Terça-feira, 21 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

PRIMEIRAS EDIçõES > OS MAIAS

Luiz Zanin Oricchio

Por lgarcia em 07/02/2001 na edição 107

QUALIDADE NA TV

OS MAIAS

"Apuro cinematográfico pode afastar telespectador", copyright O Estado de S. Paulo, 4/02/01

"Neste mesmo jornal já se lamentou que o povo não estaria comendo com a devida voracidade o fino biscoito que lhe é ofertado. Quem assim escreveu foi o excelente crítico de TV Gabriel Priolli, constatando que, apesar da óbvia qualidade, a minissérie Os Maias não atinge os índices esperados de ibope. De fato, seria muito bom que uma atração baseada num clássico como Eça de Queirós, dirigida por um craque como Luiz Fernando Carvalho e interpretada por um elenco talentoso e heterogêneo, atingisse os mais altos índices de audiência. Paciência, não é assim. Aliás, em geral não é assim.

Verdade, ‘finos biscoitos’ (a expressão, nunca é demais lembrar, deve-se a Oswald de Andrade) às vezes são consumidos com gosto e devoção. Mas é raro que aconteça. Por exemplo, Auto da Compadecida, na mesma Globo, atingiu uma platéia bem maior. Transformado em filme e exibido nos cinemas, tornou-se o maior público brasileiro do ano passado, passando à frente do indefectível filme da Xuxa, chamado de Xuxa Requebra, sim senhor. O que aconteceu com o Auto?

Bem, raciocínios sobre fracassos e sucessos são sempre hipotéticos. Ninguém tem a fórmula, mesmo porque, se tivesse, seria mais rico que Bill Gates.

Mas, enfim, não custa nada pensar a posteriori. Auto da Compadecida talvez venha de um texto de origem mais adaptável ao gosto nacional. Deve-se isso, com toda probabilidade, ao tom pícaro, tomado da farsa medieval, e reciclado no nordeste do País pelo talento imenso de Ariano Suassuna. Texto enxuto, engraçado, mordaz, no qual Ariano atinge aquele ponto ideal (rarissimamente alcançado) que agrada tanto ao gosto popular quanto ao refinado. Já se disse – e faz sentido – que o herói João Grilo, vivido por Matheus Nachtergaele, evoca aquele tipo weberiano do safado simpático, que contorna as situações sem chegar ao conflito, intermedeia os contrários, sempre levando alguma vantagem pessoal. Nem é preciso dizer o quanto esse tipo de obra se adapta a certa auto-imagem nacional, equivocada ou não.

Esse tipo de obra, de ótima qualidade e fácil comunicação, contribui para embaralhar os limites elitistas do high e do lowbrow, o que é ótimo. Enfim, são biscoitos que se adaptam a paladares heterogêneos. Ok, o texto de Ariano é ótimo, mas a adaptação de Guel Arraes, por sua agilidade, ênfase no tom cômico e concentração das situações, enfim, por seu poder de síntese e frescor, também deve ter contribuído muito para o sucesso da série.

Por sua própria natureza, Os Maias é mais difícil. A obra original circula em clima depressivo, pesado, angustiante. No livro, esse tom é temperado, mas apenas às vezes pela ironia de Eça, quando introduz certo distanciamento à trama radical sobre a decadência da aristocracia portuguesa do século 19.

Em meio a mortes, preconceitos e incesto, Eça lança mão de uma ou outra cena risível, como a bebedeira ridícula de João da Ega quando abandonado pela amante, ou o confronto de picadeiro entre Carlos da Maia e um poltrão que ofendera a sua honra. É pouco, muito pouco, diante da seriedade do projeto de Eça. Diante do detalhismo, da minúcia e do método empregado na demolição sistemática das esperanças de cada um dos personagens, as eventuais piadas não chegam sequer a refrescar o freguês. Por isso, espertamente, a minissérie resolveu amenizar a trama com um núcleo cômico e situações tiradas de outros livros de Eça. Providência, pelo jeito, insuficiente para tornar a minissérie mais popular e palatável. Pelo menos até agora.

Por outro lado, tem sido elogiado o caráter ‘cinematográfico’ da série. Por cinematográfico, no sentido amplo, entenda-se o cuidado artesanal, que faria contraponto com a produção em linha de montagem típica da televisão. Mas também refere-se, mais especificamente, ao uso de planos, movimentos de câmera, enquadramentos e iluminação típicos da tela grande e não da pequena.

Não estaria aí o problema, ou pelo menos parte dele? Será que Luiz Fernando Carvalho não tem sido ‘cinematográfico’ demais? Em determinada parte de seu livro Fazer um Filme, Federico Fellini reflete sobre seus trabalhos feitos para TV. Diz ele: ‘Com a luz se escreve o filme, se exprime o estilo. E no entanto, na televisão, esta operação da luz, que para mim é fundamental, não é o coração da própria operação, porque não existe a possibilidade de iluminar os rostos e os objetos no sentido pictórico ou psicológico ou como o autor bem entender para conseguir expressar o que quer. Não, nada de meias-luzes, penumbras, contraluz, esses efeitos nunca seriam vistos mesmo.

