Terça-feira, 26 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº959

PRIMEIRAS EDIçõES > JORNALISMO CIENTÍFICO

Marcelo Leite

Por lgarcia em 08/01/2003 na edição 206

JORNALISMO CIENTÍFICO

“Pagar, publicar, perecer”, copyright Folha de S. Paulo, 5/01/03

“Uma velha máxima das ciências naturais, muito mais permeáveis à influência norte-americana que as ciências humanas, ensina que o pesquisador precisa publicar para não perecer (?publish or perish?, na sempre admirável concisão da língua inglesa). Pois de ora em diante os cientistas brazucas, cucarachas, mais escurinhos ou simplesmente duros e lisos podem começar a se preocupar com a anteposição do verbo ?to pay? (pagar) à implacável sentença.

O irônico é que tudo começou com boas intenções, como é de praxe na América (a do Norte). Em 2000, três pesquisadores de renome lançaram um movimento em favor de uma publicação aberta para acolher artigos científicos, em protesto contra os ?journals?, revistas especializadas que cobram assinaturas e pelo acesso eletrônico.

O trio era composto pelo Nobel e ex-diretor dos poderosos Institutos Nacionais de Saúde dos EUA (os NIH) Harold Varmus, hoje presidente do Memorial Sloan-Kettering Cancer Center de Nova York, por Patrick Brown, da Universidade Stanford, e por Michael Eisen, do Laboratório Nacional Lawrence Berkeley, os dois últimos da Califórnia. O movimento foi batizado como Biblioteca Pública de Ciência (?Plos?, na abreviação em inglês; página na internet: www.publiclibraryofscience.org).

Angariou o apoio de 30 mil pesquisadores, em particular na área das ciências biomédicas, que se comprometeram inclusive a boicotar as revistas pagas. O problema era que, sem um veículo alternativo a pesos-pesados como ?Nature?, ?Science?, ?PNAS?, ?Cell? etc., os apoiadores pragmaticamente continuam a publicar nas revistas tradicionais, para não correr o risco de desaparecer.

Pois agora parece que está surgindo a esperada alternativa: ?Plos Biology?, um ?journal? de acesso livre que deve começar a ser publicado até o final do ano que começa, segundo noticiou a newsletter diária on-line ?Science Now? (assim como a irmã ?Science?, de acesso restrito e pago; http://sciencenow.sciencemag.org). A idéia começa a sair do papel graças a uma doação de US$ 9 milhões da Fundação Gordon e Betty Moore. (Gordon Moore vem a ser a cabeça da indústria de chips de computador Intel e o formulador da Lei de Moore, segundo a qual a capacidade de processamento dos chips duplica a cada ano.)

?Isso vai incrementar muito o acesso à literatura científica, que será colocada num banco de dados central?, disse Michael Eisen à ?Science Now?. O banco de dados teria ferramentas on-line para buscar e baixar trabalhos (?search? e ?download?). Isso em princípio facilitaria a vida de instituições de pesquisa no Terceiro Mundo, por exemplo, que poderiam reduzir o custo operacional de bibliotecas e de coleções em papel.

?As publicações Plos serão controladas e administradas por cientistas e vão reter características importantes das publicações científicas, incluindo revisão por pares e padrões de produção rigorosos, mas vão implementar um novo padrão editorial que tornará todos os trabalhos publicados imediatamente disponíveis on-line, sem cobrança ou restrições para uso ou redistribuição subsequentes?, afirma comunicado no site da Plos.

O milagre será realizado cobrando uma taxa dos autores dos artigos, estimada por ora em US$ 1.500 por peça. Hoje já é comum cientistas custearem parcialmente a publicação de artigos (imagens coloridas, por exemplo), mas a taxa decerto encareceria ainda mais uma atividade que, ao menos no Brasil, já vive carente de recursos.”

“Laboratórios ?inventam? doença”, copyright Jornal do Brasil / The Guardian, 4/01/03

“Laboratórios fabricantes de remédios foram acusados ontem de criar um distúrbio médico – disfunção sexual feminina – a fim de vender medicamentos para impotência, como Viagra, a homens e mulheres. Estudo publicado no British Medical Journal (BMJ) diz que é crescente a preocupação de que sejam receitados para mulheres remédios para problemas sexuais que, na realidade, têm como causa dificuldades emocionais no relacionamento delas.

Há o risco de que ?as complexas causas sociais, pessoais e físicas de dificuldades sexuais – e a gama de soluções para estas – sejam postas de lado, na pressa de diagnosticar e receitar?, escreve o jornalista Ray Moyniham.

Nos últimos seis anos, os laboratórios farmacêuticos têm feito um esforço concentrado e combinado para que a disfunção sexual feminina seja reconhecida como condição médica que exige tratamento, diz o BMJ – antecipando-se em dois anos ao bem-sucedido lançamento do Viagra para homens, cujas vendas renderam à Pfizer US$ 1,5 bilhão em 2001.

Segundo Moyniham, pesquisadores com estreitas ligações com laboratórios farmacêuticos têm definido o distúrbio em reuniões patrocinadas pela indústria.

Um fato marcante aconteceu quando o Journal of the American Medical Association (JAMA) publicou um artigo em 1999 afirmando que 43% das mulheres, entre 18 e 59 anos, sofriam algum tipo de disfunção sexual. Dois dos autores, diz Moyniham, mais tarde revelaram ligações com a Pfizer.

O dado de 43% é amplamente usado, mas há sérias dúvidas sobre sua validade, segundo o BMJ. Foi perguntado a 1.500 mulheres se tinham sofrido qualquer um entre sete problemas sexuais por dois meses ou mais, inclusive falta de desejo para fazer sexo e preocupação com o desempenho sexual. Uma resposta ?sim? a qualquer um dos problemas era classificada como disfunção sexual.

John Bancroft, diretor do Instituto Kinsey na Universidade de Indiana, também está preocupado.

-O perigo de retratar dificuldades sexuais como uma disfunção é que cria a probabilidade de encorajar os médicos a receitar medicamentos para alterar a função sexual, quando se deve dar atenção a outros aspectos da vida da mulher. Também pode levar mulheres a pensar que têm algum defeito, quando não têm – disse ele.”

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