nunca me considerei ou vou um dia me considerar vítima do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Paraná. Não lhe quero mal nem nunca pedi qualquer retratação ou indenização, seja de que tipo for. Já disse aqui: cada um sabe o preço daquilo que faz e, sinceramente, repito: hoje sou indiferente à exigência ou não do diploma para ter o registro profissional. Felizmente, jamais precisei dele para botar o leite na geladeira.

O fato é que é impossível para mim não relacionar a nova decisão da juíza Carla Rister com o que sofremos em 1995 durante a campanha do sindicato para que os patrões demitissem jornalistas não-diplomados em inúmeras redações de Curitiba e de demais cidades do Estado. O mais desconcertante: os que lideravam e articulavam a caça de então eram todos meus amigos ou conhecidos, alguns até ex-colegas de redação da sucursal da Folha de Londrina na capital. Mas isso é passado.

Se toco no assunto agora é porque, de certa forma, a decisão da 16? Vara Cível Federal em São Paulo faz justiça a todos os perseguidos pelos sindicalistas. Muitos pais de família e profissionais que sabiam apenas o ofício do Jornalismo foram impedidos de trabalhar ou, no mínimo, constrangidos ao sair de casa. Quase oito anos depois da campanha, corajosamente refutada pelo diretor do Jornal do Estado, onde eu era o editor de Política, ainda me pergunto: o que os sindicalistas ganharam com aquilo?

Uma outra pergunta sempre me rondou nestes anos todos: os sindicalistas eram todos muito ligados ao PT, partido notabilizado por agrupar centenas de perseguidos pelo regime militar. Curiosamente, o decreto-lei defendido por eles havia sido justamente criado pela ditadura tão odiada por todos. Para mim, sempre houve uma imensa contradição nisso. Quer dizer, os que perseguiam utilizavam uma lei criada por uma junta militar, a dos ?Três Patetas?, como dizia Ulysses Guimarães, parte de um regime acusado de perseguir os que a ele se opunham. Talvez por vergonha, ou por simplesmente não saber a resposta, nenhum sindicalista um dia resolveu a questão.

Não vou aqui, entretanto, argumentar contra o diploma. Já disse: o assunto me causa tédio e quem quiser saber o que penso a respeito basta ler outros artigos sobre o tema aqui mesmo nesta coluna. Não quero mais bater-boca com ninguém sobre a questão.

O que aconteceu é que disse aos editores deste portal que gostaria de escrever sobre a decisão da juíza porque não queria deixar passar em branco a oportunidade de, em nome dos que sofreram campanhas similares em todo o país, expressar minha solidariedade a eles e dizer-lhes, publicamente, que, afinal, valeu a pena. A liberdade também abriu seus braços para os não-diplomados. Vida eterna para Carla Abrantkoski Rister.

Nota 1 – Paulo Leite, radialista radicado em Washington e colunista do Offmídia, inaugurou seu blog. É o Filial. Recomendo a leitura.

Nota 2 – A mídia chapa-branca petista continua soltando a franga. Desta vez foi a reportagem do Globo a exibir seu dotes de adulatriz.”

“Fábricas de diplomas”, copyright Comunique-se <www.comunique-se.com.br>, 20/1/03

Fonte: Direto da Redação

“O governo Luis Inácio Lula da Silva começa sob o signo de uma informalidade bem-vinda. 2003 é o ano que pode marcar a quebra de algumas regras e protocolos que nunca fizeram sentido numa sociedade democrática. O uso do ?você?, em vez do ?senhor? e do ?doutor?, por exemplo, começa a ser adotado com suavidade pelas próprias autoridades, que estimulam cordialmente seus subordinados a abolir o caráter de vassalagem no trato do dia-a-dia. Isto, curiosamente, poderia aproximar Brasil e Estados Unidos (ou a língua portuguesa da língua inglesa) na forma de tratamento. Nos EUA, dirige-se tanto ao presidente, na Casa Branca, quanto ao vassoureiro, na rua, com o democrático ?you?.

