Terça-feira, 26 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº959

PRIMEIRAS EDIçõES > ***

Marcelo Migliaccio

Por lgarcia em 22/01/2003 na edição 208

VER TV

“O espelho”, copyright Folha de S.Paulo, 19/1/03

“Falar mal da TV virou moda. É ?in? repudiar a baixaria, desancar o onipresente eletrodoméstico. E, num país em que os domicílios sem televisão são cada vez mais raros, o que não falta é especialista no assunto. Se um dia fomos uma pátria de 100 milhões de técnicos de futebol, hoje, mais do que nunca, temos um considerável rebanho de briosos críticos televisivos.

Depois de azular as janelas das grandes e das pequenas cidades, os televisores ganharam as ruas. Hoje não se encontra um boteco, padaria ou consultório dentário que não tenha um. Há até taxistas que trabalham com um olho no trânsito e outro na novela. E, nas esquinas escuras onde se come o suspeitíssimo cachorro-quente, pode-se assistir ao ?Jornal Nacional? e ser assaltado em tempo real.

Mas, quando os ?especialistas? criticam a TV, estão olhando para o próprio umbigo. Feita à nossa imagem e semelhança, ela é resultado do que somos enquanto rebanho globalizado. Macaqueia e realimenta nossos conceitos e preconceitos quando ensina, diariamente, o bê-á-bá a milhões de crianças.

Reclamamos que, na programação, só vemos sexo, violência e consumismo. Ora, isso é o que vemos também ao sair à rua. E, se fitarmos o espelho do banheiro com um pouco mais de atenção, levaremos um susto com a reprise em cartaz. Talvez por isso a TV nos choque, por nos mostrar, sem rodeios, a quantas anda o inconsciente coletivo. E não adianta dourar a pílula; já tentaram, mas não deu ibope.

Aqui e ali, alguns vão argumentar que cultivam pensamentos mais nobres e que não se sentem representados no vídeo. Mas a fração que lhes cabe está lá, escondidinha como é próprio às minorias. Está nos bons documentários, nas belas imagens dos eventos esportivos, na dramaturgia sensível, no humorismo que surpreende, nos desenhos e nas séries inteligentes, no entrevistador que sabe ouvir o entrevistado, nas campanhas altruístas.

Reclama-se muito que, nas novelas, os negros fazem, quase sempre, papéis de subalternos. Mas é essa condição que a sociedade reserva à maioria deles, e também à maior parte dos nordestinos, na vida real. O que a televisão fornece é um retrato da desigualdade no país.

E, quando explora a mulher, estigmatiza gays, restringe o mercado para o ator idoso ou vende cerveja, maledicência e atrocidade na programação vespertina, ela reflete o mundo dominado pelo macho-adulto-branco-capitalizado.

A televisão mostra muita violência o dia inteiro, gritam os pacifistas na sala de estar. Como se não houvesse milhões de Stallones, Gibsons, Bronsons, Van Dammes e Schwarzeneggers armados até os dentes no Afeganistão, Golfo Pérsico, Colômbia, Mianmar, favelas brasileiras ou trincheiras angolanas.

É natural que uma parte de nós se revolte, o que parece tão compreensível quanto inócuo. Campanhas contra a baixaria televisiva lembram a piada do marido traído que encontra a mulher com o amante no sofá da sala e, no dia seguinte, vende o móvel para solucionar o problema. Garrotear a TV é tapar o sol com a peneira.

Enquanto a discussão ganha adeptos, continuamos devorando nosso tubo de imagem de estimação. Depois, de barriga cheia, saímos à rua para ratificar, legitimar com pensamentos, palavras e atitudes, que as coisas são mesmo assim e que, pelo jeito, a reprise continuará.

Aquele repórter sensacionalista que repete à exaustão a cena de linchamento, o apresentador que tripudia sobre o drama do desvalido, a loura que vê na criança um consumidor a mais, o jovem que tem num ?reality show? desumano a alternativa para sua falta de horizonte, a menina precocemente erotizada, no fundo, somos todos nós.”

