Sexta-feira, 22 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

PRIMEIRAS EDIçõES > MÁRIO COVAS

Marcos Sá Corrêa

Por lgarcia em 31/01/2001 na edição 106

MÁRIO COVAS

"Covas merece respeito", copyright no. (www.no.com.br), 17/01/01

"Nesta quarta-feira, o jornal O Globo publicou, em sua página 4, uma aula de jornalismo. Nela, ensinando mais uma vez que uma coluna política pode ser um exercício diário de reportagem, Márcio Moreira Alves dissecava a teimosia do governador Mário Covas em aferrar-se ao cargo, administrando ao mesmo tempo um câncer em processo de metástase.

Covas, segundo o colunista, assumiu há seis anos um São Paulo devastado pela dupla Orestes Quércia-Luiz Antônio Fleury, gramou um mandato e meio ?comendo pedra e pirão de areia?, consertou as finanças do Estado e agora, na reta final da doença, tem R$ 4,8 bilhões de obras para inaugurar. ?Fez um grande governo e ninguém sabe disso, porque quase não gastou dinheiro com publicidade?, diz o colunista.

Desde a semana passada, Márcio Moreira Alves segue a pista desta história colado na rotina do governador, convivendo com um homem ?atormentado por dor de cabeça constante? e por exames que lhe custaram quatro horas de anestesia geral. Mas deu a notícia como se deve, sem esconder detalhes relevantes e sem devassar intimidades desnecessárias.

Mostrou que em jornalismo a palavra pode valer por mil imagens no dia em que dois jornais cariocas – ou seja, O Globo e o Jornal do Brasil – enchiam a primeira página com uma fotografia de Covas quase caindo, pendurado nos braços de assessores, descomposto numa audiência pública. O que, exatamente, queria dizer aquela fotografia?

Não era, para começo de conversa, um flagrante inédito do governador doente, porque esse é fato velho e sabido. Nela a novidade é que pela primeira vez se fotografava a própria doença. Tratava-se, então, de um retrato do câncer em sua luta contra Covas. Ou seja, de um instantâneo da morbidez jornalística.

Para que serve a fotografia de uma calça manchada, numa autoridade que há mais de um ano mantém o país inteiro informado do diagnóstico de tumor maligno e da extirpação cirúrgica da bexiga, que o colheram entre o primeiro e o segundo mandato? A cena era reveladora de sua confusão mental? Ou da confusão da imprensa, perdida entre a cobertura de uma tragédia e a exploração do voyerismo sádico?

Não vale dizer que o próprio Covas, expondo-se, invade a privacidade dos leitores com sua doença. Esse argumento até o apresentador Ratinho já usou. Gastou-o alegando que só divulga pela TV o que suas vítimas estão dispostas a mostrar no auditório. Não fica bem para o jornalismo brasileiro ser visto em tal companhia.

Num país em que o presidente Tancredo Neves morreu sem tomar posse porque se envenenou com doses letais de mentira, Covas decidiu tratar o câncer com valentia e candura. Pelo visto, pegou a imprensa desprevenida, sem experiência no assunto nem etiqueta definida para as circunstâncias nos manuais de redação.

Às vezes o governador exagera, cercando de fotógrafos seu sacrifício cotidiano. Mas os jornalistas, em princípio, sabem lidar melhor com o excesso de exposição que com a mania de segredo. Duro mesmo é cobrir um prodígio de dissimulação como François Mitterand, que se elegeu duas vezes presidente da França sem contar para o país que estava com metástase. Ou, baixando a um exemplo atual e brasileiro, passar um ano inteiro noticiando com todo respeito a candidatura do senador Jáder Barbalho à presidência do Senado. Sobre ele pesa um diagnóstico de corrupção que parece terminal e nunca foi devidamente desmentido ou confirmado. E isso é mais importante para a vida pública do que o sofrimento de Covas.

Na noite de quarta-feira, dia 17, antes que assinassem o contrato de parceria com empresário Nelson Tanure, o advogado Sergio Bermudes despediu-se por carta dos controladores do Jornal do Brasil, cujos interesses representou por mais de 15 anos."

"Além do câncer", copyright Pensata (www.folha.com.br/pensata), 18/01/01

"Só dá Covas. A maioria dos comentários que li louva a coragem e determinação do governador. Alguns enveredam pela senda dos conselhos, como o editorial de capa de ontem do ?JB?. Pontificam sobre o que Covas deveria fazer ou deixar de fazer.

Não há como contestar a intrepidez de Mário Covas e menos ainda seu valor como homem público. Já dar conselhos ao governador me parece uma bobagem. Ele é bem crescidinho para decidir como vai enfrentar a doença. Enquanto tiver forças e siso, tem o direito de agir da forma que lhe parecer a mais adequada.

Não me parece razoável afirmar, como fez o ?JB?, que as cenas de Covas defrontando a moléstia são constrangedoras. A doença é parte da vida e, se sofrer de uma patologia qualquer é constrangedor, então a própria vida é constrangedora.

Não é, porém, o tom dos comentários publicados na imprensa que pretendia discutir aqui. O que me interessa é a oposição entre respeito à privacidade e direito do público à informação. Trocando em miúdos, quero saber se os jornais agem dentro dos limites éticos ao publicar tantas e tão detalhadas informações sobre a saúde do governador.

