Quinta-feira, 23 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

PRIMEIRAS EDIçõES > CARTOLAS DERROTADOS

Marcelo Russio

Por lgarcia em 27/05/2003 na edição 226


CARTOLAS DERROTADOS

“Semana histórica”, copyright Comunique-se (www.comuniquese.com.br), 26/05/03

“Olá, amigos. A semana que passou, a meu ver, marcou um divisor de águas na história da crônica esportiva brasileira. A ameaça de se parar o futebol brasileiro por parte de meia dúzia de clubes e mais o presidente da CBF teve um efeito bombástico entre os meios de comunicação, que com a agilidade que se espera deles, trataram de repercutir com o máximo possível de protagonistas e pessoas que pudessem elucidar o que efetivamente estaria acontecendo.

Neste ponto, cabe um registro: a ESPN Brasil mostrou como se fazer jornalismo esportivo efetivo, sem firulas e sem rodeios. Montou uma mesa-redonda especial que entrevistou até alta madrugada peças fundamentais, tanto do lado dos clubes quanto do lado do governo, acionou quem havia criado a lei que se tentava derrubar e, melhor que isso, deu ao seu assinante informações precisas sobre o que estava acontecendo.

Quem assistiu ao programa da emissora ficou sabendo que a lei tinha sido aprovada por unanimidade tanto pelo Congresso Nacional quanto pelo Senado, e que nada mais se poderia fazer para alterá-la. Soube que havia dirigentes esportivos que sequer tinham lido a lei, que tramitou mais de um ano nos gabinetes dos poderes executivo e legislativo. Viu quais clubes estavam de que lado, ouviu o ministro dos esportes (brilhante, por sinal) dizer em alto e bom som que a lei seria cumprida por todos.

Enfim, todos os lados foram ouvidos, e pôde-se, como se não bastasse, ver Juca Kfouri praticamente humilhar o presidente do Cruzeiro (Alvimar Perrela), ao expôr todo o desconhecimento do dirigente sobre as leis do país, as leis da CBF e até mesmo os procedimentos esportivos do país. Enfim, um programa histórico.

No dia seguinte o show continuou, com um link entre o Esporte Total, da Bandeirantes, apresentado por Jorge Kajuru, e os estúdios da ESPN Brasil, onde estavam Juca Kfouri e José Trajano (este com sua tradicional e saudável empolgação com os assuntos polêmicos). Uma iniciativa sem precedentes no jornalismo esportivo brasileiro, que mostrou o quanto a classe estava unida e fechada com o objetivo de não se deixar virar a mesa mais uma vez.

Claro que houve um ou outro equívoco na cobertura, e também na inflamação por parte de alguns apresentadores, mas não cabe críticas aqui, já que a iniciativa foi absolutamente brilhante e muitíssimo bem feita, ainda mais quando se lembra que foi tudo feito ao vivo, ?indo pro pau? literalmente.

Na boa: depois de muito tempo, deu orgulho novamente de ser jornalista esportivo.

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Uma coisa me chamou muito a atenção ontem em alguns jornais de domingo: a pouca atenção dispensada às 500 milhas de Indianápolis, ainda mais tendo pelo menos cinco brasileiros, e um deles sendo o atual bicampeão da prova, com chances de conquistar o inédito tricampeonato seguido.

E não é que acabou acontecendo o mais improvável de tudo? Três brasileiros nas três primeiras colocações, e de quebra Hélio Castroneves, na sua terceira participação na prova, acumulando duas vitórias e um segundo lugar (aproveitamento absurdo para um evento tão competitivo quanto este).

O que se viu hoje foi o alarde (merecido e justificado) ao fato histórico inédito, mas ficou aquele gostinho de ?acho que falamos pouco das 500 Milhas no domingo…?.

Paciência…

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Pra finalizar, um assunto ainda da passagem por Paris: lá os juízes usam microfones nos jogos decisivos. Todos sabem disso, e a TV registra tudo que se fala com jogadores e com técnicos. Isso evita o desrespeito ao árbitro e também os abusos verbais dos próprios árbitros com os jogadores.

Me chamou a atenção este recurso do futebol francês após ver a reportagem que relembrava que José Roberto Wright usou um microfone escondido em sua lapela em um Flamengo x Vasco dos anos 80. A diferença é que apenas Wright e a TV Globo sabiam do microfone, o que deu ao então juiz a vantagem isolada de moderar seu palavreado, enquanto os demais agiam como sempre tinham agido.

Sou extremamente a favor dessa medida, para coibir a violência dentro de campo e também, até, dimuinuir o número de fatos estranhos ao jogo que sempre acontecem aos montes durante uma partida de futebol.”

“Planalto implodiu acordo entre ministério e cartolas”, copyright Folha de S. Paulo, 25/05/03

“O Palácio do Planalto abortou acordo do Ministério do Esporte com dirigentes de futebol para aliviar o teor de um dos artigos do Estatuto do Torcedor que atinge diretamente os cartolas.

