Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

PRIMEIRAS EDIçõES > ACM SOB SUSPEITA

Marconi de Souza

Por lgarcia em 19/02/2003 na edição 212

ACM SOB SUSPEITA

“ACM e Adriana: história de amor e grampo”, copyright A Tarde, 16/02/03

“A história do senador Antonio Carlos Magalhães com a advogada Adriana Barreto é contada por políticos, socialites, jornalistas e amigos de Plácido Faria, advogado e marido dela. A TARDE entrevistou vários personagens que participaram de alguma forma desse relacionamento. Tudo começou em março de 1991, no primeiro mês do terceiro governo de ACM. Ela foi levada por seu pai Amadiz, numa manhã daquele mês, ao principal gabinete do Desenbanco, na Avenida Tancredo Neves, onde funcionou a sede do governo baiano até 1995.

O objetivo da visita era conseguir um emprego para a garota de 19 anos, que estudou no Colégio Maristas e agora era estudante de Direito na Universidade Católica do Salvador. Advogado particular das grandes causas de ACM, o futuro desembargador Amadiz Barreto não tinha quaisquer dúvidas de que ali não faltaria trabalho para a filha. E não deu outra. Ela foi ser estagiária, assim como Luís Eduardo Magalhães começou sua carreira no setor público na década de 1970.

Era o começo de um ?conto de fadas? que duraria uma década. Aliás, não só a dela, mas a de seu pai, Amadiz Barreto. Professor universitário, o então advogado foi içado ao cargo de desembargador pelo próprio Antonio Carlos Magalhães, em 1995, quando Paulo Souto iniciava seu primeiro governo (1995-1998). Amadiz foi o advogado menos votado na lista tríplice eleita por oito mil advogados para o cargo de desembargador. O mais votado foi Thomas Bacellar, mas Souto escolheu o pai de Adriana.

A amizade entre ACM e Adriana Barreto era discreta nesse período de ascensão profissional de seu pai, enquanto ACM governava a Bahia pela terceira vez, entre 1991 e 1994. Morando na capital baiana, o então governador não precisava se expor tanto. Ao se eleger para o Senado Federal, a distância entre Brasília e a Bahia acabou causando efeito inverso, ou seja, provocou uma maior aproximação entre ambos no espaço público. Cada vez com maior freqüência, ACM e a amiga viajavam na primeira classe do MD11 da Vasp entre Salvador e a capital federal no horário das 11 horas.

Constrangimento

O fato causava grande constrangimento a Luís Eduardo Magalhães, que não escondia seu desapontamento com amigos mais próximos. Mas ACM não dava ouvidos a quem desaprovava o caso. Tanto que, assim que Paulo Souto assumiu o governo, a contratou como assessora de gabinete. Já formada e exercendo a advocacia, Adriana continuava sendo, porém, discreta entre as pessoas próximas do senador. Exercia seu cargo ?com competência?, diz um deputado que a admira. Segundo outro parlamentar, ela ?pouco aparecia? no emprego.

O importante para ACM é que a amiga estava sob sua vigilância, trabalhando na governadoria do Estado. Luís Eduardo afirmou por diversas vezes para colegas e jornalistas, pouco antes de morrer, que daria ?um basta? na situação quando assumisse o governo. Morreu antes (em abril de 1998). Naquele ano, Adriana foi destaque pela primeira vez na imprensa baiana. Apareceu num escândalo envolvendo cerca de 200 estudantes que conseguiram entrar na Faculdade de Direito da Universidade Católica do Salvador sem prestar vestibular.

Eram filhos ou parentes de desembargadores, juízes, deputados, prefeitos, vereadores, secretários de Estado e do Município de Salvador, dentre outros, que ingressaram em faculdades do Rio de Janeiro e, logo depois, conseguiram empregos em órgãos públicos da Bahia para pleitear transferências para a Ucsal por meio de liminares concedidas pela Justiça baiana. Adriana foi advogada de vários estudantes. E conseguiu os empregos para muitos deles na governadoria. Quando o escândalo apareceu na imprensa, em setembro de 1998, o então governador César Borges exonerou os apadrinhados.

