Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

PRIMEIRAS EDIçõES > PONTE AÉREA

Marcos Augusto Gonçalves

Por lgarcia em 08/08/2001 na edição 133

PONTE AÉREA

"A volta da ?burritzia?, copyright no. (www.no.com.br), 31/7/01

Depois de um breve período de folgas volto à Ponte Aérea. Não poderia deixar de comentar aqui a referência que a última coluna mereceu de Nelson de Sá, editor da Ilustrada e colunista da ?Folha?, em texto publicado naquele jornal no dia 10 de julho.

Recorri aqui a uma rocambólica crítica de Pedro Alexandre Sanches ao show de Caetano Veloso como ponto de partida para algumas observações (a bem da verdade esquemáticas) sobre procedimentos da imprensa (notadamente a cultural) do Rio e de São Paulo.

Estranhamente, Nelson saiu em defesa de seu crítico ignorando o que escrevi sobre a influência da Globo na cabeça jornalística carioca. Tomou meu texto como uma peça de adesismo, contrária ao jornalismo crítico, que a Folha tem procurado praticar há anos.

O colunista chegou ao ápice da vulgaridade ?marxista? ao tentar relacionar o conteúdo desta coluna a uma ?nova burguesia? que teria sido legada ao país pela era FHC, uma vez que este site, o no., tem como sócios supostos representantes dessa classe emergente. Como diria o velho Paulo Francis, que Nelson conheceu e citou: waaaaaaall!

Tempos atrás, lá pelos idos de 77 ou 78, participei de um grupo de jornalistas, artistas e intelectuais, que lançou um jornal alternativo chamado ?Beijo?, cujo mentor foi o inesquecível Julio Cesar Montenegro, hoje morando em sua terra natal, o Ceará.

Cito de memória um artigo publicado no ?Beijo?, se não me engano de autoria de Fernandinho Mesquita, cujo alvo era o que ele chamava de ?burritzia?, por oposição à ?intelligentzia? (creio que era essa a grafia utilizada à época).

A burritzia é uma instituição universal. À direita, é mais fácil de ser percebida. Mas à esquerda é muito mais interessante, mais divertida e, quando levada a sério, muito mais exasperante. Uma das caraterísticas típicas da ?burritzia?, muito praticada em nossa imprensa inteligente, é essa praga que podemos chamar de raciocínio mecanicista. É o sujeito que se acha de esquerda, mas nunca foi apresentado à dialética, ao materialismo histórico, à contradição. Entrou para o marxismo e para a ?luta? pela porta do sentimentalismo ou do rancor ? e ali ficou. Para a ‘burritzia’ de esquerda, não há mediações. O mundo é um esquema muito fácil de ser entendido, regido por algumas leis universais (?luta de classes? é a principal) e uma série de correspondências mecânicas, muito fáceis de se fazer. Os fenômenos, fatos, acontecimentos existem apenas para confirmar o que a burritzia já sabia.

É o caso típico desse texto de Nelson de Sá. Não apenas ao relacionar esta coluna à ?nova burguesia? de FHC (e isso é uma outra, e longa, conversa), mas ao afirmar que é ?perfeito e cabal? o paralelo traçado por Pedro Alexandre entre Caetano, seu show e a ?era FHC/ACM/Jader?. Como é cabal?? Isso não pode ser afirmado, deve ser demonstrado. Como relacionar a canção ?Haiti? a Jader e ACM, senão como crítica, esta sim cabal, ao que eles representam no atraso brasileiro? O que tem ?Araçá Azul? a ver com a ?era FHC/ACM/Jader?? E se FHC pode ser, ?tout court?, justaposto a ACM e Jader, isso significa que esses dois personagens também estão articulando no plano político a ascensão daquela tal ?nova burguesia?? Mas eles não são a ?velha burguesia??

É evidente que falta a ambos (Nelson e Pedro Alexandre) uma percepção um pouco mais clara da complexidade do processo político em curso, bem como das relações que podem ser estabelecidas, a qualquer momento, entre as esferas cultural, política e econômica ? essa, aliás, é uma crônica dificuldade da ‘burritzia’.

Se fôssemos raciocinar como fez o articulista, poderíamos simplesmente dizer que ele escreve num jornal burguês (?nova burguesia??), que historicamente está associado à ascensão de FHC e do tucanato (quase todos ?Folha?) e ao já velho triunvirato da ?modernização? paulista, representado por Fiesp-USP-CUT, base dessa social-democracia de araque que fez história no Brasil. Embora nada disso seja mentira, seria obviamente uma visão não muito inteligente do processo e das contradições que ele encerra.

Não seria errado dizer que em alguma medida (eu disse em alguma medida) a redobrada disposição crítica da Folha em relação à era FHC está exatamente ligada à necessidade de se desligar dessas relações viscerais, o que mostra que a realidade é complexa e contraditória, embora as críticas veiculadas nem sempre.

Dizia ainda Nelson, em seu texto, que a ?politização? do crítico da Folha (ele relacionava o declínio do Brasil de ?FHC/Jader/ACM? a um suposto declínio de Caetano) teria me incomodado ?em especial?. Era só o que faltava, eu me incomodar com politização. O que me incomodou, ao contrário, foi a bobajada despolitizada de Pedro Alexandre travestida de politização ? e repetida por Nelson.

Quanto ao show de Caetano, é muito mais politizado do que a Ilustrada, as críticas de Pedro Alexandre e as colunas de Nelson de Sá juntas. Como disse o próprio crítico, depois de andar em círculos e distribuir alfinetadas, trata-se de ?um grande show?.

A propósito, sei que Caetano Veloso tem lido com muita atenção e muito interesse as colunas de Roberto Mangabeira Unger, às terças, na Folha. Não perde uma. Ele teria mencionado isso em diversas entrevistas que deu por ocasião do show, mas não houve quem publicasse a referência. Foi Mangabeira Unger quem Nelson de Sá substituiu naquele dia 10 de julho."

    
    
    
          

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