Sexta-feira, 17 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

PRIMEIRAS EDIçõES >   EX-ALUNOS DA ECA

Marcelo Marthe e Ricardo Valladares

Por lgarcia em 07/10/2003 na edição 245

MÍDIA & RELIGIÃO

“Os católicos contra-atacam”, copyright Veja, 7/10/03

“Marcelo Rossi, o padre mais popular da Igreja no Brasil, agora é estrela de cinema. Maria, Mãe do Filho de Deus começa a ser exibido em circuito nacional na próxima sexta-feira. Grande vendedor de discos, apresentador de programas de rádio e televisão, Marcelo Rossi chega agora ao cinema interpretando dois papéis no mesmo filme. Padre de perfil moderno, vivendo em São Paulo, sempre animando auditórios e dando entrevistas à televisão, Marcelo Rossi faz no filme o papel de um pároco do interior. Numa história paralela, encarna o Arcanjo Gabriel, que anuncia à Virgem Maria que ela dará à luz Jesus Cristo. Com orçamento de 6,8 milhões de reais, Maria, Mãe do Filho de Deus é uma das produções mais caras feitas no Brasil. Custou menos que Carandiru, por exemplo (12 milhões de reais), mas quase o dobro de Xuxa e os Duendes (3,8 milhões de reais). Espera-se que atraia ao menos 2,5 milhões de espectadores aos cinemas – um público à altura do investimento. A julgar pelas primeiras reações, as chances são muito boas. Na semana passada, o filme teve uma pré-estréia em Natal, capital do Rio Grande do Norte. Atores famosos do elenco, como Giovanna Antonelli e Luigi Baricelli, ambos estrelas da Rede Globo, não participaram do evento, mas o anúncio de que o padre Marcelo daria o ar de sua graça bastou para causar alvoroço. Uma multidão se formou na rua e sete salas de cinema se encheram para vê-lo, ao vivo e na tela. Numa das sessões, ele advertiu a platéia: ?Espero que vocês tenham trazido o lenço, porque a história faz chorar?.

Marcelo Rossi, um pop star, um personagem da mídia (ou de várias mídias), entra também nas telas do cinema, mas é sempre importante acrescentar, no seu caso, que sua atividade básica é ser padre. Entre suas tarefas principais está a de continuar na função de soldado na guerra que a Igreja Católica vem travando há pelo menos três décadas para estancar a debandada de seus fiéis para outras hostes, sobretudo a evangélica, que triplicou seu porcentual de adeptos entre a população brasileira em trinta anos. Os passos que Marcelo Rossi dá em sua carreira artística são vigiados e direcionados pela instituição a que ele pertence. E, quando ele diz, como vem dizendo, que Maria, Mãe do Filho de Deus tem como principal objetivo trazer ovelhas para o rebanho católico, deve-se levá-lo muito a sério.

Para viabilizar a produção de Maria, Mãe do Filho de Deus, o padre Marcelo deu uma cartada comercial ousada. Ele saiu da gravadora Universal, onde lançou seus maiores sucessos fonográficos – entre eles Músicas para Louvar o Senhor, que atingiu a vendagem recorde de 3,2 milhões de CDs – , e migrou para a concorrente Sony. Explica-se: a Sony, além de lançar discos, tem um forte braço cinematográfico, a Columbia – que investiu 1,9 milhão de reais para distribuir Maria, Mãe do Filho de Deus em 250 salas do país. O padre Marcelo abriu mão de cachê para atuar, mas conseguiu fechar um contrato pelo qual 50% do lucro será aplicado em obras sociais de sua igreja, o Terço Bizantino. Estima-se que esse lucro seja de 500.000 reais.

