Terça-feira, 13 de Novembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1013
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Marcelo Medeiros

Por lgarcia em 08/07/2003 na edição 232

COMUNICAÇÃO & 3? SETOR

"Comunicação melhor, lideranças melhores", copyright Rede de Informação para o Terceiro Setor (www.rits.org.br), 4/07/03

"A presidente do sindicato das trabalhadoras domésticas de Pernambuco, Eunice do Monte, freqüentemente é requisitada por jornalistas para falar sobre as condições de trabalho da categoria ou até escrever sobre isso. Porém sempre sentiu dificuldades de falar com os meios de comunicação. Passava noites pensando no que ia dizer, preparava-se para não cometer nenhum erro e, na hora da declaração, até tremia.

Hoje se sente mais à vontade. ?Estou mais segura, domino os assuntos?, diz. Parte da segurança vem da experiência adquirida no cargo e do costume de ser fonte de jornalistas. Mas também de uma série de oficinas sobre como lidar com a mídia que ela freqüenta desde abril junto com outras mulheres de 25 organizações ou associações pernambucanas com enfoque em gênero. As aulas fazem parte do projeto Mídia Advocacy – Qualificando Porta-Vozes Feministas de Pernambuco para Dialogar com a Imprensa, organizado pelo Fórum de Mulheres daquele estado e selecionado pelo programa Gênero, Ação, Reprodução e Liderança (Gral), da Fundação Carlos Chagas, que tem apoio da Fundação MacArthur.

O Mídia Advocacy funciona em duas vertentes. Uma é a qualificação das feministas em temas sobre saúde e direitos reprodutivos e sexuais – assuntos sobre os quais são chamadas para conversar na mídia e com que trabalham diariamente. Essa parte é desempenhada por ativistas de organizações que trabalham nessas áreas. A outra, facilitada por oito jornalistas de ONGs e empresas, é o trabalho com elementos de comunicação como discurso, fala em público, texto para jornal e consciência corporal, para que elas se sintam capazes e seguras ao conversarem sobre os temas para os quais foram qualificadas.

Ou seja, as duas partes são complementares. ?A idéia é que elas dominem os conteúdos e discutam como eles devem ser argumentados frente à opinião pública. Mais que uma qualificação de porta-vozes, o projeto pretende trabalhar com a lógica dos meios de comunicação?, diz Ana Veloso, jornalista do Centro das Mulheres do Cabo, uma das organizações participantes do projeto.

Oficinas

Já foram ministradas quatro oficinas de um total de 13. A última acontece em fevereiro de 2004. Os temas dos encontros são decididos de acordo com eventos ou datas comemorativas relativas à saúde reprodutiva. Por exemplo: o dia da saúde integral da mulher e de combate à mortalidade materna é 28 de maio e foram esses os temas abordados na aula de maio. Os debates contaram com a participação das ONGs SOS Corpo, Gestos, Cunha (da Paraíba), Centro das Mulheres do Cabo, Grupo Curumim, Loucas de Pedra Lilás e Articulação das Mulheres Brasileiras. A metodologia é participativa, onde todas as envolvidas trocam experiências.

Um exemplo de como funcionam as oficinas são as aulas de vídeo -apontado pela maioria das participantes como o mais difícil de lidar. Entrevistas foram simuladas e filmadas pela jornalista oficineira. ?Antes conversamos sobre os medos delas em relação à televisão. A partir daí desmistificamos essas questões, que iam desde a ofensividade dos jornalistas até preocupação com a imagem na tela?, explica a repórter da TV Globo de Recife, Andréa Trigueiro, que deu aulas sobre televisão.

No final da oficina, a responsável pela aula mostrou o resultado às demais e fez comentários sobre as ?performances?. Foram comentados erros e manias que não ficam bem na televisão. ?Avaliamos e melhoramos tudo o que fazemos?, diz Eunice. Dias depois de ter ministrado a oficina, Trigueiro entrevistou a trabalho uma das participantes e aprovou o resultado. ?Estão mais confiantes, perderam o medo de fazer feio?, comenta.

O conteúdo não fica restrito às participantes. Como são poucas, elas tentam passar o aprendizado a outras lideranças e companheiras de trabalho. É o caso de Núbia Melo, do Grupo Curumim. Assim como Eunice, ela reclama da falta de preparo para lidar com jornalistas e escrever de forma que qualquer pessoa entenda, além de falar melhor com as pessoas em seu trabalho. ?Vou precisar dessas lições com certeza. Se houvesse mais vagas, com certeza teria participado?, diz.

