Domingo, 19 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

PRIMEIRAS EDIçõES > INTERNET

Marcelo Coelho

Por lgarcia em 07/05/2003 na edição 223

INTERNET

“Barreiras do som”, copyright Folha de S. Paulo, 30/04/03

“Todo mundo reclama do lixo que recebe por e-mail: correntes da felicidade, abaixo-assinados diversos, anúncios para aumentar o pênis ou diminuir o peso. Passo um bom tempo apagando essas coisas do computador. N&atatilde;o é fácil, porque elas acabam indo parar numa pasta destinada às ?mensagens excluídas?. E somente lá é que serão exterminadas, como é o destino dos excluídos em geral.

Na verdade, não me queixo. Poucas coisas me dão tanto a ilusão de estar trabalhando, de estar fazendo algo de útil, enquanto na verdade perco tempo enrolando no computador. O que me espanta é a monotonia desse tipo de poluição. Os produtos, as ofertas, os apelos, os pedidos não variam quase nunca.

Por isso me chamou a atenção, outro dia, um e-mail anunciando a chegada de um invento capaz de revolucionar a vida de qualquer motorista. Trata-se de um dispositivo eletrônico que, segundo o anúncio, faz ?seu carro falar com você?.

Fico dispensado, assim, de verificar o nível do tanque de gasolina no mostrador. O carro, imagino, me avisará disso de viva voz. Que mais? Até o xingamento quem sabe eles incluam. ?Abaixe o farol, cretino.? Ou a suavidade daquele pedido, que tantas vezes se vê escrito com o dedo nos carros estacionados: ?Lave-me, por favor?.

Não tive muita curiosidade em me informar sobre os recursos do ?phone-car? ou sabe-se lá que nome tem. Mas isso foi só o começo, porque depois recebi um informe para a imprensa a respeito de uma feira de construção, que não fui visitar, mas devia ter ido, uma vez que lá iam apresentar… o banheiro falante!

Não, não era bem falante, embora o release afirmasse que sim. Na verdade, o banheiro se mostra obediente a comandos de voz. Todos os mecanismos de acionamento de água, ?desde a descarga até o chuveiro?, mostram-se capazes de seguir as ordens do usuário, que poderá assim regular sem esforço a temperatura ou o fluxo da água, por exemplo.

No futuro, aliás, os banheiros terminarão dispensando até mesmo esse e outros sistemas de intervenção sonora. ?Sensores irão reconhecer a altura do visitante e ajustar automaticamente bacia, bidê e lavatório para melhor se adaptar ao usuário que chega.? Parece ?Minority Report?, de Spielberg, onde os outdoors reconheciam o passante e seus interesses de consumo.

Não estamos longe disso. Os sites de compras na internet se dirigem a nós pelo nome próprio, lembram-se do que compramos na última visita e sugerem o que pode nos interessar desta vez. Já é um tipo de diálogo superior ao que mantemos com balconistas humanos numa loja convencional, uma vez que a máquina (e não o balconista) está dotada de memória; e ter memória já é um passo fundamental no rumo de ter caráter, de ter personalidade, de ter assunto, ter disposição para trocar idéias com a gente.

Também são falantes as máquinas de estacionamento: ?Bem-vindo ao shopping Tal e Tal. Pegue o seu tíquete e boas compras…?. Que atraso de vida, em comparação com isso, os caixas do cinema multiplex alguns andares acima! Atrás de um vidro à prova de tiros de escopeta, os funcionários se debatem com um microfonezinho em péssimo estado, tentando avisar-nos de que não há mais ingressos para aquela sessão nem para nenhuma outra.

Melhor seria, penso, se vendessem as entradas com o tíquete de estacionamento. Uma fila só -a gente dentro do carro, conversando com ele, claro. Lá fora, imagino, engrossaria um pouco mais a leva dos desempregados.

É nesse ponto que o dispositivo do carro falante se junta com outro acessório bastante em voga, o insulfilm -película que escurece os vidros do carro, protegendo-nos do sol e de abordagens indesejadas. É uma blindagem visual.

Nietzsche afirmou que o ouvido é o órgão do medo, no que provavelmente se inspirou em Plutarco, para quem ?nem as coisas visíveis, nem as que se saboreiam, nem as tangíveis trazem arroubos, perturbações e terrores tais como as que se apoderam da alma, irrompendo nela por meio da audição de certos estrépitos, golpes e sons? (?Como Ouvir?, ed. Martins Fontes).

