Terça-feira, 21 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

PRIMEIRAS EDIçõES > SEQÜESTROS

Luís Henrique Amaral

Por lgarcia em 29/08/2001 na edição 136

SEQÜESTROS

“Um sinal de alerta”, copyright Veja, 27/08/01


“O seqüestro de Patrícia Abravanel, filha do apresentador de televisão Silvio Santos, ocorrido na semana passada, é um marco da disseminação em São Paulo de um tipo de crime covarde, violento e ousado. A estudante de administração Patrícia, de 24 anos, arrancada de casa na manhã da terça-feira por um grupo de bandidos, é a vítima de mais visibilidade numa multidão de pessoas que passaram pela mesma experiência nos últimos anos no Estado mais rico do país. Ao mesmo tempo que até a noite de sexta-feira ela era mantida presa pelos seqüestradores, pelo menos outras quatro vítimas estavam em cativeiro enquanto bandidos negociavam com seus familiares. Nos últimos dois anos, houve 154 seqüestros em São Paulo. Só no primeiro trimestre de 2001, foram 41 casos. O secretário de Segurança, Marco Vinício Petrelluzzi, não apresenta os números do período seguinte. Diz que ainda não foram somados. Teme-se que eles consolidem um recorde desmoralizador. O Rio de Janeiro, em 1995, teve 108 seqüestros. Desde então, por uma combinação de fatores em que o mais importante foi a ação contra quadrilhas especializadas nesse tipo de crime, o total diminuiu muito, enquanto as estatísticas de São Paulo disparavam.

Patrícia se preparava para ir à faculdade quando dois bandidos vestidos de carteiro se apresentaram à porta da mansão de Silvio Santos, num bairro luxuoso da capital paulista. Na guarita diante da casa, pediram ao único segurança de serviço que recebesse um pacote. Ao sair do posto, ele foi rendido. O grupo ganhou a adesão de mais quatro homens. Acionaram o botão que abria a porta da garagem e entraram. Não se sabe ainda se foi por coincidência ou não que Patrícia estava justamente chegando a seu carro para sair. Ela foi rendida e levada pelos bandidos. O circuito interno de TV gravou várias dessas cenas e se tornou um dos trunfos que a polícia pode usar para identificar os seqüestradores. Silvio, que estava na casa naquele momento, disse a amigos que o verdadeiro alvo do seqüestro era sua caçula, Renata, de 16 anos. Ele próprio, segundo essa interpretação, seria mais útil livre do que seqüestrado, porque pode comandar as negociações e arranjar o dinheiro do resgate. Esse é mais um indício de que a ação foi planejada por profissionais. Há vários outros. Demonstraram firmeza diante da família, sem violência física, e deixaram para trás um celular pré-pago, através do qual podem telefonar para a casa de Silvio Santos, com menor risco de identificação da origem do telefonema.

A primeira ligação aconteceu no mesmo dia. Pediram resgate de 2 milhões de dólares. Solicitaram ainda que a imprensa fosse afastada do caso. Silvio não divulgou o valor pedido e fez o apelo exigido. A imprensa dividiu-se em dois grupos. Um, menor, formado por veículos paulistanos, deixou de noticiar o seqüestro. Outro grupo, majoritário, publicou as notícias referentes ao caso, que foi descrito em jornais do sul ao norte do Brasil. As Organizações Globo optaram por noticiá-lo com a explicação de que a omissão favoreceria os criminosos. A tese só se sustentaria se os veículos da Globo noticiassem todos os outros seqüestros ocorridos no país, para prestar um serviço público, e não se restringissem aos casos envolvendo gente rica ou famosa, como acontece de fato.

Em decorrência do modo como os seqüestradores agiram, os especialistas acreditam tratar-se de um grupo equipado para adiar uma decisão até o ponto da vitória, mesmo que isso demore. ?Gente que age tão friamente, contra um alvo tão evidente, quer minar a resistência da família e está disposta a esperar muito para receber o resgate?, diz um delegado que já elucidou dezenas de seqüestros. Ele e toda a polícia foram proibidos de dar declarações sobre o caso. Os bandidos demonstraram intimidade com os hábitos da casa. A polícia centrou seus interrogatórios em dez ex-empregados domésticos.

