Domingo, 19 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

PRIMEIRAS EDIçõES >   HISTÓRIAS DE JORNALISTA

Marcos Sá Corrêa

Por lgarcia em 16/12/2003 na edição 255

QUEDA LIVRE

“Um manual para todas as redações”, copyright No mínimo (http://nominimo.ibest.com.br), 14/12/03

“A Folha de S. Paulo tem um novo e temerário manual de redação. Seu diretor Otavio Frias Filho correu o risco de pôr em livro sete reportagens exemplares. Cada uma delas, sozinha em seu capítulo, tem qualidades de sobra para animar o domingo de qualquer jornal do país. A Folha inclusive. Mas, juntas nas 288 páginas de ?Queda Livre?, elas sacodem quase todas as normas que homogeneizaram, muitas vezes para pior, a imprensa brasileira. A Folha inclusive.

São reportagens feitas sob medida para provar que bom jornalismo não tem fórmula. Por um lado, foram apuradas com tamanho rigor e tão bem escritas, que dispensam as credenciais da notícia e o foguetório do ineditismo para se apresentar como textos de leitura obrigatória. Sua originalidade fica em outro campo, o dos assuntos que os cidadãos com amor à pele e os repórteres com amor ao emprego mais cedo ou mais tarde aprendem a evitar no exercício da rotina.

Otavio Frias Filho fez o contrário. Cerca de quatro anos atrás, passou a procurá-los, trilhando na contramão os rastros de seu próprio medo. Meteu-se sete vezes onde não deveria. Fez os 744 quilômetros do Caminho de Santiago, sem ter a menor queda para as maratonas aeróbicas nem vocação para os êxtases religiosos, e chegou ao fim da romaria contando as bolhas dos artelhos mas sem arredar o pé da crença em Deus como um ?coelho da Páscoa para adultos?. Viajou a Mapiá, no cafundó do Acre, meca do Santo Daime, para comungar seu coquetel alucinógeno, mas voltou com a sensação de que visitara no cenário do ?Coração das Trevas? a tribo desplugada do filme ?Matrix?. Lá, mesmo sob o poder do cálice encantatório, não perdeu de vista a obrigação de informar que Daime vem da invocação ?dai-me?, bordão de tantos hinos religiosos, e que ?do ponto de vista químico, não existe segredo. Cientificamente conhecido como Banisteriopsis caapi, o cipó amazônico contém três alcalóides capazes de induzir a perturbações da consciência: harmalina, harmina e tetrahidroharmina?.

Fez mais. Tendo medo até de voar em aviões comerciais, saltou de um monomotor a 10 mil pés de altitude e, sentindo o pára-quedas se abrir lá em cima com ?um ruído de panos sendo rasgados?, em vez de resvalar pelo céu entendeu finalmente como se sente ?um réptil preso entre as garras do falcão conforme a superfície da terra se torna outra vez reconhecível?. Enfiou-se no quarto escuro e apinhado de um clube de ?sexo recreativo” especializado em troca de casais para lá dentro, inalando a ?sauna de vapores humanos? e esgueirando-se entre fregueses “que empunham os pênis para fora como se fossem lanternas?, recusar cerimoniosamente ? com um ?obrigado, estou só olhando? ? a vaga que um desconhecido, ?provavelmente o marido?, lhe oferecia na fila para chegar às últimas conseqüências com uma ?mulher esbelta de cabelos curtos?.

E daí por diante, passando por um teste de imersão a 251 metros de profundidade num submarino brasileiro, um flerte com o suicídio em 46 páginas que vão da psicanálise à estatística e uma experiência como ator bissexto num palco comandado por José Celso Martinez Corrêa, um diretor que consegue intimidar até o espectador sentado na última fila do teatro. Deu para pegar o sentido da coisa?

São, em suma, sete reportagens que dificilmente passariam por um chefe de reportagem mais ou menos acordado. Fogem a vários padrões. Para começo de conversa, estão contadas na primeira pessoa do singular ? e, no caso, uma primeira pessoa singularíssima, que não se planta na frente de seus assuntos como um locutor de televisão, mas também não esconde por trás deles os impulsos mais íntimos que o empurram durante a apuração. Virou outro homem ao pular de pára-quedas? ?Não, embora o meu superego, normalmente tão pretensioso, tenha se acovardado de maneira incrível, em mais uma prova de que ele não passa de um biltre que sai correndo tão logo esse sujeito de boa índole e moderadamente cumpridor de suas obrigações que é o meu ego dá um soco na mesa e declara um basta?.

