Sábado, 25 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

PRIMEIRAS EDIçõES > COBERTURA DE GUERRA

Marcio Aith

Por lgarcia em 19/02/2003 na edição 212

COBERTURA DE GUERRA

“Marchas são ?escondidas? pela mídia americana”, copyright Folha de S. Paulo, 16/02/03

“Se dependesse das redes americanas de TV, os protestos antiguerra de ontem não teriam passado de fatos isolados. As redes abertas (ABC, CBS, NBC e Fox) os registraram com muito pouco destaque, em telejornais que preferiram enfatizar a mobilização de tropas americanas no golfo Pérsico e a ameaça de um novo ataque terrorista em solo americano.

Em Nova York, manifestantes lotaram 20 quarteirões perto da ONU, sob um frio de -4C.

Organizadores afirmaram ao jornal ?The New York Times? que 400 mil pessoas compareceram ao protesto. Autoridades nova-iorquinas, segundo a agência Reuters, estimaram que a marcha atraiu cerca de 250 mil pessoas.

Durante o protesto, o FBI (polícia federal) infiltrou agentes disfarçados de manifestantes, colocou atiradores de elite no topo de prédios e, pela primeira vez num ato popular como o de ontem, utilizou equipamentos para detectar a presença de material radioativo.

Os canais a cabo especializados em notícias (CNN, Fox News, MSNBC e CNBC) demoraram para exibir imagens das manifestações em Nova York e na Europa. Sempre que o faziam, traziam, como contrapartida, depoimentos de convidados que criticavam o movimento pacifista. Segundo eles, o movimento antiguerra é equivocado e protege, direta ou indiretamente, o regime do ditador iraquiano, Saddam Hussein.

A versão da CNN transmitida somente nos EUA dedicou às manifestações o mesmo espaço que deu ao fato de o ministro das relações exteriores do Iraque, Tareq Aziz, ter se negado a responder a uma pergunta de um jornalista israelense durante coletiva na Itália.

Diferentemente da CNN Internacional, que exibiu as manifestações ao redor do mundo com intensidade, a CNN americana preparou uma cobertura especial, de uma hora de duração, sobre as ramificações mundiais da Al Qaeda.

Durante sua reportagem mais extensa sobre as manifestações, a CNN americana trouxe depoimento de Cliff May, diretor da Fundação em Defesa da Democracia, que defende a deposição de Saddam. ?Trata-se de um ditador sanguinário?, disse. ?Sua deposição libertaria o povo do Iraque e traria novos ares à região.?

A Fox News transmitiu sua maior cobertura sobre as manifestações só à tarde. Rede mais simpática a Bush, a Fox divulgou pesquisas mostrando que 54% dos americanos vêem as ações antiguerra dos franceses e dos alemães como ?ações negativas e perturbadoras? de uma solução eficaz do problema no Iraque.”

“Novas tecnologias e velhas guerras”, copyright Comunique-se (www.comunique-se.com.br), 10/02/03

“As manchetes dos jornais internacionais prometem grandes surpresas para a Guerra do Iraque e para a cobertura de TV: ?Exército americano se rende ao videofone? e ?Conflito do Iraque vira ?reality show? na BBC?.

Ou seja, se você é jornalista de TV, está planejando cobrir a guerra no Iraque e não quer perder esse show de novíssimas tecnologias, aqui vão algumas recomendações de última hora. A primeira é… ?corra jornalista, corra?! Sim, porque do jeito que as coisas andam, considerando o tom das últimas ameaças do presidente Bush e a fragilidade do inimigo, se você não se apressar é capaz de chegar tarde demais, perder a guerra – o que, aqui entre nós, seria um vexame. Você poderia perder a oportunidade de participar de mais um grande espetáculo que está sendo cuidadosamente preparado durante vários meses pelos militares e jornalistas americanos para os telespectadores de todo o mundo.

A maioria dos jornalistas – até mesmo os profissionais da velha Globo, que costumam cobrir tudo diretamente de Londres – já está em Bagdá. Todos aguardam mais uma guerra do império americano contra as ameaças do terrorismo islâmico e a favor de bons negócios com o velho e precioso petróleo. Mas deixa isso pra lá.

Para fazer bonito na guerra, o jornalista de TV não deve somente se preocupar com a maquiagem e o guarda-roupa. Em termos de tecnologia, precisa conhecer, pelo menos, um pouco de tudo. Segundo Chris Cramer, presidente da CNN, ?esta será a guerra do jornalista multimídia?. Assistiremos a um embate entre o poder da TV e a agilidade da Internet. Mas, obviamente, a velha TV, assim como os militares americanos, não está disposta a perder. Ao invés de enfrentar a agilidade e a mobilidade da Internet, a TV resolveu incorporá-la ao seu arsenal de guerra pela audiência.