Uma vítima como Patrícia é incomum no cenário dos seqüestros em São Paulo. Na maioria dos casos, os bandidos têm agido contra cidadãos de classe média, gente que está sacando dinheiro num caixa eletrônico ou parada num semáforo, dentro de um carro que nem chama a atenção por ser novo ou caro. ?Entre esses seqüestradores há bandidos tão despreparados que nem planejam o que fazer com a vítima, mas existem também aqueles mais frios, que calculam os riscos e sabem que ficar apenas algumas horas com a pessoa é quase uma garantia de impunidade?, diz o ex-chefe da delegacia contra seqüestros paulista Joffre Sandin, dono de uma empresa de segurança. Nesses casos, os bandidos se satisfazem arrecadando quantias entre 1.000 e 10.000 reais em vários crimes, em vez de tentar alcançar uma bolada num seqüestro, que exige planejamento, local para cativeiro, organização e paciência na negociação. As histórias repetem a do estudante Michel Nakashima Brito, de 21 anos, seqüestrado na periferia paulistana na quinta-feira e libertado quando a polícia recebeu denúncia anônima sobre o local do cativeiro. O pai do rapaz tem uma pequena metalúrgica. ?O pior é que o risco para a vítima diante do descontrole de um amador que não tem um plano alternativo é muito maior?, considera Sandin. Há cinco anos, o empresário Antônio Alves Barril foi assassinado porque uma chuva destruiu o barraco que lhe serviria de cativeiro. Os bandidos não tinham um plano B.

O recrudescimento dos seqüestros em São Paulo não tem explicação simples. O responsável pela Delegacia Anti-Seqüestro do Rio, delegado Fernando Moraes, acha que no Estado os casos diminuíram porque houve combate sistemático às quadrilhas e incentivou-se a denúncia dos locais de cativeiro por meio de telefonemas anônimos. A Anti-Seqüestro é a mais bem equipada instalação policial do Rio. O cerco pode ter feito algumas quadrilhas migrar para São Paulo, onde há um mercado maior de seqüestráveis. Por outro lado, a imensa periferia da capital paulista é virtualmente invasculhável.

A família Silvio Santos também é uma exceção por causa dos poucos cuidados que tomava com a segurança pessoal. Aos 70 anos, Silvio tem um patrimônio declarado de 900 milhões de reais e dirige o próprio carro, um antigo Lincoln Continental branco. Em 1992, sua irmã Sara passou dezessete horas em mãos de seqüestradores. Apesar disso, seu único cuidado foi dotar de equipamento especial toda a frota usada pelos familiares. Silvio tem seis filhas. O Passat em que Patrícia foi levada pelos seqüestradores é blindado e tem sirene e alto-falantes instalados sob a lataria. Numa emergência, é possível gritar por socorro com um potente amplificador. Mas essa providência o apresentador só tomou depois de ter sido vítima de uma tentativa de assalto, recentemente. Há seis meses, abordado por uma moça ao estacionar, Silvio testou parte da aparelhagem. Ligou os alto-falantes e passou a gritar pelo microfone: ?Afaste-se. Afaste-se deste carro?. A moça quase morreu de susto.

