Domingo, 20 de Agosto de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº954

PRIMEIRAS EDIçõES > CASO SONINHA

Marcelo Coelho

Por lgarcia em 05/12/2001 na edição 150

CASO SONINHA

"A maconha e a lógica do preconceito", copyright Folha de S. Paulo, 28/11/01

"Fumo maconha muito pouco, em festas ou casa de amigos. Não incentivo ninguém a fumar. Mas devemos falar disso porque é um problema seriíssimo.

Há pessoas que pensam que fumar maconha é desajuste, crime. Considero muito mais danoso dizer que alguém que fuma é criminoso do que qualquer efeito da droga. É esse tipo de tratamento que cria a marginalidade, o gueto.

Sou a favor da descriminalização da maconha. Mas com restrições. Deve ser proibida para menores ou em áreas públicas, por exemplo. Considero a erva uma droga, como o cigarro e a bebida.

Mas separo a maconha das outras porque ela causa menos dependência e é menos nociva. Não é uma droga de consumo voraz. Quando bate, a pessoa nem consegue continuar fumando, fica preguiçosa, relaxada.

Várias vezes, depois de fumar, pensei: ?Puxa, é tão bom e causa tanto medo e desgraça?. Um é expulso de casa, outro apanha da polícia ou perde o emprego. E os pais sofrem barbaramente, se descobrem que o filho fuma.

Lógico que a maconha tem efeitos negativos para a saúde, mas isso não pode fazer de seu uso um crime. O fato de ela ser criminalizada cria uma cerca em volta do problema. Embora seja raro, se alguém se tornar dependente, como é que vai procurar ajuda se é um criminoso?

Não pus entre aspas o texto acima, mas quem leu a revista ?Época? da semana passada pode conferir. Reproduzi quase na íntegra o depoimento de Sonia Francine, colunista da Folha que trabalhava na TV Cultura como apresentadora de um programa para adolescentes.

Ela foi demitida depois desse depoimento. Ou melhor, foi demitida depois de sua foto ter aparecido na capa da revista e em outdoors, ao lado da frase em letras garrafais: ?EU FUMO MACONHA?.

Fiquei inicialmente na dúvida sobre o que pensar desse episódio. Disseram-me mais ou menos o seguinte: ?A TV Cultura tem razão. Ela é apresentadora de um programa para adolescentes! Fica mal… ela errou. Não pode dar o exemplo?.

Só depois é que li o depoimento dela. E agora tenho vontade de perguntar: ?Mas que exemplo ela estava dando? Para quem??.

O que ela disse é corretíssimo. Disse que fuma pouco, que não incentiva ninguém a fumar, que a maconha é droga e deve ser proibida para menores de idade, mas que o fato de ser criminalizada ?cria uma cerca em volta do problema?.

Imagine-se um pai preocupado com a filha adolescente. A menina está consumindo maconha. Você proíbe. Argumento da filha: ?Não viu a reportagem? A Soninha fuma maconha?.

Seria preciso ser muito desajeitado para ficar sem resposta diante de um argumento desses. Soninha é adulta, fuma pouco, não acha que adolescentes devam fumar etc. etc. O melhor que o pai preocupado poderia fazer é mandar a filha ler o depoimento da Soninha.

Nunca assisti ao programa dela. Li que é um programa de debates para adolescentes. É provável que tenham discutido muitas vezes a questão das drogas por lá. A meu ver, ninguém mais do que Soninha teria moral para debater o problema com adolescentes. Ou será que agora vão arranjar alguém que nunca fumou maconha para tratar do assunto? Que tal um bispo da Record?

Noventa por cento dos usuários de maconha não desenvolvem dependência. Isso não torna o problema menos sério. Ninguém ignora que adolescentes podem prejudicar-se muito fumando maconha. Ou que o abuso da maconha é bem mais frequente nessa faixa etária que o do álcool.

Mas no episódio prevaleceu a lógica do preconceito, da criminalização, da hipocrisia. Não se pode falar honestamente sobre o tema. Quem falar vai para a rua. Ou para a cadeia.