Até onde levou os ensaios com o Santo Daime? ?Vejo ? para ser mais exato: imagino ver ? cenas corriqueiras de infância sucedendo-se tão depressa que, ao contemplar a seguinte, já esquecera a anterior; depois vi as constelações mais próximas à medida que me afastava numa trajetória espiralada até ter, diante dos olhos, a galáxia inteira. Estava feliz e assustado ao mesmo tempo: o Santo Daime me permitira espiar pela fresta?.

Embora sentindo a ?voz ressoar entre os ossos da própria cabeça?, ao encarnar o repórter Caveirinha da peça Boca de Ouro, de Nelson Rodrigues, não ficou cego para a proximidade da atriz Sylvia Prado, registrando ?as cálidas ondas de perfume que seu corpo exalava junto com a transpiração e as gotículas brilhando nos poros da pele de sua barriga?. Quer dizer: ?O teatro é uma experiência física que tem uma poderosa conotação sexual: pode ou não envolver texto, música, pensamento, arte, mas não prescinde da materialidade dos corpos em movimento, corpos que transpiram, que se tocam, mudam de roupa, tomam banho. Um dos aprendizados que o teatro propicia &eaceacute; a consciência do quanto nossos corpos são negligenciados, esquecidos, anulados nessa amputação das faculdades e dos sentidos a que chamamos de vida real?.

Por falar nisso, ao cobrir (se é que se pode usar o verbo nestas circunstâncias) a confraria do sexo grupal, não deixa de anotar que não era só o instinto jornalístico que o impelia para o assunto. E de informar os resultados no fim da apuração: ?Depois de explorar léguas de pele, tantas superfícies sedosas e tantas mucosas orvalhadas, de perseguir o desejo sem jamais conseguir agarrá-lo por completo nem saciá-lo em definitivo, de acalmar nossas feridas narcísicas lançando mão de doses cada vez mais cavalares de euforia sexual, quando já estamos esgotados de procurar sempre mais adiante e sem perceber levantamos o último dos véus ? então o sexo subitamemente se mostra na sua forma irredutível, sem encantamento, como aquilo que é: a mais fugaz felicidade, a mais alegre das decepções?.

Por essas e outras, ?Queda Livre? é ao mesmo tempo um livro divertido para o leitor comum e desconfortável para vários tipos de leitores mais ou menos especializados. Os aventureiros se sentirão desafiados em seu próprio território por um autor que declaradamente não gosta de aventuras. Os muito místicos terão agora que partilhar o Caminho de Santiago com um ateu que cumpriu à risca todos os passos da peregrinação, sem esperar visões e epifânias, mas imaginando que, à falta de outra coisa para fazer além de andar mais de vinte quilômetros por dia, seria pelo menos abençoado com tempo de sobra para pensar durante quarenta dias. ?E no entanto essa expectativa se frustrou?, diz ele.

Nesse capítulo, o livro faz as voltas mais longas para se desviar do lugar-comum. Trata com benevolência, quase smpatia o escritor Paulo Coelho, autor de um bê-a-bá da transcendência que transita em várias línguas por aquele itinerário, a bordo das mochilas dos romeiros. É áspero com Deus, começo e fim da tal estrada. E dedica os melhores parágrafos à mundanidade de Compostela. Por exemplo: ?Geralmente o peregrino encontra um bar que parece fechado, experimenta abrir a porta, sempre protegida por cortinados plásticos coloridos, e lá dentro existe não apenas vida, mas o mais banal e corriqueiro burburinho do século XX: homens de bigode bebendo e fumando no balcão, outros em volta de uma velha mesa de bilhar, na televisão um jogo de futebol que ninguém está assistindo e, atendendo as mesas com preguiçosa má vontade, uma garçonete de saia preta e curta com quem os homens já têm intimidade demais para continuar lhe dirigindo gracejos?.

Enfim, quem acha que se expor ao público é posar para o fotógrafo de ?Caras? numa banheira de espuma talvez se sinta atacado na Jacuzzi por um sujeito que parece ter sido educado dentro de um terno preto, não abdicou à vida discreta, intitula-se um tímido incurável e descreve a si mesmo como ?um corvo de óculos? e ?nariz pontiagudo, nuca decepada, esgares desagradáveis?. Em resumo, uma pessoa meio reclusa que há 19 anos dirige a redação da Folha de S. Paulo.

