Sexta-feira, 20 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

PRIMEIRAS EDIçõES > MARIO VARGAS LLOSA

Marcelo Coelho

Por lgarcia em 05/10/2000 na edição 99


"Jornalismo de entretenimento", copyright Folha de S. Paulo, 01/10/00


A Festa do Bode – 450 págs., R$ 37,00 de Mario Vargas Llosa. Tradução de Wladir Dupont. Mandarim

"Para fugir um pouco do clichê, não digo que este romance de Vargas Llosa seja daqueles que prendem a atenção da primeira à última página. Mas, do segundo capítulo em diante, torna–se muito difícil interromper sua leitura. É o momento em que a narração passa a se concentrar na figura do ditador Rafael Trujillo (1891–1961), que governou a República Dominicana de 1930 a 1961. Estamos às vésperas de um atentado contra Trujillo – ou ‘O Bode’, como é chamado. Assistimos a seu despertar, acompanhamos seus minuciosos cuidados com a higiene pessoal, somos informados de seus desconfortos na próstata e vamos pouco a pouco entrando em contato com a sinistra rotina de governo.

Asseclas de todo tipo

Enquanto isso, conspiradores tramam a sua morte, os Estados Unidos pressionam contra os abusos do regime e asseclas de todo tipo – o chefe da polícia secreta, o senador caído em desgraça, o diplomata encarregado de arranjar meninas para Trujillo deflorar – apresentam suas variantes individuais da covardia e da abjeção humana. Trujillo domina a todos com frieza e senso de humor perverso. É o ditador latino–americano por excelência, ou um dos seus casos mais extremos – capaz de nomear o filho de sete anos oficial do Exército, de rebatizar com o próprio sobrenome a capital do país, de torturar e matar quase que por diversão. A Festa do Bode funciona muito bem como retrato de um regime e ganha ainda maior interesse quando narra o processo de transição para a democracia, se é que se pode falar em democracia. Com grande vividez jornalística, Vargas Llosa mostra a habilidade do sucessor de Trujillo, Joaquín Balaguer (1906), nesse processo. Em geral, ‘habilidade política’ é um desses termos que, como ‘tino comercial’, por exemplo, parecem um pouco abstratos para quem vê as coisas de fora. Nos capítulos finais do romance, a figura ambígua de Balaguer – trujillista histórico e político aparentemente insignificante – assoma ao primeiro plano e vem ilustrar de modo fascinante a sutileza com que se pode agir no âmbito palaciano. Sexo, poder, aberrações de personalidade, suspense político – o livro de Vargas Llosa tem tudo isso; mistura bem o entretenimento e a informação histórica.

Literatura secundária

Como literatura, entretanto, situa–se num plano bastante secundário. Vargas Llosa sempre foi um romancista hábil, usando bem os recursos do ‘flashback’ e da mudança de foco narrativo – personagens secundários num capítulo assumem o papel principal em outro, jogando sempre com o interesse do leitor. Surpreende, entretanto, que A Festa do Bode seja por momentos tão simplório e inverossímil no esforço de informar o leitor sobre as circunstâncias históricas em que se desenvolve a trama. Há, por exemplo, o artifício da ‘falsa amnésia’. Vemos diálogos em que os principais representantes do regime parecem ter falhas de memória – isso de modo a que um personagem possa explicar (para o leitor, naturalmente) fatos que nenhum dos envolvidos haveria de ignorar. Outro artifício é o que poderíamos chamar de ‘falsa introspecção’. O narrador finge ‘entrar’ no íntimo do personagem – e então o personagem se entrega a longas reconstruções de seu passado. Só que isso é feito sem nenhuma densidade psicológica, sem nenhuma nuance subjetiva: um relatório biográfico se atropela em algumas páginas, apenas para que o leitor fique inteirado do ‘quem é quem’ da ditadura dominicana. Um terceiro artifício, ainda pior e infelizmente comum nesse tipo de romance histórico, poderia ser chamado de ‘interpelação’. O narrador, num efeito sentimental, se dirige diretamente ao personagem: ‘Sim, Fulano, agora é o momento em que você enfrentará seu inimigo… Lembra–se daquela vez, quando… etc. etc.’.

Parágrafos como teletipos

Por vezes, Vargas Llosa força a mão nas descrições dos personagens. Tudo bem que um político do regime seja repulsivo. Mas o livro tem frases como estas: ‘Sentado, parecia mais obeso do que em pé: a enorme barriga havia aberto o roupão e pulsava com fluxo e refluxo compassados. Cabral imaginou aqueles intestinos dedicados, tantas horas do dia, à laboriosa tarefa de deglutir e dissolver os bolos alimentares que a figura voraz tragava’.

A crise dominicana se precipita. O autor parece ter pressa e produz parágrafos como um teletipo. O filho de Trujillo trata de sua sobrevivência no poder, ‘pondo à frente da Fortaleza de Santiago de los Caballeros, a segunda do país, o general César A. Oliva, companheiro de promoção e amigo íntimo. Também deu um jeito de levar ao comando da Quarta Brigada, com sede em Dajabón, o general Garcia Urbáez, aliado leal. Por outro lado, contava com o general Guarionex Estrella, comandante da Segunda Brigada, com base em La Vega…’ etc.

Para não ficar tão jornalístico, A Festa do Bode alterna a narração dos acontecimentos de 1961 com a história de Urania Cabral, filha de um senador trujillista, que volta ao país depois de 30 anos de ausência para acertar contas com o passado.

Embora o autor pareça depositar em Urania Cabral a função de dar maior densidade psicológica e ‘cara de romance’ ao livro, ela não chega a ser uma personagem – é mais um artifício de rememoração dos absurdos da ditadura e no fundo tem pouco a fazer no romance. Pois ‘A Festa do Bode’, afinal, não se sustenta muito como romance, ainda que seja uma ótima mistura de entretenimento e jornalismo."

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