O rádio do carro e o walkman já proporcionavam uma barreira para os sons exteriores. O sistema do automóvel falante faz mais do que isso: força uma interação com o usuário e dispensa-o, sem dúvida, de olhar para o painel. É mais um passo com o objetivo de reduzir ao mínimo todo o nosso esforço de leitura -mesmo que de números, figuras ou flechinhas. O que é muito cômodo, sem dúvida, mas tem um sentido claro.

Se a audição é o lugar do medo, talvez porque admita a escuridão e a proximidade, o olhar é a mais livre de nossas formas de percepção sensorial. Podemos fechar os olhos, desviar a nossa vista, escolher um ângulo ou um detalhe em detrimento de outro. O olhar sobre uma página de livro ou de revista tem uma liberdade que o ouvido desconhece.

Mas isso já é passado. As telas de TV e de computador nos hipnotizam com um brilho e um pisca-pisca que não percebemos conscientemente. Nossa liberdade física, no plano bem modesto dos movimentos oculares, sofre indubitável e prazerosa limitação. Some-se a isso a sonorização de tudo -não só a dos carros, mas a dos e-mails, por exemplo- e prevejo um futuro brilhante à nossa frente. Desde que fechemos bem os olhos.”

“Governo defende manutenção de internet grátis”, copyright O Estado de S. Paulo, 4/05/03

“Preocupa ao governo o futuro da internet grátis, considerada uma ferramenta importante para a inclusão digital no País. A Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) trabalha em um novo regulamento para o acesso discado, que esteve em consulta pública até janeiro. Dependendo de como sair o texto definitivo, estas regras podem inviabilizar o modelo de negócios do acesso gratuito, serviço utilizado por cerca de 4 milhões de brasileiros todos os meses, mais da metade dos usuários efetivos no País.

?O ambiente está diferente?, afirma o presidente do iG, Matinas Suzuki Jr.

O governo considera o acesso grátis, combinado com a cobrança de um único pulso por chamada de madrugada e no final de semana, ferramentas importantes para a inclusão digital. Além disso, a administração federal teme arcar com o ônus político de inviabilizar a internet gratuita, descontentando seus milhões de usuários.

?A internet grátis é uma solução que teve sucesso no Brasil e acabou contribuindo para incluir alguns segmentos no acesso à rede, como estudantes e a classe média baixa?, diz Sérgio Amadeu da Silveira, presidente do Instituto Nacional de Tecnologia da Informação (ITI), autarquia da Casa Civil. Ele destaca, porém, que não é suficiente para levar a internet a todos aqueles que ainda não têm acesso.

A estudante Vivian Houszka, de 20 anos, usa internet grátis há um ano e meio. Antes, ela usava o acesso pago. ?A conta era muito alta?, afirma Vivian. Além dela, sua mãe e sua irmã, de 18 anos, usam o serviço. ?Acho muito ruim se o serviço viesse a acabar.? Para a estudante May Edelstein, também de 20 anos, não existe muita diferença qualidade dos serviços pagos e grátis. Na sua casa, a conexão é compartilhada com três irmãos, de 9, 11 e 17 anos.

?A internet grátis representa uma contribuição maior à inclusão digital do que qualquer programa governamental?, afirma Raphael Mandarino, representante dos usuários no Comitê Gestor da Internet e presidente da Associação Nacional de Usuários de Internet (www.anui.org.br). O Comitê Gestor defende que sejam mantidas as modalidades atuais de acesso, mesmo após a criação dos novos tipos propostos pela Anatel, como a tarifa única.

As operadoras de telecomunicações reclamam que os provedores grátis permitem às concorrentes ?roubarem? tráfego. As prestadoras de serviço que hospedam os provedores recebem um grande número de chamadas e, dessa forma, precisam ser remuneradas pelos concorrentes, que atendem aos usuários de internet, pelo uso de suas redes. Algumas empresas, como o iG e a Telemar, têm contratos de compartilhamento de receitas. Ou seja, recebem parte do faturamento gerado pelas chamadas recebidas pela operadora que os hospeda.

