Sábado, 20 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1009
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Marcelo Coelho

Por lgarcia em 23/10/2002 na edição 195

ELEIÇÕES 2002

“A guerra das estrelas”, copyright Folha de S. Paulo, 19/10/02

“Em tempos de paz e amor, o certo seria Lula convidar Regina Duarte para tomar um chá ou cafezinho e explicar-lhe afavelmente que o PT, bem, não há nada o que temer etc. -e depois disso torcer para que o episódio fosse esquecido.

Ao contrário, não me pareceu das mais tranquilas a reação petista ao discurso de Regina Duarte. Houve, não apenas medo, mas um movimento de quase pânico nas caixas de correio eletrônico, depois da aparição da atriz no horário eleitoral. O que haveria a temer no que ela disse?

A tática de associar um eventual governo Lula com um retrocesso no combate à inflação, para não falar em crises mais sérias como as da Argentina e da Venezuela não é nova, e foi tentada anteriormente. Foi comum nas declarações de autoridades, de investidores, de banqueiros. Na prática o clima foi de medo também: passamos os últimos meses assistindo ao crescimento do ?risco Brasil?, a frenéticas elevações do dólar, e à quase unânime certeza entre os ?formadores de opinião? de que só uma vitória de Serra haveria de serenar o ambiente.

Reconhecendo isso, a resposta do PT foi no sentido de ?tranquilizar os mercados? o máximo possível. E de aplacar os medos da classe média também. Ninguém mais prudente, imagino, do que um empresário mineiro do setor têxtil, como José Alencar, o vice de Lula. Só se ele fosse dono de uma fábrica de guarda-chuvas. Talvez o raciocínio seja o de que a chuva é inevitável, das mais fortes, e que não havendo nenhum guarda-chuva disponível, que pelo menos esteja garantido o abastecimento de toalhas.

A euforia em torno da alta votação de Lula, além do interesse do próprio ?establishment? financeiro em garantir a transição, fez com que ficassem meio recalcadas as inquietações e temores em torno de uma vitória petista. Mas o sentimento é real, e considero legítimo expressá-lo.

Principalmente porque na maior parte do tempo, e sobre a maior parte dos assuntos, Lula não diz nada de concreto. E foge do debate, sim, como não cansa de assinalar a propaganda serrista.

Acho que é nesse ponto que a presença de Regina Duarte no horário eleitoral representa um baque para o PT.

Pois o mundo do ?Lula paz e amor?, a construção deliberada de uma imagem adocicada do candidato, o script da mãozinha dada, do casal romântico, do creme de amêndoas, da conciliação política e do desenvolvimento econômico, a proposta de ?reunir todo mundo em volta de uma mesa? -que é onde começa e acaba quase tudo o que Lula tem a dizer a respeito do que lhe perguntarem-, bem, este mundo, construído pelo marketing, é o mundo da telenovela. É o mundo de Regina Duarte. O marketing de Lula quis ocupá-lo.

A tola e grossa resposta de Lula ao episódio -de que o medo de Regina Duarte é de ser substituída por uma atriz mais jovem- talvez indique secretamente a sensação de que ambos, afinal, disputam o mesmo público.

Serra continua a ter poucas chances nesse concurso de beleza. Mas a inquietação petista é, sem dúvida, eloquente. O clima de conto de fadas, de emoção folhetinesca e lágrimas globais em que transcorreu a campanha de Lula vai se dissipando.

Medo? Pode não haver medo de perder a eleição, mas é natural que se tenha também medo de ganhar. Na dúvida entre um medo e outro, pode-se também ter medo de debates. Por que não?”

“Regina Duarte e o bibelô”, copyright Folha de S. Paulo, 18/10/02

“Regina Duarte, como qualquer brasileiro, tem todo o direito de dizer que tem medo de Luiz Inácio Lula da Silva.

Toda campanha eleitoral, no mundo inteiro, divide-se, em geral, em dois eixos: um é a defesa do próprio candidato; o outro, o ataque aos adversários (ou ao adversário quando o jogo fica mano a mano).

Expressar sentir medo do adversário é, portanto, das regras do jogo. Tanto é que Ciro Gomes disse, rigorosamente, a mesma coisa, ainda que com outras palavras, e, não obstante, foi aceito depois aos beijos pelo PT.