“TV de baixo custo”, copyright Folha de S.Paulo, 19/1/03

“Longe dos R$ 200 mil que a TV Globo anuncia investir em cada capítulo da minissérie ?A Casa das Sete Mulheres?, programas quase artesanais ocupam horários menos concorridos graças a pequenas produtoras que conseguem gastar muito pouco por semana para veicular suas atrações. ?Só preciso de um câmera, um iluminador e um carro. Gasto R$ 4 mil semanalmente, incluindo a compra do espaço na emissora?, diz Fausto Bessa, 39, que apresenta o ?Pirata Urbano? (Canal 21, sábado e domingo, 1h30). ?Saio de carro, procuro um lugar inusitado e gravo?, diz ele, que segue a linha de Amaury Jr., cobrindo festas, e tem uma equipe de quatro pessoas que se revezam em diferentes funções. Sua prima, Luciana Sanches, por exemplo, é diretora, produtora e secretária. ?Pirata? não é um iniciante: por três meses exibiu sua atração na Rede TV!, ano passado. ?Saí de lá por conta dos altos custos de produção?, diz Bessa. ?Com o dinheiro que produzia quatro programas lá, produzo 16 aqui?, afirma. À frente do ?Calouros em Delírios? (CNT, sábado, 12h30, canal 26 do UHF), Pedro De Lara, 77, não é tão despojado quanto o colega. Ele trabalha num cenário montado num salão de festas na zona norte de São Paulo, o ?Rebecca Club? -uma ex-borracharia, nos anos 80-, cujo proprietário é o próprio idealizador, produtor e diretor do programa, o ex-locutor da Tupi AM, Dario Costenaro, 52. Antes de gravar, a produção varre as batatinhas amolecidas no vinagrete -vestígios da noite anterior- e prepara a lona com o logotipo do programa, de 6m x 3,5m. Entre os jurados, o fotógrafo oficial do programa ?Hebe Camargo?, no SBT, Marinho, premia os calouros com o conselho de insistir na carreira. Enquanto Costenaro afirma gastar R$ 17 mil por semana com o aluguel de horário e equipamentos, orquestra e corpo de baile, Pedro De Lara, com um buquê de lírios artificiais nas mãos, diz, confiante à platéia de 50 pessoas: ?Aqui o povão tem chance. Aprendi a fazer assim com Chacrinha e Silvio Santos?.

Escambo

No Canal 21, Costenaro veicula o ?Show de Trocas? (domingo, 7h) e o ?CD na TV? (domingo, 2h30), no estilo ?canal de vendas?: no primeiro, durante uma hora um apresentador anuncia objetos que os telespectadores, cadastrados previamente, desejam trocar. ?Já apareceu gente trocando de eletrodoméstico a jazigo?, diz o diretor. No segundo, Caio Marcelus e Regina Lorenzeti, oriundos de programas de telemarketing, vendem, por meia hora, CDs de repertório brega e sertanejo.

Em fevereiro, o ex-radialista, que viabiliza seus programas através de permutas e festas no ?Rebecca?, pretende estrear, na CNT, ?Carlinhos Aguiar de Portas Abertas?, no qual Aguiar, ex-ator de pegadinhas do ?Topa Tudo por Dinheiro?, dará uma de Silvio Santos numa competição de estudantes.

Na Rede TV!, o exemplar é o musical ?Rodeio Sertanejo? (sábado, 14h15), apresentado pela ex-cantora da noite Eliane Camargo, 36.

Nascido no Canal do Boi (641 da Directv), o programa chegou à TV aberta graças a um fabricante de ração animal, que paga R$ 100 mil mensais à Rede TV!, segundo Renato Silveira, o diretor. A emissora não confirma o valor.

As gravações, ao ar livre, num clube de pesca em Campinas, várias vezes foram interrompidas pela chuva. Mas os convidados comem e dormem lá. ?E ainda ganham um saco de ração?, diz Silveira, que gasta R$ 12 mil por edição.

Desde setembro, o Canal 21 tem o ?Passarela do Samba? (segundas e quintas,1h30), apresentado pelo presidente da Liga das Escolas de Samba de São Paulo, Robson de Oliveira, 39, que diz pagar R$ 10 mil mensais pelo horário. O Canal 21 não confirma o valor.

A atração, de meia hora, já foi gravada no Sambódromo e hoje é num estúdio alugado por R$ 300. No cenário, montado com restos de carros alegóricos, Oliveira conduz entrevistas e musicais com personagens do samba. ?Minha entrada na mídia ainda é modesta?, diz ele. ?Mas é só o começo.?”

***

Para Mallandro, ?o que vale é a maluquice?, copyright Folha de S.Paulo, 19/1/03

“Aos 40 anos (sic), Sérgio Mallandro, que já foi contratado da Globo, do SBT, da extinta Manchete e da Gazeta, é produtor independente desde novembro, na Rede TV!, onde comanda o ?Programa Sérgio Mallandro?. O apresentador falou ao TV Folha.

