Domingo, 22 de Setembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1055
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Marcos Sá Corrêa

Por lgarcia em 30/05/2001 na edição 123

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AINDA ACM & ARRUDA

"Tudo como dantes", copyright no. (www.no.com.br), 25/05/01

"Nada como um dia seguinte atrás do outro. Enquanto espera o do senador Antônio Carlos Magalhães, que deixou a renúncia para quarta-feira, o país recolheu no dia seguinte do ex-senador José Roberto Arruda a prova inequívoca de que nossos homens públicos ainda não perderam, apesar da crise, sua vocação histórica para a política de conciliação.

Eles só tinham perdido a velha naturalidade, vivendo há tantas semanas sob o foco constante da TV-Senado, cujas câmeras até os parlamentares menos supersticiosos consideram os olhos de vidro da opinião pública. Se a opinião pública, de uma hora para outra, deu para tomar conta do painel eletrônico com maternal desvelo, eles não tinham outro remédio, fora engrossar o coro de indignação vindo das ruas.

?Somos vítimas de um instrumento que nós próprios criamos?, explicou aos jornais o senador Ney Suassuna, condoído com a despedida de Arruda, depois de votar na véspera por sua cassação. Ele reconheceu que ?a exposição dos senadores ao vivo ditou o rumo do resultado?, repetindo a frio um diagnóstico feito a quente pelo colunista Roberto Pompeu de Toledo na revista Veja. Aquele julgamento só foi o que foi por causa da TV.

Não é mesmo fácil defender o voto secreto e ao mesmo tempo atuar para a televisão, ainda por cima num Conselho de Ética e Decoro de uma casa presidida pelo senador Jader Barbalho pela vontade de sua atual maioria, expressa por 41 votos em fevereiro. Com Jader Barbalho na presidência, a mera existência do conselho cheirava a provocação. Seu funcionamento, um constrangimento interno.

Que nada. Arruda e Antônio Carlos lhe deram a chance inesperada de fazer o maior barulho de sua história num momento em que parecia condenado à discrição. Aquilo ?foi uma catarse coletiva?, segundo Arruda. E saiu melhor do que a encomenda. O conselho fez um julgamento político. E os julgamentos políticos servem exatamente para promover purgações.

Era esse o risco previsto dias atrás pelo presidente Fernando Henrique Cardoso, quando denunciou o ?clima de Terror, de Convenção? à colunista Teresa Cruvinel. Fases de purgação costumam ser terríveis. Se os senadores tomassem gosto pela limpeza, poderiam atingir uns aos outros e certamente acabariam acertando em Jader Barbalho, dono de um vasto currículo de inquéritos que até hoje, miraculosamente, não feriram a ética nem o decoro parlamentar.

Pelo visto, Fernando Henrique pode cuidar do apagão e deixar para lá a ameaça de pegar em Brasília a moda do terror à francesa. Brasil é Brasil. Aqui, mal Arruda desceu da tribuna, terminado o discurso de renúncia, foi tão engolfado pela unanimidade dos consolos que acabou fotografado nos braços do senador José Eduardo Dutra, líder do PT, enquanto a senadora Heloísa Helena olhava a cena com ternura piedosa.

Mais brasileiro, só o senador Carlos Wilson. Convocado a ser o relator da cassação de Arruda e Antônio Carlos, ele já está aliviado porque a dupla renúncia o livrará da antipática tarefa. Na França revolucionária não havia dessas coisas. Na Convenção de Robespierre, quando um certo Dufriche-Valazé se suicidou em plenário, ao ouvir a sentença que o despachava para a guilhotina, um aparte de Fouquier-Tinville exigiu que ele fosse decapitado assim mesmo. A moção foi aprovada na mesma hora e guilhotinou-se o cadáver.

Pode-se dar por encerrada a temporada da ética na TV-Senado. Apesar das advertências do presidente, no Brasil a História não costuma se repetir porque as coisas já acontecem como farsa."

"A renúncia e a fila de tapinhas nas costas", copyright Jornal da Tarde, 26/05/01

"Os telespectadores tiveram, na quinta-feira, mais uma atuação do dublê de senador e ator José Roberto Arruda. Uma performance mostrada na íntegra na TV Senado e em montagem de videoclipe em várias emissoras, em todos os telejornais. Ao longo dos últimos dois meses, foram três papéis diferentes, em que o ator se esforçou para ser convincente e colher os frutos da boa atuação.

