Quarta-feira, 19 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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Marcelo Spina

Por lgarcia em 03/10/2001 na edição 141

GUERRA NA MÍDIA

"Em busca de Bin Laden e de outras notícias no Paquistão", copyright ig (www.ig.com.br), 29/09/01

"Dá umas ocasionais pontadas de inveja ver as equipes com jornalistas dos, digamos, países desenvolvidos. Não é só por eles ficarem no hotel Marriot, cercados de mordomias, com um elegante porteiro de origem sikh com o maior bigode que já vi até hoje, boa comida, conexão de Internet relativamente veloz, nem por causa dos Land Rovers com motorista e ar-condicionado que os levam a todo canto. Afinal, as baratas no quarto, a comida de rua e o transporte coletivo não deverão me vencer. Estou resistindo, mas sempre pensando como deve ser uma suíte naquele Marriot. Aposto que tem até toalhas limpas e água quente.

Mesmo se eu tivesse condições, não há qualquer possibilidade de se conseguir lugar. Há mais de dez dias, quando essa região se tornou o centro das atenções do mundo, que muitos jornalistas mais abastados aguardam sua chance, e acabam se contentando com um quatro, na pior das hipóteses três, estrelas. Só as equipes da CNN e BBC ocupam boa parte dos 250 apartamentos do Marriot.

Mas outro dia me permiti almoçar lá (comer os kebabs na rua já provou ser indigesto) e cruzei com Christiane Amanpour, a chefe dos correspondentes internacionais da CNN, com muitas guerras na bagagem. Estava prestes a bater um papo com ela, quando nos perdemos de vista. Fica para depois.

De qualquer forma, nem pensem que estou aqui chorando mágoas da pobreza. Apenas estou dizendo que, às vezes, fico imaginando como deve ser o ?outro lado?. Tipo ?ter o cartão de crédito da empresa e mandar debitar?.

Nas duas coberturas que fiz na Bósnia e, depois, na Somália, meu esquema sempre foi bem humilde. Mas isso tem o lado positivo porque me aproxima mais do povão. Passo lá no Marriot para saber de algumas novidades, vou aos briefings de autoridades, almoço com jornalistas, mas quando volto ao meu reduto estou vivendo um pouco mais da realidade de um povo sofrido. Um dos maiores problemas é que a maior parte desse povo sofrido fala pouco inglês. E, como estou aqui há pouco tempo, ainda não aprendi urdu.

Pensei em escrever um pouco sobre a rotina daqui, mas elas são poucas. Estou quebrando as poucas rotinas restantes. Explico: todos os jornalistas costumam participar de duas coletivas de imprensa. A primeira, às 16 horas (horário local; aqui estamos oito horas à frente do Brasil), é no Ministério dos Negócios Estrangeiros, onde um porta-voz fala diariamente das posições do governo paquistanês sobre a crise.

Depois, às 17h30, tem o briefing das Nações Unidas (que agora acontece no Marriot, para conveniência dos meus coleguinhas). Neste, representantes de agências da ONU, como o Alto Comissariado para Refugiados e o Programa Mundial de Alimentos, apresentam o quadro sobre a crise dos refugiados no Afeganistão.

As notícias são interessantes, mas nem dá tempo de chegar no meu ?hotel? (OK, é uma guesthouse, uma pousada) e já estão noticiando tudo aquilo na BBC e na CNN. É tudo muito rápido. Nem faz sentido concorrer com eles, então agora estou correndo para outros lados, conhecendo outras partes do Paquistão, das pessoas, até porque tenho me sentido um ignorante por não conhecer a língua, a cultura e a história desse povo. As 48 horas de preparativos para embarcar do Brasil para cá foram ocupadas com trâmites burocráticos, e mal tive tempo de olhar um mapa. Agora é a hora.

Enquanto chegam aí as notícias mais quentes pelos meus colegas ricos, vou por aqui a procurar, e quem sabe a encontrar, algumas historinhas e quem sabe nessas andanças acabo até cruzando o Bin Laden e mando uma entrevista exclusiva para o iG….