A espiral do preconceito começa na própria reportagem. Não sei se os editores de ?Época? estavam certos ou errados ao fazerem uma capa tão bombástica. Se o objetivo foi abrir o debate -?olhem quanta gente normal e bacana fuma maconha?-, é inegável que o efeito foi inverso: ?Você viiiiu? Ela é maconheeeira?.

O gueto aumenta sua população, mas continua sendo um gueto. O que aconteceria se Soninha fosse flagrada bebendo vinho numa festa? E se aparecesse fumando um cigarro comum?

Seriam ?maus exemplos?, sem dúvida, como tantos outros que o adolescente pode ver todo dia até mesmo dentro de casa. E com os quais os adultos sabem lidar sem maiores problemas. Seria o caso de demitir a apresentadora? Acho que não. E se fosse vista guiando um carro? Não seria um estímulo para que adolescentes de 15 anos saíssem dirigindo por aí?

Bem, é claro que o argumento é capcioso, pois uma pessoa adulta não está proibida de dirigir carro ou de beber vinho. E fumar maconha é proibido.

Certo. Mas a questão é justamente essa. Por que proibir o uso da maconha, quando advogados, empresários, cartunistas, professores e até a apresentadora Soninha fumam? Era um debate a ser feito.

Mas o que se obteve foi uma linda lição para os adolescentes, que pode ser resumida assim: todo mundo fuma maconha. O proibido é dizer que fuma. E por que é proibido dizer que fuma? Porque fumar é proibido.

Os problemas da maconha são menores do que os problemas criados pelo tabu em torno da maconha. Da falta de diálogo em família até a prisão, passando pelo contato com traficantes e pela automarginalização do adolescente, não há nada que o preconceito e o moralismo não venham a agravar.

Era isso o que Soninha estava dizendo em seu depoimento; e é como se o preconceito tivesse se vingado dela, mostrando-se ainda mais forte do que seria de supor. Foi automático: diante dos outdoors e da capa da revista, não foi possível nenhuma outra leitura que não a do escândalo. O tabu se auto-alimenta."

"Todos os argumentos de Soninha e Ib", copyright Comunique-se, 29/11/01

"Comunique-se enviou a Soninha Francine o artigo do jornalista e professor aposentado da Fundação Getúlio Vargas Ib Teixeira, publicado pelo Jornal do Brasil, no domingo (25/11). E enviou a Ib Teixeira o artigo de Soninha publicado pela revista Época, na edição 184, que está nas bancas. E pedimos que cada um desse sua opinião sobre o texto do outro.

Este é o comentário que nos foi enviado por Soninha Francine:

‘Em primeiro lugar, gostaria de saber se a ‘jovem’ a que Ib Teixeira se refere na primeira linha sou eu. Se for, a frase está tão repleta de incorreções que pode ser um belo exemplo dos equívocos a seguir. Em segundo lugar, provavelmente não sou tão jovem quanto ele supõe – tenho 34 anos. Em segundo, não disse na TV que ‘sinto falta de um baseadinho’. Não sinto falta nenhuma, e dei uma delcaração à revista Época que foi tirada de contexto na capa da revista, alterando muito o seu sentido. Em terceiro, não sou bela de corpo, mas isso nem vem ao caso.

‘Acho que seria mais honesto se o autor informasse a fonte dos seus dados. Quem forneceu essa informação sobre o número de homicídios dolosos na Holanda? Supondo-se que esses números estejam corretos, que direito temos de associá-los à descriminação da maconha?

‘Ib Teixeira usa uma outra estatística de maneira algo leviana ao dizer que ‘cerca de 15% da população de 12 ou mais anos estejam escravizados ao vício’. Incluir toda a população maior de 12 anos em uma única estatística pode levar a conclusão muito erradas, assim como falar em maconha e em ‘outras drogas mais pesadas’ ao mesmo tempo.

‘Estudos indicam (desculpem por não ter, agora, a fonte) que a proporção de usuários que podem ser dependentes de maconha não é muito diferente da proporção dos usuários de álcool que desenvolvem a dependência. E menor do que a do tabaco, de cocaína e de outras drogas. O tipo de síndrome de abstinência é muito diferente em cada caso. Como incluir todas na mesma estatística?