Quando assumiu o cargo, credenciado pelos diplomas de direito, de ciências sociais e a certidão de nascimento como filho do dono, os jornalistas sob seu comando se amotinaram. Ele tinha na ocasião 27 anos e o regime civil, ainda engatinhando, ensaiava na imprensa a co-gestão de patrões com líderes sindicais, à luz de um petismo nascente, que então parecia destinado a produzir um país onde um dia todo brasileiro teria o direito a ser uma Heloísa Helena ou um João Batista Babá. Na Folha, a disciplina profissional voltaria aos trancos e barrancos, greves e demissões, acabando consolidada em 1984 num Manual de Redação que especifica, em 391 páginas, tudo o que o jornalista da casa deve fazer e o que precisa evitar.

É um bom manual, adotado até pela concorrência. Mas não adianta procurar porque dentro dele não se encontra a fórmula de um ?Queda Livre?, um gênero de reportagem que, por falta de tempo, dinheiro, treinamento e estímulo, tem cada vez menos espaço no jornalismo brasileiro. A tal ponto que o país anda meio esquecido de que grande reportagem não é só aquela que o público tem de ler por tratar de coisas relevantes, mas também as que se tornam relevantes porque o público não pode deixar de lê-las. Em outras palavras, as boas histórias bem contadas, como as da revista New Yorker, que arrastam inapelavelmente o leitor por páginas e páginas de textos sobre o concreto armado ou, como o livro de Otavio Frias Filho, o suicídio.

Para os jornalistas em geral, e talvez para os da Folha de S. Paulo em particular, ?Queda Livre? pode não ser um convite à aventura, mas é uma convocação a enfrentar o medo. Mesmo sem exigir que se salte de pára-quedas ou mergulhe num submarino, é ele, o velho e confiável frio na barriga, quem costuma guiar os repórteres no labirinto das histórias que nunca estiveram nos manuais.”

“A sustentável densidade do ser”, copyright O Estado de S. Paulo, 14/12/03

“O livro Queda Livre – Ensaios de Risco, de Otavio Frias Filho (Companhia das Letras, 288 págs., R$ 37), não faz parte da coleção Jornalismo Literário da editora, mas poderia fazer. Os textos combinam narrativa, informação e reflexão; o uso da primeira pessoa é obrigatório em função do projeto, mas em nenhum momento obstrui a objetividade da descrição, animada por diálogos, detalhes técnicos, personagens interessantes. O autor, de 43 anos, diretor de redação da Folha de S.Paulo, ex-dramaturgo, escreve bem não só pela escolha das palavras e pelo ritmo consistente, mas sobretudo porque mescla a reportagem e o ensaio de forma bem balanceada, feito raro no jornalismo brasileiro até pela falta de publicações que dêem espaço ao que vai além do boletim noticioso. E com isso pôs o resultado em pé: são sete relatos de experiências-limite, nas quais a mente examina provações do corpo, e que atraem a leitura pela originalidade do tema e por sua execução meticulosa.

Assim como as experiências, os relatos são desiguais em intensidade. A narrativa sobre o salto de pára-quedas, talvez posta na abertura porque forneceu seu título ao livro todo, é um exemplo de resultado mais rarefeito, assim como o texto A Bordo do Tapajó, que descreve a sensação de viajar em um submarino. Há, porém, bons momentos de meditação e descrição em ambos.

?Tudo está em queda o tempo todo?, diz o autor em Queda Livre, ao comentar o mistério da gravidade; mais para a frente, quando o pára-quedas se abre, confessa: ?Agora sim tenho um medo de réptil preso entre as garras do falcão.? Na narrativa da viagem no Tapajó, é a escuridão do mar que o atordoa, isolado no interior daquela cápsula metálica ? ?a sensação de estar protegido numa placenta de metal imersa em líquido incomensurável?.

Mas o que predomina nesses relatos é o tom menino-tímido-descobre-o-mundo, debulhado em microinformações sobre duas experiências que, convenhamos, não são assim tão autovioladoras. O mesmo se pode dizer de O Terceiro Sinal, em que o autor se faz ator num espetáculo de Zé Celso, descobrindo a coincidência entre exibicionismo e vulnerabilidade.

