Quinta-feira, 23 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

PRIMEIRAS EDIçõES > TRANSGÊNICOS EM DEBATE

Marcelo Leite

Por lgarcia em 07/02/2001 na edição 107

OFJOR CI?NCIA

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TRANSGÊNICOS EM DEBATE

"Complexidade dos transgênicos turva debate que nasceu confuso", copyright Folha de S. Paulo, 31/01/01

"Transgênicos são um prato cheio para confusão e demagogia. A ciência é complicada, a regulamentação é enrolada e a discussão pública é no mínimo confusa -quando existe. Para piorar, mistura-se com guerra comercial e incompatibilidades culturais entre Europa e Estados Unidos.

Para começo de conversa, a lavoura de soja transgênica da Monsanto em Não-Me-Toque (RS) nada tinha de irregular, porque era um campo de testes. Há mais de três anos tais estudos são realizados no Brasil, autorizados pela Comissão Técnica Nacional de Biotecnologia (CTNBio).

Isso não quer dizer, porém, que os alimentos transgênicos estejam liberados para consumo no país. Estão e não estão.

Ainda na Justiça

A única autorização da CTNBio para plantio em grande escala foi dada em 1998 para a soja da Monsanto (Roundup Ready). Questionada na Justiça por organizações não-governamentais, a decisão ainda aguarda um pronunciamento final da Justiça Federal.

A CTNBio autorizou também o desembarque de carregamentos de milho transgênico importado para consumo animal, mas não concedeu licença alguma para plantio no Brasil.

Muitos entendem que isso equivaleria a uma proibição de produtos para consumo humano contendo esse ingrediente, ainda que em quantidade pequena, às vezes inferiores a 1%. O fato é que eles estão à venda livremente.

O próprio denominador comum desses produtos, o adjetivo ?transgênico?, é enganador. Soja Roundup Ready e milho StarLink nada têm a ver um com o outro. Ambas as plantas receberam genes de outra espécie, mas os resultados são muito diversos.

A soja da Monsanto ganhou um gene de bactéria para tornar-se resistente ao herbicida Roundup, da própria empresa. A proteína que a planta passa a produzir, antes inexistente na espécie, funciona como um antídoto contra o veneno. Ou seja, a soja modificada pode ser aspergida com o herbicida. Morrem só as ervas daninhas.

O milho da Aventis recebeu outro gene, de outra bactéria, para resistir a insetos. Neste caso, a proteína incorporada ao repertório bioquímico do vegetal é ela mesma um veneno, capaz de matar insetos. O alvo são as lagartas (brocas) de mariposas ou de borboletas que penetram no caule.

Não existe um corpo de estudos publicados em revistas científicas auditadas demonstrando que essas variedades façam mal à saúde humana. Testes para identificação de substâncias alergênicas conhecidas, por exemplo, deram resultados negativos. Para os defensores dos transgênicos, isso é prova bastante de que seus adversários não se curvam às evidências científicas, só às próprias crenças fundamentalistas.

Os adversários dos transgênicos, por seu turno, alegam que os testes não são confiáveis porque não têm como detectar substâncias alergênicas desconhecidas (e a engenharia genética, efetivamente, está introduzindo novas substâncias na cadeia alimentar). Devolvem a acusação de fundamentalismo, dizendo que os biotecnólogos têm fé cega na própria capacidade de consertar tecnologias que se revelem perniciosas.

A questão ambiental

Não existem estudos e testes com escala temporal e espacial adequados para verificar os efeitos de todas essas variedades sobre o solo e seus microrganismos, sobre populações de insetos que não são pragas, sobre pássaros que se alimentam de sementes das ervas daninhas exterminadas.

Essa é uma discussão mais ampla, que não diz respeito só às lavouras transgênicas, mas sim à agricultura como ela é conduzida hoje, ultra-intensivamente. Há quem diga que ela está a caminho de esgotar recursos naturais, como solos e reservas de água.

Por isso, quando você ouvir que os transgênicos vão acabar com a fome no mundo, ou então que essa tecnologia pode por si só causar a ruína de milhões de camponeses no mundo, desconfie.

A biotecnologia pode ser um recurso para aumentar a produtividade agrícola, mas não é uma bala de prata nem está isenta de efeitos colaterais, ora difíceis de avaliar. Por outro lado, a concentração da propriedade intelectual sobre as sementes mais rentáveis do planeta em meia dúzia de empresas não chega a ser tranquilizadora.

Transgênicos ainda darão muito pano para manga. O problema é que os lados envolvidos na discussão só aceitam conduzi-la na base da frente única."

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