Segunda-feira, 18 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº991
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Mancha Negra e Língua Negra

Por lgarcia em 05/02/2000 na edição 83

Pretinho é a cor do verão


Parecia que o problema era só com a Petrobras. Mas não: o vazamento de esgotos nas praias da Zona Sul da Cidade Maravilhosa, dias depois, mereceu o mesmo tratamento do desastre ambiental na baía da Guanabara. O ingrediente básico dessas coberturas foi o que se poderia chamar de “indignação concorrencial”. Favorecidos pelo clima meteoro-psicológico da temporada estival.


Um veículo grita “mata!”, o outro sai esgoelando “esfola!” e nos respectivos bunkers ficam todos com as consciências tranqüilas, certos de que cumpriram com raça e brilho o supremo dever de informar.


Nos dois casos o clima de cólera só favoreceu a desinformação. E a solução foi recorrer à informação paga – anúncios. Um vexame. Na raiz dos dois casos, o mesmo problema: falta de repórteres especializados. Ou, para dar o nome aos bois: descaso das empresas jornalísticas com a qualificação técnica dos seus profissionais.


A Petrobras é a maior empresa do estado do Rio de Janeiro mas os veículos jornalísticos que operam no Rio não possuem profissionais especializados em petróleo. Têm setoristas que freqüentam a assessoria de imprensa da companhia, o que não é a mesma coisa. Podem ter opinionistas engajados no monopólio do petróleo – ou, ao contrário, doidos para que se privatize a estatal –, mas não possuem jornalistas de campo, isto é, repórteres que conheçam o setor e sejam capazes de oferecer uma informação séria, desengajada e útil. Seria interessante verificar se o mesmo descaso acontece nos jornais da região de Detroit (estado de Michigan, EUA), onde está a base da indústria automobilística americana.


A cobertura do desastre ecológico na Guanabara deveria ser estudada nas escolas de jornalismo e nos seminários de professores ou comunicólogos. Combinação de linchamento, sensacionalismo e jogadas políticas. Não obstante os anúncios de página inteira pagos pela estatal em espaços nobres dos principais jornais tentando oferecer dados atualizados à medida que iam sendo coletados. Exemplo: na quinta-feira, 20/1, O Globo sapeca em manchete que o ecossistema vai levar de cinco a dez anos para recuperar-se (logo abaixo a dramática foto de um mergulhão coberto de óleo). Três dias depois, o Jornal do Brasil vai mais longe – a recuperação pode demorar até 20 anos (em cima, em oito colunas, a Musa de Verão 2000 que ninguém é de ferro). Os jornais da quinta, 3/2, reproduzem declarações do presidente da estatal com informações menos alarmantes.


Nesse clima em que as fotos e charges dão o tom da cobertura, não é de estranhar que o Presidente de Honra do PT tenha escrito um artigo em O Globo (31/1, pág. 7) pedindo, numa coleção impressionante de absurdos, a interdição imediata da Refinaria Duque de Caxias.


Fenômeno igual deu-se com as praias. A cidade do Rio de Janeiro, maior pólo turístico do Brasil, tem uma cobertura precária como centro metropolitano. Claro, cobrem-se eventos e desastres – informações de emergência – e no verão extasiam-se todos com as musas. Mas não se produz um conhecimento regular para a tomada de decisões.


Os dois jornalões cariocas saíram na quarta-feira, 2/2, com manchetes candentes sobre o estado das praias (situação que começou ainda em janeiro). O Globo, para arrasar, foi adiante: proclamou que o BID (Banco Interamaricano de Desenvolvimento) havia suspenso o financiamento para a despoluição da baía da Guanabara. Dia seguinte (quinta, 3/2), o governo do estado, com matéria paga em todos os jornais, desmentiu categoricamente a informação. E não o fez em nota oficial distribuída gratuitamente porque não confia na capacidade dos veículos jornalísticos em admitir erros e imprecisões.