Quem lhe repassa informações é Sueli Valongueiro, a escolhida pelo Grupo Curumim para participar do Mídia Advocacy. Logo após as oficinas, Valongueiro organiza encontros para explicar o que foi ensinado. ?Antes eu dava muito a minha visão e não apresentava dados. Já sei que é melhor informar e ganhar a opinião dos outros ao mostrar a situação. Temos que ter a informação na ponta da língua. Assim prendemos o interesse no que dizemos?, ensina Melo.

Para Geórgia Alves, assessora de comunicação da SOS Corpo e oficineira de rádio, o fato de todas as suas alunas serem lideranças facilitou bastante o seu trabalho. ?Elas sabem do seu papel. As oficinas foram provas de fogo e elas conseguiram passar. Mas ainda há muito a depurar?, lembra.

Mídia e Mulheres

As mulheres organizadas começaram a dialogar mais com a mídia na década de 80 ao atacar o sexismo dos meios de comunicação. Com dificuldades conseguiram pautar diversos assuntos como combate à violência, direitos sexuais e reprodutivos. Mas só agora elas conseguem ver os jornalistas como aliados. A demora se deve, segundo Ana Veloso, à ?falta de prontidão [do movimento de mulheres] em lidar com a velocidade das emissoras de rádio e televisão (quer sejam comunitárias ou oficiais). Por isso têm perdido oportunidades de desencadear discussões políticas e difundir seus argumentos. Outro fator preponderante para a suposta ?falta de espaço? é a resistência das feministas em se relacionarem mais intensamente com a mídia, fato que vem paulatinamente diminuindo?.

Entretanto, participantes do Mídia Advocacy e oficineiras concordam num ponto: não basta as feministas saberem lidar melhor com a mídia. Os meios de comunicação também devem se preparar para melhorar a cobertura que fazem sobre os direitos das mulheres, que ainda é tímida e preconceituosa -mesmo quando feita por mulheres.

?Há preocupação em explorar os assuntos de forma mercadológica e investir o mínimo no aspecto humano. Continuamos a ver mulheres sendo culpadas por vestirem determinadas roupas ou estarem em determinados locais e depois serem estupradas. Isso mesmo quando o repórter é preparado ou mulher. Isso acaba legitimando uma prática?, lamenta Geórgia Alves.

Como qualquer pessoa, jornalistas se apegam a uns assuntos mais do que a outros, mas os direitos das mulheres não aparecem nas preferências jornalísticas. A solução, de acordo com Andréa Trigueiro, é simples. ?É preciso fazer um trabalho de sensibilização. Ficamos muito tempo nas redações e temos pouco contato com as fontes. Precisamos sentir a pauta e não só reportar os fatos?.

A experiência de participar de projetos como o Mídia Advocacy é recomendada pelas oficineiras pelas trocas que proporcionam. ?É bom sentir que há alguém cuidando de assuntos tão delicados?, diz Alves. Até o fim do projeto, pelo menos mais 20 jornalistas devem participar das oficinas. Se tudo continuar certo, haverá melhores entrevistadas e entrevistadoras. E quem ganha é o público."

 

PRÊMIO MARIA MOORS CABOR

"?A colheita tem sido generosa comigo?", copyright Comunique-se (www.comuniquese.com.br), 4/07/03

"Com mais de 18 anos de carreira, João Antônio Barros, repórter especial do jornal O Dia, acaba de acrescentar uma nova conquista à sua lista de prêmios. Esta semana, ele foi agraciado com o Maria Moors Cabor Prize, tradicional prêmio internacional de jornalismo, oferecido pela Columbia University?s Graduate School of Journalism. Único representante brasileiro na mídia jornal, ele foi descrito como um exemplo da nova geração de repórteres investigativos, arriscando a investigando a corrupção policial e violação dos Direitos Humanos no Rio de Janeiro na última década.

João está com viagem marcada para Nova York, em outubro, quando irá buscar seu prêmio e medalha, que só alguns dos mais renomados jornalistas e empresários do Brasil tiveram a honra de receber, como Clóvis Rossi, Castello Branco, Roberto Marinho e Assis Chateaubriand. O Maria Moors Cabot Prize está na sua 65? edição e é realizado pelos mesmos organizadores do Prêmio Pulitzer.

Como prometido, Comunique-se conversou com o jornalista sobre sua mais nova premiação, jornalismo investigativo e sua carreira.

