Sexta-feira, 17 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

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Maria Lopes

Por lgarcia em 19/02/2003 na edição 212

PORTUGAL

“Governo Quer Incentivar Fusão de Títulos da Imprensa Regional”, copyright Público (www.publico.pt), 14/02/03

“O Governo vai apresentar até ao final de Março um pacote legislativo para poder levar a cabo uma reforma da imprensa regional, que deverá passar a assentar num modelo empresarial. Entre as medidas previstas está a criação de incentivos para a associação de projectos, a remodelação da distribuição dos jornais, um reforço da fiscalização sobre quem recebe subsídios e a criação de um plano de formação para o sector.

Alterações à actual classificação dos títulos, criação de incentivos para campanhas de promoção da leitura e ?alguns ajustamentos no actual regime do porte pago? são outras iniciativas em preparação, disse ao PòBLICO o secretário de Estado adjunto do ministro da Presidência, Feliciano Barreiras Duarte.

Este responsável inicia hoje uma ronda pelo país para consultar as associações e responsáveis por empresas de imprensa regional. Barreiras Duarte tem agendadas perto de meia centena de reuniões no espaço de um mês, para auscultar os protagonistas, recolher ideias e debater políticas. O ?material? recolhido será depois incluído na proposta governamental do novo modelo de imprensa regional que deverá ter uma filosofia ?empresarial? que possa combater ?o quadro negro? dos índices de leitura.

Associado a este cenário de desinteresse está associada a crise que tem vindo a assolar o mercado publicitário desde 1999. è imprensa regional cabe apenas uma fatia de cinco por cento do total do investimento em publicidade nos ?media? – a nacional fica com cerca de 24 por cento.

De acordo com uma análise do Observatório da Comunicação em finais de 2001, a solução para a sobrevivência das empresas de imprensa regional poderá ter que passar pela associação a grupos de comunicação nacionais e até mesmo internacionais. Perante tal cenário, o Governo prepara-se para criar subsídios de incentivo à associação de projectos de imprensa regional e o secretário de Estado afirma que já teve ?indicações de que alguns o desejam mesmo fazer?.

Outro dos problemas do sector é a sua ?pulverização? e o facto de ?os próprios títulos e associações não se entenderem?. Exemplo disso, afirma o secretário de Estado adjunto, são as ?cerca de 200 propostas diferentes com ideias para a reforma do sector? que recebeu nos últimos meses.

Beneficiários de subsídios mais fiscalizados

Depois de o Governo PS ter reduzido o subsídio de porte pago – dos cem por cento para 80 por cento no caso de publicações com jornalistas profissionais, 60 por cento para os que não os tenham -, o actual Executivo pretende manter essa tendência de diminuir a subsidiodependência. ?Tem que haver uma co-responsabilização e as empresas têm que compreender que é um subsídio para a leitura de jornais e não para subsidiar os próprios projectos?, afirma Feliciano Barreiras Duarte, segundo o qual haverá ainda ?alguns ajustamentos a fazer?. A par disso ?acabar-se-á com o monopólio dos CTT na distribuição da imprensa regional, abrindo esse mercado aos operadores privados?. Em 2000, receberam porte pago 717 títulos, tendo esse número baixado para 554 no ano seguinte.

Os títulos que receberem subsídios – sejam eles para o porte pago, apoio à modernização tecnológica e presença na Internet, ou inovação empresarial – passarão a ser alvo de ?uma fiscalização mais apertada?, podendo até as candidaturas a apoios ficarem condicionadas à realização de auditorias à gestão e às tiragens. Nos últimos 11 anos o Estado gastou 43 milhões de contos com a imprensa regional – e ainda que o número de títulos tenha aumentado em 40 por cento, a circulação só cresceu em 11 por cento, ou seja, a circulação média de cada título diminuiu.

Actualmente, a classificação dos títulos está a cargo da Alta- Autoridade para a Comunicação Social (AACS), mas é feita segundo critérios ?antiquados, desadequados da realidade e onde cabe praticamente tudo?, diz o secretário de Estado. Segundo as ?Novas opções para o audiovisual? apresentadas pelo ministro da Presidência, Morais Sarmento, em Dezembro, a AACS perderá para a nova ?superentidade? reguladora algumas das suas competências, entre as quais se contam a classificação dos órgãos de comunicação social.”