Esse é o estado da arte jornalística. O ano começa bem.


 


Quanto custa deslocar a página de Opinião?


Em 27 de janeiro a Petrobras fez o seu segundo anúncio sobre o derramamento de petróleo na baía da Guanabara. Como no primeiro, assumiu total responsabilidade pelo acidente, corrigiu as informações anteriores e comprometeu-se a arcar com todos os prejuízos.


Para que tivesse a maior repercussão possível, a agência de publicidade programou o anúncio para a página 3 dos cinco jornalões com a tarifa – altíssima ! – de “pagina determinada”.


Acontece que a página três é página nobre, tem destinação, compromissos, não pode ser alterada ou mexida. Pelo menos nos grandes jornais.


O Estado de S.Paulo não aceitou deslocar a página de editoriais e colocou o anúncio na página 5. Perdeu uma grana mas não alterou a sua fisionomia.


Gazeta Mercantil, idem.


O Globo usa a página 3 para o noticiário de Política mas não aceitou o anúncio – colocou-o igualmente na 5.


O JB aceitou o anúncio na página determinada. A sua página 3 não difere das demais.


A Folha foi o único dos grandes que aceitou deslocar a sua página de opiniões (a chamada op-ed-page) para outro lugar: vexame.


 


O Movimento dos Sem Terra mandou comprar 30 exemplares do livro de Mario Sergio Conti na Cia. das Letras. Vai distribuir às suas lideranças para que tenham uma visão do que se passa nos bastidores da imprensa.


Bom para o autor, melhor ainda para a editora.


E péssimo para o jornalismo pátrio. A liderança do MST não acredita que as situações descritas no livro estejam ultrapassadas.


 


A entrevista do brigadeiro Walter Bräuer nas páginas amarelas do semanário da Abril (edição de 12/1) foi uma das mais comentadas na primeira quinzena do ano 2000.


A repercussão política fazia supor um recorde no número de cartas dos leitores à redação. Na edição de 2 de fevereiro das “Cartas” de Veja, uma decepção – foram recebidas 168 cartas (com mais de 1 milhão de exemplares vendidos!). Foi a quinta mais comentada desde que a revista começou a estatística.


O recorde histórico cabe à entrevista da Musa Cultural do Brasil – Adriane Galisteu (8/9/1999) com 352 missivas. Logo abaixo, no ranking de repercussão, vêm as “amarelas” com Narcisa Tamborindeguy (5/11/97 – 330 cartas), aquela que tentou adulterar a lista de presenças na escola de jornalismo onde estuda. Segue-se Vera Loyola (5/11/1997, 251 cartas), a socialite emergente que confessa gastar 25 mil reais por mês com “promoção pessoal”. A aristocrata falida Carmen Mayrink Veiga (19/6/96, com 169 cartas) ficou em quarto lugar – ninguém gosta de perdedores –, uma a mais do que o pobre do brigadeiro Bräuer (único homem da lista), aquele que não sabe ligar um computador e ainda acha que Hitler foi bom para a Alemanha.


O “fenômeno” é simples de explicar: o leitor escolhe o veículo que escolhe o leitor.


 


Imediatamente após o anúncio da fusão AOL-Warner, o mais importante critico de mídia dos EUA, Howard Kurz, chamou a atenção para alguns aspectos éticos da transação. Alertou inclusive para a perigosa manipulação que o megagrupo midiático poderia fazer no mercado de capitais em seu próprio benefício [veja remissão abaixo].


Nossos megagrupos jornalísticos são bem menores, mas a diversificação que neles está ocorrendo contém perigos ainda maiores (considerando-se as limitações dos concorrentes). Estamos assistindo impassíveis que se juntem no mesmo saco empresas com razões sociais e interesses comerciais conflitantes. Uma empresa jornalística só pode dedicar-se à produção de informações. Qualquer outra atividade – comunicação ou telecomunicação – é conflitante.


