Quinta-feira, 21 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

PRIMEIRAS EDIçõES >   CALE-SE

Marcelo Moreira

Por lgarcia em 21/10/2003 na edição 247

JORNAIS DE MENTIRA

“Um jornal que faz da mentira sua verdade”, copyright Gazeta Mercantil, 17/10/03

“Uma antiga tradição da imprensa anglo-saxônica de publicar jornais inteiramente falsos no Dia da Mentira (no Brasil, o famoso 1 de Abril) começa a fazer sucesso eletronicamente na internet brasileira. O Sacolão Brasil (www.sacolaobrasil.com.br), que se considera o o primeiro jornal de mentira do País , é uma das pontas-de-lança do movimento humorístico que começa a atingir os primeiros lugares na audiência de portais gigantes como UOL e Globo.com.

O Sacolão é um ato cometido pelo jornalista Fernando Morgado e chega atualmente sua 33 edição em três anos de vida. O conceito do produto é ambicioso, uma mistura do humor refinado temperado com o non-sens britânico e com o escracho intelectualizado e respeitoso do Pasquim, o mais famoso jornal de humor brasileiro.

O esquema do Sacolão ainda é amador e, como seu próprio autor diz, muito tímido . As soluções tecnológicas de navegabilidade são simples e existem, por enquanto, poucas opções de links e seções, mas as ilustrações e textos compensam pela qualidade.

O seções, mas as ilustrações e textos compensam pela qualidade.

O O Sacolão começou devagarinho e foi crescendo e ganhando colaboradores de peso, embora eles façam suas colaborações sem remuneração. Todas as despesas são pagas por mim e o único lucro que dá é a chamada satisfação pessoal (e intelectual, vá lá), que nos obriga a matutar mensalmente em busca do humor e ajuda também a fugir de outras atividades jornalísticas mais aborrecidas , diverte-se Morgado.

Houve dificuldades com a definição do tipo de trabalho a ser desenvolvido, justamente por conta do chamado intelectualismo que pretensamente dominaria a linguagem do site. Mas o próprio responsável acha que adotou a postura correta. A minha suspeita, e também algumas críticas de pessoas sérias, e bem-humoradas, diga-se, era a de que o nosso humor fosse complicado demais, intelectualizado demais. Mas o tempo se encarregou de mostrar que estamos no caminho certo, pela receptividade que temos entre os navegadores e jornais e revistas.

Entre colaboradores do jornal estão os jornalistas Rocco Buonfiglio e Wladyr Nader, o último também escritor e professor da PUC-SP, e Nicolielo, humorista e chargista de fama internacional, e o mexicano Wladir Dupont.

Entre os colaboradores fictícios estão os hilários brasilianistas Kenneth Goodson e Stan O. Laurel Tânya Elizabette – que assina a coluna Calçadas da Vida , a primeira em toda a imprensa mundial que aborda a profissão mais antiga do mundo , Jean-François Silva, crítico de cinema, Lallo Bloombury, crítico literário) e Madame Clean (que tem uma coluna sobre sexo). O esquema inusitado do Sacolão Brasil chamou a atenção de colunistas importantes de cadernos culturais de grandes jornais brasileiros.

A qualidade do site de Morgado inseriu o Sacolão no primeiro time dos sites de humor da internet brasileira. O UOL (humor.uol.com.br) é o grande campeão de acessos, reunindo alguns dos melhores produtos do gênero.

Estão hospedados ali sites de personalidades, como os cartunistas Laerte (www.uol.com.br/laerte) e Angeli (/www1.uol.com.br/angeli), do colunista da Folha de S. Paulo José Simão (www.uol.com.br/josesimao) e de Millôr Fernandes, um dos melhores humorista e cartunista (www.uol.com.br/millor). O UOL também possui um site de charges, o endereço é Charges.com.br (charges.uol.com.br). Rivalizando em número de acessos com os sites do UOL está o do grupo Casseta e Planeta (cassetaeplaneta.globo.com), que há quase dez anos faz sucesso no horário nobre da TV Globo.

Fora dos grandes portais, merece destaque o Cocada Boa (www.cocadaboa.com.br), que segue em uma linha tênue entre o bom humor sofisticado do Sacolão e o escracho escatológico-pornográfico do Casseta e Planeta. O Cocada Boa é um dos mais antigos em atividade no setor e apresenta boas soluções tecnológicas de navegabilidade, embora não tenha tantas opções quanto o site da turma do Casseta.”

