Quarta-feira, 22 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

PRIMEIRAS EDIçõES > TV DIGITAL

Marcelo Zuffo

Por lgarcia em 05/02/2003 na edição 210

TV DIGITAL

“Um diálogo para evitar equívocos”, copyright Folha de S.Paulo, 1/2/03

“O Brasil nos próximos meses será um dos últimos grandes mercados a enfrentar a questão da digitalização de seu sistema nacional de televisão. Hoje, praticamente não percebemos o legado da implantação da TV analógica, mas o país se destaca no mundo pelos vários aspectos positivos do sucesso dessa implantação. Daí o interesse sobre as nossas decisões ligadas à TV digital.

A televisão aberta no Brasil é um verdadeiro instrumento de coesão nacional e a única rede de telecomunicações com cobertura nacional gratuita para o consumidor -98 entre cada 100 brasileiros têm acesso a TV. Os serviços são prestados com razoável nível de competitividade entre as emissoras, empregando centenas de milhares de pessoas. Os televisores populares no Brasil possuem índice de nacionalização superior a 80%. Fabricamos ao ano 10 milhões de TVs, consumidas pela pirâmide social e exportadas.

O estabelecimento de um modelo brasileiro de TV digital é relevante para três setores fundamentais: o consumidor final, as concessionárias de TV e a indústria nacional.

Para o consumidor final, a digitalização propiciará o estabelecimento da maior rede de faixa larga digital popular e gratuita, com capacidade de recepção de informação multimídia praticamente comparável à internet 2, até mil vezes mais rápido do que qualquer modem hoje utilizado.

Assim, além de sua qualidade superior intrínseca (remoção de fantasma, maior resolução e alcance), a TV digital abre um panorama inédito de inclusão digital e aplicações domésticas que extrapola os usos da TV analógica, voltada ao entretenimento e à informação.

A convergência com outros meios de comunicação, como a telefonia fixa por exemplo, propiciará uma vasta gama de aplicações interativas avançadas, relacionadas a saúde, educação, governo eletrônico, serviços bancários, entretenimento interativo e internet em geral. Aí talvez resida uma grande oportunidade para o novo governo: a inclusão social por meio da inclusão digital.

Nenhum dos sistemas existentes de TV digital contempla a oferta desses serviços por meio de uma unidade de acesso aos serviços multimídia (que é acoplado à TV) no patamar de custo exigido pela nossa sociedade, ou seja, terminais com custo inferior a um terço do custo de um televisor popular ou aproximadamente R$ 100.

Às concessionárias de TV, a maioria com estúdios já preparados para a digitalização, cabe a maior parcela do ônus de investimento. São elas as responsáveis pela implantação da infra-estrutura digital. O modelo de negócios atual, também deve ser reavaliado e aprimorado, sob a perspectiva da qualidade e dos serviços interativos.

Para a indústria brasileira, a TV digital é a oportunidade de criar uma plataforma de exportação de uma base já estabelecida. Entretanto, vale enfatizar o baixo valor intelectual agregado aos nossos produtos e a necessidade da negociação para o estabelecimento de indústria de componentes semicondutores, o que reduziria o déficit de importação e o custo final do produto.

Os eventuais padrões desenvolvidos no Brasil só devem ser adotados após uma comparação exaustiva com os demais existentes. Essa avaliação criteriosa tornaria o nosso esforço em mais uma alternativa para outros países do mundo que ainda não definiram seus padrões. Cabe salientar que o Brasil foi o primeiro país do mundo a testar comparativamente os três padrões já existentes, tornando-se uma referência na área.

Como em qualquer processo de padronização mundial, a diversidade, a discussão e a análise transparentes devem ser contempladas. Os padrões não podem ser rígidos e fechados. Devem prever cenários de longo prazo fundamentados num intenso diálogo entre as partes interessadas. É importante reconhecer que o ciclo total de implantação da TV digital será longo (estimado entre oito e 20 anos), e a definição de padrões, políticas e modelos podem acelerar ou atrasar o cronograma de implantação.

A condução inadequada, sectária ou precipitada da escolha do modelo pode resultar em duas situações: ele pode não ser adotado como o padrão de fato pela sociedade, gerando enorme atraso da adoção da tecnologia, com implicações negativas para todos, em baixa qualidade dos serviços e custos; ou o estabelecimento de uma reserva de mercado implícita, no pior sentido do conceito, onde regras nocivas à competitividade e ao avanço tecnológico seriam naturalmente estabelecidas, incentivando o contrabando predatório à nossa indústria e desestimulando a elaboração de soluções próprias, relevantes para a nossa sociedade e para o mundo.