Sobre a premiação, João não esconde a alegria e confessa: ?Posso garantir que estou muito, muito contente. Sempre olhei cada prêmio com particularidade e, este, sem dúvida tem a marca da soma?. O jornalista disse que considera o prêmio a soma de várias etapas de sua vida profissional. ?E vou ser bastante honesto: fico olhando o e-mail da premiação sem acreditar muito. Olho e digo: ?pôxa, os caras são os que organizam o Pulitzer, a melhor universidade de jornalismo… será que mereço tudo isso?? Sei que sempre batalhei pesado e com muita determinação, sempre plantei bastante, mas a colheita tem sido para lá de generosa comigo?.

Depois de 18 anos de carreira, João disse que ser premiado por uma instituição como a Universidade de Columbia é sinal de que sua carreira está no rumo certo. ?Serve como respaldo da sociedade civil organizada. A Faculdade de Jornalismo da Columbia é o centro de referência para os jornalistas. Hoje, posso dizer que atingi a minha maioridade na carreira profissional?. Ele confessa que o sentimento de foca já não existe mais, mas confessa que ainda tem muito a aprender.

O jornalista é um dos mais premiados de O Dia com conquistas como Prêmio Wladimir Herzog de Melhor Reportagem – Pelotão de Assassinos (1993) e Morte em Nome da Lei (1997); Prêmo Esso Região Sudeste com série de reportagens – Os 162 Carelis da Polícia (1996) e O Preço da Liberdade (1999); Prêmio Libero Badaró de Jornalismo Impresso – Morte em Nome da Lei (1997) e O Preço da Liberdade e Aroeira (2000); Prêmio Jornalismo em Profundidade da SIP à série de matérias Morte em Nome da Lei (1997) e O Preço da Liberdade (2000); e o Prêmio Embratel de Jornalismo da Região Sudeste – Os Homens de Ouro nos Anos de Chumbo (2001).

Quando perguntado sobre qual prêmio seria sua próxima conquista, ele disse que não escolhe nenhum específico. ?O que vier vai me encontrar de braços abertos e com um sorriso escancarado?. Ele vê nos prêmios não só um reconhecimento pelo trabalho, mas também um instrumento para manter o jornalista sempre competitivo, buscando melhorar suas qualidades e servindo de estímulo para continuar a brigar num mercado, que, segundo ele, é extremamente exigente.

Trabalho predileto? João diz que não elege uma matéria como destaque. Ele acredita que todas contribuíram muito para a sua carreira e que cada uma tem uma história particular. Do ?Pelotão de Assassinos?, sua primeira reportagem premiada, até os ?Homens de Ouro nos Anos de Chumbo?, a última, João sente orgulho de todas. ?Elas levam um pedaço de mim?, diz orgulhoso.

O Maria Moors Cabot Prize é concedido à carreira do profissional. João teve considerado como exemplar o conjunto de nove matérias apresentadas à comissão organizadora – a faculdade pedia entre cinco e 10 reportagens -, que foram publicadas em O Dia, de 1993 até o ano passado. Ele considera os trabalhos um pedaço muito grande da sua vida.

E o jornalismo investigativo, como fazê-lo? Segundo João, no Brasil, o jornalismo ainda está engatinhando. ?Se olharmos o que é feito, principalmente nos Estados Unidos, confesso que me sinto envergonhado. Tivemos belíssimos trabalhos nacionais feitos nos últimos anos – destaque para os colegas da IstoÉ e da Folha de S. Paulo -, mas assim mesmo, ainda é muito pouco. Gostaria de abrir os jornais e revistas e ver uma quantidade maior de matérias com apuração mais profunda?. João disse que o investimento é caro para as empresas – geralmente as reportagens prendem equipes por muito tempo -, mas ele entede que esse é o caminho para conquistar o leitor. ?É o apostar no que pode surgir de novo, no diferencial?. Ele disse que essa é um pouco da proposta da equipe do jornal O Dia.

João disse que as ameaças de morte a profissionais que incomodam os poderes paralelos e legalmente estabelecidos são comuns no Brasil. ?Eles tentam nos intimidar, como tentam intimidar juízes, promotores, deputados… Cabe a nós, jornalistas, seguir em frente?. Ele disse que já sofreu ameaças de políticos, policiais e traficantes, mas sempre mantém a sua idéia fixa de que elas fazem parte da carreira que escolheu há 18 anos. ?Se estivesse em outro país, talvez meu olhar fosse diferente. Mas, aqui, quando você escolhe uma profissão de jornalista, de juiz ou de promotor – para ficar apenas com algumas -, você recebe junto, e inteiramente grátis, o kit-ameaça. Estamos contrariando os interesses de grupos que detêm o poder. As ameaças só irão acabar quando essa turma perder o reinado?.