O roteiro de Maria, Mãe do Filho de Deus narra duas histórias em paralelo. Uma delas passa-se no presente, no interior do Brasil. As filmagens foram feitas no Rio Grande do Norte e no Rio de Janeiro. A segunda é a história de Jesus Cristo (interpretado por Luigi Baricelli, que emagreceu 8 quilos para filmar a via-crúcis), mas com destaque especial para a personagem da Virgem Maria. No primeiro enredo, o padre Marcelo é o pároco de um vilarejo nordestino e Giovanna Antonelli, a mãe da garotinha Joana (Ana Beatriz Cisneiros, de 5 anos, que chegou a lhe dar bronca numa cena em que ele errou três vezes sua fala), supostamente desenganada pelos médicos. No dia em que vai retirar o resultado de exames importantes feitos pela menina, a mãe, aflitíssima, a deixa sob os cuidados do padre. Para entreter a garota, ele lhe conta a vida de Jesus, que ela vai aproximando dos cenários e dos rostos que conhece: o Oriente Médio se transforma no sertão, a Virgem ganha a face de sua mãe (ou seja, da bela Giovanna), o Diabo é o excelente José Dummond, um ator com biótipo marcadamente nordestino, e o Arcanjo Gabriel tem o corpo do padre Marcelo, as feições do padre Marcelo e o jeito de falar do padre Marcelo – o sacerdote, além de recusar as asinhas que sugeriram que usasse, não tentou interpretar o anjo e limitou-se a agir como ele mesmo.

No filme, como sugere seu título, o personagem de Maria ganha destaque – uma escolha que não tem nada de acidental. A devoção a Nossa Senhora é uma característica exclusiva do catolicismo. Nenhuma religião evangélica partilha desse culto, e há os que s&atatilde;o hostis a ele, como mostrou o chocante episódio em que um pastor da Igreja Universal do Reino de Deus chutou, durante um programa de televisão, uma imagem da Virgem. Por causa disso, e também porque a Mãe de Deus é uma figura conciliadora, que evoca doçura e paciência, o marianismo vem sendo uma peça importante em todas as estratégias de catequização dos católicos. O próprio papa João Paulo II tem sido seu incentivador. Ele adotou o dístico latino Totus Tuus, Maria (Totalmente Teu, Maria) e atribuiu a Nossa Senhora de Fátima o fato de ter escapado do atentado que sofreu em Roma, em 1981. Curiosamente, os Evangelhos não são muito ricos em informações sobre a Virgem – seu papel diminui na narrativa à medida que a de Jesus cresce. Entre os relatos da crucificação, por exemplo, só o do evangelista João a menciona. No filme do padre Marcelo, ao contrário, Maria aparece em diversos episódios: a ressurreição de Lázaro, o perdão a Maria Madalena, a aparição de Jesus aos discípulos. A elaboração do roteiro contou com a consultoria de dom Fernando Antonio Figueiredo, bispo da região paulistana de Santo Amaro e superior de Marcelo Rossi. Foi ele quem deu o viés marianista ao filme. ?A supervisão de dom Fernando era necessária para que aquilo que está sendo dito e projetado à população esteja de acordo com o Evangelho e a doutrina da Igreja, para que o filme transmita os ensinamentos que entendemos como corretos?, diz o bispo Orani João Tempesta, presidente da comissão episcopal para a cultura, educação e comunicação social da CNBB.

O padre Marcelo ordenou-se há menos de uma década, em 1994. Começou a chamar a atenção por volta de 1998, celebrando missas que tinham sessões de aeróbica, muita dança e cantoria – e eram capazes de encher estádios. Os feitos do jovem padre, hoje com 36 anos, puseram em evidência um debate que já vinha ocorrendo fazia algum tempo no interior da Igreja. Houve uma época em que os padres se dividiam em duas correntes principais. Ou eram conservadores, tradicionalistas, ou se inclinavam menos pela doutrina e mais para as questões sociais, de preferência casando teologia e pensamento de esquerda. Surgiu depois um terceiro ramo, os adeptos da Renovação Carismática, que defendiam que a tarefa mais urgente não era social, mas espiritual, e que a missa tinha de modernizar-se e tornar-se mais viva, talvez até mesmo mais próxima dos cultos evangélicos, para deixar de afastar os fiéis.

