Sexta-feira, 17 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

PRIMEIRAS EDIçõES > COBERTURA DE GUERRA

Álvaro Bufarah

Por lgarcia em 19/02/2003 na edição 212

COBERTURA DE GUERRA

“A imprensa perto da linha de tiro”, copyright Comunique-se (www.comunique-se.com.br), 14/02/03

“O conflito entre árabes e israelenses sempre rende boas pautas. Correspondentes do mundo inteiro tentam retratar os fatos de uma guerra que faz centenas de mortos anualmente. O radicalismo de ambos os lados gera cenas terríveis a cada semana. Mas, como é fazer esta cobertura sendo um membro desta comunidade? Com a possibilidade de uma bela carreira após estudar em uma das melhores universidades norte-americanas, a jornalista Nour Odeh decidiu voltar para a Palestina para tentar ajudar seu povo.

Filha de diplomatas, ela escrevia para os jornais na faculdade, onde tomou gosto pela comunicação. Nesta entrevista ela conta como foi o início no jornalismo de ?guerra? e como foi acalmar um garoto de 8 anos em uma trincheira para que um grupo de jornalistas não morresse no fogo cruzado. Além disto, Nour declara que a imprensa internacional raramente entra nos territórios ocupados, trabalhando com as informações passadas pelo exército de Israel.

Álvaro Bufarah – Como foi essa sua escolha pela área de comunicação?

Nour Odeh – Eu queria estar em uma profissão onde eu pudesse ajudar. Eu sentia que não havia nada que eu podia fazer para comunicar o que estava passado na minha terra e com o meu povo. Como tenho a habilidade de me comunicar bem na língua inglesa, espanhola e árabe, e como eu sempre escrevia, decidi que tinha que ser parte dessa força de comunicação palestina. Assim comecei trabalhar nessa área.

AB – Você chegou a fazer um curso de comunicação?

NO – Eu na verdade não fiz um curso de comunicação. O que aconteceu é que trabalhava com gente que tinha muita experiência e um jornalista muito importante nesse país, um professor de jornalismo, pensou que tinha habilidade de ser uma jornalista e me apresentou a uma outra jornalista muito importante também. Assim comecei a trabalhar como jornalista porque mais ou menos me descobriram. Eu podia escrever bem e podia me comunicar bem.

AB – Quanto tempo você trabalha na área?

NO – Eu comecei em setembro de 2000.

AB – Que curso você fazia e em qual universidade?

NO – Eu estudava nos Estados Unidos, em São Francisco. Estudava Relações Humanas (Recursos Humanos). Principalmente o que tinha a ver com relações dos trabalhadores dentro de uma instituição. Estudava isso com política, o que me levou a saber como trabalhar com muitos tipos de pessoas, como saber dividir o trabalho e como comunicar isso.

AB – Quanto tempo faz que você voltou para a Palestina?

NO – Eu voltei em 2000. Em dezembro de 1999 eu já comecei a trabalhar na área de comunicação, de jornalismo. Isso me fez sentir e saber que esta linha de trabalho é onde eu tenho que estar e onde eu posso ser criativa e ajudar muito.

AB – Qual é a sua impressão sobre o processo de cobertura desse conflito que você acompanha desde 2000? Como é feita a cobertura disso pelos outros veículos e por você?

NO – É muito difícil. Há muitas regras. A mais importante é a impossibilidade das pessoas, os palestinos especialmente, acessarem e trabalharem nas cidades morando em outra. Então, nós como jornalistas, quando sabíamos de um fato em uma cidade distante 10 a 15 de carro, se tornava uma coisa quase impossível, porque não podíamos estar lá, não podíamos averiguar a realidade com os nossos olhos. Tínhamos que nos comunicar com outros jornalistas que estavam nas outras cidades e trabalhar com eles, conhecê-los bem, conhecer como eles trabalhavam, para poder dar-lhes informação sobre a nossa cidade e obter deles informações sobre o que estava passando no local. Por isso, era muito difícil algumas vezes poder contar toda a história, porque toma muito tempo, e como você sabe as notícias nessa época são de segundos, tem que saber o que está se passando e mandá-la ao público muito rápido. Há outras pessoas que vão comunicar as notícias e essas não vão ser completas. Creio que esse seja o problema principal de cobrir o conflito.

AB – Você estava em Ramalah e agora está em Gaza. Você me deu uma entrevista pelo celular me dizendo que tinha saído para buscar comida e que era uma situação delicada porque havia o toque de recolher. Acabou voltando exatamente na hora em que os soldados estavam fazendo uma revista na sua região. Como era sair nas ruas, em Ramalah, naquela época do cerco a Yasser Haraf? Como foi trabalhar e conseguir sobreviver?

NO – Foi uma coisa que eu peço que nunca mais se repita. Estávamos encarcerados nas casas e não sabíamos o que iria se passar nos próximos segundos. Não tínhamos como movimentarmos e muitas vezes foi difícil comprar comida. Estávamos usando o telefone na maioria do tempo, chamando as pessoas para saber o que estava acontecendo lá fora. Comendo muito pouco, dormindo muito pouco e pensando muito, passando muito tempo escrevendo e falando com outros colegas jornalistas em outras cidades, para saber o que estava se passando nas outras cidades também.

