Quinta-feira, 23 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

PRIMEIRAS EDIçõES > LEITURAS DE VEJA

Mais uma semana perdida

Por lgarcia em 12/12/2001 na edição 151

LEITURAS DE VEJA

O Banco Real patrocinou pela terceira vez um dos maiores prêmios literários brasileiros. Esta foi a terceira edição do Talentos da Maturidade, que no ano de 2001 teve aumento de 200% de concorrentes em conto e poesia. Quer dizer, a terceira idade quer escrever, procura uma luz ao sol das publicações, mais do que os escassos três prêmios a mais de oito mil participantes. O banco pediu a uma comissão que escolhesse os 20 melhores textos para compor um livro.

Nossa imprensa dá destaque ao fato de os estudantes brasileiros não saberem ler, conforme classificação internacional que infestou os jornais durante toda a semana. E quando, na outra ponta da vida, os velhos, mais do que saberem ler, sabem escrever, o que é que se faz? Omite-se a informação. Ora, é pauta que se presta a muitos desdobramentos. Não será sinal de que antigamente os estudantes aprendiam a ler e a escrever? Que os antigos estudantes não esqueceram e que continuam sabendo expressar-se por escrito? Ou por outra: os netos não sabem, mas seus pais e avós sabem.

Mas o que foi pautado nas seções específicas? Limito-me ao caso mais grave, o da revista Veja, a maior do país, com mais de um milhão de exemplares. Tem ignorado importantes lançamentos ao longo dos anos e esta semana oferece boa amostra da falta de critérios para pautar o tema Livros. Resenha Cozinha Confidencial, do chef Antony Bourdain; No fundo da Raloa, do padre baiano Edmilson Ribeiro; Tratado geral das grandezas do ínfimo, de Manoel de Barros, e Bin Laden, de Yossef Bodansky, em menos de uma lauda.

Gasta uma página da revista em desatinos e frases desconexas, ao lado de juízos equivocados sobre um suposto escândalo: o romance do padre mexeria com sexualidades tidas por ilegítimas, heréticas ? a revista não usa linguagem assim elegante; ao contrário, parece estar resenhando livro coberto de vulgaridades para revista de vulgaridades em que o chulo fosse a língua-padrão. Na página seguinte, Carlos Graieb "dá um pau" ? é como eles gostam de tratar o autor nacional, "dando um pau" ou ignorando ? no poeta Manoel de Barros em resenha que tem esses primores: "Nos últimos quinze anos, Manoel de Barros consolidou sua fama de grande poeta. Quanto tempo vai durar esse engano? Seria bom que ele fosse visto logo em sua dimensão exata: a de autor secundário, com talento para fazer passar por invenção o que é diluição, e por profundidade o que é platitude".

Ora, aplicando-se (a falta de ) critério assim estreito, calcado na opinião de um indivíduo sem formação acadêmica suficiente e sem lastro cultural, pode-se liquidar com qualquer poeta do Ocidente. Todos estão diluindo gregos e romanos até hoje. Mas, afinal, quem é o Sr. Carlos Graieb, para que possamos rever todos os juízos sobre a poesia de Manoel de Barros, cuja qualidade já foi reconhecida por tanta gente superior ao crítico improvisado? Sim, esta é a pergunta mais pertinente a quem não apresenta argumentos, nem análise, só abençoa ou execra, pois está lançando mão apenas da autoridade. Que, aliás, não lhe foi conferida por ninguém. E Manoel de Barros tem ao menos os livros que escreveu como passaporte de quem sabe exercer o ofício.

Enfim, o de sempre: mais uma semana perdida na seção "Livros" de Veja. É lamentável. Foi-se o tempo em que a revista servia de bússola aos leitores. O mercado editorial mudou, conta com cerca de 1.200 editoras, 2.000 pontos de vendas, mas a revista entrega sua página de livros a quem não entende do tema. E o que é mais grave: por complexas razões que desconhecemos, somente são resenhados livros de umas poucas editoras. Naturalmente, quase sempre as mesmas.

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