Para João, o jornalismo investigativo depois da morte de Tim Lopes é um assunto que lhe interessa. ?Acho que a categoria freou além do limite. Não entrar mais nos morros e favelas é entregar uma parte da sociedade ao crime organizado?. Ele acredita que os jornalistas devem retomar as pautas nas comunidades carentes. Recentemente, o repórter observou o quanto a ausência da imprensa está provocando o recrudescimento de alguns crimes nas áreas pobres. ?Fiz uma matéria sobre a morte de quatro inocentes, no Morro do Borel, na Tijuca, por PMs. Eles mataram os trabalhadores e colocaram armas e drogas próximo aos rapazes para dizer que eram traficantes. Olha bem: esse tipo de história foi comum no Rio entre 1996 e 1997 e, agora, está de volta. A minha matéria saiu um mês depois da morte deles e, até então, todos eram tratados como traficantes. A falta da imprensa nas favelas faz proliferar o crime organizado?.

O que fazer para mudar essa situação de insegurança e ameaça para os jornalistas que cobrem esta área? Para João, segurança nos grandes centros urbanos não existe para jornalista, policiais, empresários, estudantes. ?O que devemos tomar é um cuidado dobrado em determinados lugares, mas não deixar de ir lá. O medo, várias vezes, provoca o erro. Acredito que a categoria deve se posicionar sempre contra a violência. Creio que só teremos a nossa tão sonhada segurança quando vários setores da sociedade sofrerem mudanças, quando não existir mais a impunidade e houver justiça social. Até lá, fica difícil denunciar esses grupos que se sustentam do crime sem sofrer esbarrões?.

As reportagens premiadas de João Antônio Barros são:

1993 – Pelotão de Assassinos – sobre a participação de PMs em grupos de extermínio. Foram quatro meses de apuração

1995 – Os 162 Carelis da Polícia – mostra o desaparecimento de pessoas depois de presas.

1997 – A Morte em Nome da Lei – levantamento sobre o assassinato de pessoas pela polícia em falsos tiroreios. A maioria delas era inocente.

1999 – Preço da Liberdade – As mordomias dos reis do tráfico no Presídio Bangu 3. Repórter viveu 20 dias na cadeia sem que presos, guardas e diretores soubessem a sua identidade

2000 – A Rota das Armas – Matéria que denuncia o envolvimento de empresas no envio de armas dos Estados Unidos e da Alemanha para os morros e favelas do Rio.

2001 – Os Homens de Ouro nos Anos de Chumbo – é sobre a atuação de um grupo de policiais nos porões da Ditadura.

2002 – Órfãos de Filhos – a história de pais que perderam seus filhos na violência da cidade do Rio.

2002 – Os Fantasmas da Baixada – Matéria que mostra o absurdo de crianças que deixam de ir para a escola, de frenqüentar creches e o acesso a programas sociais por não serem registradas em cartórios. Elas não existem para os governo.

2002 – A Nova Face da Morte – Levantamento que constatou a morte de quatro inocentes por dia, no Grande Rio, vítimas de assaltos."

 

GASPARI PREMIADO

"ABL elege Elio Gaspari melhor ensaísta do ano", copyright Folha de S. Paulo, 4/07/03

"O jornalista Elio Gaspari, 59, é o vencedor do Prêmio Academia Brasileira de Letras deste ano na categoria ensaio. O colunista da Folha foi premiado com R$ 30 mil pelos dois primeiros volumes da série ?As Ilusões Armadas?, sobre o ciclo militar brasileiro.

Lançados em novembro do ano passado, os livros ?A Ditadura Envergonhada? e ?A Ditadura Escancarada? relatam o período que vai dos antecedentes de 1964 até a Guerrilha do Araguaia, em 1974.

Para o projeto, iniciado há 18 anos, Gaspari teve acesso a documentos inéditos, como o arquivo do general Golbery do Couto e Silva e de seu assistente e secretário particular do presidente Ernesto Geisel, Heitor Ferreira. A pesquisa gerou mais dois volumes já escritos e um terceiro ainda a escrever. Os livros já venderam quase 200 mil exemplares.

Gaspari receberá o prêmio no próximo dia 17, na sede da Academia, no Rio. No mesmo dia serão entregues os dos outros vencedores deste ano: Antonio Carlos Villaça (Prêmio Machado de Assis), Bernardo Ajzenberg -ombudsman da Folha- e Ana Miranda (ficção), Fabrício Carpinejar e Antonio Carlos Secchin (poesia) e Ziraldo (literatura infantil)."

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