Sábado, 21 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

PRIMEIRAS EDIçõES > OFJOR CIÊNCIA 98

“Marajó”, o marajá de Mossoró

Por lgarcia em 05/07/1998 na edição 48


Carlos Vogt

 

A

s universidades públicas federais, fazia já algum tempo, não davam tanto “ibope”na imprensa. De fato, desde que a greve começou, no dia 30 de março, lá se vão mais de 90 dias, página e páginas de jornais, de revistas, matérias em rádio e televisão dedicam uma atenção que, de um modo geral, o sistema público de ensino superior, “em tempos de paz”, dificilmente consegue obter da mídia.

Como, por que e para que tantos ecos a uma greve que até agora não é a de maior duração na história das universidades federais e que, mutatis mutandis, tem motivações e objetivos que não fogem muito daqueles já conhecidos e historicamente consagrados na vida acadêmica nacional.

A revista Época, no número de 08 de junho, chega a trazer um gráfico quantificando, desde 1980 até 1998, as greves ocorridas, nos anos em que ocorreram e com o número de dias que duraram. A Folha de S. Paulo, do início da greve até o dia 19 de junho, quando traz manchete anunciando o começo da volta às aulas, dedicou páginas e páginas em branco e preto, coloridas, com gráficos, com mapas e com fotos. A revista Veja, Isto É, Jornal do Brasil, O Globo não ficaram atrás, com reportagens, artigos, ensaios e editoriais sobre o assunto.

Descontadas diferenças de tom e de ênfase, de um modo geral, as notícias, mesmo no rádio e na televisão, houve um momento, deram um grande destaque ao caso da Escola Superior de Agricultura de Mossoró (ESAM), no Rio Grande do Norte, repercutindo uma informação do MEC sobre as distorções salariais nas universidades públicas e estampando como grande argumento contra essas universidades, o fato de o salário médio naquela instituição ser de R$5.328,00 contra R$2.253,00 nas demais.

Quase quase, por muito pouco, a imprensa não erige um marajá de Mossoró, um sheik das universidades, um “marajó”.

Há, de fato, problemas graves, estruturais, a serem resolvidos nas universidades públicas, entre eles, certamente, o da falta de autonomia de gestão financeira. É claro que as distorções salariais são um problema, mas não só das universidades, e sim de todo o funcionalismo, pois resultam, em sua grande maioria, de artimanhas jurídicas que acabam favorecendo alguns em detrimento de muitos. Mas isso não é específico de nosso “marajó”, e nem é preciso ir ao Rio Grande do Norte para colher essas “variedades exóticas”da vida acadêmica. Quem não se lembra dos famosos adicionais noturnos da USP? Quem falou deles na imprensa?

O que precisa ser enfatizado, muito mais do que foi, além da necessidade da ampla reforma estrutural das universidades públicas, é a reforma urgente do nosso judiciário.

A greve acabou. O governo cedeu, o movimento também.

É hora de se discutirem reformas urgentes e inadiáveis no sistema público de ensino superior.

A imprensa tem de valorizar essa discussão.

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