AB – O que é uma notícia importante a ser transmitida para o resto do mundo do ponto de vista palestino? As agências internacionais que cobrem esse conflito palestino – israelense dão as informações corretas? Você acompanha isso pela Internet?

NO – Muitas dessas informações são um pouco deturpadas. A razão é que muitos jornalistas estrangeiros não se esforçam para entrar nas áreas palestinas. Então, muitos deles estão em Jerusalém ou estão em Tel-Aviv e pegam as notícias que o exército traz para eles. As informações que chegam para esses jornalistas são do exército de Israel, que tem interesse de comunicar o seu ponto de vista. Muitos desses jornalistas nunca visitaram essas cidades palestinas. Então nunca sabem se o que estão informando ao mundo são notícias verdadeiras ou não.

AB – Isso ocorre com os grandes canais de televisão, as grandes redes de rádio e também com as agências de notícias?

NO – Sim, normalmente. Eu posso lhe dizer que quando estávamos em Ramalah com esses problemas com o exército israelense atacando o presidente, havia um massacre acontecendo e estávamos pedindo, rogando aos jornalistas estrangeiros para irem a Jenin e ver o que estava acontecendo. Nenhum jornalista foi à cidade, nenhum foi a Nablos, que tem mais de três mil anos de história e que estava completamente destruída. Nenhum deles entrou nessas cidades. Estavam cobrindo as notícias, tirando informações de seus contatos, que são muito poucos, e das notícias que o exército israelense mandava.

AB – E como é a cobertura da imprensa israelense para a população israelense? Também tem outro ponto de vista?

NO – Sim, claro. As notícias que esse povo têm são informações que o exército controla, que os jornalistas israelenses têm, porque também eles não entram nas áreas palestinas. E também temos que dar conta de outra coisa: Israel é o único país que diz ser democrático, mas cada jornalista internacional quando entra no Estado de Israel tem que assinar um documento que diz que o exército tem o poder e o direito de revisar qualquer trabalho, qualquer tipo de notícia que ele vai mandar para fora, e tirar partes delas caso eles achem que não são boas. Eles controlam o tipo de notícias que o mundo, fora da Palestina, tem acesso.

AB – No seu trabalho especificamente, primeiro: como é que você consegue as informações? Segundo, como você determina o que é informação para ser repassada ao público. Como você faz essa triagem das informações?

NO – Alguns dias são um pouco difíceis, porque existem dias que há muitas notícias e como jornalista tenho que decidir o que é importante e o que pode passar. Em outras palavras, são as ações que indicam a situação em geral. Por exemplo, um incidente pequeno, que não indica como é uma vida diária dos palestinos, eu não tenho tempo, ou não posso, ou omito essas notícias, porque o que me importa são notícias que indicam como é a vida diária dos palestinos: como comem, como vão aos colégios, aos trabalhos. Algumas vezes as pessoas não podem ir ao hospital quando necessitam. Esse tipo de história é que me interessa. Porque falam sobre as pessoas com vida, com filhos, com sonhos e que muitas vezes o mundo fora da Palestina não pensa que esse conflito envolve essas pessoas, famílias, emoções.

AB – Como funciona a questão de pagamento? Você trabalha transmitindo informações para veículos de imprensa sobre os palestinos. Para quem você faz essas matérias e você ganha alguma coisa por isso?

NO – Na maioria das vezes não. A verdade é que para mim o que importa mais é comunicar o que está acontecendo. Porque me afeta pessoalmente, como Nour, como mulher, como palestina. Mas há algumas agências com as quais eu trabalho e tenho contratos. E também quando eu estava em Ramalah eu fui a diretora do departamento de comunicação no centro palestino de imprensa, um centro muito importante para os jornalistas. Naquela época eu tinha um contrato. Agora, é um pouco diferente, porque eu sou nova em Gaza e tenho que entender como as coisas acontecem aqui.

AB – E a situação do radicalismo e dos atentados? Como você avalia e notícia desses atentados feitos contra o povo judeu e especialmente os atentados de homens bomba?

NO – Eu entendo que são sem contexto, porque há pessoas radicais palestinas que passam dias e noites pensando em como se matar e acabar com a vida dos israelenses. O que acontece é que há muitas facções que irritam e provocam reações. A mim o que importa é colocar todos estes dados em um contexto. Por exemplo, passava seis semanas sem nenhum atentado, mas as facções do exército israelense não paravam. O povo palestino na sua maioria não suporta isso. Muitas vezes quando há tanto sangue e tantas lágrimas, muitas pessoas já não podem pensar e já não podem sentir quanto de grave são esses atentados. Às vezes, há vinganças e por isso acontecem esses atentados.

AB – Como jornalista você já foi perseguida ou censurada?