Na primeira pressão que recebeu do establishment da bola, o ministro Agnelo Queiroz fraquejou e quase cedeu. O chefe da Casa Civil, José Dirceu, intercedeu, ordenando ao ministro que não recuasse. O argumento: o presidente Luiz Inácio Lula da Silva se sentiria pessoalmente ofendido.

Em reunião na última quarta-feira, Queiroz, mesmo já advertido pelo Planalto de que nenhuma vírgula da lei deveria ser alterada, apresentou aos cartolas uma solução para o impasse: solicitar à Advocacia Geral da União um esclarecimento sobre o artigo 19 da lei -pelo qual as entidades e dirigentes que organizam competições são responsáveis por prejuízos causados ao torcedor ?independentemente de culpa?.

Para mostrar seu compromisso, o ministério redigiu uma nota técnica que aliviou os temores dos dirigentes e seria, conforme promessa feita por Queiroz durante o encontro, enviada à AGU.

A reação de Lula e Dirceu surpreendeu o ministro do Esporte. Foi também da Casa Civil a decisão final de pedir à AGU que ignorasse o argumento da cartolagem de que alguns pontos do estatuto não tinham validade jurídica.

E foi o próprio Dirceu quem quebrou os alicerces da aliança entre o presidente da CBF, Ricardo Teixeira, e os cartolas, que definira a paralisação. A Folha apurou que o ministro da Casa Civil fez chegar a Teixeira o seguinte recado: Lula não admitiria recuo.

Afinal, o Estatuto do Torcedor foi a primeira sanção de lei feita por Lula. Na cerimônia, o presidente disse que a lei deveria pegar. Ou seja, seria desmoralizante para o governo ver o Brasileiro interrompido por um motim contra uma lei sancionada há menos de uma semana pelo presidente.

Para tentar ficar bem com o governo, Teixeira rompeu o acordo tácito com os cartolas indo à TV e dizendo que nunca cogitara paralisar o futebol, assumindo uma posição apaziguadora. Na terça-feira, no entanto, no encontro na sede da CBF que selou o levante, Teixeira fora um dos avalistas.

Além de Queiroz, o deputado federal Gilmar Machado (PT-MG), presidente da subcomissão de Desporto da Câmara, também recebeu recado do Palácio do Planalto para ser intransigente. No auge da crise, Machado admitiu negociar com a cartolagem, o que desagradou a Lula e a Dirceu.

Para combater o lobby dos dirigentes, o lobby dos defensores do estatuto acionou parlamentares e membros do governo. A pressão começou horas depois do anúncio do motim, na terça-feira, e durou até quinta-feira, quando, finalmente, a rebelião morreu.

Os defensores da nova legislação alegaram que a ação dos cartolas mataria na prática uma lei de cunho moralizador e que, se houvesse recuo do governo, eles jamais se submeteriam a uma nova tentativa de mudar o futebol.

A reação do Corinthians também teve peso na decisão do Planalto de barrar a rebelião dos cartolas. O clube se posicionou contra a paralisação e, apesar de também reivindicar algumas mudanças no estatuto, decidiu não se bater contra ele -atitude, aliás, tomada por várias agremiações.

O Planalto considerou que o apoio ao Estatuto do Torcedor do time que tem a maior torcida de São Paulo, uma das maiores do país, era um sinal de que o que está previsto na lei é factível.”

“Chantagem no Futebol”, Editorial, copyright Folha de S. Paulo, 22/05/03

“Mais uma vez os dirigentes do futebol brasileiro apostam na confusão como método para fazer prevalecer seus interesses. É o que se depreende da decisão, anunciada anteontem pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF) e pelo Clube dos 13, de suspender o andamento do Campeonato Brasileiro, alegando ser inviável colocar em prática a nova legislação esportiva sancionada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva na semana passada.

O histórico da aprovação da chamada Lei de Moralização do Futebol e do Estatuto do Torcedor, projetos que datam do governo anterior, foi marcado por diversas tentativas de retrocesso por parte de dirigentes e de seus representantes parlamentares -a assim conhecida ?bancada da bola?. É indiscutível que o cerne das novas leis constitui um avanço tanto para a gestão do esporte quanto para o reconhecimento dos direitos do torcedor como consumidor.

Não parece, contudo, ser do interesse de grande parte dos dirigentes que o futebol venha a ser tratado como aquilo que efetivamente é: uma atividade econômica a ser regida pelas normas comerciais, com garantias mínimas de transparência e controle por parte da sociedade.

Os responsáveis pela gestão esportiva mostram-se, em sua maioria, refratários a dispositivos básicos, como a publicação de balanços auditados e a responsabilização de dirigentes por eventuais irregularidades bem como danos ao patrimônio de clubes e entidades. Muitos consideram inviáveis medidas tão prosaicas como numerar os assentos nos estádios e publicar antecipadamente as tabelas e os regulamentos das competições futebolísticas.

Se há divergências ou se há dificuldades para levar à prática algum aspecto da nova legislação, isso não justifica de modo nenhum a chantagem que foi anunciar a suspensão da mais importante competição de futebol do país -um campeonato que envolve a paixão de multidões.”

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