Esse debate ainda não se esgotou, mas, pelo menos no Brasil, mudou de figura. O pêndulo vem se inclinando para o lado dos carismáticos. ?Hoje esse movimento é o que demonstra maior capacidade de irradiar a fé católica junto à população. E por isso deve ser bem-vindo?, diz dom Ivo Lorscheiter, um ferrenho expoente da ala esquerda da Igreja e antigo crítico da Renovação Carismática. Também as estatísticas oferecem indicadores curiosos. Do ponto de vista da formação e do exercício da religião, há dois tipos de padre católico, os diocesanos, ligados diretamente às paróquias, e os padres de congregações religiosas (os beneditinos, franciscanos, e assim por diante). Embora se possa dizer que existe uma crise geral no número de ordenações de sacerdotes, o problema é maior no segmento das congregações. Ora, foi justamente nesse meio que floresceram movimentos politizados como o da Teologia da Libertação, hoje em baixa. Nas dioceses, por outro lado, a Renovação Carismática vem encontrando um terreno fértil para crescer, com seus grupos de oração e missas festivas. ?Há uma maior procura vocacional nessa área?, diz a socióloga Sílvia Fernandes, do Centro de Estatística Religiosa e Investigações Sociais, braço da CNBB na área de pesquisas.

Juntamente com uma tolerância maior para as missas que escapam do antigo figurino, cresce na Igreja o sentimento de que é preciso usar ferramentas como a mídia e até mesmo o marketing para propagar a mensagem católica. Embora não seja um órgão da CNBB, o Instituto Brasileiro de Marketing Católico, criado em 1998 por um leigo ligado ao movimento da Renovação Carismática, o publicitário paulista Antonio Miguel Kater Filho, conta hoje com a simpatia de vários bispos influentes no país. O primeiro presidente da entidade foi dom Fernando, o superior do padre Marcelo. O padre Marcelo, aliás, esteve entre os primeiros a participar dos cursos promovidos por Kater Filho. Outro entusiasta das atividades do instituto é dom Cláudio Hummes, cardeal-arcebispo de São Paulo, que já fez inclusive palestras em seus encontros. ?Aos poucos, cresce entre os bispos a consciência de que o marketing não é uma arma diabólica do capitalismo. Nos dias de hoje, é uma ferramenta indispensável para a reaproximação com os fiéis?, diz Kater Filho.

O instituto, hoje presidido por dom Murilo Krieger, arcebispo de Florianópolis, promove anualmente um encontro de marketing que reúne membros da Igreja e publicitários simpatizantes. Sua estrutura é pequena – na sede do IBMC em Campinas, quem atende ao telefone é o próprio Kater Filho. Mas não há dúvida de que se tornou uma referência – principalmente para a ala da Renovação Carismática. Nos cursos do instituto, os padres aprendem noções de comunicação, desde como se portar diante das câmeras até como descomplicar o modo de falar. Entre os temas abordados pelo instituto estão a necessidade de modernizar o sistema de som das paróquias, para que os sermões se tornem mais audíveis, e até repensar os horários das missas – elas tradicionalmente ocorrem de manhã bem cedo ou no fim da tarde, horários que já não condizem com a rotina da maioria dos brasileiros.

Naquilo que se poderia batizar de ?indústria cultural cristã?, católicos e evangélicos mantêm uma disputa acirrada e, no momento, equilibrada (veja quadro ao lado). A exceção é a TV. A Igreja admite que os evangélicos estão na dianteira nessa área, e assume a culpa por isso. ?Até os anos 40 e 50, a Igreja tinha um trabalho de comunicação muito eficiente, no rádio por exemplo. Mas não lidamos com a televisão da maneira como deveríamos ter feito?, diz o bispo Orani. ?Durante muito tempo, a Igreja encarou a televisão de forma acanhada demais?, acrescenta Kater Filho, do Instituto Brasileiro de Marketing Católico. Atualmente, a inteligência católica não pára de produzir estudos e reflexões sobre o assunto – e visualiza inclusive uma ação integrada na área.