NO – Ainda não porque eu não trabalho diretamente com os israelenses. Eu sei que muitos jornalistas estrangeiros, que trabalham diretamente com eles, são censurados. Que há muitas regras que eles têm que respeitar ou podem ser mandados de volta para seus países. Já houve dois jornalistas que o governo de Israel mandou de volta, não permitindo que continuassem a trabalhar. Alguns jornalistas palestinos conseguem autorização para entrar em áreas de conflito, mas acabam perdendo por serem palestinos e por trabalharem em agências de que eles não gostam. Uma das agências em que fui trabalhar pedi essa permissão e, depois de dois meses, me contaram que a resposta foi não, porque sou palestina e morava em Ramalah.

AB – O fato de você ser mulher e jornalista em uma área de assentamento de judeus e palestinos, isso de alguma forma conspira contra? Ou seja, você já foi discriminada pelo fato de ser mulher?

NO – Não, pelo contrário. Mulheres e homem me apoiavam muito e me ajudavam muito porque eles pensavam que ser mulher e ser jovem e estar em um lugar com tanto perigo para ter uma notícia, algumas vezes merece apoio e ajuda. Muitas vezes trabalhei onde havia bombardeio e tiros e era muito perigoso. Às vezes eu precisava de mais ajuda do que os homens, por ser mulher. Essa experiência foi muito interessante para mim.

AB – Nour, você já foi atingida em um desses tiroteios e qual foi à situação mais perigosa que você recorda ter passado?

NO – Houve dois acontecimentos. Um foi em Nablos, em outubro de 2000. Eu estava em uma área onde havia um posto do exército israelense em uma montanha de quase 700 metros, onde eles atiravam e matavam as pessoas que passavam pela mira. Vi mais de 5 jovens ,entre 12 e 14 anos, serem feridos ou mortos diante dos meus olhos. Isso foi muito difícil e perigoso. Outra vez foi em Ramalah, quando estava cobrindo uma matéria e o exército israelense começou a atirar, usando tanques. Estava em uma área onde não podia me mover, não podia escapar. Estava com outros jornalistas em uma área muito pequena e não sabíamos se iríamos sair vivos ou não. Essa situação foi muito difícil.

AB – Nesses dois casos como você consegui sair bem, sem ferimentos?

NO – Graças a Deus…(risos). Tivemos muitos cuidados. Não nos movíamos muito e eu tentava com todas as minhas forças me manter calma. Em momentos de perigo você pode fazer algo que cause sua morte. Então tentava ficar tranqüila, não me mover e analisar onde havia menos perigo. Naquele episódio em Ramalah havia um menino que estava vendendo sorvete com um carrinho. No meio dos tiroteios ele perdeu o carrinho e estava chorando muito, pois era a única forma de conseguir dinheiro para a sua família. Ele quase se matou quando viu o carrinho. Queria ir buscá-lo de qualquer maneira. Depois até escrevi algo sobre esse menino. Tínhamos muito medo que ele morresse para alcançar o carrinho. Graças a Deus conseguimos convencê-lo a atravessar a linha de tiro, prometendo-lhe que iríamos pagar todo o prejuízo caso perdesse o carrinho. Assim, conseguimos mantê-lo a salvo.

AB – E depois vocês conseguiram recuperar o carrinho ou tiveram que pagar?

NO – Graças a Deus conseguimos alcançar o carrinho, porque não estava na linha do tiroteio, mas para alcançá-lo teríamos que passar pelo tiroteio. O menino estava tão desesperado que não estava pensando no perigo. Era muito jovem. Por isso, estávamos com tanto medo por ele. Estávamos dispostos a pagar tudo que queria para não vê-lo morrer.

AB – Quantos anos tinha o garoto?

NO – 8 ou 9 anos.

AB – Esse trabalho que nós fazemos em conjunto acabo te pedindo informações e entrevistas. Como você avalia esse trabalho e essas informações voltadas para o brasileiro, que vê essa relação de conflito muito distante?

NO – Para mim esse trabalho é muito importante porque sabendo como é o povo brasileiro e sabendo quanto apoio o povo brasileiro tem dado para a Paz e as causas justas, me interessa muito como jornalista que os profissinais de imprensa brasileiros tenham acesso às informações. Sei que é muito fácil dar informação do ponto de vista israelense, então me interessa muito dar informação de ponto de vista palestino. Pode ser mais fácil imaginar para um brasileiro como é a vida de um palestino. Eu faço isso para que esse apoio aumente e para que a imagem do palestino como uma pessoa violenta, uma pessoa que não está buscando a Paz, para que essa imagem incorreta desapareça.

AB – Qual a mensagem que você daria aos colegas brasileiros que vão lêem esse material, quando tiverem que cobrir as informações da Palestina?

NO – Eu os convido a visitar o povo palestino, a buscar e saber as informações das pessoas que passaram pela a história. É muito importante para um jornalista que tem um trabalho profissional ir e ver com seus próprios olhos, escutar os sentimentos e a opinião das pessoas que estão envolvidas nesse conflito. Conhecer as pessoas normais, palestinos, as mães e pais, e garotos e idosos para poder sentir a história e comunicar melhor ao povo brasileiro.”

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