Sexta-feira, 18 de Outubro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1059
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Luiz Zanin Oricchio

Por lgarcia em 03/04/2002 na edição 166

BERLUSCONI vs. CINEMA

"Cinema italiano na corda bamba na era Berlusconi", copyright O Estado de S.Paulo, 31/3/02

"A guerra entre o cinema italiano e Silvio Berlusconi chegou à Cahiers du Cinéma. A mais conhecida revista de cinema do mundo traz um dossiê interessante sobre o assunto, com uma pergunta central que poderia ser formulada da seguinte maneira: ?Depois de vencer a batalha eleitoral, a coalisão de direita e extrema direita comandada por Berlusconi está também ganhando a batalha cultural?? Pelo tom das matérias, a resposta parece afirmativa. Começa-se pelo capítulo mais visível da batalha entre o governo e os cineastas, a demissão do presidente da Bienal de Veneza, Paolo Baratta.

Em solidariedade, o diretor da seção de cinema da Biennale, e portanto organizador do Festival de Veneza, Alberto Barbera, deixou o cargo.

Depois de vários convites e algumas cenas de teatro das autoridades (incluindo consultas aos ítalo-americanos Martin Scorsese e Quentin Tarantino), o suíço Moritz de Halden acabou sendo nomeado para dirigir o festival, decisão que desagradou mais ainda à classe cinematográfica. Moritz, que já foi diretor do Festival de Berlim, é conhecido por suas resistências ao cinema italiano. Nomeá-lo foi a forma pouco sutil encontrada pelo governo para espetar os cineastas locais.

Por isso, o capítulo mais quente do dossiê da revista francesa é, justamente, a entrevista com Barbera, elegante, mas incisiva na análise do momento cultural italiano. Diz Barbera que não foram feitas críticas diretas à sua administração. Mas em entrevistas à imprensa, autoridades ligadas ao ministério da cultura italiano disseram que a mostra do ano passado teria sido ?muito antiamericana, demasiado cinéfila, e étnica demais?.

Traduzindo: teria barrado a entrada do cinema comercial dos Estados Unidos, abrindo espaço demais para o chamado cinema de arte, em especial aquele que vem de países exóticos como Irã ou Coréia ? que têm brilhado nas últimas edições do evento.

Barbera prevê dias difíceis para o futuro. Realisticamente, admite que o consenso popular em torno do governo de Berlusconi é muito forte e a oposição de esquerda parece inoperante para enfrentar a maioria. A declaração é reflexo das palavras do cineasta Nanni Moretti. Dia 2 de fevereiro, na Piazza Navona, em Roma, durante uma manifestação contra o governo, Moretti resolveu lavar roupa suja em público dizendo que com a esquerda que tinha a Itália não chegaria a lugar nenhum. Passou em seguida a ser considerado como uma espécie de consciência moral da nação. Ou pelo menos daquela parte da nação que não votou em Berlusconi. Moretti está bem acompanhado em sua cruzada. A elite do cinema italiano está com ele ? Scola, Bertolucci, Pontecorvo, os Tavianis. Enquanto isso, Franco Zefirelli alinha-se com o governo. Mas mesmo ele protestou quando Moritz foi designado para Veneza.

Jacqueline Risset, tradutora de Dante e escritora francesa, há muitos anos radicada na Itália, tenta explicar o interesse do governo pela área cultural: ?O projeto autoritário global de Berlusconi passa prioritariamente pelo controle das instâncias da magistratura e da cultura.? Bem, é por aí.

Para solidificar um poder duradouro na instável Itália, il Cavaliere precisa apoderar-se, de um lado, do aparelho legal, e de outro legitimar-se culturalmente. Esse é seu ponto fraco, pois governa um país onde a intelligentsia é majoritariamente de esquerda, mesmo que essa esquerda, no momento, esteja tão dividida e perplexa que mereceu o puxão de orelhas público de Nanni Moretti.

Por outro lado, analisa a revista francesa, existe, no interior do governo, uma tensão entre duas tendências. A ultraliberal Forza Italia adota uma posição moderada, enquanto se decidem na justiça as pendências contra Berlusconi (em especial as que se referem a um ?conflito de interesses? pelo fato de ser chefe de Estado e proprietário de uma cadeia de comunicações). A outra força da coalisão, a Aliança Nacional, de Gianfranco Fini, apoiada sobre um modelo fascista à antiga, deseja apoderar-se do controle da cultura que, desse modo, lhe daria a legitimidade que falta ao partido de Berlusconi. É uma interpretação do que está acontecendo.

Segundo o texto da revista, ?Cinecittá, fundada por Mussolini em 1937, faz parte desses territórios simbólicos que os homens de Fini tentarão sem dúvida ocupar?. O formidável estúdio, situado nas cercanias de Roma, e onde Fellini realizou seus grandes filmes, é um desses objetivos. O outro é a televisão italiana, a RAI, e também o Festival de Veneza, o mais internacional dos eventos culturais da península."

 

GLOBO E FUTEBOL

"Contradições", copyright Comunique-se, 31/3/02

"Uma materinha num pé de página no Esporte do Globo semana passada me fez pensar sobre as contradições em que vivem os donos dos meios de comunicação. A tal matéria era sobre um reunião de dirigentes da da CBF com os das confederações na qual fora decidido que o Campeonato Brasileiro de 2002 iria ser organizado pela Confederação em vez de sê-lo feito pela Liga de clubes ? como parecia encaminhado? (aspas do jornal).