 

A ARTE DA ENTREVISTA

“Troquei Tchekhov por Madame Satã”, copyright Comunique-se (www.comuniquese.com.br), 15/10/03

“Há livros que se impõem. Como em uma história fantástica, são eles que nos pegam para ler, e não o contrário. Talvez seja isso mesmo: por vezes, o que se tem nas mãos é apenas um espelho. Narcísicos, deixamo-nos acariciar pela obra. Foi assim que, há uns dez dias, acabei por relegar os mujiques de Tchekhov. Troquei-os por Hitler, Stalin, Al Capone, Klaus Barbie Altmann, Mussolini… Eles compõem o que Jung classifica de ?sombra? em cada um de nós.

Na direção que nos conduz ao ?self?, Gandhi, Arns e Helder Câmara conviviam com Satã (o Madame) e Cabo Anselmo. Jung faltou, mas Freud estava lá. Kennedy e Kruchev conversavam no canto do salão. Não sei, acho que ouvi a palavra míssil. Kruchev falou sobre o peso de seu sapato, mas não entendi bem o que quis dizer. Fofocavam e riam, em voz baixa, porque ela, a Marilyn, estava por perto. O que ela queria mesmo era saber quem era a bela desbocada que divertia e encantava aqueles senhores inteligentes. Caetano passava por ali e entregou: ?É Leila Diniz. Com Tarso, Jaguar, Cabral e Garcez?.

Tenho de devolver O Assassinato e Outras Histórias (Cosac & Naify, 2002), de Anton Tchekhov, no sábado que vem. Não conseguirei ler tudo, mas a biblioteca nos espera. A culpa é do Milton Abrucio Jr., que teimou em me emprestar A Arte da Entrevista- Uma Antologia de 1823 aos Nossos Dias (Scritta, 1995), livro organizado pelo jornalista Fábio Altman, com tradução de Inês Antonia Lohbauer, Maria dos Anjos Santos Rouch e Rosanne Pousada.

Deixei as miseráveis isbás de lado (Tolstói classificou o conto Os mujiques de ?um pecado contra o povo russo?) e enfiei-me nos porões dos Vargas e Fidéis, filmados por um Hitchcock galhofeiro, às vistas de Bonifácio e de Mao Tse-Tung.

A obra reúne 55 entrevistas realizadas entre 1823 e 1992. A primeira é a de José Bonifácio de Andrada e Silva ao seu jornal O Tamoyo. Fábio Altman nos diz que os historiadores a consideram a pioneira do jornalismo mundial.

As 36 internacionais Altman selecionou do livro The Penguin book of interviews- An anthology from 1859 to the present day, organizado por Christopher Silvester, jornalista inglês que colaborava com as revistas americanas GQ e Vanity Fair.

Entre os entrevistadores de A Arte da Entrevista, os brasileiros Carlos Lacerda (conversou com José Américo de Almeida); Samuel Wainer (com Getúlio Vargas); Otto Lara Resende (com o Marechal Lott); Paulo Patarra (com Luís Carlos Prestes); a turma do Pasquim: além dos já citados- com Leila Diniz-, Sérgio Cabral, Paulo Francis, Millôr, Chico Jr, Paulo Garcez, Jaguar e Fortuna (com Madame Satã); o meu ex-professor na Cásper Líbero, o também brilhante Ewaldo Dantas Ferreira (com Klaus Barbie Altmann); Fernando Morais (com Fidel Castro); Getúlio Bittencourt e Haroldo Cerqueira Lima (com João Baptista Figueiredo); Roldão Oliveira e José Carlos Ruy (com Dom Paulo Evaristo Arns); Ricardo Noblat (com Gilberto Freyre); Silvia Duarte (com Glauber Rocha); Octavio Ribeiro (com o Cabo Anselmo); Gilberto Mansur (com Carlos Drummond de Andrade); Geneton Moraes Neto (com Caetano Veloso); Luís Costa Pinto, Mário Sérgio Conti, Tales Alvarenga e Paulo Moreira Leite (com Pedro Collor); e Graça Magalhães-Reuther (com Salman Rushdie).

Tchekhov pode esperar. Raro encontrar uma obra em que Rudyard Kipling entrevista Mark Twain (coletânea From Sea to Sea, 1889). O primeiro, deslumbrado como uma cheerleader: ?…Ele [Twain] colocou a mão sobre o meu ombro. Aquele gesto foi como uma investidura da Estrela da Índia, seda pura, trombetas, jóias cravejadas de diamantes, tudo enfim?.

De Kipling encontramos, mais adiante na obra, em uma outra condição: ?Por que me recuso a ser entrevistado? Porque isso é imoral! É um crime, é uma ofensa contra minha pessoa, uma agressão, e como tal merece castigo. Isso é desleal e mesquinho. Nenhum homem de respeito pediria uma coisa dessas, muito menos a concederia?.