Os melhores textos, talvez por isso, são aqueles em que a experiência soa mais remota, pelo menos para boa parte dos leitores, como Viagem ao Mapiá, em que Frias Filho visita o Santo Daime no Acre e experimenta a ayahuasca, o chá alucinógeno que faz parte do ritual da seita. Num primeiro momento, a bebida se revela de sabor detestável e efeito medíocre; mais tarde, leva o autor a ver cenas da infância e aglomerados de estrelas e a se descontrair musicalmente como nunca antes, na “franja” entre o sono e a vigília. Isso não o impede, porém, de ver como a seita e o chá atuam sobre aqueles que sonham ?desplugar? completamente da realidade, prontos para crer em qualquer delírio.

Outro texto rico em nuances é O Casal Procura, sobre pessoas que buscam experiências sexuais menos convencionais. O autor descreve o que vê em clubes de swing, surpreso com o mecanicismo do ato desprovido de amor (“A noção de que o sexo livre deveria ser selvagem ou frenético é um clichê a ser posto de lado. Ao contrário, o que prevalecia naqueles ambientes era uma estranha calma”), mas o melhor do texto são os personagens, que ao contar suas histórias vão aos poucos mostrando um mundo bem menos monótono do que costuma ser o do sexo a dois e, ao mesmo tempo, revelando serem tão carentes e ciumentos quanto aqueles que optaram pelo lugar-comum. Um deles, Dario, oferece a conclusão de uma vasta experiência em sadomasoquismo: o sonho secreto de toda mulher é ser submissa e, numa mistura de narcisismo e desespero, se tornar vítima a um pequeno intervalo da brutalidade.

Os textos sobre a peregrinação de Santiago, No Caminho das Estrelas (“Nunca tive tamanha consciência do próprio corpo como nessa viagem ?espiritual?”), e sobre os suicidas, O Abismo (?É como se toda a aptidão para sentir prazer e suportar o sofrimento ficasse comprometida?), perdem um pouco de teor informativo e dramático, mas também são narrativas muito vivas. No conjunto, o livro não chega a ser nem um exame nem uma expiação dos sete pecados capitais (cada um associável a um capítulo, segundo o autor), mas, tal como a lição de leveza reconhecida nas últimas linhas, extrai sua força justamente de se manter a meio caminho, ainda que de olho nos extremos. Não há libertação do corpo, e por isso mesmo sobra espaço para refletir sobre sua fragilidade.”

 

HISTÓRIAS DE JORNALISTA

“A delícia de estar à margem”, copyright No mínimo (http://mominimo.ibest.com.br), 09/12/03

“Nada interessa mais às pessoas do que as demais pessoas, sabemos. Por essas e outras, o jornalista é alguém obrigado a lidar profissionalmente com a celebridade ? e não estamos, aqui, falando apenas de quem trabalha em revistas como a ?Caras?. Existem os que gostam desse métier, existem os que não gostam e há, inclusive, aqueles que se confundem com o que deveria ser apenas o objeto de sua atenção no trabalho ? sem contar, é claro, os que se metamorfoseiam, eles mesmos, em celebridades. Mas embora o contato profissional com personalidades do País ou do exterior seja enriquecedor, sempre me fascinaram mais os encontros fortuitos e casuais com elas, em circunstâncias em que o destino fez caber a mim a parte do cidadão anônimo.

Uma seleção de cenas gravadas na memória não poderia deixar de incluir, por exemplo, uma aparição ? a de Jorge Luís Borges passeando na Calle Florida, em Buenos Aires, numa manhã de outono. Sem ser reconhecido pelos passantes, lá ia o grande homem, de braços dados com uma jovem esguia e prestativa que muito mais tarde eu viria a saber tratar-se de Maria Kodama, a enigmática secretária, discípula e futura esposa meio século mais nova que o extraordinário escritor. Passo firme apesar da idade, indiferente ao movimento selvagem de turistas ávidos se atropelando em direção à vitrine mais próxima, com o rosto de olhos baços erguido para o sol, sentindo com visível prazer na pele a luz que não enxergava, a majestosa passagem de Borges me pareceu uma miragem. Felizmente lá estavam também minha mulher, Marcia, e o jornalista Nirlando Beirão, meu compadre e grande amigo, a testemunhar que de fato vi o que vi, e não sonhei.

