Domingo, 19 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

PRIMEIRAS EDIçõES > A CASA DAS 7 MULHERES

Luiz Zanin Oricchio

Por lgarcia em 15/01/2003 na edição 207

A CASA DAS 7 MULHERES

“História na tela grande e na pequena”, copyright O Estado de S. Paulo, 12/01/03

“Não deixa de ser coincidência a Revolução Farroupilha aparecer como tema de um filme em 2002 e uma minissérie em 2003. Ano passado, dois gaúchos, Beto Souza e Tabajara Ruas, assinaram Netto Perde Sua Alma, baseado em romance de um dos diretores, Tabajara. Agora, é a Globo que lança A Casa das Sete Mulheres. As relações não param por aí. O ator Werner Schunemann, que no filme interpreta o general Netto, na TV vive Bento Gonçalves.

A série pode ser tomada como sintoma da volta do interesse pela História do País. Tem precedentes. Em 1985, a própria Globo apresentou O Tempo e o Vento, baseado na trilogia de Érico Veríssimo, e, em 1993, Agosto, tirado da obra de Rubens Fonseca. Mais recente, em 1997, houve a microssérie Guerra de Canudos, oriunda do filme homônimo de Sérgio Rezende.

Ok, sintoma de volta do interesse, mas fica a pergunta: de que História está se falando? A Casa das Sete Mulheres, assim como O Tempo e o Vento, Agosto e Guerra de Canudos, apresentam personagens ficcionais vivendo em período histórico real. Interagem contra um pano de fundo verídico, e as épocas retratadas não são escolhidas ao acaso. São marcadas por episódios palpitantes, decisivos para o País. Pode ser uma revolução, o período conturbado pela morte de um presidente, o massacre emblemático nos primórdios da República.

No caso de Netto Perde sua Alma e A Casa das Sete Mulheres toca-se num ponto delicado, o caráter separatista do movimento. No filme, a discussão é contornada com a afirmação de que o general e sua gente eram republicanos e abolicionistas, antes de serem separatistas. Explicação que não impediu recepção ufanista quando o filme foi exibido no Festival de Gramado, na serra gaúcha. Houve ovação no momento em que apareceu a bandeira da República Rio-Grandense, fundada por Netto.

É cedo ainda para ver como o assunto vai aparecer em A Casa das Sete Mulheres. A tendência dominante – em filmes e na TV – é que o pano de fundo histórico fique cada vez mais recuado. Assim, o que interessa é mais a intriga entre os personagens do que o tempo e as circunstâncias em que vivem. Sobretudo se tempo e circunstâncias se prestarem a interpretações polêmicas. Ainda mais quando se quer garantir ibope no País inteiro e portanto não se pode desagradar ninguém.”

“?Casa? se perde entre épico e nervos femininos”, copyright Folha de S. Paulo, 9/01/03

“Quase todo épico, noves fora Francis F. Coppola e o horror da selva, fica meio chato no mundo audiovisual. Roupa demais, batalha demais, sangue demais, imitações de Shakespeare, machos demais, fêmeas de menos. Será que o gênero nasceu para ser copyright, domínio exclusivo de Homero? Acho que sim.

?A Casa das Sete Mulheres?, nova série da Globo, começa bem pela contabilidade das saias. Ora, o desequilíbrio de pares assassina, a espadadas, o drama, o conflito, a imitação mínima da vida na TV. Com sete, o número da história da infâmia e da mentira (e tantas outras auxiliares…), pode até ser que o drama se multiplique.

E Jayme Monjardim (diretor) que não se livra de ?Pantanal? [novela da extinta Manchete? que conduziu. Limpa nossas vistas com paisagens que mais parecem aqueles quadros da Praça da República. (?Mas é lindo!?, aquiesce minha mãe, ao telefone, no momento em que vejo a TV). O diretor deve ter acertado. Minha mãe não é Walter Benjamin, mas nunca errou na tal narrativa de afetividade popular.

O pano de fundo é a brava Revolução Farroupilha (1835-1845). Um bando de gaúchos decentes, machos e honestos enfrentaram a guarda imperial, sedenta por tributos. A taxa sobre o charque, a carne-seca, foi o estopim. Aliás, a mais linda paisagem de Monjardim é aquela das mantas de charque, água na boca, deliciosa metonímia fiscal da guerra de todos os farrapos.

As mulheres põem as ansiedades em uma guerrilha de nervos, mas carecem de premonições para sustentar a trama. A atirada ruivinha (Rosário, por Mariana Ximenes) esquece o épico e a filiação herdeira de Bento Gonçalves -e se joga nos braços do primeiro mancebo que aparece. Das meninas, a melhor no primeiro capítulo é a narradora Manuela (Camila Morgado), a quem o destino reserva o herói Garibaldi.

Na inauguração, o diário da narradora e as premonições (ah, o futuro) salvaram a narrativa. Sem carecer das paisagens amaciantes e da musiquinha chata, sem tuiuiús pantaneiros, que seguem os heróis. Se gastaram muita grana com cenas de batalhas, problema da pretensão global. O drama das mulheres já seria superior a qualquer sangue. Bastava o já citado diário, e as tintas de uma espera à Tchecov, o escritor russo que mais entende disso, para dizer tudo.

A Casa das Sete Mulheres, Quando: de ter. a sex., na Globo (o horário varia entre 22h35 e 23h05″

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