O escritor irritara-se com um repórter do americano The Sunday Herald, em outubro de 1892. ?O jornalismo inglês (…) é digno e respeitável. Não há negócios escusos nele. O que vocês americanos chamam de empreendedor não passa de sensacionalismo barato. Um redator inglês não insulta um homem de respeito, perguntando suas idéias. As idéias são suas, assim como a sua casa, e ninguém tem o direito de invadi-las?.

Antes, no colóquio com Twain, Kipling mandou esta, sobre As Aventuras de Tom Sawyer: ?Mas não publique duas versões da vida dele, pois ele não é mais sua propriedade. Ele nos pertence?. Twain riu, complacente.

Mais importante, para nós jornalistas, é a técnica empregada pelo repórter do Sunday Herald. Ele questionou a rejeição de Kipling e, de tanto bater boca (em contraste, sem prescindir da boa educação), aproveitou a verborragia agressiva de seu personagem para publicar a entrevista involuntária (ao menos da parte de Kipling). ?Bem, escreva o que quiser- disse este. Dê asas à sua imaginação. Ponha sua cópia no espaço tradicional das colunas secundárias de seu jornal de domingo, e as pessoas irão degustá-la com o café da manhã, do mesmo modo que o farão com o lixo restante; pois é só isso que imprimem hoje em dia. Diga que sou rude, pois eu sou, e quero que as pessoas saibam e me deixem em paz?. Escreveu o repórter aos seus leitores: ?Com essa última frase ele bateu a porta e entrou. O senhor Kipling fora entrevistado?.

A Arte da Entrevista, eis um livro que você precisa ler (se já leu, comente aí). Eu mesmo estou atrasado. A edição, afinal, é de 1995. Bom, mas até Tchekhov, que morreu em 1904, ainda terá de esperar um bocado.

Separei dez dentre muitas centenas de frases interessantes das 585 páginas da obra. Aprecie:

Al Capone (a Cornelius Vanderbilt Jr., Liberty)

?A virtude, a honra, a verdade e a lei desapareceram da nossa vida. Somos todos uns espertalhões. A gente gosta de fazer coisas erradas e se safar. E se não conseguimos ganhar a vida com uma profissão honesta, vamos ganhar dinheiro de outra maneira?;

Adolf Hitler (a George Sylvester Viereck, Liberty)

?O socialismo (…) é a ciência de lidar com o bem-estar geral. O comunismo não é o socialismo. O marxismo não é o socialismo. Os marxistas roubaram o termo e confundiram seu significado. Vou tirar o socialismo dos socialistas?;

Benito Mussolini (a Emil Ludwig, Talks with Mussolini)

?Já declarei, ao longo de uma destas conversas, que não existe uma raça pura! A crença de que ela existe é uma ilusão da mente, um sentimento. Mas essa crença deixa de existir só por ser uma ilusão??;

Alfred Hitchcock (a Pete Martin, The Saturday Evening Post)

?Dizem que se eu tivesse feito a Cinderela, a audiência começaria a procurar um corpo na abóbora que servia de carruagem?;

Carlos Drummond de Andrade (a Gilberto Mansur, versão ampliada da Revista Imprensa de entrevista para a Revista Status)

?O Jaguar disse a ela: ?Se você trouxer uma entrevista do Drummond, eu arranjo o emprego para você?. Eu não conhecia essa mulher e ela disse: ?Aqui é fulana de tal, tenho tal idade, sou assim assim, sou bonita, etc. … E vou te dizer uma coisa- me chamou logo de você-, se você me der uma entrevista e, se for preciso, eu chupo o seu pau para você me dar uma entrevista.? ;

Fidel Castro (a Fernando Morais, Veja, em 1977)

?Olhe, em Cuba há presos políticos. Inclusive há alguns milhares. Não vou lhe dizer que há três presos. Deve haver uns dois mil ou três mil presos políticos. Em certo momento houve em Cuba uns 15 mil presos políticos. Ou mais, posso lhe dizer que houve um pouco mais de 15 mil. Isso foi nos dias da invasão de Girón. Que íamos fazer? Bom, tivemos que metê-los na cadeia?;

Ernest Hemingway (a Milt Machlin, Argosy)

?Espere um minuto. Não, eu não trabalhei. Eu li? ( sobre o que fez depois de beber seu recorde de 15 doses de uísque);

João Baptista Figueiredo (a Getúlio Bittencourt e a Haroldo Cerqueira Lima, Folha de S. Paulo)

?Vocês falam muito em censura, mas se esquecem que a censura começa na casa de vocês. (…) É, vocês já viram algum jornal publicar alguma coisa que seja contra o interesse dos donos??;

Guglielmo Marconi (a Kate Carew, New York Tribune)

?Seremos capazes de sintonizar nossas mentes. Tenho certeza. Já fazemos isso agora, até certo ponto, mas algum dia, quando for a um restaurante e o garçom lhe perguntar: Sozinha? você dirá: Ah, não, eu espero alguém. Você enviará uma ou duas ondas e logo este certo alguém irá aparecer?;

Karl Marx (a R. Landor, The World)

?O senhor pode comprovar as evidências com os seus próprios olhos. Como vê, ao invés de estar preso na Bélgica, estou em casa na Inglaterra? (sobre a notícia do jornal francês La Situation de que estaria na prisão).”