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“Declarações de Morais Sarmento Causam Mal-estar no Acontece”, copyright Público (www.publico.pt), 14/02/03

“Os comentários mordazes que o ministro Morais Sarmento fez anteontem na comissão parlamentar acerca das audiências e custos do Acontece da RTP2 geraram mal-estar entre a equipa do programa. O apresentador Carlos Pinto Coelho cancelou mesmo a sua presença num debate e as duas emissões especiais em directo que estavam previstas para ontem e hoje na Póvoa do Varzim, onde decorre o encontro Correntes de Escrita.

No entanto, ontem à tarde, o ambiente estava bem mais ?tranquilo?, disse ao PòBLICO o apresentador. ?Perante toda esta confusão cancelei as emissões em directo para poder ficar com a equipa em Lisboa e estar atento ao que se poderia passar?, afirmou Pinto Coelho, acrescentando que ?afinal não se passou nada?. O apresentador disse não ter sido sequer contactado pela direcção de informação: ?Estamos a trabalhar normalmente. Ninguém falou comigo sobre o assunto, o que é bom sinal.?

Perante os deputados, o ministro afirmou que o canal 2 da RTP, ao contrário do que seria de esperar, ?é mais visto pelas classes C e D? do que pelas A e B. Para exemplificar, disse que ?o Acontece não está, sequer, entre os mais vistos? e acrescentou, em tom jocoso, que ?ficaria mais barato pagar uma volta ao mundo a cada um dos espectadores do Acontece do que produzir o programa?.

Carlos Pinto Coelho considera este comentário ?uma figura de retórica?, e se ele tivesse correspondência real significava que o magazine ?custava 636 milhões de euros? (127 milhões de contos). As contas foram fáceis de fazer: ?Numa revista ?Focus? recente havia uma peça sobre uma volta ao mundo que uma agência de viagens vendia a 6.980 euros por pessoa. Multiplicando esse valor por cada um dos 91.200 telespectadores que temos, em média, por noite, custaríamos mais do que toda a RTP.? Sem querer adiantar quais os verdadeiros custos do programa, o jornalista disse que ?são extremamente modestos?, sendo o orçamento ?o mesmo desde há três anos?. ?Não me dão dinheiro nem para um cenário novo. Nunca, em nove anos de emissões, o orçamento foi ultrapassado.?

A polémica parece ter ficado por aqui. ?O ministro disse o que lhe apeteceu, mas isso nada alterou no programa, a não ser este percalço dos encontros da Póvoa do Varzim. Tudo continua como dantes?, disse ao PòBLICO o apresentador.

Quanto aos números das audiências, Pinto Coelho realça que ?é preciso saber que leitura se faz: se simplesmente quantitativa, como a que se faz para saber quantas salsichas saem de uma fábrica por dia, ou se uma leitura qualitativa?. O auditório do magazine é composto, por exemplo, ?por formadores de opinião e muitos jovens universitários?, descreve. ?São, em média, 91.200 pessoas que nos seguem, sem incluir os espectadores que vêm o programa através do cabo , da RTP çfrica e da RTP Internacional.?

Ontem circulava já pela Internet um abaixo-assinado de apoio ao Acontece – classificado no documento como ?um dos cavalos de batalha do serviço público de qualidade?. Apelando a ?todos que ainda acreditam que a televisão possa ter alguma utilidade intelectual, com programa de qualidade?, a iniciativa pretende mostrar ao ministro ?quantas viagens de volta ao mundo ele teria efectivamente de pagar!?

Audiências baixas confirmam-se

No Parlamento, Morais Sarmento disse também aos deputados que o segundo canal, que custa actualmente perto de 35 milhões de euros, é visto apenas por uma média diária de 61 mil espectadores, valor que representa 0,7 por cento do potencial mercado. ?A RTP2 perde público desde 1999?, afirmou, apoiando-se num relatório de audiências elaborado pelo Gabinete de Estudos e Audiências da RTP. ?Os programas com maior audiência são os desportivos ao sábado, a missa ao domingo, e as ?sitcom? nos restantes dias?, descreveu o ministro.

De acordo com dados da Marktest, a RTP2 registou, no ano passado, um ?share? médio de 5,3 por cento. O canal é visto sobretudo pelos homens (47 por cento), cenário para que contribuem as audiências das tardes de desporto aos fins-de-semana e o Jornal 2, o segundo programa mais visto da RTP2.

Na repartição qualitativa das audiências, as classes A/B representaram, em 2002, 16,8 por cento (10.300 espectadores) do público total do canal, cabendo à classe C1 27,5 por cento (16.900), ao segmento C2 27,4 por cento (16.800), e, por fim, ao segmento D, o mais baixo, corresponde uma fatia de 28,3 por cento do público (17.400 pessoas).