Marcelo Knörich Zuffo, 36, é professor da Escola Politécnica da USP. Doutor em engenharia elétrica pela USP, onde coordena o Grupo de Computação Visual e Meios Eletrônicos Interativos no Laboratório de Sistemas Integráveis.”

“Contra velhos preconceitos”, copyright Folha de S.Paulo, 1/2/03

“Entre os muitos desafios que tem pela frente, o Brasil depara-se hoje com a necessidade de definir a tecnologia a ser adotada na implantação da TV digital no país. Dadas as implicações da decisão a ser tomada, o tema precisa ser tratado sem paixões nem preconceitos. Exige objetividade, eleição de prioridades e o exame cuidadoso dos desdobramentos que a escolha terá a longo prazo.

Como todo desafio, também a escolha de um sistema tecnológico digital oferece riscos e oportunidades. Felizmente, neste caso, o Brasil tem a seu favor o fato de essa decisão não fazer parte de sua agenda de prioridades. Isso significa que temos tempo para avaliar estrategicamente o que queremos, o que podemos extrair de benefícios a partir dessa escolha e como maximizar o emprego dessa tecnologia, otimizando a relação custo-benefício de seu emprego.

Objetivamente, a implantação da TV digital não é prioridade para o Brasil. Trata-se de um produto caro, de um bem de consumo a que muito poucos brasileiros terão acesso. Vale lembrar que dos 54 milhões de televisores hoje existentes por aqui, 47% usam apenas antenas internas. A assinatura de TV paga permanece restrita a 7,5% dos lares brasileiros.

Naturalmente, não estamos defendendo o alijamento do consumidor brasileiro dos benefícios que a TV digital e a tecnologia por ela exigida oferecem. A questão que se sustenta é a necessidade de focalizar o debate em torno do que esse sistema pode efetivamente oferecer às demandas prioritárias do Brasil e quais os custos de oportunidade com os quais o país poderá arcar, caso a discussão se limite à mera escolha imediatista entre os sistemas hoje oferecidos por Estados Unidos, Europa e Japão.

Não fosse assim, China e Austrália não estariam debruçados sobre o desenvolvimento de tecnologias próprias. Nem os americanos, europeus e japoneses estariam empenhando tanto esforço e lobby profissional para conquistar mercados que lhes garantam um retorno excepcional a partir de receitas obtidas por meio do recebimento de royalties.

No mundo atual, seria ingenuidade defender o desenvolvimento de uma tecnologia absolutamente independente. Mas iniciativas que busquem a redução desse tipo de dependência são factíveis e necessárias. De imediato, elas podem gerar empregos de alta qualificação e desenvolver conhecimento.

O debate que ora se trava em torno da tecnologia a ser adotada na implantação da TV digital, como se vê, pode abrir muitas frentes ao país e em um curto espaço de tempo. A excelência brasileira no desenvolvimento de softwares é internacionalmente reconhecida. Contamos com cérebros capazes de, no prazo de dois anos, desenvolver um sistema que atenda, sob medida, nossas necessidades, compatibilizando a relação custo/benefício necessária a qualquer negócio. E também ajude a equilibrar a balança comercial e contribua para que o país venha, no futuro, a se beneficiar de desdobramentos de um conhecimento, cuja plena utilização ainda não está completamente mensurada.

É importante salientar que o ministro das Comunicações, Miro Teixeira, surpreendeu a todos do segmento de TV no Brasil quando defendeu o desenvolvimento de um sistema brasileiro de TV digital. Surpreende-nos porque estávamos acostumados a governos que não acreditavam na capacidade tecnológica brasileira e estavam resignados de que o Brasil seria eternamente dependente dos países centrais em termos de tecnologia.

Ninguém está pleiteando favores estatais para um determinado setor. Está, sim, propondo que se examine essa questão diante de um horizonte bem mais amplo e a partir de uma reflexão capaz de reavaliar princípios que frequentemente suscitam preconceitos.

Temos condições de construir um sistema inteligente de TV digital sem reinventar o que já oferecem os americanos, europeus e japoneses. Podemos criar um consórcio de entidades sem fins lucrativos que se encarregue de desenvolvê-lo. Uma decisão desse porte não nos imporia isolamento tecnológico nem nos impediria de acompanhar os avanços que venham a ser obtidos no futuro. Por fim, uma opção como essa poderia fortalecer o Brasil como natural base exportadora na América do Sul.

Há razões de sobra para rever velhos preconceitos.

Eugênio Staub, 61, empresário, é presidente da Gradiente.”

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