Existem hoje três redes de televisão católicas no Brasil – a Rede Vida, a Canção Nova e a Século 21. Uma quarta está em via de ser criada. Todas são anãs se comparadas à Rede Record, propriedade da Igreja Universal do Reino de Deus. A Rede Vida é a mais antiga. Ela atinge praticamente 100% do território nacional, mas sua programação, marcada pelo ecletismo, tem audiência insignificante. Cada facção da igreja tem seu programinha no cardápio: há horários para a oração, mesas-redondas para discutir questões do país e até transmissões de futebol da série B. A rede com a estratégia mais agressiva de crescimento é a Canção Nova. Seu criador é o padre Jonas Habib, que trabalha com jovens desde 1966 e teve um papel importante na trajetória do padre Marcelo. ?Ele vive dizendo que sou seu pai espiritual?, diz o padre Jonas. Segundo ele, foi num encontro de jovens no fim dos anos 80 que o estudante de educação física Marcelo Rossi optou pelo sacerdócio. ?Ele estava num dilema e veio conversar comigo. Deu no que deu.?

A sede da Canção Nova ocupa 35 hectares em Cachoeira Paulista, no interior de São Paulo. Lá foi criado um misto de central de produção e comunidade religiosa com 580 integrantes, todos eles trabalhando em comunicação – seja na TV, na rádio ou na internet. Mais de 200 pessoas moram em apartamentos comunitários com alas para solteiros e casados. Há alguns casais de namorados, mas o padre Jonas diz que nunca se registrou nenhum incidente do tipo ?gravidez indesejada?. ?Quem vem para cá se dedica aos ideais católicos?, afirma. Com o lema ?Troque de canal – mude de vida?, a rede exibe missas e programas de oração, mas tem também atrações como o Semeando Esperança, apresentado pela atriz Myrian Rios, que é uma espécie de show de entrevistas em que convidados como a cantora Fafá de Belém e o ator Raul Gazolla falam de suas experiências religiosas.

A Canção Nova recebeu sua primeira emissora no final do governo Sarney, em 1989. A segunda foi adquirida em 1997 por 4,5 milhões de reais. Sua malha de retransmissoras vem se expandindo rapidamente. A rede tem 268 já regularizadas e 685 pedidos transitando no Ministério das Comunicações. O desejo é chegar aos rincões mais distantes do país. ?Contamos com a ajuda de políticos católicos nesse trabalho?, diz o padre Jonas. O nome mais expressivo entre esses políticos é o do senador e ex-vice-presidente Marco Maciel. Ao contrário do que ocorre entre os evangélicos, porém, não existe uma ?bancada católica? articulada. ?Somos um grupo relativamente grande, de cerca de 170 parlamentares, mas não se pode dizer que agimos em bloco. Nunca fizemos sequer uma reunião?, diz Maciel.

Os números do censo demonstram que em apenas trinta anos, entre 1970 e 2000, o porcentual de adeptos das religiões evangélicas triplicou, chegando à marca de 16% da população. Novas seitas surgem com freqüência e as já consolidadas alardeiam seu vigor construindo templos cada vez maiores. A Igreja Universal do Reino de Deus, do bispo Edir Macedo, a que apresentou crescimento maior na última década, passou de menos de 300.000 a mais de 2 milhões de adeptos. Desde seus primórdios, a Universal investiu pesado na aquisição de emissoras de rádio e televisão e tornou-se o melhor exemplo da importância do uso da mídia para atrair fiéis. Com uma década de atraso, os católicos resolveram enveredar pelo mesmo caminho. ?Com o crescimento dos carismáticos, o catolicismo brasileiro aproxima-se do modelo americano, ou seja, passa a empregar técnicas profissionais e cada vez mais variadas de difusão de sua doutrina num ambiente de competição agressiva com as igrejas evangélicas?, diz o sociólogo Alexandre Brasil Fonseca, especialista no estudo de religiões. O lançamento de Maria, Mãe do Filho de Deus se encaixa nesse quadro – embora muitos espectadores, e principalmente espectadoras, acabem se esquecendo disso ao ver o padre Marcelo de túnica azul e rosto iluminado, como Arcanjo Gabriel.

