Quinta-feira, 19 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

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Luiza Nagib Eluf

Por lgarcia em 20/10/2000 na edição 100


"Cinqüenta anos de televisão", copyright Folha de S. Paulo, 13/10/00

"A televisão brasileira levou ao ar seu primeiro programa em 18 de setembro de 1950, pela Tupi de São Paulo, comandada por Assis Chateaubriand.

Naquela época tudo era muito diferente. A programação, toda ao vivo, dependia de improvisação, de criatividade e de muito esforço dos profissionais que iniciavam uma nova era. As câmeras eram fixas, não podiam acompanhar os artistas. Costumava-se marcar o lugar de cada um com um ‘x’ feito com giz no chão, pois qualquer movimentação desavisada poderia prejudicar o foco.

No princípio, todos os erros cometidos acabavam sendo transmitidos, não havia como cortá-los antecipadamente – a gravação em fitas só veio na década seguinte. As propagandas também eram ao vivo, o que obrigava os protagonistas dos comerciais a morar o mais perto possível da sede da empresa de comunicação para a qual trabalhavam. Eles tinham que entrar no ar várias vezes ao dia, repetindo a publicidade dos produtos, de forma que precisavam ficar disponíveis o tempo todo.

Na década de 50 a televisão tinha alcance limitado e os aparelhos custavam caríssimo. Nos anos 60, os aparelhos começaram a ser fabricados no Brasil e seu preço caiu, possibilitando o crescimento do público e o surgimento dos programas de auditório. Começaram, também, as gravações em videoteipe, o que favoreceu o surgimento das redes. Um mesmo produto passou a ser utilizado por mais de uma empresa.

O regime militar de 1964 pegou a televisão em fase de expansão e acabou tolhendo seus movimentos, instituindo a censura. Mesmo assim, a industrialização e as novas tecnologias trouxeram grande evolução ao veículo, com imagens em cores e efeitos eletrônicos.

As telenovelas foram, desde sempre, a preferência nacional. Habituado a ouvir os dramas interpretados pelos artistas no rádio, o público vibrou com as imagens trazidas pela TV, imortalizadas com a novela O Direito de Nascer, dentre outras.

Nos anos 70, a Rede Globo alcançou a liderança de audiência em todo o país, tanto na dramaturgia quanto no jornalismo e nos programas de humor.

Na década de 80, com o término do regime militar, os programas jornalísticos ganharam maior destaque e conseguiram se afirmar como preferidos do público. A manipulação política da TV ganhou ainda maior força e foi em decorrência do enorme poder de comunicação do veículo que um político pouco conhecido conseguiu se eleger presidente da República em 1989.

Os esportes, com ênfase para o futebol, passaram a ocupar grande parte da programação. Nos anos 90, com as transmissões via satélite e a consolidação das TVs a cabo, tornou-se possível assistir a jogos de todo o mundo durante as 24 horas do dia.

Com seu inquestionável poder de indução do comportamento social e individual e diante do abuso na exibição de programas ‘apelativos’, o Brasil se vê, hoje, às voltas com questões ligadas à qualidade da programação. A guerra pela audiência que se instalou entre as concessionárias de canais e a subserviência ao ibope tiveram consequências nefastas. Os limites fixados pela ética e pelo respeito à dignidade humana foram transpostos em nome da audiência. Acabaram sendo trazidas a público as piores mazelas das famílias, as aberrações físicas e mentais de alguns desafortunados, a exploração impiedosa de crianças, a bestialização da sexualidade, a crueldade gratuita, a violência injustificadamente exacerbada.

Este ano, porém, é preciso rememorar os feitos dos pioneiros da televisão no Brasil. É uma justa homenagem àqueles que ousaram iniciar um trabalho nunca realizado anteriormente por ninguém. Uma tarefa difícil, com pouca tecnologia e muita dedicação, para que o país pudesse ter, hoje, uma tradição e uma verdadeira escola de televisão.

Para enaltecer a importância dos pioneiros brasileiros, foi promovido um evento, na Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo, em 28 de setembro último, para o qual foram convidados todos os artistas que desbravaram o caminho ainda íngreme do mais importante veículo de comunicação. Dentre eles, como convidados ou organizadores, Hebe Camargo, Lima Duarte, Vida Alves, José de Vasconcellos, Geórgia Gomide, Agnaldo Rayol, Tarcísio Meira, Lolita Rodrigues, Sônia Maria Dorce, Alfredo Nagib.

Na breve retrospectiva que foi apresentada ao público durante o evento, surgiram cenas do Repórter Esso, do Chacrinha, do palhaço Arrelia, do Vigilante Rodoviário e seu pastor alemão, da Família Trapo, dos festivais de música, enfim, das marcas que consolidaram a qualidade de nossa televisão.