Estou deixando a capital paquistanesa para trás por uns dias e indo em direção à fronteira com o Afeganistão. O ponto de parada deverá ser Peshawar, uma cidade com mais concentração de gente do que Islamabad, mas também lotada de jornalistas que tentam a oportunidade de visitar os campos de refugiados. Por hora, as visitas estão proibidas, e o governo do Paquistão está colocando restrições para esta região nos novos vistos de entrada no país. O governo teme pela segurança dos jornalistas, pois aquilo virou um barril de pólvora. Mas não convém eu falar da situação antes de chegar lá.

Acho que seria simpático falar de meus colegas aqui no muquifo. Tenho andado bastante com dois outros jornalistas ?alternativos?. Um é o Gustavo, de 33 anos (olha só que complicado: ele é uruguaio, cidadão espanhol, mora na Índia e aqui faz reportagens free-lance para a Radio México e, pasme, fez uns boletins portunhóis para a Rede Globo); o outro é o Q (é isso mesmo, ele se apresenta pela letra Q, mas em inglês diz-se kiu), deve ter perto de 40 anos, depois pergunto a ele, que não sabe se é japonês ou americano. Saiu há tempos do Japão e mora em Nova York. Faz frilas para um monte de revistas do Japão e EUA, e conhece superbem a região. Já andou muito no Afeganistão anos atrás. O único problema é que ele é meio kamikaze (vai ver que fumou muito ópio lá): anda com uma credencial pendurada no pescoço emitida pela polícia de NY e se apresenta a todos dizendo: ?I?m Q, from New York?, com o olho puxado e um sotaque bem carregado.

Dá um certo receio, pois não há grande simpatia pelos norte-americanos entre os muçulmanos. E como pelo menos 99% aqui são filhos do Islã, ser americano não é muita vantagem. O Gustavo acha que talvez ele queira conquistar o respeito pela intimidação, afinal os americanos são poderosos. Mas percebo que não é isso, foi ingenuidade mesmo. Está evidente que o povo, aqui, detesta os americanos e, depois que o centro do poder foi atingido, não restou nem mesmo o temor. Para eles os americanos foram derrotados.

Pelo que sei, há três jornalistas brasileiros no Paquistão. Aliás, quem passa por mim logo sabe que sou brasileiro. E olha que tenho cara de gringo. Para evitar confusão, mandei costurarem duas bandeiras do Brasil no meu colete, para evitar que eu fosse confundido. E, apesar de o povo aqui não ter o mesmo conhecimento sobre o Brasil, só de saberem que não sou norte-americano tem ajudado muito. Aqui, quase não funciona falar o nome do Pelé, nem de mulatas nem Carnaval. O esporte nacional do Paquistão é o críquete e poucos sabem de nossos jogadores. A ?indecência? de nosso Carnaval nunca passaria na programação de TV daqui, controlada por um governo islâmico."

***

"Na rede com Osama", copyright ig (www.ig.com.br), 29/09/01

"Comecei a espalhar a notícia por Islamabad e Peshawar de que George W. Bush poderia estar vigiando o mundo, incluindo todos aqui, com esse tal de Carnivore, que eu mesmo nunca tinha ouvido falar.

?O quê? Isso não é possível?, disse Massud Hemmty, um estudante universitário de 24 anos que estava saindo de um dos mais de 200 cibercafés de Islamabad. Ele me deu alguns minutos de seu tempo para mandar uma mensagem para os Estados Unidos. Ei-la: ?América, dá o fora. Deixe o mundo em paz.? Por fim, ele me perguntou se os EUA têm o direito de fazer isso. Eu mesmo não sei, mas Hemmty acabou se conformando e disse: ?Tudo bem, eu não tenho medo de vocês e se quiserem tentem me pegar?.