A sangrenta Paixão de Mel Gibson

O filme nem sequer está pronto, mas já é o mais falado – ou mal falado – do ano. A cada exibição-teste para espectadores seletos, a controvérsia aumenta: ele vai ?alimentar o ódio, o preconceito e o anti-semitismo?, ou até desencadear algum tipo de violência, dizem rabinos, teólogos e integrantes da Liga Americana Antidifamação. Do outro lado estão os simpatizantes do diretor, como o produtor Dean Devlin, que é judeu, e o jornalista David Horowitz, que o descreveu como ?o mais próximo de uma experiência religiosa a que a arte pode chegar?. O filme é The Passion (A Paixão), que o astro Mel Gibson dirigiu ao custo de 25 milhões de dólares (tirados de seu bolso) e que ele agora finaliza, para lançamento na Páscoa de 2004. The Passion mostra as últimas horas na vida de Jesus: a traição de Judas, a Última Ceia, a condenação decidida pelo governador romano Pôncio Pilatos, o desfile pelas ruas de Jerusalém e a crucificação.

Gibson é um católico rigoroso que rejeita muitas das diretrizes expedidas pelo Concílio Vaticano II, nos anos 60, por considerá-las excessivamente liberalizantes. Trata-se de uma fé de família: numa entrevista recente ao jornal The New York Times, o pai do astro, Hutton Gibson, qualificou o Vaticano II como ?uma conspiração maçônica apoiada pelos judeus?. São essas credenciais que despertam desconfiança quando Mel Gibson diz que pretende contar ?a verdade? sobre o derradeiro dia de Jesus. Os diálogos de The Passion são em latim e aramaico (só há pouco o astro concordou em legendá-los), e o sofrimento de Jesus (interpretado por James Caviezel) é mostrado com abundância de sangue e violência. Não há dúvida de que imagens assim devem trazer as emoções da platéia à flor da pele. Foi esse componente, aliado ao que algumas pessoas que tiveram acesso às cópias não finalizadas do filme descrevem como uma visão altamente negativa do papel dos judeus na crucificação de Cristo, que se tornou o pivô da polêmica em torno de The Passion. Desde o Concílio Vaticano II, aquele com que Gibson não simpatiza, a Igreja Católica tem se preocupado em retirar de seus ritos e ensinamentos as menções à culpabilidade dos judeus – em nome do ecumenismo e também porque esse é um ponto que os historiadores têm dificuldade em esclarecer.

Filmes que tratam de religião são, por natureza, objeto de controvérsia. Nada, porém, que se compare à atenção que The Passion tem atraído ou ao testemunho que Gibson invoca em sua defesa. Segundo o astro, quem o inspirou a realizar esse projeto foi o Espírito Santo, que lhe teria enviado sinais ?tão claros quanto semáforos?. A julgar pelo tipo de atrocidade que desde sempre se comete em nome de Deus, as razões para o pânico em torno de The Passion estão mesmo bem fundamentadas. (Com reportagem de Sérgio Martins e Isaac Ribeiro)”

 

UNIVERSIDADES E EMPRESAS

“Universidades e redações juntas?”, copyright Comunique-se, 6/10/03

“Na última semana, ao participar da Semana de Jornalismo da Universidade São Judas, localizada no bairro da Mooca, em São Paulo, tive a oportunidade de defender com vigor uma efetiva aproximação entre os cursos de jornalismo e as várias empresas e veículos de comunicação existentes no País. É difícil acreditar que num País onde existem cem, quem sabe duzentas empresas de comunicação de médio e grande porte, e outros quase cem cursos de jornalismo, em tese com interesses mútuos, não se concretizem parcerias desse naipe, que só benefícios traria para todos. Fui muito aplaudido, por razões mais do que presumíveis: os estudantes sabem de destino cruel que terão ao tentar ingressar no mercado de trabalho, e não conseguem vislumbrar atitudes práticas das universidades em lhes dar mais do que um diploma, ao final do curso. Curso que na maioria dos casos custou um bom dinheiro e muito sacrifício tanto de quem os fez, quanto das respectivas famílias.