Tudo muito conveniente. Além de testarem toda uma nova geração de armas que precisam ser testadas de qualquer maneira, em algum lugar, os americanos estarão lançando toda uma novíssima geração de videofones – aqueles computadores portáteis que transmitem som e imagem via Internet por telefones celulares e que foram a ?sensação? das redes de TV internacionais durante o último conflito no Afeganistão.

Essa nova geração de videofones foi especialmente desenvolvida para que as redes de TV possam enfrentar os velhos problemas de custo e a competição cada vez mais acirrada com a Internet. A novidade, no entanto, é que os videofones se tornaram responsáveis por uma nova linguagem, uma nova estética para as coberturas de TV ao vivo. Apesar de ainda poderem contar, muitas vezes, com a qualidade e arcar com os altos custos da transmissão de imagem e som via satélite, os editores dos telejornais americanos estão preferindo e insistindo para que os correspondentes utilizem as imagens da Internet. Descobriram um novo recurso de linguagem jornalística para televisão. Eles buscam na imagem precária dos videofones uma demonstração de credibilidade e agilidade jornalística, que foi, infelizmente, perdida ou banalizada há muitos anos pela cobertura exaustiva dos canais com 24 horas de notícias. Quem diria, hem? Ou seja, o que era a grande desvantagem das novas tecnologias de TV via Internet – a imagem precária – se tornou uma nova linguagem que confere credibilidade para o telejornalismo das grandes redes. Vale tudo para satisfazer um telespectador cada vez mais conectado na rede, afastado da TV e da notícia.

Até mesmo o exército americano se rendeu à tecnologia do videofone. Os militares já anunciaram que algumas de suas unidades estarão conectadas via videofone para que jornalistas, devidamente selecionados e credenciados, possam entrevistar seus comandantes diretamente da frente de batalha. Tudo pela segurança, conveniência, patriotismo e, por que não, para o conforto tão merecido de algumas estrelas do novo jornalismo de TV. Mas os militares também reconhecem que é preciso evitar a qualquer custo a presença indesejável de alguns jornalistas independentes, ou ?pára-quedistas?, que ainda insistem em fazer jornalismo de verdade.

De qualquer maneira, os responsáveis pelo telejornalismo americano, ao contrário dos donos do telejornalismo brasileiro, reconhecem a decadência do meio, mas não parecem ter medo de experimentar e correr riscos. Estão dispostos a testar novas técnicas, linguagens e estratégias de cobertura ao vivo de TV. Afinal, bem sabemos, ou os telejornais mudam ou acabam virando.. ?reality show?!

Mas foi exatamente isso o que fizeram ninguém mais ninguém menos do que os produtores britânicos da velha e tradicional BBC de Londres. Eles já estão negociando com o exército para produzirem o primeiro ?reality show? com soldados de verdade em combate reais. Explico. Já que está cada vez mais difícil o acesso à notícia ou fazer jornalismo ?sério?, os produtores da BBC resolveram unir o útil ao agradável. Combinar a cobertura da guerra com a nova sensação da linguagem televisiva: os programas como o Big Brother Brasil ou Casa dos Artistas. A idéia é utilizar a velha técnica de linguagem documentária da ?mosca na parede?, com câmeras muito discretas e ?quase? ocultas, para gravarem imagens jamais vistas pelo público de TV. Imagens de uma guerra de verdade.

Os soldados já estão sendo selecionados para participarem de operações de guerra que serão criteriosamente selecionadas ou ?pasteurizadas? para evitar surpresas que possam ofender o público e que garantam altos índices numa guerra de audiência. Pobre Iraque, virou cenário de ?Big Brother? com direito a alguns minutos na TV mundial ao custo de alguns possíveis e indesejados ?acidentes? com a morte de civis ou militares, ou, como preferem os militares de hoje, com alguns possíveis e inevitáveis ?efeitos colaterais?.

Quanto ao novo programa, nada foi dito ainda sobre a premiação. Mas, certamente, será milionária. Quem sabe, uma semana no Rio de Janeiro, com direito a muitas mordomias e ainda mais aventuras. Aqui no Brasil, provavelmente não deveremos ficar muito surpresos com os resultados dessa mistura entre telejornalismo e entretenimento. Afinal, nossos jornalistas já apresentam e, praticamente, participam desse tipo de programa há algum tempo. E também, como costumamos copiar todos os programas lá de fora, é só esperar e, em breve, teremos algo muito parecido no ar.

Por enquanto fica aqui a minha sugestão. Que tal um Big Brother Brasil, de verdade, com os ?nossos? correspondentes de guerra, ao vivo, durante 24 horas, diretamente da frente de combate tentando sobreviver à guerra, tendo que se preocupar com a aparência e, ao mesmo tempo, ainda tentando fazer jornalismo ao vivo? Se não for divertido, certamente será muito curioso e, talvez, instrutivo.”

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