Primeiro, o ofendido indignado, negando qualquer culpa. No segundo papel, o culpado confesso, invocando o amor dos filhos e enxugando lágrimas. Agora, o injustiçado, o sacrificado, o bode expiatório, a lacrimosa vítima do momento político. Em todos os papéis, o mesmo empenho. Apesar do empenho, Arruda não passa de um ator esforçado. Como um Francisco Cuoco, que mesmo nos melhores momentos sempre deixa passar um quê de canastrão. O tom de voz de Arruda foi o mesmo nos três papéis, a gesticulação foi igual. O erro básico dele como ator foi trabalhar os três papéis com uma mesma motivação interior do personagem, embora fossem três scripts diferentes, e a motivação escolhida por ele foi a seguinte: eu não sou isso que vocês estão pensando. Acontece que os fatos mostravam que ele era isso que todos estavam pensando.

A cena final foi brasileiríssima. Depois que Arruda disse: ?Não é o fim, é um novo começo. Até um dia. Muito obrigado? – desceu da tribuna e entrou na fila dos abraços, na qual estavam os que dias e semanas antes o atormentavam, como Pedro Simon e Eduardo Suplicy. Até que se cumprisse o ritual dos abraços, o silêncio, respeitado pelo presidente Jader Barbalho, fez um bom efeito. Assistiu-se a uma longa sucessão de tapinhas nas costas, esse gesto tão brasileiro de conforto e consolo. Naquele momento, o tapinha nas costas simbolizava a conciliação dos adversários, o recado de que a briga foi no campo político, não no pessoal. Tanto para um lado quanto para o outro, vale o que diz a música:

?Um tapinha não dói, um tapinha não dói.?"

***

"Votação secreta ou não? Qual é a diferença?", copyright Jornal da Tarde, 22/05/01

"Mal começa a semana, o telespectador vê-se estimulado pelos telejornais a tomar posição sobre a votação, na Comissão de Ética do Senado, para aprovar ou rejeitar o relatório do senador Saturnino Braga, que pede o início do processo de cassação dos senadores Antônio Carlos Magalhães e José Roberto Arruda, pela indecorosa ação de violar o painel de votação do Senado.

Os telejornais falam das insistentes manobras de bastidores dos senadores e políticos ligados a ACM, para que a votação seja secreta. A própria manobra – e isso os telejornais não destacam, por meio de seus comentaristas políticos – demonstra que os senadores são maleáveis a um joguinho escondido. E isso acontece dentro da Comissão de Ética! Significa, pelo menos na visão de ACM (e ele conhece bem os seus pares e ímpares), que com o voto secreto podem ser feitos conchavos. Não se comenta no noticiário político da televisão que é o próprio violador de painel que tem esse conceito sobre o caráter dos membros da Comissão de Ética, conceito embutido na manobra da votação secreta. E quem resiste, e insiste na votação aberta, resiste porque sabe que o risco é esse mesmo.

Apaga

Com a falta de energia, volta a ser fonte de luz a palavra do industrial Antônio Ermírio de Moraes. Ele deu uma longa entrevista a Mônica Waldvogel e Rodolfo Gamberini, num Fala Brasil da semana passada, e não segurou a língua. A imprevisão, tanto do governo quanto de colegas industriais, que não ouviam a crise batendo à porta, recebeu duras críticas. Agora, diz ele, a posição do Brasil como país para investimento externo produtivo fica abalada.

O apagão e a segurança foram assunto em vários telejornais. A junção de circunstâncias como desemprego crescente, mercado informal sem espaços nas grandes cidades, crime organizado, dependência crescente de drogas e polícias mal-equipadas aumenta a apreensão com apagões. O item que mais apareceu nas entrevistas da tevê foi esse. E na segunda-feira teve destaque (em várias tevês, com reportagem boa no Bom Dia Brasil, da Globo, no Fala Brasil, da Record, no SPTV, da Globo, debate no Dia Dia, da Band, e outros) um aspecto que vai crescendo: a penalização de quem já vinha economizando no limite, por motivos financeiros, e que agora será prejudicado por não ter onde cortar."

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