Tive de usar rapidamente a rede do cibercafé King?s antes de pegar minha trouxa e viajar para Peshawar. Fui freqüentador assíduo do local durante meus quatro dias na capital. Apesar do aviso ?serviço funciona 24 horas?, dei com a cara na porta diversas vezes. O dono do cibercafé, Kasluf Hasan, 27, disse que sua conexão era a melhor da cidade, variando de 2 a 10 kps. Realmente, nos outros locais que tentei conectar foi bem pior. Juro que não sei se esse número que ele me deu é pouco ou muito, mas garanto que para mim está sendo lento.

Cada foto que mando para o iG, com o menor tamanho possível (?pesa? uns 8 kb) está demorando quase meia hora para entrar no hotmail. Alguém aí no Brasil tem alguma sugestão?

Hasan gastou 600 mil rúpias (cerca de R$ 25 mil) para montar a casa com oito computadores. A maior parte tem processador Pentium III, mas o problema mesmo parece ser das linhas telefônicas. O empresário diz que, de três anos para cá, a Internet se tornou um grande negócio no Paquistão. Muita gente começa com dois ou três computadores velhos e um barraco, e um investimento de menos de R$ 1.000. O retorno pode ser bem lento, pois o preço do uso é baixo: varia de R$ 1 a R$ 2 por hora.

A maior parte dos clientes dos cibercafés aqui no Paquistão é de estrangeiros. Antes os visitantes eram turistas, diplomatas e funcionários de multinacionais. Agora, foram substituídos por jornalistas. Mas estudantes paquistaneses e mesmo de outros países também usam bastante o serviço, principalmente para chats e, às vezes, para pesquisas. Ninguém admite que visita páginas de sexo, mas não foi o que verifiquei bisbilhotando um dos computadores.

Segui viagem. Em Peshawar há pelo menos 50 cibercafés (em Islamabad, apesar de ser menor, com 800 mil habitantes, pode chegar a 200 casas). Todas muito simples e sem serviços sofisticados de comes e bebes. No máximo, dá para encontrar uns refrigerantes e bolachas. Álcool, nem pensar. Enquanto nas ruas de Peshawar dá para comprar haxixe e ópio livremente, seguindo os costumes islâmicos, não se bebe.

Nos poucos hotéis de quatro ou cinco estrelas, os estrangeiros podem receber bebida no quarto, mas em horários e quantidades restritas. Eu mesmo estou na lei seca. Falei com diversas pessoas com alguma ligação com a Internet: usuários, donos de cibercafés e de um provedor. Ninguém ouviu falar sobre esse tal de Carnivore, mas certamente a idéia de perda de privacidade não é nem um pouco bem-vinda por aqui. Está certo que já existe um sentimento anti-EUA quase que generalizado no mundo islâmico, mas mesmo os mais moderados com que falei ficaram indignados com a notícia.

?@#!#$#%^$^*%@…..? Não posso transcrever o que um jovem aqui mesmo de Peshawar mandou dizer aos americanos. Digamos que ele tenha xingado a mãe e todas as outras gerações do presidente Bush e de todos aqueles que o apóiam. Só para se ter uma idéia, a mensagem mais pró-Bush que ?foi enviada? é a de Osman, um estudante de 18 anos também de Peshawar. ?Apóio sua luta contra o terrorismo e se for necessário controlar a Internet, tudo bem. Mas todos precisamos ser informados se formos perder nossa privacidade.?

Ninguém duvida da possibilidade de simpatizantes ou até mesmo integrantes do Al Qaeda, grupo de Osama bin Laden, utilizarem os cibercafés de Peshawar para se comunicar com o resto do mundo. Afinal, no Afeganistão não há qualquer infra-estrutura operante e esta cidade é a mais próxima da fronteira com conexão à Internet aqui no norte. ?Mas como eu vou saber se eles vêm aqui no meu estabelecimento??, pergunta surpreso Mohamad Ashraf, dono do Snooker Club, um local bem simples e com conexão tipicamente lenta em seus quatro computadores, onde muita gente vem se conectar até duas, três horas da manhã. ?E mesmo que o próprio Bin Laden venha aqui, não tenho nada a ver com isso. Todos são bem-vindos.?

