Terça-feira, 21 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

PRIMEIRAS EDIçõES >   FOLHA CONTESTADA

Marcelo Coelho

Por lgarcia em 18/12/2002 na edição 203

EDIFÍCIO MASTER

“Sobre a alegria de cantar ?My Way?”, copyright Folha de S. Paulo, 11/12/02

“Há várias coisas inquietantes em ?Edifício Master?, o documentário de Eduardo Coutinho sobre um prédio em Copacabana onde moram cerca de 500 pessoas, encapsuladas em 276 apartamentos do tipo kitchenette.

Claustrofobia, evidentemente, é uma das primeiras sensações que o filme provoca. Com certa insistência, Eduardo Coutinho mostra a própria equipe de filmagem se espremendo no elevador ou nos corredores do prédio antes de bater à porta de algum dos entrevistados.

Parece não haver muito espaço para a movimentação de tantas câmeras e refletores. E também não há espaço para todas as histórias e todas as emoções que cada pessoa tem para apresentar no breve depoimento, na aparição sem retorno, no trecho de vida que o documentário lhe concede.

Não é bem que o espectador consiga ?espiar?, graças à câmera, aquilo que se passa dentro de cada apartamento ou da alma de cada morador. Não há em ?Edifício Master? voyeurismo ou invasão de privacidade. É mais o movimento inverso: como se a câmera fosse uma janela que os entrevistados, muitas vezes levando uma vida solitária e presos dentro de si mesmos, pudessem abrir para respirar.

Um aspecto curioso do filme, aliás, é que não se mostra nunca a fachada do edifício; estamos sempre ?dentro? dele -no máximo, acompanhamos pelos monitores dos guardas a chegada de visitantes na portaria, ou então vemos, de uma janela, outras janelas de outros apartamentos, num mundo sem horizontes, sem saída.

Impressiona como está presente, em diversos depoimentos, a ameaça ou a tentação do suicídio: depois de sofrer um assalto, uma senhora abre a janela, pensa em atirar-se. Desesperada com os ciúmes do marido, uma outra quase se jogou também.

Na primeira entrevista do filme, ficamos conhecendo uma mulher que morou a vida inteira no ?Master?. Mudou inúmeras vezes de apartamento, pulou de um andar para outro, mas nunca saiu de lá. Ela conhece, claro, muitas histórias do edifício. A equipe de Eduardo Coutinho alugou um apartamento no prédio. Pois bem -a entrevistada hesita um pouco- nesse mesmo apartamento já houve uma tragédia.

A depressão atinge brutalmente uma jovem professora de inglês, que se fecha o quanto pode entre as paredes do apartamento. Outro morador, vítima de derrame, é salvo da morte pelo vizinho. E também há morte, simbólica ou fictícia, no depoimento de um ator aposentado, cuja carreira terminou no momento em que filmavam um assassinato com tiros de espoleta.

Mas o documentário de Eduardo Coutinho não é mórbido nem deprimente. O que ?Edifício Master? exerce sobre o espectador -e esse ponto já foi ressaltado, creio, por Inácio Araujo e Contardo Calligaris- talvez seja, antes de tudo, um efeito democratizante.

Podemos rir das esquisitices, das fraquezas, até do rosto ou das roupas deste ou daquele entrevistado; podemos nos comover com algumas histórias, sentir pena de muitos moradores, desdenhar de suas crenças, idéias ou preocupações. Há várias cenas no filme que não seria difícil classificar de patéticas, de pungentes, de ridículas. Sim, tudo isso é verdade, mas funcionaria se estivéssemos vendo o filme e seus personagens de um ângulo externo, à distância, ?de fora?.

Mas, no momento em que estamos dentro da sala de cinema -ou melhor, ?dentro? do edifício Master-, cada entrevistado aparece para nós mostrando o que tem de mais valioso, de mais importante, de mais vital. Em cada depoimento, vibra, por assim dizer, uma convicção simples, sem palavras, que é a convicção da própria vida. Acima de todas as estranhezas, diferenças, vergonhas que possamos sentir uns com relação aos outros, é como se uma dignidade intensa e intocável se irradiasse de cada pessoa, quando esta se revela por inteiro.

É por isso, creio, que o clímax do filme é o momento em que um dos moradores, Henrique, canta entusiasticamente o sucesso ?My Way? de Frank Sinatra, sublinhando a idéia de que cada um vale pelo que é, do jeito que é. A cena a princípio me pareceu constrangedora, mas… como fiquei contente ao perceber que meu constrangimento ia acabando quanto mais alto o homem cantava! Deveríamos ter batido palmas naquele momento.

O documentário de Eduardo Coutinho parece ter concentrado, em cada uma de suas cenas curtas, tal ?coeficiente de verdade humana? -graus tão altos de temperatura e pressão existencial- que a gente sai do cinema num estado que é simultaneamente de exaltação e de humildade; o filme é claustrofóbico e libertador ao mesmo tempo.