Quanto você gasta na produção do novo programa?

Não sei. Pechincho, e o que seria R$ 2 mil, sai por R$ 300. Tem que saber negociar.

Você gosta de programas caseiros?

Não ligo a TV pra ver a luz e o cenário. Quero ver maluco dando pirueta. Pra mim, o que vale é a maluquice.

O que o seu novo programa, na Rede TV!, tem de diferente?

É o mesmo de sempre, mas a produção tem tudo do bom e do melhor.

Como era na TV Gazeta?

Diferente. Comecei num estúdio onde só cabia a câmera e eu, anunciando as pegadinhas. Cada um abraça o que pode, irmão. Se tiver que fazer um programa na sala da minha casa, contando piada, eu faço.

“?Jogo nas 11?, afirma Jorge Perlingeiro”, copyright Folha de S.Paulo, 19/1/03

“?Samba de Primeira?, exibido pela CNT (domingo, às 13h), está no ar há 32 anos e só não foi produção independente nos cinco primeiros, na TV Tupi. ?Sempre comprei horário. Não tenho vergonha nenhuma de dizer?, afirma o apresentador, Jorge Perlingeiro.

Para ele, a longevidade deve-se ao orçamento enxuto da atração, que só é exibida no Rio de Janeiro. ?Produzo, dirijo e corro atrás dos anunciantes para bancar os R$ 10 mil que incluem o aluguel do horário?, diz.

A gravação e a edição do programa ficam por conta de uma empresa terceirizada. Na produção, quatro pessoas fazem de tudo. Inclusive o apresentador. ?Jogo nas 11, arrumo cenário, subo em poste, faço qualquer coisa?, afirma ele.

Filho de Aerton Perlingeiro, anfitrião do lendário ?Almoço com as Estrelas?, na Tupi, ele segue a linha do pai, com entrevistas e variedades, e grava num restaurante, que cede o espaço em troca de divulgação. ?Meu cenário é natural, são pessoas num bar?, afirma.

Orgulhoso pelos anunciantes que mantém há 15 anos, ele diz ter audiência cativa, mas lamenta que, às vezes, paga para trabalhar. ?Não estou numa estação grande, que dê oportunidade para vender melhor, mas sempre vivi disso.?

Gratidão à parte, Perlingeiro vê como falta de ética a tarja colocada antes da entrada dos programas independentes no ar, que avisam que o conteúdo a seguir é de inteira responsabilidade de seus realizadores.

?A estação quer se isentar, mas se eu fizer algo de errado, é claro que ela estará sendo conivente?, diz.”

“Cultura investe em adolescente”, copyright Folha de S.Paulo, 19/1/03

A Cultura começa a produzir em fevereiro uma nova série para adolescentes, a ser exibida diariamente nos fins de tarde a partir de agosto. ?Galera? (nome provisório) reúne conceitos de ?Confissões de Adolescente? e ?Malhação?, segundo o diretor de programação da emissora, Walter Silveira. ?Vamos tratar a juventude com linguagem inovadora?, diz ele.

Uma escola pública da zona leste de São Paulo será palco para a abordagem dos conflitos da adolescência. ??Galera? não vai subestimar a inteligência dos jovens, quero diminuir a distância entre ficção e realidade?, diz Beto Moraes, autor da série. ?O público vai se reconhecer no programa?, afirma ele, que já foi roteirista do ?Telecurso 2000? e de vídeos de treinamento empresarial. Cada episódio deve consumir R$ 30 mil, valor modesto para os padrões da TV comercial. Até o final do ano, a Cultura ainda pretende implantar um núcleo de dramaturgia para criação e produção de outras séries, com o apoio da iniciativa privada.

Os atores

Bruna Rezende, 19, atriz de teatro e de filmes publicitários, interpreta Janete, uma adolescente evangélica. ?Ela vive em constante conflito consigo mesma. Sente-se discriminada por usar saias longas, por exemplo?, diz ela. ?É a mãe da turma, ouve os dilemas dos amigos e dá bons conselhos.?

Rafael Meira, 19, ex-apresentador do infantil ?X-Tudo?, está no papel do galã Neto. ?Não acompanho ?Turma do Gueto?, mas personagens de ?Galera? estudam em uma escola pública modelo?, diz. ?É bem diferente dos colégios onde alunos se matam. Os personagens mostram o lado bom desse universo, sem esconder as dificuldades de um adolescente pobre.?”

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