Peshawar tem quatro provedores. Abid Khan é dono de um deles, o Comsats, no mercado há cinco anos e com uma carteira de mil clientes. Doze deles são cibercafés. Ele explicou que as linhas telefônicas no Paquistão têm de 7 a 8 kbps, mas que realmente baixa para 2 a 3 kbps nos cafés, ainda mais nos que utilizam uma linha para até oito máquinas. Não há qualquer controle da Internet pelo governo do Paquistão. O que me informaram que existe é a intenção do governo barrar o uso de comunicação com voz pela Internet, pois está dando muito prejuízo a PTCL, companhia telefônica estatal.

Sentei-me em frente a um computador para usar a net no Snooker Club aqui e dei uma olhada nas últimas páginas visitadas pelos usuários anteriores. Aqui vai a lista (nem vou por o www, nem o .com): chat.msn, hotmail, sexmaxx, gandu, asathake, worldsex, desidolls, alaplaya, desibaba, surfermag, diariovasco, cnn, el-mundo, bollywood, redcroos.org. Well, acho que isso dá um quadro do que se vê por aqui. Chats, informação e mulheres."

 

"Quem tem medo?", copyright Folha de S. Paulo, 28/09/01

"No vaivém da retórica dos envolvidos com a ?guerra contra o terrorismo?, o mais recente foi de Silvio Berlusconi.

Ele disse anteontem que a civilização ocidental é superior à muçulmana, comparou o movimento ?antiglobalização? ao terrorismo islâmico e conclamou a Europa a reconhecer suas ?raízes cristãs comuns?.

Pois ontem, na BBC, a União Européia, por seu porta-voz, afirmou que não concorda com nada disso. E o porta-voz do próprio Berlusconi saiu dizendo que as palavras foram usadas fora de contexto.

Em meio a um esdrúxulo debate na televisão americana, CNN à frente, sobre a legitimidade do governo Bush de mentir à própria televisão, a rede CBS noticiou que a suposta ameaça de ataque terrorista ao avião presidencial ?simplesmente nunca aconteceu?.

Era a desculpa para o sumiço do presidente no primeiro dia depois dos ataques."

***

"Palavras, palavras, palavras", copyright Folha de S. Paulo, 26/09/01

"Não passou de uma semana a operação Justiça Infinita. Seguindo o modelo de escolha de alguns títulos de cinema, primeiro soltaram o balão de ensaio, por assessores não-identificados. Esperaram a reação, que não foi boa.

Para ?scholars? islâmicos, na verdade, só Allah poderia realizar a tal justiça infinita.

Daí, ontem, o próprio secretário da Defesa dos EUA surgiu na televisão para dar o nome definitivo. É Liberdade Duradoura, na tradução da Globo para Enduring Freedom.

É um título bem mais fraco, mas nos EUA, onde Bush já pediu desculpas por falar em ?cruzada?, a discussão sobre expressões politicamente incorretas não é uma piada -como costuma ser tratada aqui.

Que o diga até a extrema direta americana. O telepastor Jerry Falwell já se desculpou aos ?pagãos, feministas e gays? que culpou pelos atentados.

E agora Rush Limbaugh, um radialista lendário, tratou de se desculpar com o âncora da ABC, Peter Jennings -a quem chamou de ?pequeno Peter?, ?filho do Canadá? etc. em reação aos comentários de Jennings sobre George W. Bush.

No Brasil, depois dos excessos da Globo e do último Domingo Legal, no SBT, vai minguando o esforço para achar a ligação entre o país e o terror.

A ?pista? do Rio Grande do Sul não foi longe, depois do sensacionalismo inicial. E a história do ?cônsul honorário? que é irmão de Bin Laden não passou de uma curiosidade.