O secretário-geral do Partido dos Trabalhadores (PT), o deputado federal Jorge Bittar (RJ), defende que a Anatel regulamente o compartilhamento de receitas, para garantir que todos os provedores tenham tratamento igual pelas operadoras. Hoje, a Anatel considera ilegal a divisão das receitas.

A grande questão, para as operadoras, é a abertura do mercado. Como é difícil para as novas concorrentes conquistarem, no curto prazo, um número significativo de clientes (por não possuírem rede com boa cobertura), uma alternativa é atrair empresas que geram bastante tráfego, como os provedores. ?Quanto mais operadoras entrarem, melhor?, diz o presidente do Pop, Sérgio Creimer. O provedor gratuito Pop tem a GVT, concorrente da Brasil Telecom, como acionista.

?Vejo o modelo de acesso grátis como salutar, pois gera competição na telefonia local onde tecnicamente não seria possível?, afirma Pedro Luiz Côrtes, professor da Fecap e autor do livro A Verdadeira História do iG (Editora Érica).”

“Diário na internet: 300 mil brasileiros já tem um”, copyright O Estado de S. Paulo, 4/05/03

“Imagine algo bem rotineiro, que se faz todo dia. Algo como comprar pão, ler o jornal ou, em tempos modernos, checar e-mails. Para pelo menos 300 mil brasileiros, descrever sua rotina num diário na internet, os blogs, já virou hábito. ?O blog é uma extensão dos meus pensamentos, só que pública?, conta o universitário Guilherme Bracco, de 27 anos.

Concebidos para serem uma espécie de ?querido diário?, os blogs já extrapolaram tanto a sua função inicial quanto o público-alvo esperado, os adolescentes. Bracco, que mora em São Paulo e é estudante de regência e canto, batizou sua página de Ah, Bravo Fígaro! (http://cantorum.com/figaro).

Música é um dos temas, mas ele não se limita a escrever sobre isso.

Para Bracco, os ?posts? – textos publicados no blog – já fazem parte de sua vida. ?Você cria uma certa rotina, como se tivesse de falar sobre algum assunto. Começa a pensar: ?Isto é legal de escrever?, conta. O Ah, Bravo Fígaro! foi inaugurado em dezembro de 2000 e é visitado cerca de 300 vezes por dia.

A jornalista Fernanda Guimarães Rosa, de 41 anos, anda sempre com bloquinho e câmera fotográfica. Suas impressões e fotografias da vida em Davis, na Califórnia, onde estuda e mora desde 1997, não vão parar nas páginas de jornais, mas em seu blog, The Chatterbox (www.fezocasblurbs.com). ?Meu material é o meu cotidiano. O que vejo, leio, vivo, escuto?, conta.

Alternativa – ?Adquiri o hábito de escrever posts o tempo todo na minha cabeça?, diz Fernanda. A jornalista iniciou o diário em outubro de 2000, porque havia cansado de participar de listas de discussão na internet. ?Elas foram meu contato com o Brasil e um canal de expressão muito úteis por muitos anos. O blog foi a alternativa para continuar a escrever minhas histórias.?

Outra blogueira inveterada é a gaúcha Cláudia Letti, de 39 anos, que mora no Rio e escreve o Afrodite sem Olimpo (www.letti.com.br/afrodite). Como é gerente de conteúdo de páginas na internet, vive na frente do micro. ?Às vezes acontece alguma coisa comigo na rua, o computador já está ligado, vou lá e escrevo.?

Para Cláudia, o blog foi uma conseqüência da sua vida de ?interneteira?:

?Conheci meu marido no IRC (antigo canal de chat) e tive página pessoal. Aí, quando veio o blog, aderi.? Ela diz que já fez várias amizades por meio dos blogs. ?Mas foi uma iniciativa nossa, de sair de trás da tela.?

Contos – Escrever contos e poemas já era rotina para a advogada Patrícia Antoniete Ferreira, de 30 anos, de Porto Alegre.

Com o surgimento dos blogs, ela passou a publicar seus escritos diariamente no Não Discuto (www.naodiscuto.blogger.com.br).

?Escrevo pelo menos uma vez por dia, todos os dias. Eu achei que poderia ficar ansiosa, não sair nada, não saber o que escrever. Mas isso não acontece. É uma hora de pensar e produzir?, diz a advogada, que também é co-editora do Copy & Paste (www.copy-paste.blogspot.com), site que seleciona os melhores trechos dos diários brasileiros na rede. ?Antes eu escrevia, quase sempre, antes de dormir. Não um diário, mas conto, poesia, textos curtos. Hoje faço isso no blog.?