Houve uma época em que os seqüestradores agiram pesado contra pessoas muito conhecidas em São Paulo. Assistiu-se, por exemplo, aos seqüestros de Antônio Beltran Martinez, vice-presidente do Bradesco, do publicitário Luiz Salles e do empresário Abilio Diniz, do grupo Pão de Açúcar. Casos assim fizeram crescer o mercado de segurança pessoal no país. Em edição da semana passada, a revista inglesa The Economist registrou que o Brasil ultrapassou a Colômbia, o México e os Estados Unidos como mercado para carros à prova de bala. A frota de blindados no país está chegando a 15.000 unidades. O caso conhecido de maior investimento em proteção é o do banqueiro Joseph Safra, que já teve um sobrinho seqüestrado e não sai de casa sem a companhia de pelo menos dez seguranças. São ex-agentes do serviço secreto israelense, trocados a cada seis meses. Jorge Paulo Lemann, ex-presidente do Banco Garantia, sabe que esses cuidados valem a pena. Há dois anos, o Passat blindado que levava seus três filhos foi cercado por dois carros, também em São Paulo. O motorista de Lemann não abriu a porta e os bandidos dispararam quinze tiros contra o carro. Depois fugiram. Ninguém saiu ferido. Abilio Diniz, que é um dos cinco homens mais ricos do país, também não se descuida mais. Em 1997, seu filho João Paulo foi ameaçado por um ladrão armado ao parar num semáforo dirigindo um jipe Range Rover sem blindagem. Seus seguranças, no carro de trás, reagiram e mataram o assaltante. Na mesma semana, ele comprou uma Mercedes blindada.”

“Quadrilha seqüestra filha de Silvio Santos”, copyright O Globo, 22/08/01

“Seis homens invadiram ontem a casa do apresentador Silvio Santos, dono do SBT, e seqüestraram Patrícia Abravanel, de 24 anos, uma de suas seis filhas. Dois homens estavam disfarçados de funcionários dos Correios e anunciaram a suposta entrega de uma encomenda, imobilizando o guarda na guarita. Depois, renderam outros empregados e levaram a filha do apresentador no seu próprio carro, um Passat importado.

No fim da tarde, um assessor identificado apenas como Eduardo informou que os seqüestradores já tinham feito contato. Segundo ele, os bandidos disseram que não queriam transformar o caso numa mobilização nacional.

Os seqüestradores agiram rapidamente e não chegaram a atirar. Os seis homens chegaram à casa, no Morumbi, no Corsa prata DCD-2235, roubado dia 8. O Corsa foi abandonado na casa e até o fim da tarde de ontem continuava na garagem da casa, sendo submetido a perícia por cinco técnicos do Instituto de Criminalística.

No momento em que o bando levou Patrícia, Silvio Santos e a mulher, Íris Abravanel, estavam em casa.

Por volta das 15h, um buquê foi entregue na casa, provocando o boato de que nele os seqüestradores teriam enviado o pedido de resgate. A informação foi desmentida pelo estudante de hotelaria Osmar Júnior, amigo de Rebeca, irmã de Patrícia, a quem enviara as flores.

Os dois homens disfarçados de carteiros se apresentaram à guarita onde estava o guarda José Izaldimiro Ramos da Silva, que controla a portaria da casa. Disseram que tinham uma encomenda para entregar. Quando o guarda abriu a porta para receber a encomenda, foi rendido pelos dois homens, que logo tiveram acesso ao controle automático do portão de acesso. Os outros assaltantes entraram com o Corsa no pátio da casa.

– Foi tudo muito rápido. Não deu tempo de reagir. Na hora, só pensei em não morrer – disse Izaldimiro, ainda muito tenso.

Izaldimiro passou o dia inteiro com policiais olhando álbuns de fotografias de seqüestradores e tentando ajudar a polícia a fazer retratos-falados dos dois bandidos que se vestiram de carteiros.

Depois que imobilizaram o guarda, os seqüestradores puseram capuzes e entraram na garagem, onde Patrícia já estava. Ela se preparava para sair de casa para ir para à faculdade no momento em que os seis homens invadiram a casa. Ela estuda administração de empresas na Fundação Armando Álvares Penteado, no bairro do Pacaembu.

Patrícia, que também trabalha no SBT, foi rendida pelos seqüestradores quando entrava em seu carro, o Passat azul LOE-0532. Ela foi levada no próprio carro. Outro carro da família, uma caminhonete Cherokee, também teria sido levada pelos seqüestradores. Um dos dois automóveis teria sido localizado por volta do meio-dia no Km 22 da Rodovia Castelo Branco, que liga a capital ao interior. A polícia não confirma a informação.