Na televisão deve-se ver tudo com clareza’.

Daí, provavelmente, a dificuldade de acompanhar algumas cenas de Os Maias, como por exemplo as do interior do Ramalhete, a soturna moradia da família, que na telinha pequena aparece escura como a caverna de Platão. Preocupado em fugir ao clichê publicitário, que ilumina cada canto do quadro, talvez Carvalho tenha caído no exagero oposto. O que é pena, porque dificulta a fruição de uma série que é, desde já, uma das melhores atrações apresentadas pela TV aberta nos últimos tempos."

"‘Qualidade’ derruba ibope de ‘Os Maias’", copyright Folha de S. Paulo, 4/02/01

"Produção requintada, atores de primeiro escalão, cenários estonteantes, reconstrução praticamente perfeita da Lisboa do século 19, diálogos escritos por um dos maiores escritores da língua portuguesa. Talvez sejam justamente esses os motivos pelos quais a minissérie ‘Os Maias’, uma das produções mais caras já feitas pela Rede Globo, está com índices baixíssimos -para os padrões da emissora- no Ibope.

Desde que estreou, no dia 9 de janeiro, a minissérie, baseada no romance de Eça de Queirós, dificilmente consegue superar a marca dos 20 pontos de audiência (cada ponto equivale a 80 mil telespectadores na Grande São Paulo). Em alguns dias, não passou de 14 pontos. A meta da Globo para a atração era de 30 pontos.

As explicações para o insucesso inicial da minissérie -que parece estar tornando-se uma tradição, a exemplo do fracasso de ‘Aquarela do Brasil’ em 2000- são basicamente duas. A primeira seria os incidentes ocorridos nos primeiros capítulos, que teriam afugentado os telespectadores.

O capítulo de estréia não foi finalizado a tempo e foi ao ar com 20 minutos a menos e problemas de sonorização. O diretor da produção, Luiz Fernando Carvalho, enfrentou rumores de que seria afastado da direção por causa disso, mas defende-se: ‘Tive apenas dois meses e meio desde que fui avisado de que iria dirigir a série. Havia pedido mais tempo’.

A segunda explicação, apontada pelo diretor e pela autora da minissérie, Maria Adelaide do Amaral, é a de que o público brasileiro não estaria preparado para ‘tanta qualidade’ nem para cenas e diálogos longos, com pouca ação.

Para Carvalho, os baixos índices da série significam que ‘é um momento de fazer uma reflexão sobre a TV brasileira’. ‘O nível da TV está muito baixo, e pode ter acontecido um estranhamento com a linguagem da minissérie, com o português bem falado e com uma narrativa visual do século 19 em Portugal. O Brasil tem um público emburrecido por uma massificação’, dispara o diretor.

Maria Adelaide do Amaral endossa o discurso de Carvalho. ‘O ritmo lento, sem dúvida, deve ter assustado a maior parte dos telespectadores. Talvez o público não esteja acostumado a ver tanta qualidade na TV, mas se acostumará. E, rendido ao bom gosto, talvez exija a mesma qualidade dos outros programas de televisão que lhe são oferecidos.’

A Globo adota um discurso mais brando. Segundo Luís Erlanger, diretor da CGCom (Central Globo de Comunicação), ‘qualidade e audiência são absolutamente compatíveis e tem sido essa a nossa meta. A tendência é de que a audiência cresça’.

De qualquer maneira, as semanas vão passando -já foram exibidos 16 dos 44 capítulos-, e nada de o público brasileiro ‘se acostumar’ às cenas longas e diálogos requintados. A minissérie não conseguiu chegar nem perto da audiência do primeiro capítulo (média de 32 pontos).

A Globo percebeu isso a tempo e, às terças-feiras, em vez dos capítulos especiais de ‘Os Maias’, que iam ao ar logo depois da novela das oito, colocou no ar a exibição dos ‘melhores momentos’ de ‘Casseta & Planeta, Urgente!’ -mesmo tendo proibido reprises nas férias.

Além-mar

O mau desempenho da série já chegou ao conhecimento do público de Portugal, onde ‘Os Maias’ deverá ser exibida em breve. Há alguns dias, o jornal português ‘Correio da Manhã’ publicou, sob o título ‘‘Os Maias’ vão de mal a pior no Brasil’, que, ao iniciar-se a série, ‘metade dos telespectadores sintonizados na Globo ou desligam os seus aparelhos ou trocam de canal’.

Segundo o jornal, ‘é difícil encontrar uma explicação única e cabal para a falta de entusiasmo do público brasileiro, que não se tem deixado influenciar nem pela campanha promocional maciça que a Globo tem feito para a série’."

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