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Segunda-feira, 20 de Agosto de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1000
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PRIMEIRAS EDIçõES > MÍDIA É A NOVA GENI

Marcus Barros Pinto

Por lgarcia em 29/07/2003 na edição 235

MÍDIA É A NOVA GENI

“De novo, a culpa é da imprensa”, copyright Jornal do Brasil, 27/7/03

“Chico Buarque de Hollanda escreveu A ópera do malandro em 1978. Entre as personagens destacava-se a prostituta Geni, eternizada nos versos de Geni e o Zepelim, cujos refrões mudavam ao longo da história. O primeiro era: ?Joga pedra na Geni/ Joga pedra na Geni/ Ela é feita pra apanhar/ Ela é boa de cuspir/ Ela dá pra qualquer um/ Maldita Geni.? Assim era tratada normalmente. Diante da chegada do Zepelim, cujo comandante queria explodir a cidade mas mudaria de idéia por uma noite com Geni, o povo cantou: ?Vai com ele, vai Geni/ Vai com ele, vai Geni/ Você pode nos salvar/ Você vai nos redimir/ Você dá pra qualquer um/ Bendita Geni.? Ela foi. Mas na manhã seguinte a sociedade voltou a saudá-la como de costume: ?Joga pedra na Geni/ Joga bosta na Geni/ Ela é feita pra apanhar/ Ela &eeacute; boa de cuspir/ Ela dá pra qualquer um/ Maldita Geni…?

Ao longo da semana passada, a imprensa novamente viveu tempos de Geni. Não por prostituição, mas por apanhar. Tanto quanto no ?debate? promovido pelo secretário de Segurança do Rio, descrito nesta coluna semana passada. Desta vez foram as reações de dois personagens que freqüentaram as primeiras páginas, não como estão acostumados.

O primeiro foi o coordenador do MST, João Pedro Stédile. Em palestra no Rio Grande do Sul, gravada por um repórter do jornal Zero Hora, ele disse: ?A luta camponesa abriga hoje 23 milhões de pessoas. Do outro lado há 27 mil fazendeiros. Essa é a disputa.? E continuou: ?Será que mil perdem para um? É muito difícil. O que nos falta é nos unirmos, para cada mil pegarem um. Não vamos dormir até acabarmos com eles.?

A repercussão foi tão intensa quanto o teor do discurso. O presidente da República, no dia seguinte, antes que o Jornal Nacional exibisse trechos gravados – como costuma fazer com os discursos lidos ou feitos de improviso por Lula -, pronunciou-se. Fazia coro, naquele instante, com Stédile, que insistia na versão de que suas palavras foram ?distorcidas?. Disse Lula, através de seu porta-voz, André Singer: ?O presidente considerou as frases atribuídas ao coordenador do MST tão absurdas que prefere aguardar uma eventual confirmação por parte do coordenador antes de se pronunciar.? ?Absurdas? já é um pronunciamento. ?Atribuídas ao coordenador? também. Naquele instante o presidente punha em dúvida o que fora publicado por um jornal. Como Stédile, lançava desconfiança.

O coordenador do MST, no sábado, deu sua interpretação do imbróglio: ?A burguesia usa a mídia como grande partido ideológico e vive criando falsas tensões para que o governo não faça as reformas que se comprometeu em campanha.? Em resumo: a culpa é da imprensa.

No sábado, Stédile impediu jornalistas de acompanhar a palestra que faria sobre a Alca. ?Era um debate interno e eu queria fechado mesmo?, alegou. E sugeriu que o Ministério Público analise a fita com suas declarações para comprovar que não teve intenção de pregar a violência.

Mas Stédile não foi o único a apontar sua ira contra a imprensa. O presidente da Câmara, João Paulo Cunha, na quarta-feira, chamou a tropa de choque da Polícia Militar do Distrito Federal para conter servidores públicos em greve que faziam protestos – acrescidos de quebras de normas mínimas de convívio e democracia – na Câmara. Foi a primeira vez na história da casa que o presidente convocou a polícia. No dia seguinte, depois de ver na impressa a foto histórica dos policiais de escudo e capacete, chorou. Em discurso no salão nobre da Câmara declarou: ?Estou triste hoje, porque já se disse uma vez: na guerra, a primeira morte é da verdade. Eu estou concluindo que, na guerra da informação, a primeira morte também é da verdade. As pessoas informam mal. Não consideram nenhuma informação da parte, o princípio básico do jornalismo. Você fica impotente. Aí você vê as manchetes dos jornais: Polícia Militar ocupa o Congresso Nacional. Como? O Congresso Nacional trabalhou tranqüilo ontem. É como se a polícia tivesse entrado no plenário. Não há outra palavra para dizer que não seja tristeza.?

A imprensa não é prostituta. Registra fatos, história. Nos dois casos, cumpriu rigorosamente o seu papel. E, apanhando ou não, como Geni, que continue assim.

Para completar a semana, os Estados Unidos criticaram a suspensão por um ano, aprovada pela ONU, da organização não-governamental Repórteres Sem Fronteiras, após queixa apresentada por Cuba. Com o voto do Brasil.”

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