O delegado Wagner Giudice, da Delegacia Anti-Seqüestro, passou a tarde na casa de Silvio Santos, tomando depoimentos de funcionários, acompanhando as perícias e atento aos telefones, à espera de possíveis contatos dos seqüestradores.

Silvio Santos e sua mulher, Iris Abravanel, estavam na casa no momento do seqüestro. Íris teria passado o dia todo em prantos. Silvio telefonou para o secretário de Segurança, Marco Vinício Petrelluzzi, e pediu ajuda. Solicitou também que a polícia nada divulgasse à imprensa sobre o caso. No fim da tarde, chegou à casa o capitão Edmilson Miranda, pedindo que os jornalistas deixassem o local. Como os repórteres permaneceram, a PM fez um cordão de isolamento na calçada para limitar o acesso dos jornalistas.

Policiais que acompanham o caso dizem estranhar o fato de os seqüestradores conhecerem bem o funcionamento da casa. Os seqüestradores, por exemplo, já sabiam que Patrícia sairia naquele horário. A polícia fez um levantamento de funcionários e ex-funcionários da casa e verificou que pelo menos 15 trabalhadores, entre guardas, serventes e copeiras, foram demitidos nos últimos 12 meses, embora um grande número de funcionários seja antigo.”

 

“Silvio pede afastamento da imprensa”, copyright O Globo, 22/08/01

“O empresário Silvio Santos, dono do Sistema Brasileiro de Televisão (SBT), divulgou ontem à tarde uma nota, escrita de próprio punho, e distribuída aos jornalistas que estavam na porta de sua casa, no bairro do Morumbi, pedindo o afastamento da polícia e da imprensa do caso do seqüestro de sua filha Patrícia. Na nota, Silvio Santos faz um apelo dramático à imprensa: ?Por favor, deixem que nós tenhamos um pouco de paz para esperarmos com paciência os próximos dias de angústia e aflição?.

Eis a íntegra da nota escrita por Silvio Santos:

?Meus colegas, gostaria que vocês me ajudassem neste momento. Prometi aos responsáveis pelo acontecimento que não envolveria a polícia e a imprensa. A vida de minha filha Patrícia depende da minha palavra empenhada e da colaboração de vocês. Quando tudo terminar, prometo que tudo será revelado pela própria Patrícia (se Deus permitir). Por favor, deixem que nós tenhamos um pouco de paz para esperarmos com paciência os próximos dias de angústia e aflição. Que Deus ouça nossas preces e que tudo termine bem. Silvio Santos?.

Antes do apelo de Silvio Santos, o empresário Luiz Sandoval, presidente do Grupo Silvio Santos, telefonou para as principais redações para pedir que o seqüestro de Patrícia Abravanel não fosse noticiado para não atrapalhar as negociações com os seqüestradores.

Em nota distribuída à imprensa, o Grupo Silvio Santos fez o seguinte comunicado, assinado pelo jornalista Carlos Brickman, assessor de imprensa do conglomerado de empresas:

?A família de Patrícia Abravanel solicita, de comum acordo com as autoridades, para evitar violência ainda maior contra ela e para não prejudicar contatos e investigações, que o caso não seja noticiado, em nenhuma forma, em nenhuma hipótese.

?A família de Patrícia Abravanel se compromete a manter a imprensa informada a respeito dos desenvolvimentos do caso. Compromete-se, ainda, a não fornecer informações privilegiadas ou exclusivas a ninguém, distribuindo o mesmo noticiário a todos os veículos de divulgação.

?No momento que as autoridades considerarem adequado, a família informará todos os meios de divulgação, simultaneamente.

?Atendam, por favor, a este apelo: é uma vida que está em jogo.

?Esperando de todos a colaboração que for possível, Carlos Brickman?.”

    
    
                     

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