Também é do jogo patrulhar os adversários ou qualquer pessoa que não concorde com o candidato ou o partido. Nisso, aliás, os petistas são mestres há muitos e muitos anos.

O que não é do jogo é o preconceito. Nem para atacar Lula, nem para atacar Regina Duarte. A frase do candidato petista, segundo a qual Regina tem medo das novas atrizes da Globo, é preconceituosa e é prima-irmã de ?o papel da minha mulher é dormir comigo?, que acabou de matar a candidatura Ciro Gomes.

Não cabe na boca de ninguém com um mínimo de respeitabilidade e fica indecente na boca de quem, como Lula, é vítima permanente do preconceito -tanto nesta como nas suas campanhas anteriores.

Fico absolutamente à vontade para dizer tais coisas porque jamais tive medo do PT ou de Lula, jamais tive preconceito contra Lula ou contra o PT e jamais deixei de criticar os que exibiam o preconceito, como aconteceu com Mário Amato, então presidente da Fiesp. Não tive medo do patrulhamento do outro lado, que também existe e que também é forte. Só está menos estridente, porque se sente minoritário desta vez.

Mas o mais elementar sentido comum manda reconhecer que há, sim, gente que tem medo do PT e de Lula. Como há gente que tem medo de José Serra e/ou da manutenção das políticas do atual governo.

Essa gente tem de ser convencida, e não tratada como inimiga da pátria, como se Lula fosse um bibelô a ser protegido até das palavras.”

“Quem tem medo de Regina Duarte?”, copyright Folha de S. Paulo, 18/10/02

“Inédito quiproquó a aparição de Regina Duarte num programa eleitoral, confessando estar com medo. Muitos ficaram com medo dE ela expressar seu medo. Esqueceram nas críticas ser Regina uma atriz e estar em pleno trabalho profissional.

Não acho que deva ser censurada por interpretar um texto que lhe deram, encaixado no contexto de um horário eleitoral. O que se pode dizer é que ela interpretou tão bem o seu papel que transmitiu ao público estar realmente com medo. Exagerou. Vista como atriz, mereceria aplausos, esquecidas as intenções da mensagem alarmista que ela interpretou. O ator é aquele que sabe reconstruir emoções, que passam a ser suas mesmo não sendo suas. Nossa censura, assim, tem outro endereço e se dirige à licitude de usar o instrumento do medo. A arma do medo é desesperada. Mas não é nova na política. Roosevelt, em sua campanha de 1940 para a reeleição, sofreu terrível ataque de seu adversário Wendell Wilkie, que batia na tecla de que ele, Roosevelt, era comunista e iria socializar, com o New Deal, a medicina e tudo. E usaram contra ele aquilo que foi chamado à época ?a estratégia do terror?.

Ter medo é humano, fazer marketing do medo é desumano porque o transforma de uma manifestação individual numa histeria coletiva.

Roosevelt, de novo, no seu famoso Discurso das Liberdades, incluiu a ?liberdade de não ter medo?. Bush, antagonicamente, transformou-se no maior violador dessa liberdade, pregando obsessivamente o medo como arma política.

Temos vários medos. O medo bom, justificável, e o medo mau, egoísta e imoral. É o contraste entre o medo do menino da favela, que ouve o tiroteio, as balas atingindo sua casa e o inferno das sirenes no anúncio diário da explícita guerrilha e violência urbana, e o medo do bandido de ser preso pela policia. Há o medo de quem, não tendo medo, usa-o para criar desespero, receio e terror e para destruir a liberdade das pessoas coagidas pelo pânico. Há o medo do especulador na baixa do dólar e o do governo em ter de pagar seus títulos com o dólar na estratosfera. Há o medo jocoso de pessoas que ficam em pânico ao olhar baratas, sapos e ratos. Há o doce e saudoso medo das almas do outro mundo e das assombrações da infância.

Há o medo adulto e desesperado de perder uma eleição. É um medo que se vê menos no coração dos candidatos e mais no rosto das vivandeiras de campanha.