Como já comentei em outras eras da Coleguinhas, as Organizações Globo entraram de cabeça no futebol porque este é o maior produto de entretenimento do país e entretenimento é o ramo mais se aproveitará do mundo da comunicação convergente que vem vindo por aí. Só que o Império Global deu a resposta errada àquela famosa pergunta de Garrincha e não combinou com ?os homens?.

?Os homens?, no caso, são os ?coronéis? que dominam o futebol no país (na verdade, dominam os outros esportes também, mas isso não tem a menor importância porque os outros esportes não têm a menor importância no Brasil). O Império acreditou que apenas botando muito dinheiro em cima e ameaçando com o seu poder de quase monopólio dobraria os ?coronéis da bola?. Ledo e ivo engano com se viu.

O sistema que o Império subestimou foi exatamente aquele que ele apóia por ser parte dele: a oligarquia. Como ocorre em outros setores do país ? como a comunicação, por exemplo ? um grupo muito pequeno de pessoas detém o poder completo no futebol. Este poder é representado dentro do Parlamento pela chamada ?bancada da bola? (assim como existe a bancada dos donos de empresas de comunicação, que é muito maior, aliás), usando, dessa maneira, uma instituição democrática para servir uma oligarquia.

A grande contradição que vive o Império ? e seus pares menos poderosos ? é que só um salto de qualidade da sociedade brasileira poderia mudar este quadro e fazer com que eles dessem um salto correspondente em seu faturamento, podendo, assim, se gabaritar para enfrentar a dura concorrência internacional, inevitável em tempos de globalização. Este salto de qualidade social passa, porém, necessariamente, por mudanças radicais em políticas públicas existentes nos últimos 40 anos, que levaram o país à situação em que se encontra ? sem escolas públicas dignas do nome, com um sistema de saúde muito aquém das necessidades, com sistema jurídico fora de realidade, etc ? e que sempre foram apoiadas pelos imperiais e seus liderados.

Uma mudança deste quadro social, uma republicanização do Brasil, faria com, num prazo relativamente curto, muitas questões básicas fossem colocadas em debate. Entre elas certamente estaria a forma de controle público dos meios de comunicação e mesmo o controle cruzado destes meios (você sabe: conglomerados que são donos de diferentes meios de comunicação dentro de uma mesma área). Ora, estes são assuntos que causam acessos de apoplexia em qualquer dono de empresa de comunicação brasileiro, em especial entre os imperiais.

A elite da comunicação está mais ou menos consciente destas contradições e por isso tenta, desde meados da década passada, articular um daqueles acordos de elite que tanto sucesso tiveram no passado para levar o Brasil à quase guerra social em que vive hoje. O pacto está montado em torno da elite paulista, mas o problema é tão grave que, mesmo contra a vontade, os barões da imprensa estão tendo que apoiar pessoas nas quais não confiam inteiramente, no caso do ministro da Saúde, José Serra, cujo passado causa muito desconforto aos barões. A alternativa, porém, seria a isenção que, no entanto, teria o mal de dar uma real chance de vitória a pessoas ou grupos claramente identificados (não sem razão) como inimigos pelos barões.

E assim vai indo o baronato da imprensa. Um acordo com candidato mais à esquerda, mas ainda confiável aqui; uma campanhazinha em favor da inclusão digital ali; uma tentativa de acerto com a oligarquia que domina um setor da vida nacional (como o futebol) acolá… Uma situação que tem tudo para ser insustentável a médio prazo e pode condená-los da mesma forma.

Picadinho

Melhora ? Vai ver o meu nível de exigência está caindo, mas achei surpreendentemente sóbria a cobertura daquela cretinice cometida pelo MST. Certo, houve o escândalo de praxe, mas não foi tão ruim como teria sido anos atrás (até hoje me lembro daquela tentativa feita em 86 de atribuir ao José Genoíno uma parte da responsabilidade de um assalto realizado em Leme, SP, por uns sujeitos que diziam fazer parte do PCBR). O PT teve seu espaço para dizer não tinha nada com aquilo e até houve menção à estranha omissão da Abin (embora não com a devida insistência, mas aí ainda seria meio demais para a nossa mídia). Enfim, foi um passo na direção certa. Espero que este caminho continue a ser trilhado quando o pega-pra-capar começar a partir de agosto.

Mais movimento ? O bravo Chico Júnior assume dia 6 a Coordenação de Comunicação do governo do Estado do Rio, que até o fim do ano pelo menos fica nas mãos de Benedita da Silva. Para sua sub, Chico leva a também gente finíssima Salete Lisboa.

Museu ? Nesta terça, dia 2, será inaugurado em Niterói o Museu da Imprensa Brasileira. Ele ficará na sede da Imprensa Oficial do Estado do Rio de Janeiro, em Niterói (Rua Marquês de Olinda, n.?29, Centro) e será o sétimo do mundo no qual estará documentada da história da imprensa (no Brasil, há ainda outro em Brasília, mas só da Imprensa Oficial)

Outro racha ? Depois que as concorrentes da Estrela da Morte chutaram o balde e criaram a União Nacional das Emissoras e Redes de Televisão (Unert) para concorrer com a Abert (embora eu ache que agradinhos aqui e ali possam fazer as duas andarem de mãos dadas na maior parte dos assuntos), as rádios também estão pensando em pular fora da Associação.

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