‘De qualquer maneira, Teixeira supõe que ‘semelhante percentual, no Brasil, representaria 24 milhões de vítimas das substâncias entorpecentes’. Gostaria de lembrar que talvez esse já seja o número de vítimas – que, além de precisarem de ajuda médica e psicológica, são consideradas fora-da-lei, o que não as ajuda em nada.

‘Segundo o artigo, ‘traficantes dominam as cidades’ na Holanda. Mas no Brasil também, com um poder que não temos sido capazes de enfrentar. E se ‘a pesquisa mostra que a Holanda se transformou igualmente em campo estrategicamente importante para o tráfico internacional’, o que dizer do nosso país? E na Colômbia, onde as drogas são tratadas no modelo estadunidense (como uma questão de polícia/ exército), o tráfico é menos poderoso e bem-sucedido que na Holanda?

‘Ib Teixeira diz ainda que ‘constantemente, do estrangeiro, chegam legiões de viciados para desfrutar da liberalidade holandesa’. Parece que ele insiste em chamar todos os usuários de ‘viciados’, o que &eacuteeacute; absolutamente incorreto.

‘Enfim, o pesquisador tem todo o direito – é lógico! – de ser a favor da situação da maneira em que está, ou seja, que fumar maconha continue sendo considerado um crime. Mas ele não pode manipular todos os dados a favor da sua tese. Existem milhões de usuários de maconha no Brasil. Alguns abandonam o uso quando saem da adolescência, outros não. Alguns experimentam outras drogas e passam a usá-las também, outros não. Alguns se tornam dependentes e não conseguem viver sem maconha, outros não. Alguns abandonam as suas atividades normais, e outros trabalham e estudam sem que haja interferência.

‘O tráfico prospera com a venda de uma mercadoria que todas as culturas, em todos os tempos, utilizaram de alguma maneira: as substâncias psicoativas. Sabe-se lá por que, algumas são consideradas ilícitas e outras são socialmente aceitas. O poder e poder e a violência do narcotráfico aumentam a olhos vistos e causam danos graves a toda a sociedade (danos maiores do que os das substâncias em si). Uma parte da polícia acoberta as atividades dos traficantes ao mesmo tempo em que ameaça e extorque os usuários. Como essa situação pode ser considerada melhor que a da Holanda?’

Este é o comentário que nos foi enviado por Ib Teixeira:

‘Toda regra tem exceção. O fato de ela não ser alcançada pela não toxidez da maconha é uma exceção. Em regras gerais, a maconha é um produto tóxico e alucinógeno para a grande maioria das pessoas. As Nações Unidas, em 1948, incluíram a maconha entre as drogas que produzem dependência química. Uma comissão da Organização Mundial de Saúde concluiu que a maconha também produz dependência química. Não é uma observação pessoal de uma neófita (novata, principiante) que irá fazer diferença.

‘A OMS considera que o uso da maconha é também o caminho para a utilização de drogas mais pesadas, como cocaína e heroína. A partir do momento em que as pessoas acumulam toxidez no organismo. Esta é a experiência internacional. Ela pode dizer o que quiser, mas não tem direito de negar a realidade.

‘Na verdade, não estranhei que ela declarasse ser usuária da maconha, pois a TVE e a TV Cultura fazem propaganda de drogas exibindo filmes em que os personagens utilizam drogas sem nenhuma punição na trama. A TV Cultura fez muito bem em demitir essa moça. Parabenizo Jorge Cunha Lima pela decisão de demiti-la. Isso não significa censura, mas ela deveria ter consciência de que o comunicador tem um compromisso com a sociedade.’"

"TV Cultura mantém demissão de Soninha", copyright Folha de S. Paulo, 28/11/01

"A direção da TV Cultura não aceitou os argumentos do deputado Fernando Gabeira (PT-RJ), que pedia para a emissora rever sua posição no caso da apresentadora Soninha, demitida por declarar que fuma maconha em entrevista à revista ‘Época’. A reunião aconteceu ontem, na sede da emissora, em São Paulo."

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