Infelizmente, não foram nomeados todos os pioneiros presentes, aqueles que tiveram a sorte de estar vivos para comemorar a passagem do tempo. Era o mínimo que eles mereciam. No entanto, o evento serviu de base para reflexão. Nós, que já fomos tão bons em termos de programação televisiva, não precisamos, depois de 50 anos, nos curvar ao mau gosto, à violência e à baixaria.

Que estes 50 anos tragam melhor qualidade e mais honestidade para a programação. Se não por orgulho profissional, pelo menos por respeito ao público e àquilo que já fomos capazes de fazer. (Luiza Nagib Eluf, 44, é procuradora de Justiça do Ministério Público de São Paulo. Foi secretária nacional dos Direitos da Cidadania do Ministério da Justiça – governo FHC)"

"A arte de vender sabontete", copyright O Estado de S. Paulo, 15 /10/00

"Silvio de Abreu: ‘A televisão é honesta: a cada 15 minutos ela interrompe os programas para dizer: ‘Nós estamos aqui para vender extrato de tomate e sabonete’. Não se deve cobrar dela uma função educativa, porque a vocação dela é ser comercial’. Paulo Autran: ‘O teatro é a arte principalmente do ator, o cinema é do diretor e a televisão, do patrocinador’. René Clair: ‘Um meio tão poderoso quanto a televisão não pode ser abandonado a pessoas que só pensam em vender um produto qualquer’. As três frases constam do recente – e excelente – Almanaque da TV, do roteirista Ricardo Xavier, o Rixa, e são trazidas aqui como elementos para a análise do último programa da série TV Ano 50, exibido no sábado retrasado, que teve por tema as cinco décadas da propaganda na TV brasileira.

Se é a TV é honesta, como diz Silvio de Abreu, quando interrompe a programação para exibir o que realmente lhe interessa – a publicidade, que lhe traz o faturamento -, então a Globo foi de uma ética cristalina nesse especial. Ao longo de uma hora, ofereceu aos telespectadores um espetáculo que terá sido a quintessência da televisão comercial, posto que os filmes com apelos de consumo estavam dentro e fora do programa, nos blocos de conteúdo e nos intervalos, misturados a tal ponto que não foi fácil identificar quem pagou a conta e quem simplesmente ganhou mídia gratuita. O programa homenageou os comerciais famosos da TV, considerando, corretamente, o quanto eles se incrustraram na memória afetiva do público e quão interessantes podem ser alguns desses filmetes, que prestam tributos a extratos de tomate, sabonetes, ao reino da mercadoria. Mas houve algo a mais, um certo regozijo, uma satisfação especial da emissora, ao celebrar o que é para a TV comercial, mais do que o seu meio de subsistência, a sua própria razão de existir.

O casal Unibanco no cenário do Fantástico; o gênio dos refrigerantes Antarctica no estúdio de Fausto Silva; o Edgar ‘Boko-Moko’ na bancada de Jô Soares – o programa propôs uma inversão de papéis, ou a anulação deles, trazendo as estrelas dos intervalos para apresentar blocos de comerciais, agrupados por temas e sem preocupações cronológicas. Em clima emotivo, recordou cachorrinhos da Cofap, pintinhos da Zorba, melissinhas da Grendene. Fez rir com galãs de novelas em comerciais antigos e não esqueceu do filme mais odiado pelas crianças dos anos 60, aquele dos cobertores Parahyba que mandava todos para a cama, quando entrava às oito da noite. Fechou num quase editorial, um longo e sincero agradecimento aos profissionais da propaganda, os verdadeiros astros do vídeo. Mais do que nunca, a televisão deu razão à sentença de Paulo Autran, fazendo-se arte pura do patrocinador.

O problema é que, como diz René Clair, a TV é algo sério demais para ser deixada apenas nas mãos de quem deseja vender alguma coisa. Foi por essas mãos que ela começou, em 1950 (Antarctica, Laminação Pignatari e Moinho Santista financiaram a instalação da TV Tupi) e é por elas que subsiste desde então, contribuindo em larga medida para a formação, a informação e o divertimento do povo brasileiro, mas com enormes e notórias limitações, distorções e até aberrações. Reconheçamos, pois, o papel da propaganda na construção da nossa TV, admitamos a sua inabalável vocação comercial, mas, mesmo quixotescamente, ignoremos o conselho de Silvio de Abreu. Sigamos cobrando dela mais responsabilidade com a educação e a cultura. É só o que lhe falta vender ao público, com a competência que tem. (Gabriel Priolli é jornalista, professor universitário e diretor da TV PUC)"

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