 

CALE-SE

“Coração de estudante”, copyright Veja, 22/10/03

“Cale-se, do jornalista Caio Túlio Costa (A Girafa; 352 páginas; 43 reais), é um livro que começa com uma tragédia e termina com uma celebração. A tragédia é a morte, no dia 17 de março de 1973, vítima de torturas, no famigerado DOI-Codi de São Paulo, do estudante da USP Alexandre Vannucchi Leme, aos 22 anos. A celebração é um show que Gilberto Gil fez para os estudantes, em 26 de maio do mesmo ano, no campus da universidade. Entre uma data e outra, a máquina torpe do regime movera-se a todo o vapor contra a estudantada. Quarenta e quatro deles foram presos, sendo 43 da USP. Houve outro assassinato, além do de Vannucchi, o de Ronaldo Mouth Queiróz. Alguns poucos, como os dois mortos, tinham relação com a luta armada em curso contra o regime, mas a grande maioria apenas resistia com as pobres armas da política estudantil. Virtualmente todos mereceram o mesmo tratamento – pancada, choque, pau-de-arara. O show de Gil, que teve até gente trepada nas janelas do anfiteatro da Escola Politécnica, constituiu-se, na visão do autor, corroborada por vários depoimentos, num momento em que os estudantes lavaram a alma e espantaram o terror.

Cale-se é a história dos setenta dias entre um evento e outro. Não se espere deste livro apuro literário nem elaboradas reflexões sobre o período. Tal qual no show de Gil, adivinha-se em suas páginas como que uma catarse do autor, ele próprio estudante ao tempo dos fatos narrados e igualmente tocado por eles. É um livro escrito, digamos, com coração de estudante. Até na linguagem, atravessada ora por um ?putz!?, ora por um ?ficar na sua?, é o jovem dos anos 70 que conduz a narrativa. O ?cale-se? do título refere-se ao entendimento alternativo que a música Cálice, de Giberto Gil e Chico Buarque, oferecia. A música (?Pai, afasta de mim este cálice?) fora proibida pelo regime. Seus autores, mesmo assim, tentaram cantá-la, num show duas semanas antes da apresentação de Gil na USP, mas tiveram o som dos microfones cortado. Agora, atendendo ao apelo dos estudantes, e em desafio aos censores, Gil foi em frente e cantou-a não uma, mas duas vezes. Ao som de Cálice, conheceu seu paroxismo um evento já de si apoteótico.

À morte de Vannucchi seguiram-se as características baixezas de lhe enterrarem o corpo como indigente, negando-o à família, e de inventarem que teria sido vítima de atropelamento. Era o regime no esplendor de sua nojeira. Contra esse estado de coisas insurgiam-se o ?Babão?, o ?Bombom?, o ?Massa?, o ?Minhoca?. Era assim, pelo apelido, como é próprio da moçada, que se tratava a turma da USP. Até um ?Cascão? havia entre eles, inspirado no personagem das histórias infantis. A infância, para eles, ainda estava perto. Isso não impedia – antes, favorecia – que abrigassem delírios como o de enfrentar a ditadura pelas armas. Mesmo para aqueles que não tinham ligação com os movimentos armados, essa era uma alternativa debatida e deixada em reserva. Pois o show de Gil teve o efeito, segundo o livro, de mexer com os jovens até nesse ponto. ?Estavam dadas as bases da transformação do sofrimento em prazer?, escreve o autor, resumindo o impacto do evento; ?dera-se mais um passo para o abandono definitivo da luta armada em favor de uma política pacífica de mobilização das massas.? Lembre-se que Gil, como sócio fundador do tropicalismo, era um dos responsáveis maiores pelo aporte do prazer e da esculhambação entre os ingredientes da contestação à ordem vigente. Por isso mesmo, era hostilizado pela esquerda ?séria?. Naquele momento, e ao cabo de setenta dias de luto e pavor, deu-se como que uma reconciliação do grupo com a vida. Gil, no show, que o livro transcreve na íntegra, tanto canta quanto faz longos discursos. Lidas hoje, suas intervenções soam como prosa tumultuada. Naquele momento, funcionaram como uma epifania.”

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