Eu acho essa idéia tão elementar, tão factível e tão óbvia, que custo a acreditar que ainda não tenha sido feita em larga escala no País. Um verdadeiro ovo de colombo.

Que dizer, por exemplo, de uma parceria ECA/Folha de S.Paulo, ou de uma PUC/Estadão? E que tal um outro entre Globo/CBN e UERJ ou Correio Braziliense e UnB? As emissoras de TV, com núcleos editoriais em várias praças, poderiam formalizar convênios com tantas faculdades de jornalismo quantas forem as cidades em que estão presentes.

Ah, mas os principais veículos têm seus próprios cursinhos de jornalismo e não precisam se aventurar nesse tipo de iniciativa! – podem dizer alguns. E eu aproveito para perguntar: por que não? O que há de mau em abrir portas para jovens talentos, correndo até o risco de ficar com eles ao final de uma determinada jornada?

Custa caro! – pode também se argumentar. Custo a crer que algumas horas de treinamento possa ser justificativa para não levar-se adiante projeto tão nobre quanto estratégico, seja para as universidades, seja para as empresas e, sobretudo, para um grande número de jovens que deixarão a academia muito melhor preparados para o mercado, para o jornalismo e para o mundo.

É preciso reconhecer que várias empresas são até pioneiras nesse quesito, formando seus próprios cursinhos, os quais democraticamente abrem a possibilidade de abrigar jovens recém-formados de todo o País. É uma iniciativa fantástica, que deve ser preservada, pois realmente permite democraticamente que nasçam com o projeto grandes talentos, independente da origem – social e geográfica. Mas porque não complementá-la com os tais convênios, parcerias ou seja lá o nome que se queira dar, na qual as redações venham a abrir espaços para os formandos de faculdades locais?

A meu ver uma iniciativa não inviabiliza a outra, pois os cursinhos são para recém-formados, que entram, na prática, no chamado fazimento do conteúdo editorial, embora o objetivo seja também o de ensinar e aprimorar. Nos convênios, o objetivo essencial é complementar o ensino da academia, mostrando a prática de mercado e um primeiro convívio com o universo profissional.

Dá trabalho? Sim, dá trabalho, mas se o projeto for organizado e bem dirigido, não custará mais que uma hora diária de três ou quatro editores. E as próprias universidades podem incrementar o processo colocando seu corpo de professores ajudando na organização, ao lado dos profissionais da empresa, de modo a não sobrecarregar esse ou aquele.

O processo é tão elementar, que eu o compararia, por exemplo, aos clubes de futebol que investem na base, nos jovens talentos, e que acabam auferindo um bruta lucro com isso, investindo relativamente pouco pelo muito que acabam ganhando, ao formar estupendos times.

Os tais convênios poderiam ser feitos com base nas próprias notas que cada aluno obtiver durante o curso de graduação, de modo a premiar os mais aplicados, e poderiam servir como base para a nota final do curso, nada impedindo que os melhores sejam contratados pelos veículos, caso existam vagas.

Certamente há resistências de parte a parte para que isso ocorra, mas se a causa é boa é preciso lutar por ela.

Temos hoje uma situação bisonha, ridícula, no País, no que diz respeito ao ensino de jornalismo. No total, há nas dezenas de faculdades espalhadas pelas várias regiões brasileiras perto de 20 mil estudantes, o que significa uma média de 5 mil formandos por ano. Num mercado em crise como o que enfrentamos e sem uma adequação entre oferta e demanda, se não fizermos nada por esses meninos e meninas que estarão, mais dia menos dia, chegando às redações, assumindo responsabilidades, dá para imaginar o que poderá acontecer não só com o mercado mas com o próprio jornalismo num prazo muito curto de tempo.

Neste caso devem ir para a lata do lixo os maus empresários e não a idéia.

Penso que as universidades e as empresas de comunicação têm uma responsabilidade fundamental e recíproca neste sentido e devem olhar com carinho para esse cenário, colocando empenho e inteligência para encontrar caminhos que atendam tanto seus interesses particulares como os interesses maiores do jornalismo.