O nosso presidente da República é um homem sem medos -nem dos sem-terra, nem dos sem-teto, nem do protocolo dos s(c)em dias da transição. Há meses, ele, e não Regina Duarte, disse que iríamos ?virar uma Argentina?, e o medo foi tão grande que virou e explodiu a Bolsa e o dólar. Embora todos queiram negar, existe uma cultura da vaidade discriminatória em alguns setores do Brasil. Não vejo o que temer nesta eleição, disputada entre um torneiro mecânico e um Ph.D, avanço no processo democrático. Quando Samuel ungiu Saul, e o ensinamento está no Livro dos Reis, ressaltou que ele era da menor tribo e da menor casa. ?O erro da eleição dos ofícios?, dizia Vieira, ?é porque se buscam os homens grandes nas casas grandes, e eles estão escondidos nas casas pequenas?. Isso não pode ser apontado como ?incompetência?.

?Governar o Brasil é fácil?, palavras de presidente. Mas, por via das dúvidas, o futuro presidente que se prepare para dias não tão fáceis.

Regina Duarte é atriz e das boas. Fez seu papel com o script que lhe deram. Eu não tenho medo do futuro. Tenho otimismo e esperança. Medo mesmo eu tenho do presente passado.”

“Lula, Chávez, Mandela, Walesa”, copyright Folha de S. Paulo, 17/10/02

“As semelhanças entre Lula e o venezuelano Hugo Chávez se esgotam na falta de experiência governativa prévia e no fato de encarnarem um protesto social represado há séculos. Em tudo o mais, as diferenças são patentes e, se não saltam à vista de um americano, por exemplo, não deveriam passar despercebidas pelo observador brasileiro.

A crise do modelo econômico pré-liberal, na Venezuela, ocorreu junto com um desgaste sem comparação possível na imagem de seu tradicional sistema político, em que dois partidos oligárquicos, AD e Copei, vinham se alternando no poder desde a democratização dos anos 50. Chávez foi eleito a título de protesto frontal contra esse sistema.

Como havia liderado um golpe frustrado contra o então presidente Carlos Andrés Perez -um símbolo nacional de corrupção-, e permanecido preso na condição de suposto perseguido político, não foi difícil a Chávez apresentar-se nas eleições como o líder que afastaria as elites do poder, resgataria a população mais pobre e faria uma nova democracia no país.

A principal diferença é que Lula nunca tentou chegar ao poder pelo caminho do golpe e tem atrás de si um partido orgânico, enraizado e que se inclina hoje a posições de centro-esquerda. Foi justamente a ausência de um tal partido, no caso venezuelano, combinada à personalidade voluntarista e autoritária de Chávez, que empurrou o país ao impasse atual.

Seu governo enfrentou a resistência dos setores organizados da sociedade. Não foi capaz de debelar a crise que empobrece a Venezuela há anos, o que rapidamente desmanchou-lhe a popularidade. Teve de se apoiar em forças paralegais e nos ?círculos bolivarianos?, recrutados na arraia-miúda de Caracas, uma espécie de guarda pretoriana civil.

Chávez reencena um ciclo tristemente clássico na América Latina. Líder popular chega ao poder em amplo e espasmódico movimento de massas. Promete mudanças, mas não dispõe de forças articuladas que sustentem seu programa. Tenta romper os limites da democracia representativa como forma de se agarrar ao poder. Faz-se ditador ou é deposto.

Caso o resultado das pesquisas se mantenha até as urnas, um eventual governo Lula terá a oportunidade de superar esse ciclo, seja porque desta vez existe um partido consistente a respaldar a aventura, seja porque a conjuntura dificílima que está emergindo vai forçá-lo a negociar e a manter, enquanto possível, um leque de apoios de cunho transpartidário.

Se a comparação com Chávez vale mais como contrapropaganda, outras aproximações que se fazem, como entre a personagem de Lula e as de Mandela ou do polonês Lech Walesa, são igualmente publicitárias (nesse caso, a favor) e ainda mais sem cabimento. De novo, o traço em comum é simbolizar amplo protesto social e só.

Walesa era um sindicalista católico de direita que terminou por fazer um governo desastroso, sucedido pelos ex-comunistas. Mandela fez um governo de conciliação histórica, mas revelou-se dirigente dócil em relação aos Estados Unidos e foi quem introduziu, na África do Sul, o pacote que os petistas chamam -chamavam?- de ?neoliberal?.”

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