O prefeito Antonio Imbassahy demitiu a advogada Cristina Ruas, do setor jurídico da prefeitura, que utilizava do mesmo expediente de Adriana. A filha do desembargador, ao contrário de Ruas, saiu incólume no episódio. Mais que isso, foi condecorada dois anos depois com a Ordem do Mérito pelo governo do Estado, ao lado dos presidentes da Ford, BNDES, Monsanto e Embratur. A solenidade foi recheada de constrangimentos para os políticos que procuravam explicar os méritos para tamanha honraria concedida à jovem moça.

Um deputado perguntou ao governador César Borges: ?Mas Borges, por que você deu um título de comendadora a essa garota??. Sem esconder o riso sem graça, o governador apenas respondeu: ?O Vita (Fernando Vita, assessor de comunicação) trouxe o requerimento com a proposta e disse que tinha de obedecer?. A verdade é que entre 1999 e 2001 ACM já não escondia Adriana de ninguém, ou quase ninguém. E se deixava ser visto na sua companhia em restaurantes, shoppings, lojas e principalmente em viagens pelo Brasil e exterior.

Ao lado de Saulo Laranjeira, ex-sócio da construtora OAS, e do empresário João Carlos Di Gênio, o casal viajou para Paris, Londres e Nova Iorque diversas vezes, sempre na primeira classe. ?Di Gênio bancava tudo. Dona Leila, mulher de Laranjeira, se separou dele porque não aceitava que o marido participasse dessas turnês?, garante um dos deputados que acompanhou a vida do senador de perto neste período. Entre os dias 16 e 22 de junho de 1999, por exemplo, foi realizada em Lisboa (Portugal) a Conferência Ibero Americana.

ACM fez-se acompanhar da amiga, apresentando-a ao amigo e senador Heráclito Fortes, que se disse encantado com ela. Ao final da conferência, ACM e Adriana, acompanhados do empresário Di Gênio (dono do Colégio Ângulo e da Universidade Paulista – Unip), foram para Paris. Hospedara-se com ela no Hotel Crillon, no dia 23 de junho de 1999, que fica na Plaza de La Concórdia. Na ?cidade das luzes?, almoçou e jantou em vários restaurantes, no qual encontrou e apresentou a amiga a parlamentares, inclusive da Bahia.

Porto Seguro, no sul do Estado, e São Paulo, também foram cidades visitados por ACM e Adriana com certa freqüência. Em Porto Seguro, ele ficava numa casa do Di Gênio, e na capital paulista seu porto era a suíte presidencial do 21? andar do Maksoud Plaza Hotel. A gerência do hotel disse, na última sexta-feira, que só revelará as datas de permanência do senador e de sua amiga com autorização judicial. ?Não posso abrir o arquivo e mostrar isso indiscriminadamente?, disse o gerente, informando que as suítes presidenciais do 21? andar custam R$ 4.420 a diária.

ACM freqüentava também restaurantes e shoppings com Adriana em São Paulo, e muitas lojas caras, a exemplo da Daslu, onde os preços de vestidos chegam a custar até R$ 20 mil. A filha do governador Geraldo Alckmin trabalha nesta loja com salário de R$ 8 mil. ACM não economiza com as pessoas a quem quer bem, e o seu ciúme pode ?torná-lo uma fera?, como frisa Plácido Faria, atual marido de Adriana. Mas, a depender do caso, ele se retrai. Quem experimentou uma atitude de retração foi o deputado Arthur Maia, quando foi candidato a prefeito de Salvador em 2000.

