Sábado, 25 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

PRIMEIRAS EDIçõES > INTERNET EM CRISE

Álvaro Pereira Júnior

Por Folha de S.Paulo em 07/02/2001 na edição 107

E-NOTÍCIAS

INTERNET EM CRISE

"Euforia da Internet já é passado nos EUA", copyright Folha de S. Paulo, 5/02/01

"A má notícia: acabou a euforia da Internet nos EUA. Foram mais de 40 mil demissões no ano passado e 12.828 em janeiro de 2001. Alguns dos sites mais conhecidos do público faliram, como o pets.com (produtos para animais), ou passam por dificuldades sérias, caso do buy.com (varejista virtual de eletrônicos, livros etc.).

A boa notícia: é tamanho o dinamismo do Vale do Silício, região da Califórnia que concentra as principais empresas do setor, que ninguém fica desempregado muito tempo. Outras companhias de Internet ou de tecnologia reabsorvem rapidamente os trabalhadores. San Francisco, Oakland e San Jose, as três principais cidades da área, mantêm taxas de desemprego em torno de 2%.

‘Era glamouroso demais, não ia durar’, diz a produtora carioca Paola Colombo, que faz transmissões de TV para o site Starmedia.com em San Francisco. Paola, 26, fala do dinheiro fácil, das festas milionárias e dos ambientes de trabalho ultramodernos, pelos quais se pagam os aluguéis comerciais mais caros dos EUA.

Tudo isso se tornou a marca da chamada ‘nova economia’. E San Francisco, que era conhecida como capital dos alternativos americanos, virou o centro do dinheiro.

‘Mas agora mudou para todo mundo, o pessoal sentiu o baque’, comenta a brasileira, que mora em San Francisco desde agosto de 1999. As festas da moda não são mais aquelas bancadas pelos empresários, mas as chamadas ‘pink-slip parties’ (em tradução livre, ‘festas do bilhete azul’).

São reuniões de novos desempregados, em busca de contatos e trabalho. ‘Um amigo deu a definição perfeita’, diz Paola. ‘Muitas dessas empresas, em vez de um plano de negócios, tinham só um plano de imagem.’ Ou seja: apareciam, mas não lucravam.

Paul Saffo, um especialista em tendências de tecnologia, usa uma imagem para comparar o Vale do Silício a Wall Street. ‘No Vale, os prédios das empresas têm dois andares e são cercados de grama. Se alguém se joga lá de cima, no máximo torce o tornozelo. Passa alguns dias em casa, com uma bolsa de gelo, e, quando fica bom, tem novas idéias de negócios.’

Foi o que aconteceu no departamento de Paola Colombo, onde, em setembro passado, houve dez demissões. Segundo ela, quase todo mundo conseguiu outro trabalho em menos de um mês.

Outra brasileira, a analista de sistemas Denise Pilar da Silva, foi uma das vítimas da onda de cortes que atacou forte no fim de 2000 (mais de 10 mil vagas eliminadas só em dezembro).

Denise, 34, trabalhava havia oito meses na área de pesquisas da scientificlearning.com, que cria métodos de ensino para alunos com dificuldades. A seção foi fechada, e ela perdeu o emprego pouco antes do Natal. Como não existem leis sobre demissões nos EUA, dependeu da boa vontade do empregador para conseguir compensações. ‘Mas eles agiram bem: deram um salário, mantiveram o seguro-saúde por um tempo e ofereceram US$ 500 para minhas despesas na busca de outra vaga.’ Ela ganhava pouco menos de R$ 8.000 por mês.

Denise já começou a procurar trabalho, animada por casos de conhecidos. ‘Se a pessoa quiser escolher bem, fica no máximo dois meses desempregada.’ A média nacional é de cinco meses.

O engenheiro eletrônico Júlio da Leão Silva Jr., marido de Denise, é consultor de uma empresa de engenharia de software, também no Vale do Silício, sem ligação direta com a Internet. ‘Fiz entrevista em quatro empresas e fui chamando pelas quatro’, comenta.