Ficou a vontade do governo FHC de mostrar serviço. Pode não haver ligação entre Brasil e os terroristas, mas na rádio já se falava ontem da abertura de um escritório do Serviço Secreto dos EUA em São Paulo.

Mais importante, ficou o serviço prestado pelo Brasil na Organização dos Estados Americanos, invocando o tratado que garante apoio militar.

O secretário Colin Powell registrou sua ?gratidão especial?. Um funcionário do Departamento de Estado elogiou a ?liderança ampla e visionária? do Brasil, que mostrou ser um ?poder genuinamente global?.

FHC deve ter derretido.

Mas o que ficou mesmo de Brasil até aqui, na cobertura dos atentados, foi o e-mail afirmando que eram falsas as imagens da Reuters apresentadas pela CNN, com a comemoração dos palestinos no dia 11.

Agora está até na ?home page? da CNN, que apresenta sua nota oficial, a da Reuters e o ?esclarecimento? da Unicamp, explicando que o estudante Márcio Carvalho já desmentiu tudo -e que ela, Unicamp, não tem nada a ver com a história."

 

"A nova estética da guerra", copyright Jornal do Brasil, 27/09/01

"Na noite de sexta-feira, quando os canais por assinatura entraram em cadeia mundial para transmitir o show em homenagem às vítimas do terrorismo no World Trade Center, o tal ?mundo ocidental? viveu seu rito de passagem da paz para a guerra: o êxtase de congraçamento que antecede a batalha. Foi uma espécie de propaganda política obrigatória em escala supranacional, a propaganda eleitoral obrigatória planetária. Foi uma cerimônia fúnebre e também uma celebraç&atiatilde;o cívica, um réquiem pop e um canto de combate. Uma solenidade religiosa, sim, mas como a religião desse nosso ?mundo ocidental? é o entretenimento de mercado, a solenidade foi acima de tudo uma festa hollywoodiana, ainda que sóbria e um tanto mística. Os astros do show business, em trajes escuros, ladeados por esquadrões de velas acesas, cantavam, declamavam e pediam doações com os semblantes condoídos e, ao mesmo tempo, resolutos. Não eram mais estrelas cintilantes, mas buracos negros do olhar. Nem mudando de canal você podia escapar. Stallones, Pacinos, Neils Youngs tragavam os olhos do povaréu. Os estúdios onde eles estavam (em Londres, Nova York e Los Angeles) não tiveram os endereços divulgados por motivos de segurança, o que me fez lembrar de ambientes subterrâneos, de abrigos antiaéreos. Um clima de catacumba pairava no ar. Pensei nos escritórios que Churchill e seus ministros ocuparam no subsolo londrino durante a Segunda Guerra. Eles foram pensados como esconderijos inexpugnáveis nos anos 40 e hoje são museus para as levas de turistas em peregrinação. Quanto aos estúdios sombrios do concerto de sexta passada, pensados como sacristias fonográficas, já nascem como um abrigo antiaéreo para a proteção dos ícones do imaginário ?ocidental? (entre aspas, sempre entre aspas). O luto ganha corpo como museu interativo. O pesar da América é um gozo público.

Há uma estética poderosa nesse estado de preparação de guerra. Não se trata de uma estética meramente plástica, apenas fotográfica. Estamos falando aqui de um sentido mais profundo e mais abrangente desse termo, estética. Os acontecimentos seguem uma narrativa épica preestabelecida que remonta à saga clássica (e mítica) do herói: primeiro a agressão brutal, depois a perplexidade, o sentimento de infâmia, a ferida, a morte dos irmãos, os funerais, o pranto, o desejo de justiça, a identificação do mal, a força vingadora que brota dos escombros, a sede de combate, a ajuda divina (o Papa deixou, disse que, desta vez, violência pode). Eis a seqüência, paradigmática, que vem sendo encenada pelo noticiário. Pelas ruas das cidades brasileiras, os outdoors das revistas semanais proclamam que os terroristas tremem de medo do rosto de George W. Bush e de seus helicópteros de guerra. Os helicópteros são lindos e musculosos contra o pôr-do-sol. Diante das fotos hiper-realistas dos helicópteros de combate, carregados de mísseis, a gente pode pressentir o ronco aspirado e trepidante de seus motores sobre as montanhas desérticas em que se escondem os terroristas. Hão de varrer, rasantes, as areias medievais. São belos, não só por sua imagem, mas pela aura que essa sua imagem adquire. As armas de guerra são obras de arte. São mais que belos, não só por sua aura, mas pelo sentido épico que vibra neles: a justiça, a ira santificada pelo pranto dos astros no show de sexta-feira.