Comentários – Muitos blogueiros têm sistemas de comentários em suas páginas. É uma forma de manter contato com os visitantes. Também serve como um tipo de termômetro. ?Ninguém que goste de escrever o faz para si. Sempre há um leitor subentendido. A diferença é que agora ele existe, interage imediatamente, diz ?gostei? ou ?tá horrível?, afirma Patrícia.

Guilherme Bracco não é muito fã dos recados. ?Os comentários podem ser irritantes. Você está falando sobre o Iraque ou sobre o próprio umbigo e as pessoas passam lá para dizer ?Que lindo, beijo, tchau!? ?O aspecto ruim do blog é a exposição. Entrou na roda, agora tem de rebolar?, diz Fernanda Guimarães Rosa. ?Às vezes as pessoas dão palpite na sua vida e vez e outra aparece um espírito-de-porco, mas no meu caso esses episódios foram raros.?

Facilidade – Um dos grandes atrativos dos diários é a facilidade de publicação. ?Você não precisa entender de HTML (código de programação). Só precisa escrever e clicar. Não é necessário ter um programa nem pagar taxa?, diz Cláudia Letti.

?O blog já vem pronto, isso foi um grande facilitador. Com os blogs, a internet deixou de ser um bicho-papão.?

A ferramenta de publicação mais popular é o Blogger (www.blogger.com), criado em 1999 pela empresa californiana Pyra Labs. A versão brasileira (www.blogger.com.br) é administrada pela Globo.com.

?Desde agosto de 2002, viemos na liderança e fazendo crescer o segmento?, explica a gerente de Produto da Globo.com, Renata Brasil. Segundo ela, a categoria cresce até 10% a cada mês.

O Blogger.com.br hospeda mais de 300 mil diários virtuais e já teve 585 mil visitantes. ?Percebemos que, quando há algum grande evento, como a guerra no Iraque, as pessoas tendem a criar blogs. Eles atraem formadores de opinião.?

O serviço também é oferecido pelos provedores IG (www.blig.ig.com.br) e Terra (www.weblogger.com.br).”

“Lei anti-spams prevê até 5 anos de prisão”, copyright O Estado de S. Paulo, 1/05/03

“O Estado americano da Virgínia promulgou a mais rígida lei anti-spam dos EUA, dando às autoridades o poder de desapropriar bens ganhos com o envio em massa de e-mails não solicitados. A lei prevê penas de até 5 anos de prisão.

Grande parte do tráfego global da internet passa pela Virgínia, que abriga megacompanhias online, como a America Online e a MCI. Além disso, grandes centros de comunicação federais na vizinha Washington e em seus subúrbios atravessam os limites do Estado.

?Queremos ser capazes não só de introduzir uma potencial violação criminal, mas também de desapropriar os ganhos obtidos com essa atividade ilegal – carros, barcos, aviões, casas?, disse o governador Mark R. Warner. Antes de assumir o cargo, ele se tornou multimilionário como investidor em alta tecnologia.

Warner disse que filtros técnicos e penalidades civis se mostraram inadequados. Embora cerca de metade dos Estados americanos tenham leis anti-spam, nenhum outro permite às autoridades arrestarem bens e condenarem culpados a tantos anos de prisão, afirmou. As punições podem ser aplicadas mesmo se o remetente das mensagens e os destinatários residirem em Estados diferentes.

A nova lei destina-se ao e-mail comercial em massa, com cláusulas que valem quando alguém envia pelo menos 10 mil cópias de uma mensagem num único dia ou ganha pelo menos US$ 1.000 com uma transmissão desse tipo. ?Isto é diferente de um e-mail ocasional?, afirmou o governador.

Cabeçalhos – A lei da Virgínia também proíbe ferramentas que automatizam o spam e a invenção de cabeçalhos de e-mail, que contêm informações identificando o remetente e o servidor – os spanners freqüentemente falsificam os cabeçalhos para esconder sua identidade e apagar rastros. As mesmas cláusulas podem afetar e-mails não-solicitados e não-comerciais de organizações beneficentes, igrejas ou candidatos políticos se as mensagens excederem o volume máximo ou disfarçarem a identidade do remetente. (AP)”

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