Ele lembra que, quando chegou aos EUA, em setembro de 1999, o país vivia o auge da euforia em torno das empresas ‘pontocom’. ‘Muitos engenheiros estavam saindo de empresas tradicionais de computação para se aventurar na Internet.’

Motivo principal: salários, em média, 50% mais altos. Um recém-formado ganha o equivalente a R$ 10 mil por mês, mas, no mundo ‘pontocom’, poderia receber mais de R$ 15 mil mensais, além de ações e outros benefícios. ‘Muita gente foi, e muita gente se arrependeu. Agora, boa parte está de volta às firmas de engenharia.’

Em comparação ao Brasil, esse salários parecem muito altos, mas deve-se ressalvar que o Vale do Silício tem o custo de vida mais alto dos EUA. O aluguel de uma casa pequena, de dois quartos, nunca sai por menos do equivalente a R$ 3.500. Residências de três dormitórios, sem luxo, são vendidas por mais de R$ 2 milhões.

‘O custo de vida foi o que mais me assustou aqui’, diz o paulista Juliano Arana, 23, que, desde junho de 2000, é estagiário do portal Yahoo, em San Ana, também no Vale do Silício. ‘Vim direto de São Paulo e, mesmo com o pessoal falando que aqui está um certo fim-de-feira, tudo é muito, mas muito mais rico do que a gente pode imaginar no Brasil.’"

"Crise ainda não acabou, diz analista", copyright Folha de S. Paulo, 5/02/01

"‘Nem sei se já chegamos ao ponto mais baixo. Ainda há muitas empresas que vão falir.’ A análise é de Paul Saffo, diretor do Instituto para o Futuro, na Califórnia, especializado em previsões de tendências de tecnologia.

Para Saffo, 45, o entusiasmo inicial por tudo o que se referia à Internet não levou em conta um fator: computadores ainda são difíceis de usar, e conectar-se à rede mundial é complicado.

A seguir, os principais trechos da entrevista.

Paul Saffo – Sempre soubemos que era uma bolha. A dúvida era se a bolha era como um balão de gás, ou como uma xícara de capuccino, com diversas bolinhas que estouram rápido. O importante é que, aqui no Vale, já sobrevivemos a outros ciclos de inchaço seguidos de explosão.

Mas será que a revolução ‘pontocom’ acabou? Não. A Internet acabou? Claro que não. É que as pessoas se entusiasmaram demais, cedo demais.

Saffo – Porque o acesso à Internet cresceu, mas não de forma rápida o suficiente. O problema é que computadores ainda são difíceis de usar. Conectar-se à rede é difícil também.

Mas isso está mudando. As conexões estão ficando melhores, estão chegando os computadores sem fio de terceira geração. Isso vai fazer muito mais gente usar a Internet. Não vai ser rápido nem dramático. Mas vai ter mais substância.

Saffo – Dê um exemplo.

Saffo – Mas isso acontece também com jornais, por exemplo. O preço de capa não cobre nada. O dinheiro vem dos anúncios.

Saffo – Buy.com não era uma idéia cretina. Era uma boa idéia que não funcionou. Essa é a natureza do risco. Se o modelo da buy.com não funcionou, as pessoas vão voltar para suas pranchetas e repensar. É a mesma coisa com essas agendas eletrônicas, que viraram moda. Elas não começaram agora. Já estão na terceira geração, e só agora pegaram para valer. Porque só recentemente alguém teve a idéia de fazê-las compatíveis com os computadores pessoais.

Saffo – Vale. Perder um emprego ‘pontocom’ não é tão ruim. É, na verdade, um curso de pós-graduação em negócios para um bando de gente de 20 e poucos anos.

Essa é a primeira geração a ter tanta experiência com tão pouca idade. Temos um estoque de executivos jovens e fantasticamente treinados, com uma carreira inteira pela frente.

Saffo – Bem, a crise ainda não acabou. E nem sei se já chegamos ao ponto mais baixo. Pode acontecer uma conjunção infeliz de vários fatores. Se o rei Fahd (da Arábia Saudita) morrer, Deus nos ajude."

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