Segunda-feira, 20 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

PRIMEIRAS EDIçõES > O FÓRUM DE BOVÉ

Luís Fernando Verissimo

Por lgarcia em 07/02/2001 na edição 107

O FÓRUM DE BOVÉ

"Mé", copyright O Estado de S. Paulo, 30/01/01

"Um dia, não se sabe como nem por que, os carneiros começam a falar. O primeiro caso é na Austrália: um está sendo tosado e quando o aparelho pinica a sua pele solta um ?Ai!? e depois um ?Cuidado, pô?, ou o equivalente em inglês australiano.

Depois surgem notícias de que um fazendeiro americano flagrara um grupo de carneiros cochichando entre si. Tinham parado ao ver o fazendeiro, e disfarçado, mas o fazendeiro ouvira o bastante para desconfiar que estavam tramando alguma coisa, talvez uma fuga. O certo é que falavam, ou cochichavam, como gente.

Depois é num abatedouro, na Europa. Quando chega a sua vez de ser abatido, um carneiro começa a gritar ?Não! Não!? e tem que ser retirado da fila para não agitar os outros. É o único carneiro do lote a ser sedado antes da execução.

Algumas semanas depois, não um, mas vários carneiros protestam em altos brados antes de serem abatidos. Gritam coisas desconexas, mas é claro que têm uma noção do fim que os espera, e, se sua argumentação é confusa, sua inconformidade é clara.

Um pastor da Nova Zelândia conta que passou a conversar com seus carneiros depois que um, para a sua surpresa, lhe disse ?Bom dia?. Confirma que nenhum tem um discurso, assim, muito coerente, dada a sua pouca familiaridade com a fala, e alguns recaem num ?mé, mé? automático enquanto tentam sistematizar o pensamento. Mas, se eles não têm uma idéia definida do que querem, sabem bem o que não querem. Não querem mais ser tratados como carneiros.

Instala-se o pânico, primeiro na indústria da carne (como se não bastasse a vaca louca, agora o carneiro loquaz!), depois em outros setores da economia mundial. Se os ovinos falam, o que impedirá os suínos de também se manifestarem? E os bovinos de pedirem a palavra? E se a rebeldia se alastrar pelo mundo vegetal? E se as árvores inventarem de gemer de dor e gritar slogans ambientalistas à mera aproximação de uma motosserra? Em breve todas as comodidades do mundo estariam dando palpite sobre o seu próprio destino.

Seria o caos.

Alguns analistas sustentam que os carneiros falantes são um fenômeno passageiro. Outros dizem que só falar não dá aos carneiros nenhum poder, e que eles podem continuar sendo tratados como carneiros – embora, claro, a velha passividade fosse preferível à nova tagarelice, e os protestos na hora da morte peguem mal em termos de RP. E, afinal, as manifestações de carneiros são esparsas, em lugares dispersos, e não são uma ameaça tão grande assim.

– Mas – lembra alguém, dando voz ao grande medo… – E se eles fizerem um fórum?"

"Quem falou em socialismo?", copyright Folha de S. Paulo, 31/01/01

"Pensei que ia ler muitas notícias destacando o lado ?folclórico? do fórum de Porto Alegre: grupos defendendo o sexo tântrico como arma contra a globalização, vegetarianos em luta contra a Internet, coisas desse gênero.

Felizmente, o evento foi pobre em ?factóides? e não motivou muito sarcasmo por parte de seus opositores. Houve, é claro, bandeiras vermelhas, gritos de ?viva o socialismo?, pôsteres de Che Guevara e ataques ao McDonald’s. Não estive em Porto Alegre, mas minha impressão é que o amor a Che Guevara e o ódio ao McDonald’s estão longe de corresponder ao que o Fórum Social Mundial traz de mais importante.

Talvez exista, nos atuais movimentos de resistência ao neoliberalismo, uma certa dificuldade no plano simbólico. Antigamente, era fácil para a esquerda resumir, num único cartaz, num único slogan, o principal de suas reivindicações e utopias.