Quanto aos cursos, propriamente ditos, é também importante uma ação do Ministério da Educação no sentido de aferir melhor esse mercado, que passou por um processo de explosão incontrolável nos últimos anos. Hoje estamos assistindo a um verdadeiro estelionato educacional, no caso do jornalismo, pois é notório que o mercado não oferece vagas nem esperanças para 70 a 80% dos que saem dos bancos das universidades. São estudantes pagando fábulas por uma fábula que nada tem de encantada, e que só traz, na verdade, desencanto e humilhação.

Há, como em tudo na vida, um lado complicado, que é a possibilidade de os veículos utilizarem estudantes como mão-de-obra barata para substituir profissionais e chefes de família – como ocorreu no passado, nos tempos de estágio obrigatório (o que, aliás, caracterizou-se como principal argumento daqueles que defenderam – com sucesso – o fim do estágio). Cabe, neste caso, um controle e uma fiscalização tanto por parte das universidades como dos próprios sindicatos de jornalistas. Mas não é por conta de maus empresários que se deve jogar uma boa idéia na lata do lixo. Neste caso deve ir para a lata do lixo são os maus empresários e não a idéia.

Oxalá abaixo tenhamos comentários com informações de iniciativas similares já em andamento, o que seria fantástico. Neste caso, que sirva de exemplo para os demais.

Todos nós, a meu ver, temos muito a ganhar com isso.”

 

EX-ALUNOS DA ECA

“Formados pela ECA vão montar Associação”, copyright Comunique-se (www.comuniquese.com.br), 2/10/03

“Assunto relativamente negligenciado por jornalistas e profissionais de comunicação, de um modo geral, a formação da Associação de Ex-Alunos da Escola de Comunicação e Artes (ECA) da Universidade de São Paulo pode desencadear um novo movimento na mesma direção por outras universidades brasileiras. Um grupo de ex-alunos, composto por profissionais formados em diversos cursos da Escola, decidiu levar a batalha em frente, preparando a criação da entidade.

O primeiro passo, que já começou a ser dado, é localizar o maior número possível de colegas que passaram pelos bancos da Universidade, para conferir o grau de adesão e de eventual envolvimento que venham a ter com a organização. A idéia é cadastrá-los e estimular opiniões sobre a iniciativa, o que está sendo feito através de um questionário.

Muitos ex-alunos tornaram-se referência no mercado jornalístico e da comunicação, em nosso País, entre eles Ricardo Kotscho, atual titular da Secretaria de Imprensa e Divulgação da Presidência da República; Augusto Nunes, vice-presidente do Jornal do Brasil; Pedro Cafardo, editor-executivo do Valor Econômico; Luis Nassif, do Conselho Editorial da Folha de S. Paulo; Matinas Suzuki Jr., presidente do IG.

Já se encontra em estudos a criação de um site e do estatuto da associação de ex-alunos da ECA, que inclui entre seus objetivos:

* Promover e coordenar debates de temas e problemas de interesse dos ex-alunos e os ligados à comunicação e artes;

* Constituir um canal de comunicação pelo qual a ECA e a Universidade possam interagir ativamente com a comunidade de seus ex-alunos e com a sociedade;

* Facilitar e estimular o relacionamento entre seus associados organizando grupos de estudo e de convívio;

* Manter projetos e programas capazes de contribuir para a formação acadêmica dos atuais estudantes da ECA e a valorização da instituição como referência no ensino de comunicações e artes.

A idéia de criar a associação de ex-alunos foi discutida em um encontro realizado em 24 de abril passado, na ECA, com a presença de 51 ex-alunos. Um grupo de dez ex-alunos assumiu a organização da entidade e começou a se reunir regularmente. Dos cerca de 5 mil estudantes que passaram por lá, desde sua fundação, em 1967, foram localizados, até o momento, pouco mais de 200 ex-alunos.

Os interessados em contatar o grupo de trabalho podem utilizar o e-mail eca_exalunos@presenca.com.br ou o fax (11) 3819-9163.

Mais informações com Neiva Otero (notero@uol.com.br) e Cláudia Atas (clapmark@terra.com.br).”

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