Esta distribuição qualitativa é corroborada pela ?preferência? geográfica em relação ao canal. A RTP2 é maioritariamente vista nas regiões do Interior (21,5 por cento) e Litoral Centro (21,9), seguidas pelo Litoral Norte (19) e Grande Lisboa (17,9). Bem mais longe, aparecem o Sul (10,5 por cento) e o Grande Porto (9,2 por cento).”

“Crónicas Mediáticas: O Êxito do Folhetim Judiciário”, copyright Público (www.publico.pt), 14/02/03

“O folhetim policial e judiciário é sempre bem sucedido na perspectiva do reforço da ?moral pública? e do negócio dos ?media?, tal como se verifica nos casos de pedofilia ocorridos na Bélgica, na Inglaterra ou na Casa Pia de Lisboa

A tendência para considerar radicalmente novos os eventos do nosso tempo – ou seja, para ?absolutizar o presente?, como alguém disse – leva-nos a considerar como inovações radicais os acontecimentos do ?caso da Casa Pia? e de outros semelhantes que tendem a ocupar de forma obsessiva o espaço dos ?media?. A novidade estará talvez na saturação só possível na actual sociedade hipermediatizada, visto que o tratamento sensacionalista dos casos judiciários e policiais não nasceu com a televisão, nem precisou da Internet para apaixonar multidões.

Na idade de oiro da Imprensa (último quartel) do século XIX, o horripilante ?affaire Troppmann? (1869-1870) – minuciosamente descrito pelo historiador Jean-Noël Jeanneney (em ?Uma história dos media?, Lisboa, Teorema) – fez as tiragens dos principais jornais franceses atingirem dimensões espectaculares e raramente repetidas ao longo da história do jornalismo.

O caso Troppmann resume-se em poucas palavras. No norte de Paris, um agricultor descobre, sucessivamente, seis cadáveres enterrados na sua propriedade agrícola: uma mulher e os seus cinco filhos. Inicialmente, as suspeitas, alimentadas pela imprensa, recaem sobre o sexto filho do casal, mas o corpo deste acaba por aparecer num lugar próximo, tal como o de seu pai. Oito mortos, no total. A família Klinck, de origem alsaciana, sucumbira às mãos de um assassino.

A opinião pública francesa comove-se com esta tragédia familiar. è medida que prosseguem as investigações policiais para descobrir o culpado, aumenta o espaço concedido ao assunto nos jornais. O parisiense ?Petit Journal? (modelo inspirador do português ?Diário de Notícias?, por ocasião da respectiva fundação) lidera o tratamento jornalístico do caso: de início, consagra-lhe duas páginas, mas gradualmente vai aumentando para três e quatro páginas diárias. As tiragens sobem em flecha: de 250 mil exemplares até 467 mil, aquando da descoberta do oitavo cadáver!

A polícia acaba por descobrir o autor do morticínio, que confessa o crime, sendo julgado e condenado à morte. Trata-se de Troppmann, jovem amigo da família, de belo rosto e longos cabelos loiros, a quem a imprensa atribui tendências homossexuais, transformando-o na encarnação do mal, em contraponto aos Klinck, apresentados como modelo de virtudes e da fecundidade da família francesa.

O ?fait divers? possui quase sempre efeitos normativos. O ?Petit Journal? lidera a campanha moral. Atiça a indignação dos franceses. Em recompensa, o jornal de Moïse Millaud obtém, quando relata a execução de Troppmann na guilhotina, o mais elevado número de vendas da sua história: 594 mil exemplares. As más línguas fazem circular que o diário de Paris conseguiu introduzir um repórter como auxiliar do carrasco, a fim de melhor descrever os últimos momentos do assassino…

Estas histórias são repetitivas. Em pleno século XX, Truman Capote constrói, após exaustiva investigação, o romance-reportagem ?A Sangue Frio?, baseando-se no assassínio de toda uma família norte-americana por dois criminosos de delito comum. Ao insistir na narração de factos ?anormais?, a narrativa jornalística apresenta-se como sintoma de mal-estar social e, ao mesmo tempo, reforça o sentido gregário da tribo (Maffesoli).

Tal como se verifica nos casos de pedofilia ocorridos na Bélgica, na Inglaterra ou na Casa Pia de Lisboa, o folhetim policial e judiciário é sempre bem sucedido na perspectiva do reforço da ?moral pública? e do negócio dos ?media?. Se o êxito do ?Petit Journal?, no final do século XIX, já era notável, que dizer das potencialidades da imagem e do directo televisivos, em termos de audiências, com a possibilidade de testemunhos imediatos e de apelos emotivos dos familiares das vítimas e dos suspeitos?”

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