Talvez seja essencial à democracia a sensação de que, sendo todos iguais, somos também totalmente diferentes uns dos outros. Sem dúvida, no edifício Master, estão em jogo não apenas diferenças individuais mas também de condição social, de idade, de educação.

O que há de ?sociológico? no filme pareceu-me, contudo, acessório diante do que se destaca ali de ?humano?. Talvez porque, bem ou mal, o filme focalize a classe média, o que sempre facilita a identificação do espectador. Mas há muitas classes médias naquele mesmo barco, isto é, naquele mesmo prédio. De certa forma, o filme nos convence de que também moramos nele -e de que só morrendo a gente muda de endereço. Não sei se esta é uma conclusão muito verdadeira a tirar de um documentário; mas foi a minha.”

 

FOLHA CONTESTADA

“Cartas de leitores”, copyright Folha de S. Paulo

“12/12/02 – Paraná

Na seção ?Painel? de 11/12, mais uma vez a Folha divulga intrigas e inverdades que envolvem o senador Roberto Requião, governador eleito do Paraná. É mentira, uma sórdida mentira, que ele tenha enviado um engenheiro à Ilha das Cobras pois pretendia construir uma piscina no local. O governador Requião recebe o Paraná em uma situação de extrema dificuldade -assim como o país vive uma dura crise. Todos conhecem o rigor do governador Requião no trato do dinheiro público. Logo a insinuação é descabida e injuriosa. Quanto à granja do Canguiri, desativada há anos como residência, mobiliá-la com uma cama, um colchão, armário, mesas e cadeiras é o mínimo necessário para habitá-la. A forma simples de viver do governador, por todos conhecida, não chegou ainda a ponto de fazê-lo dormir no chão. O que a Folha fez foi tentar pôr o governador Requião em situação ridícula e desgastar a sua imagem pública. Não entendemos como essas intrigas e distorções não foram antes submetidas à conferência com o ?outro lado?, como a Folha diz sempre fazer. Ou essa prática tem lá suas exceções??

Benedito Pires Trindade, da assessoria de imprensa do senador Roberto Requião (Curitiba, PR)

Resposta do jornalista Rogério Gentile, editor do ?Painel? -Na manhã da última segunda-feira, Roberto Requião enviou à Ilha das Flores, em um barco particular, o assessor Jacyr Bergmann II e um engenheiro. Foram verificar a necessidade de fazer reformas na residência de verão do governo do Estado e estudar a possibilidade de construir uma piscina no local.

Futebol na TV

?Em resposta ao texto ?Histeria do macho faz show em programas? (Ilustrada, pág. E8, 9/12), informo que o ?Terceiro Tempo com Milton Neves?, que orgulhosamente apresento, é um programa de completa responsabilidade, produção e comercialização da Rede Record de Televisão. Não cabe a mim convidar os personagens que aos estúdios comparecem nem ?barganhar? o que quer que seja para compeli-los a lá comparecer. Só apresento, aliás, sete programas de TV e de rádio. Não produzo nenhum deles por absoluta falta de tempo, de obrigação e de competência. E o merchandising legal, regular e profissional lá veiculado é de inteira ordem do Departamento Comercial, comandado por Walter Zagari. A eventual remuneração dos profissionais Milton Neves, Daniela Freitas, Osmar de Oliveira e Cacá Rosset é um assunto que diz respeito somente a nós, à Record, aos seus anunciantes e às respectivas agências de publicidade. Deixo claro, ademais, que o ?Terceiro Tempo?, em 13 meses de vigorosa e inédita liderança de audiência no segmento (como isso pode ser omitido quando realmente se pretende analisar todos os programas?) -pois tem o maior market share do setor de programas esportivos regulares aos domingos à noite na história da TV brasileira-, nunca divulgou nenhuma publicidade sobre ?caixa de ferramenta? (de qualquer tipo ou marca), conforme no texto equivocadamente se proclama. Por fim, saúdo os milhares de telespectadores que, em âmbito nacional, têm feito do ?Terceiro Tempo? o grande centro da discussão esportiva na TV brasileira -para a insatisfação dos eternos, incorrigíveis, unidíssimos, agregantes e solidários patrulheiros (esportivos ou não) de plantão.? Milton Neves, jornalista profissional diplomado e publicitário (São Paulo, SP)”

15/02/12 – Escola

?A seção ?Painel? (Brasil, pág. A4) de 13/12 veiculou nota atribuindo a minha pessoa veto ao projeto que dava o nome de Carlos Lamarca a uma escola municipal. Mas a nota não divulgou o motivo dessa atitude. Esclareço, assim, que o veto se impunha por razões de ordem legal, pois o projeto não estava acompanhado do abaixo-assinado nem da deliberação favorável do Conselho Escolar em apoio ao nome proposto – como exige a lei municipal que disciplina a matéria.? Hélio Bicudo, vice-prefeito de São Paulo (São Paulo, SP)”

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