Maia o atacava constantemente no horário eleitoral gratuito durante a campanha. ACM o retrucou partindo para questões de ordem pessoal. O então candidato reagiu, enviando um fax para o senador informando-o que já tinha sido namorado de Adriana Barreto em 1991. E distribuiu o fax na Assembléia Legislativa e Câmara Federal. Tales Faria, colunista da ?Isto É?, publicou uma nota dando conta de que ?ACM não mostrava o fax a ninguém?. Ele não retrucou.

Nesta época, final de 2000, o senador já se dava ao luxo de jantar a luz de velas na casa do desembargador Amadiz Barreto, acompanhado da filha e dos pais dela. Quando estourou a crise no Congresso Nacional com a revelação da gravação das fitas em fevereiro de 2001, ACM se refugiou no Kingskey, em Miami, acompanhado da amiga. O pontapé inicial para a crise envolvendo o painel foi dado por ACM: ele foi até o Ministério Público Federal e fez várias denúncias contra Fernando Henrique Cardoso e deixou escapar a história da fraude no painel.

Seu retorno ao Brasil após o Carnaval, já rompido com FHC – que exonerou os ministros Waldeck Ornelas e Fernando Tourinho, ambos indicados por ele – teve a solidariedade constante da amiga Adriana na capital federal. Ela já se hospedava nesta ocasião, sem nenhum constrangimento, na casa da presidência do Senado. A renúncia de ACM após comprovada sua participação na fraude do painel eletrônico, em maio de 2001, também transcorreu com a inseparável presença da amiga. E se aquele ano era muito ruim para o senador, que ficou sem mandato, até então tudo continuava muito bem no relacionamento com a amiga.

Mas o contato direto e constante acabou desgastando a relação. Nos meses de novembro e dezembro daquele ano, dois ?terremotos? abalaram a já tumultuada vida do senador. O primeiro fato negativo aconteceu no dia 3 de dezembro, quando seu candidato à presidência do Tribunal de Justiça da Bahia, desembargador Amadiz Barreto, foi derrotado por Carlos Alberto Dultra Cintra, por 18 votos a dez. Quem lhe deu a notícia foi o próprio Amadiz. A filha Adriana pegou o celular e ligou para ACM: ?Bem, fale aqui com ele?, disse, entregando o celular ao pai. A TARDE registrou o fato na época, mas sem citar o interlocutor.

O outro ?terremoto? não imaginava ACM que ainda estava por vir. No dia 18 de novembro, ou seja, duas semanas antes das eleições para o Tribunal de Justiça, Adriana saiu do spa Busca Vida, no litoral norte da Bahia, decidida a ir morar com o advogado Plácido Faria, que conheceu durante os 15 dias em que ambos ficaram lá perdendo alguns quilos. ?Saímos de lá e fomos para São Paulo no dia 19. Eu tinha que fazer uma sustentação oral no processo de um cliente. E foi marcante. A minha performance foi perfeita e o juiz deu a sentença favorável na hora a nosso favor. Foi inédito na minha carreira. Adriana vibrou?, disse Plácido, na última sexta-feira a A TARDE.

Os dois ficaram quatro dias hospedados no hotel Ceasar Tower, na Rua Augusta, centro de São Paulo. Plácido era casado com Márcia Maria Gonçalves Reis, analista do Tribunal Regional do Trabalho. A ex-mulher descobriu o caso quando ele ainda estava hospedado no hotel. Quando Plácido retornou a Salvador, encontrou as malas prontas na porta do seu apartamento, no Caminho das Árvores. Ele e Adriana foram morar num flat em Ondina.

Conseguiram esconder o relacionamento nos dias que antecederam a eleição no Tribunal de Justiça, mas a ex-mulher de Plácido acabou espalhando pela cidade que o marido a deixou ?pela amiga de ACM?. Adriana decidiu então contar logo tudo para o ex-amigo. A partir de meado de dezembro de 2001, a vida de Plácido e Adriana começou a se transformar num verdadeiro inferno, mas isso já é uma outra história que a revista ?Veja? já contou muito bem.

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