As velhas efígies de Marx e Engels sintetizavam, num desfile, milhares de páginas de teoria econômica. Os bigodes de Stálin e a barba de Che Guevara apontavam para o modelo de sociedade a ser seguido. Hoje em dia, a imagem de Che sobrevive mais como uma marca, como um ?logo?, como um mito de rebeldia, do que como sinal claro de adesão a um programa de ?socialismo real?.

À falta de novos símbolos, pega-se o que está mais à mão. O mesmo vale para o McDonald’s. O agricultor francês José Bové tornou-se famoso por atacar a lanchonete. Parece-me claro, entretanto, que o que está em jogo não é uma ojeriza gastronômica ao Big Mac, e sim uma necessidade ?midiática?, um ato simbólico, que seria errado tomar ao pé da letra.

Simplesmente, num mundo em que a ?marca? vale mais do que a ?coisa?, em que a ?imagem? conta mais do que a ?realidade?, até os movimentos de contestação ao capitalismo terminam usando de suas táticas promocionais.

Se muitas empresas da Nasdaq valem milhões de dólares sem terem até hoje dado um centavo de lucro e se uma camiseta absolutamente comum custa mais caro porque ostenta a sua grife em letras garrafais, sem dúvida é o plano do ?imaginário? que se torna decisivo, e seria provavelmente equivocado tomar os cartazes de Che por seu valor de face.

Embora existam crédulos e fanáticos por toda parte -tanto em Davos quanto em Porto Alegre-, não creio estar assistindo a alguma espécie de confronto ideológico radical, de embate absoluto entre modelos opostos de sociedade.

A coluna diária de Contardo Calligaris sobre o Fórum Social na Folha trouxe uma seção intitulada ?a utopia do dia?. Havia idéias como a de restringir a pessoas físicas a contribuição para campanhas eleitorais ou a de responsabilizar pessoalmente os executivos de uma empresa flagrada em crimes de lesa-ecologia.

Podem ser propostas ?utópicas? no sentido de serem de difícil consecução, mas não me soaram como impensáveis ou malucas. Muito menos ?socialistas? num sentido estrito. Quer-se o perdão da dívida externa dos países periféricos; propõe-se a chamada ?taxa Tobin?, uma espécie de imposto sobre movimentações financeiras internacionais. Até George Soros se disse a favor dessa taxa. Afinal, quem está falando em socialismo?

O movimento em prol da ecologia, a luta contra o trabalho infantil ou pela diminuição das disparidades econômicas internacionais, tudo isso que mobiliza as ONGs tem, com relação ao pensamento esquerdista clássico, não só o fato de ser multifacetado e dificilmente sintetizável numa proposta única, mas também o de se basear num imperativo ético, numa questão de consciência pessoal.

Antes, o que me fascinava no marxismo era seu caráter ?científico?, sua independência diante dos ?bons sentimentos?, seu materialismo, a confiança que tinha na inevitabilidade histórica do seu triunfo.

Hoje, o sinal inverteu-se. Quem exprime fatalismo histórico, quem tem certeza do ?irreversível?, quem se coloca a favor de uma idéia linear de ?progresso? é a direita. Símbolo desse otimismo metafísico é Fernando Henrique Cardoso, criticando o Fórum Social porque não pode haver ?retrocesso? na marcha triunfal da globalização.

Mas é o próprio capitalismo avançado que vai produzindo redes globalizadas de oposição, que vai criando empresas interessadas em melhorar sua imagem diante do consumidor, que vai sofrendo com hordas de imigrantes e com ameças ao ambiente. Os limites ao neoliberalismo vão sendo propostos pelas ONGs numa linguagem que tem mais a ver com ?ética? do que com ?socialismo?.

Acreditar-se ?do bem?, acreditar-se superior aos inimigos no plano ético é sem dúvida perigoso: facilmente se chega ao fanatismo. Mas há um perigo maior do que esse: é quando uma corrente de opinião confia estar a favor do inevitável, acredita que a história haverá de absolver todos os seus crimes. Não é mais a esquerda que acha isso."

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