Entretanto, essa nova fase da vida brasileira, que desabrochou com a eleição de Lula para a Presidência da República, está em cozimento há anos. Primeiro, com a indignação da sociedade brasileira consciente dos abusos e desmandos da elite de direita, apoiada numa ditadura militar corrupta. Em seguida, com o processo de redemocratização que teve seus pontos altos na redação de uma nova Constituição e na destituição — por meios absolutamente legais e democráticos — de um presidente civil eleito pelo povo, com a sua consequente substituição pelo vice, mantendo-se a normalidade do processo.

Durante todo esse tempo, a esquerda — em geral despreparada e, às vezes, açodada — tentou chegar ao poder pela via democrática, sem sucesso. Mas cada insucesso era uma lição a ser guardada para a próxima tentativa. O nível de despreparo da esquerda é maior ou menor, de acordo com a área, e este será um dos grandes desafios da administração Lula da Silva: levar o Brasil adiante, apesar das deficiências estruturais relacionadas diretamente com os quadros que agora sobem ao poder.

Entre as graves deficiências, está a questão do ensino. O brasileiro médio é, em geral, mal informado, não lê jornal, não se interessa pelo que acontece no resto do mundo (a não ser quando o assunto é futebol). E isso não é culpa da população. Esta é uma situação criada pelos desmandos na área do ensino, controlada até agora pela elite de direita — que acabaram criando fábricas de diplomas, destroçaram a noção de responsabilidade que todo estudante deveria sentir diante de seus professores e transformaram as novas gerações em multidões indolentes.

Paralelamente, os quadros de esquerda — inseridos dentro deste mesmo contexto de inanição cultural — foram incapazes, em sua maioria (até mesmo pela sua condição social e econômica de origem) de suplantar estas dificuldades estruturais. Viveram e trabalharam dentro do mesmo panorama e chegaram, preparados como podiam estar, ao poder.

É aí que mora o perigo. Junto com a informalidade bem-vinda de gestos e modos, vem a reboque uma falta de preparo acadêmico que precisa ser rapidamente resgatada pelos mentores da política de educação. É impossível continuar-se ouvindo erros de concordância, de pronúncia, até mesmo de tradução, em cada esquina, em cada cartaz, em cada repórter de TV.

Sabe-se que o Português, assim como o Francês, o Romeno, o Espanhol, etc, são os resultados de um Latim corrompido e, em muitos aspectos, evoluíiacute;do. Afinal de contas, um idioma precisa agregar expressões estrangeiras em seu vocabulário que reflitam novas tecnologias e/ou modismos até então desconhecidos. Absorver a expressão ?drive-thru?, por exemplo, é um fato aceitável na medida em que seu conceito atende à lei do menor esforço, até que se crie uma expressão tão concisa que reflita a mesma idéia — que, em Português, precisaria de muitas palavras (que não caberiam num cartaz de lanchonete). Já ?delivery? pode ser considerada uma idiotice esnobe na medida em que ?pronta entrega? sempre existiu, e não há motivo para mudança, a não ser a necessidade de macaquear.

Por outro lado, existe a preguiça e o total despreparo de pessoas em posições-chave na mídia. Uma pseudo-tradução feita por elas atinge milhões de pessoas de uma só vez, e com o erro cometido, muitas vezes não há margem de correção. E o que é pior: como saiu na televisão, quase todos acreditam que aquilo é o certo. É o caso do infeliz ?estado da arte?, uma expressão ignóbil que traduz ao pé da letra ?state of the art?, que significa ?a última palavra?, ou ?o que existe de mais moderno?. No mercado financeiro, por exemplo, é chique ser idiota e pronunciar esta expressão. Já outro dia, Boris Casoy cochilou e disse no Jornal da Record, assistido por milhões de pessoas, que George W. Bush estava ?doente e cansado? das mentiras de Saddam Hussein. Na realidade, Bush estava simplesmente ?farto? (tradução correta de ?sick and tired?) das mentiras do iraqueano.

Bom, esta coluna já ficou longa demais, e eu preciso sair para tomar o meu cafoço (expressão que mistura café-da-manhã com almoço — ou se o(a) leitor(a) preferir, a popular e bem brasileira mescla do breakfast com o lunch? o ?brunch?. [Âncora, repórter e editor. Trabalhou na Rede Globo, Radiobrás, Voz da América, Rede Manchete, Radio JB e CBS Brasil. Foi correspondente na Casa Branca durante vários anos. Vive e trabalha atualmente em Brasília. É colunista do site Direto da Redação.]”

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