De um lado, dados médicos são sigilosos. É difícil realmente imaginar algo mais privado do que, digamos, um espermograma, o exame para a contagem de espermatozóides. Um profissional de saúde que divulgue informações de um paciente seu infringe o Código de Ética Médica (art. 11), que tem força de lei.

De outro lado, Covas não é um cidadão comum. Ele é governador do Estado de São Paulo. Seu destino se liga ao de 35 milhões de paulistas. Na condição de figura de destaque da política nacional, seu futuro diz respeito ainda aos brasileiros em geral.

É importante ressaltar também que Covas atingiu essa posição por vontade própria. Ele é o que se convencionou chamar de homem público. E, de alguma forma, homens públicos têm menor direito à privacidade do que pessoas comuns. Num certo sentido, aqueles que procuram a celebridade acabam tacitamente abrindo mão de porções de intimidade. Não afirmo que as coisas devam ser desse modo, apenas constato que são e que quem procurou notoriedade já sabia disso antes.

Ainda em favor da imprensa, é importante frisar que Covas autorizou a divulgação de informações sobre a sua saúde.

Parece evidente, contudo, que nem a proeminência nem a disposição para a transparência retiram de Covas sua condição de ser humano. Existem níveis de privacidade a que até astros de rock têm direito.

Certos dados dizem respeito apenas a Covas e seus médicos. Não haveria sentido, por exemplo, em publicar nos jornais os resultados dos exames de sangue do governador. A informação a ser transmitida ao público passa por uma filtragem feita pelos médicos assistentes.

Essa ?edição?, porém, é insuficiente para uma preservação consistente da intimidade. Os médicos de Covas, uma vez que a transparência é a regra determinada pelo próprio paciente, não poderiam deixar de divulgar que o governador foi, por exemplo, submetido a uma colostomia. Isso basta para que os jornais publiquem diagramas de como o governador agora elimina suas fezes. Ainda que se trate de dado relevante, há aí, pelo menos, mau gosto. Aborda-se a escatologia errada.

Mesmo o prognóstico de Covas ?corretamente mantido em sigilo por seus médicos? pode ser, em linhas grosseiras, encontrado em qualquer bom compêndio de medicina a partir da informação ?inescondível? de que já há doença metastática instalada.

Os filmes de Hollywood popularizaram a noção de que o médico chega ao paciente de câncer e o informa de quantos meses de vida lhe restam. Esse número de fato existe na literatura científica, mas é a média da sobrevida de doentes em situação semelhante. Qualquer profissional que diga a um paciente quantos meses ele ainda tem é um péssimo médico e um sádico.

Não faz nenhum sentido aplicar a média a um caso particular, porque ela é um valor sem materialidade, calculado a partir de ocorrências concretas díspares. Há quem sobreviva apenas algumas semanas ou dias depois de um diagnóstico de metástase e quem perdure por anos. A medicina está longe de ser uma ciência exata.

Já foi bastante ruim o fato de Covas ter tomado conhecimento de sua mestástase pela imprensa e não por seus médicos, ainda que a mídia não possa ser responsabilizada por essa falha. Reconheço o princípio de que homens públicos, implícita ou explicitamente, abrem mão de parte de seu direito à privacidade. Covas o fez explicitamente. Nesse sentido, não acredito que a imprensa tenha ferido parâmetros éticos, pelo menos não de forma contundente.

Existe, porém, uma esfera da intimidade à qual ninguém pode renunciar, sob o risco de desumanização. Se Covas abre mão de toda e qualquer privacidade, mesmo que apenas no âmbito da doença, dá-se uma reificação; ele deixaria de ser uma pessoa para tornar-se apenas um caso clínico, desses que aparecem sem nome nos livros de medicina, ou, pior, um diagrama numa página de jornal. A representação ganha preponderância sobre a pessoa.

Não acho que a mídia tenha chegado a esse ponto. Não tanto por ter refletido sobre as implicações éticas, mas principalmente porque não foi capaz de levantar tantas informações técnicas sobre o caso, além, é claro, de uma mais do que justificada simpatia dos jornalistas para com o governador.

Se coubesse a mim decidir, faria a cobertura desse assunto de forma bem mais discreta, mas a maioria de meus colegas de imprensa não pensa como eu.

O comportamento do público pode ser ainda mais esquizofrênico. De um modo geral, condena o excesso de exposição, mas é ávido por notícias sobre o estado do governador. Bem, acho que esse é um traço da ambivalente natureza humana, esta sim mais implacável do que o câncer."

"Lila Covas e David Uip pedem respeito dos jornalistas", copyright Terra, 19/01/01

"A mulher do governador de São Paulo, Lila Covas, deixou hoje pela manhã o Incor muito abatida e sem querer falar com os jornalistas que estão no hospital. Lila chegou a perder a paciência devido à insistência de um deles em fazer uma pergunta. Com o dedo em riste ela o repreendeu com uma palavra. ?Respeito?.

O médico de Mário Covas, David Uip, perdeu a paciência com alguns jornalistas durante entrevista coletiva sobre a saúde do governador e disse: ?vocês estão avançando o sinal e querendo virar médicos?. E fez uma ameaça irônica: ?eu estou quase virando jornalista, vocês que se cuidem?.

Uip ainda pediu o fim das perguntas sobre o governo de Covas: ?a equipe médica não está interessada em problemas políticos, de governo ou de coisa nenhuma. Nossa única preocupação é com o cidadão Mário Covas?."

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