Na sexta-feira, 28/1, pág. 27 (caderno de Economia), O Globo deu uma nota informando que as ações da Globo Cabo haviam ficado em segundo lugar no pregão anterior da Bovespa. O título naturalmente puxou a sardinha para a Globo Cabo e não para os recibos da Telebrás. A nota acrescenta que a preferência vai se tornar uma tendência etc.etc.


Dito e feito: no pregão de três dias depois (quarta-feira, 2/2), as ações da Globo Cabo subiram 5,95% – notícia em quatro colunas no Globo, jornal do mesmo grupo, pág. 28. O efeito em cascata deste tipo de notícia é facilmente adivinhável: logo as ações da Globo Cabo irão “liderar”, em seguida vão “disparar” sem nunca “despencar”. Quem tem jornal na mão jamais perde na Bolsa.


Registre-se a elegância da Gazeta Mercantil em noticiar na primeira página, no mesmo dia 3/2, o sucesso do lançamento das debêntures da Globo Cabo.


No mesmo dia, como destaque na página interna de esportes (pág. 41) do magnífico jornal, ficamos sabendo que “Barrichello acerta patrocínio da Net para temporada 2000”. Net é o nome da operadora de TV por assinatura “líder no mercado nacional”, que pertence ao mesmo grupo.


A importantíssima informação de que o presidente da Câmara dos Deputados, Michel Temer, apóia uma CPI sobre a CBF ficou relegada a um cantinho da página. O leitor que se dane, o futebol idem – o que interessa é promover a Net.


Imagine-se o massacre quando poder de fogo do Grupo Globo juntar-se com o do Grupo Folha para lançar Valor [veja rubrica Entre Aspas, nesta edição].


O CADE examinará algum dia situações como essa?


 


O Grupo Estado anunciou uma parceria com a Terra Networks, subsidiária da Telefónica. “É o primeiro grande negócio no Brasil entre um dos maiores grupos nacionais de comunicação e um provedor de acessos da Internet”, disse o Estadão na sua primeira página (edição de 2/2).


O internauta brasileiro ficou feliz, aumentaram as suas opções de acesso e conteúdo. E porque a capacidade do grupo jornalístico em produzir informações de qualidade finalmente encontrou um provedor à altura. O e-commerce vai progredir – maravilha.


Mas é preciso lembrar que o Grupo Estado já é sócio do BCP na telefonia celular. E agora torna-se parceiro da Telefónica na Internet.


A imparcialidade em questões de telefonia & afins como é que fica?


 


Inadmissível numa publicação que se coloca entre as melhores do mundo a nota publicada na Veja (edição de 2/2, pág. 143) contra o secretário de Audiovisual do Ministério da Cultura. É virulenta, perversa, pessoal e covarde.


Publicada na mesma semana em que o diretor de redação do semanário foi promovido a Diretor Editorial da Unidade Operacional-Veja. Diz-se nos corredores que nos seus 50 anos de existência é a 500ª reestruturação do Grupo Abril.


Com esse tipo de jornalismo breve teremos a 501ª.


 


  • Chamada na primeira página do JB de 22/1/00: “Concorrência de teles já reduz preços”. Manchete do dito, em 30/1/00: “Disputa de teles ainda não favorece usuários”.

  • A Folha anuncia um curso interno de jornalismo econômico (edição de 23/1, pág. 1-6) e entre os professores não há um único jornalista – nem da Folha.

  • O site do PDT na internet está promovendo uma pesquisa sobre a reação da sociedade à proposta de Brizola de “passar fogo” em FHC. Até às 8 da manhã da quarta-feira, 2/2, 58,4% dos respondentes (3.513 votos) concordavam com a proposta. Acontece que este Observatório testou o software da pesquisa. Resultado: a mesma pessoa, do mesmo e-mail, pode votar quantas vezes quiser. Isso é logro.
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