Buenos Aires reservaria outra surpresa em encontros casuais. Minha infância de garoto criado no interior fora povoada por uma galeria de ídolos esportivos que incluía o mitológico Juan Manuel Fangio. Imbatível pentacampeão mundial de Fórmula 1 (o futuro hexacampeão Michael Schumacher ainda era um bebê) nos tempos heróicos da década de 50 em que a tecnologia era primitiva e os pilotos arremetiam pelas pistas em arrojo suicida, eu guardara sua silhueta de nariz proeminente e sorriso discreto debaixo de antigos capacetes de couro.

Foi portanto com alegria que, certa noite, vi aquela mesma figura materializar-se a um metro de distância da mesa a que me sentava, na casa noturna El Viejo Almacén. O velho campeão, cercado de casais amigos sorridentes em traje de gala, comemorava 65 anos no exato dia (com os argentinos, Deus sabe, é sempre assim) em que se celebravam os 40 anos da morte de Carlos Gardel. Interrompeu-se o show, rufou a bateria da orquestra e um holofote do palco iluminou a fisionomia que eu conhecera em velhos jornais, para o aplauso emocionado da platéia.

Houve também uma tarde, numa Paris por alguma razão surpreendentemente avara de restaurantes abertos, em que minha mulher e eu finalmente conseguimos, aliviados, nos alojar numa mesa confortável. Ao lado, durante todo o almoço, o ator italiano Walter Chiari ? mais conhecido na época do que hoje, sobretudo por ter um dia conquistado, que Deus seja louvado, a divina Ava Gardner ? namorava uma dama. Ao retirar-se antes do casal de brasileiros desconhecidos, presenteou-os, sem mais, com uma garrafa do (bom) vinho que bebericava com seu par.

Mas todas essas, de uma ou outra forma, foram situações em que se permitiu ao lado anônimo da questão a observação tranqüila do outro. Encontros ainda mais fugazes revelaram-se igualmente interessantes. Como um rápido cruzar de caminhos com uma figura feminina fabulosa num saguão de hotel, o Carrera Sheraton, em Santiago do Chile. Eu, jovem repórter chegando para uma dificílima cobertura ? a da eleição presidencial que terminaria dando a vitória a Salvador Allende, em 1970 ?, ela, Elza Martinelli, saindo sabe lá Deus para que compromisso ou destino. Alta, vaporosa, coberta de peles, elegante e perfumada, Elza Martinelli pareceu incomparavelmente mais bela, diáfana e inatingível do que a mediana atriz que foi no cinema. Se a mim tivesse incumbido entrevistá-la, talvez hoje em dia nem me lembrasse mais da tarefa. Mas o encontro de segundos, circunstancial e inesperado, que me remeteu à condição de voyeur do cidadão comum, ficou.

Tratar com os poderosos pode ser fascinante para um jornalista ? mas muito melhor do que entrevistar, por exemplo, o ex-presidente Jânio Quadros (coisa que fiz), é ver-se anonimamente postado diante de uma vitrine, em Genebra, ao lado dele e de Dona Eloá (coisa que me aconteceu), e de repente ouvi-los em discreto e prosaico bate-boca conjugal. Ou subitamente compartilhar de uma esteira rolante no aeroporto de Frankfurt com uma figura de boné e casaco de couro, sacolas de viagem elegantes, foulard ao pescoço ? para perceber que se trata do bailarino Rudolf Nureyev. Ou viajar alguns andares de elevador num prédio no centro de Manhattan e, quando a mulher grisalha de ar enérgico vira o rosto, verificar que é ela mesmo ? Katharine Graham, dona do The Washington Post. Ou, ainda, terminar aos trancos e barrancos, às sete da manhã, o fechamento de mais uma edição de IstoÉ numa improvisada redação na Rua da Consolação, em São Paulo, e dar de cara com um sujeito ruivo, de calças e casaco de jeans, aparecido ninguém sabe de onde ? e constatar que é Daniel Cohn-Bendit, o líder da revolução de maio de 1968 na França.

A lista poderia se estender, mas paremos por aqui dizendo que, para quem ganha a vida tentando, munido de indispensável dose de distanciamento, manter-se dentro dos acontecimentos, ficar provisoriamente à margem deles guarda o encanto de um retorno à capacidade de se embasbacar do homem comum. É passageiro, mas é um descanso.”

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