Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

PRIMEIRAS EDIçõES > VANITY FAIR

Maomé na berlinda

Por lgarcia em 07/02/2001 na edição 107

MONITOR DA IMPRENSA

PAQUISTÃO

Estudantes islâmicos causaram turbulência em protesto contra uma carta supostamente blasfema publicada no jornal paquistanês Frontier Post, no dia 29 de janeiro. Os estudantes, pertencentes ao Jamaat-e-Islami, partido linha-dura islâmico, tocaram fogo num cinema e se amotinaram nas ruas de Peshawar, cidade próxima à fronteira do Paquistão com o Afeganistão.

De acordo com a BBC (31/1/01), as instalações do Frontier Post foram incendiadas no dia seguinte à publicação da carta, que criticava as relações que Maomé estabeleceu com judeus, há 14 séculos. Partidos religiosos do Paquistão se enfureceram com a carta, aparentemente enviada por e-mail, intitulada "Por que muçulmanos odeiam judeus". Para ele, o documento ataca Maomé, fundador do islamismo.

Após a publicação, sete funcionários do jornal, incluindo dois editores, foram acusados de blasfêmia – ofensa passível de morte no Paquistão. Desde então, o Post tem se desculpado publicamente por divulgar um documento que, segundo o jornal, fazia parte de uma conspiração contra o veículo e a população paquistanesa.

Para o editor, dois funcionários suspeitos podem ter inserido a carta no jornal para prejudicá-lo.

Opinião islâmica

O editorial do Dawn (31/1/01), jornal eletrônico paquistanês de língua inglesa, dá sua opinião sobre o caso logo na manchete, "Lapso ou injúria proposital?" Seguem-se à pergunta-título outras perguntas que não deixam dúvidas: "Não deveríamos destinguir um lapso honesto de um trabalho baixo intencionalmente adotado? Ou isso é pedir demais a uma nação em que emoção freqüentemente ultrapassa calmas considerações?" E continua: "Nas páginas do Frontier Post apareceu uma carta tão primitivamente sacrílega que todo muçulmano – que até pessoas de outras crenças se sentiriam tocadas por um sentimento de horror."

O governo fechou o jornal e prendeu diversos funcionários sob acusação de blasfêmia. "Arquivar o caso é o mais apropriado. Deveria se seguir uma investigação e depois o episódio seria levado julgamento. Fechar o Post de repente não consta dos termos da lei", afirma o editorial.

VANITY FAIR

Em sua carreira, de lenhador a correspondente internacional e autor do best-seller The Perfect Storm, Sebastian Junger assumiu perigosas missões e recebeu aplausos. À primeira vista, o "Terror Gravado", de Junger, reportagem que apareceu na edição de outubro de 2000 da revista Vanity Fair, parece mais uma evidência de que seu estilo cinematográfico é compatível com jornalismo sério.

Junger, segundo Mark Boal [Brill’s Content, 29/1/00], conta sua viagem a Serra Leoa, onde deveria documentar crimes de guerra durante o conflito civil do país. As imagens chocam. Uma delas, por exemplo, mostra um grupo de homens sorrindo enquanto expõe uma cabeça cortada.

A Vanity Fair fez de tudo para anunciar as imagens da forma mais espalhafatosa possível. A manchete dizia que as fotos estavam sendo "publicadas pela primeira vez", e a reportagem diz que "se conta a dedo o número de pessoas que sabe da existência das fotos".

Segundo Junger, o homem que lhe entregou as fotos arriscou a vida ao roubá-las de um grupo de rebeldes, enquanto ele, o repórter, utilizou seus contatos no Departamento do Estado para contrabandear as imagens para fora do país. Revelou-se, no entanto, que as fotos têm circulado em Serra Leoa por no mínimo um ano. Miles Roston e Peter Leahey, dois produtores de filme de Nova York, compraram o mesmo arsenal de imagens nas ruas de Freetown, em Serra Leoa, por 25 dólares, e usaram-nas no filme Last chance for peace, exibido pela primeira vez em 1999 e subseqüentemente transmitido pela internet e pela TV no mundo todo.

A gafe não pára aí. A BBC também publica regularmente em seu sítio fotos da guerra no país e as imagens já foram transmitidas pela CNN, em documentário chamado Cry Freetown.

A reportagem da Vanity Fair é uma variação de algo comum. Quando se trata de uma exclusiva, editores e redatores parecem crescentemente favoráveis a escandalizar antes e questionar depois.

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