É a saga do herói que fará de W. Bush um personagem à altura do papel que lhe cabe nessa narrativa, o de comandante da liberdade. O senhor W., antes um ser de olhar aparvalhado, depois um orador que mal disfarçava o deslumbramento sorridente ante os aplausos do Congresso americano (na quinta passada), terá agora de erguer-se como líder. Terá de vestir o cargo. Terá de evoluir da fragilidade para a fortaleza. Essa função estrutural será ocupada obrigatoriamente por ele – ou vai devorá-lo. Ele, se parece ser apenas um coió, só parece porque a sua saga ainda está no início. Como nos filmes de Frank Capra, o caipirão está predestinado a brilhar como vulto histórico.

Estou querendo reduzir tudo a um vasto teatro global? Não, não estou. A teatralização que aqui aparece é um dado genético do novo espaço público transnacional de que falamos. Esse novo espaço, ainda em formação, tem a mente da CNN e o coração de Hollywood. A mente até que não é de todo insana. A cobertura jornalística que a caracteriza tende a padecer do vício do americanismo ensandecido – e é engraçado observar como mesmo a imprensa brasileira deixou-se acometer de surtos de patriotismo americano -, mas, não nos esqueçamos, comporta abordagens críticas, algumas até de esquerda. Na mente CNN desse espaço público mundializado, a razão crítica até tem direito a voz. Prevalecesse inteiramente a racionalidade jornalística – rasteira e mistificadora, mas ainda assim uma racionalidade – e não estaríamos vivendo essa saga do heroísmo búshico, se me permitem tal neologismo. O problema, aqui, é o coração: na estética violenta das tramas de Hollywood – de Coppola a Tarantino, para ficarmos em exemplos mais ou menos elegantes -, a razão e a serenidade não têm lugar. Os intelectuais e os estudantes de várias universidades do tal ?Ocidente? que pedem paz pedem paz como melodrama, em atos que são, eles também, showzinhos lacrimosos. Pedem paz como pleito teatral. Assim, a despeito de toda visão crítica e de toda manifestação pacifista, a narrativa que se desenvolve no coração do espaço público supranacional é um roteiro gasto, repetitivo e reincidente, tal como num filme de faroeste. O cartaz que pede Bin Laden vivo ou morto não é um abuso agressivo – é apenas um sintoma.

Teremos um duelo no final, corpo a corpo, face to face? Pode ser. A estética da preparação da guerra não prescinde da estetização da própria vilania. Antes o contrário, exige uma certa apologia do vilão. Al Capone, Billy The Kid e Bin Laden devem ser admiráveis e temíveis pois desses seus méritos neutros depende a glória dos justiceiros encarregados de dizimá-los. Haverá, como já há, uma ?binladenlatria?, às vezes secreta, às vezes declarada. Na saga maniqueísta que ora evolui, o terrorista que fez desabar o World Trade Center, mais que um cérebro do mal, é aclamado de modo oculto como um esteta do mal. É alguém que intuitivamente compreendeu o seu lugar na medonha narrativa. A imagem de hecatombe que paralisou o olhar do mundo, com os aviões explodindo contra as torres gigantescas, aquilo era ao mesmo tempo um signo do mal supremo e também um signo de beleza segundo os filmes de Hollywood. O que agora espera o público é algo de ainda mais terrível – porque terá de ser ainda mais belo. E mais duradouro."

    
    
                     
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