Quarta-feira, 19 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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Maria Luiza Abbott

Por lgarcia em 24/10/2001 na edição 144

GUERRA & BIOTERRORISMO

"A guerra que se trava pela mídia", copyright Valor Econômico, 18/10/01

"A cobertura de guerras segue sempre um padrão deprimentemente previsível, que se repete agora, avisa o veterano jornalista Phillip Knightley, autor de livro clássico sobre o assunto.

No primeiro estágio a mídia relata a crise que as negociações parecem incapazes de resolver. A guerra aparece como ?inevitável?. O segundo é o de demonizar o líder inimigo; o terceiro, estender esse processo aos inimigos como indivíduos e o quarto, o relato de atrocidades.

Para conquistar a opinião pública pela mídia, os governos e seus marqueteiros seguem técnicas aperfeiçoadas ao longo das guerras. A censura direta, na maioria das vezes negociada com os editores, é parte dessa estratégia.

***

?Quando a guerra começa, a primeira vítima é a verdade?, disse o senador americano Hiram Johnson, em 1917. A frase serviu como base para o título do livro do jornalista Phillip Knightley sobre as coberturas das guerras desde a da Criméia, em 1854. Em meio a manipulações dos fatos e à guerra de propaganda dos governos envolvidos na disputa, a verdade sobre o que acontece muitas vezes não é publicada, segundo mostra o relato pormenorizado de Knightley no livro ?The First Casualty, the war correspondent as hero and myth-maker from the Crimea to Kosovo?, Editora Prion.

Em entrevista ao Valor, ele contou ter concluído que a cobertura das guerras segue sempre um mesmo padrão deprimentemente previsível, que se repete agora nesta guerra contra o terrorismo e o Afeganistão. O primeiro estágio é aquele em que a mídia relata a crise que as negociações parecem incapazes de resolver. Surgem frases como ?a guerra é inevitável? e os editoriais defendem a proposta.

O segundo é o momento de demonizar o líder inimigo; o terceiro, estender esse processo aos inimigos como indivíduos, e o quarto, o relato de atrocidades. ?Já passamos do primeiro estágio e agora estamos nas fases dois e três desse padrão. Esforços para mostrar que não só Ossama bin Laden e o Taleban são fanáticos e cruéis, como também muitos afegãos e até muçulmanos ?, explica Knightley.

Com o objetivo de conquistar a opinião pública através da mídia, os governos e seus marqueteiros seguem técnicas aperfeiçoadas ao longo das guerras. ?O governo sempre se esforça para persuadir a mídia a ficar do lado dele, porque fica mais fácil administrar a guerra?, diz. A censura direta, na maior parte das vezes negociada com os editores, é parte dessa estratégia. Foi o que aconteceu nos Estados Unidos agora, quando os proprietários de redes de TV aceitaram a proposta do governo para que deixassem de transmitir vídeos de Bin Laden e seus associados, sob pretexto de que serviriam para passar mensagens secretas a terroristas.

Knightley lembra que o recurso foi usado durante a Segunda Guerra, quando a BBC passava mensagens à Resistência na Europa ocupada. Foram necessários meses para a montagem da operação, que dependia de a transmissão ser feita em determinado horário em que a Resistência já estaria esperando. ?Mesmo que Bin Laden incluísse mensagens cifradas nos seus vídeos, não teria certeza de quando ou se seriam transmitidas, ou se seus seguidores estariam acompanhando?, diz.

Ele argumenta também que o sistema de comunicações de Bin Laden é bem conhecido. Seus seguidores usam e-mail com sistemas de criptografia comprados em qualquer loja e trocam esses sistemas com freqüência. Ou então, celulares pré-pagos que usam para uma conversa e jogam fora, ou criam endereços de e-mail em um café de internet, mandam uma mensagem e vão embora em cinco minutos.

?Dentro do Afeganistão, as mensagens são levadas de bicicleta ou a pé. E, na era da vigilância de alta tecnologia, comunicação da Idade da Pedra é impenetrável?, observa.

Outro motivo apontado pelos governos para que as mensagens por vídeo da Al-Qaeda deixassem de ser transmitidas é que elas são propaganda e podem encorajar jovens muçulmanos britânicos a se apresentarem como voluntários para o Taleban.

?É claro que donos de TVs responsáveis devem alertar os espectadores que os relatos originados do campo inimigo devem ser vistos com cuidado e ceticismo?, diz Knightley, lembrando, porém, que, se essa é uma batalha de idéias, ?cabe a nós apresentarmos contra-argumentos convincentes e não simplesmente calar o outro lado?.

Nas negociações com os governos, os donos de TV nos Estados Unidos aceitaram os argumentos e deixaram de transmitir os vídeos. Os do Reino Unido, depois de uma reunião na sede do governo, optaram por manter as transmissões. ?Estou perplexo pelo fato de os donos de TV americanos terem desistido tão facilmente. Acho que eles não querem que pareça que não são patriotas?, diz. Na avaliação de Knightley – e com o distanciamento de quem é australiano, embora tenha vivido a maior parte de sua vida no Reino Unido – a diferença é que os britânicos estão mais acostumados a discutir o tema, por terem enfrentado outras guerras contra o país.

Mesmo assim, o escritor e jornalista – ele foi repórter especial do ?Sunday Times? por 20 anos – acha que nos Estados Unidos está havendo um exagero no cumprimento das normas da cobertura desejadas pelo governo. ?Não só aceitaram a proposta de não mostrar vídeos, como um número expressivo de colunistas e personalidades de TV que criticaram o presidente e a guerra estão sendo criticados por isso. Alguns perderam seus empregos e jornais pediram desculpas em nome deles?, acrescenta.

Para Knightley, uma das razões que levaram os dois governos a pedirem a suspensão da transmissão de vídeos de Bin Laden é que a divulgação do que ele diz pode minar o apoio à coalizão. Mas, enquanto Bin Laden continuar a ameaçar com novos ataques terroristas ao Ocidente, ele não apresenta problemas porque apenas confirma a imagem que a propaganda fez dele.

O problema é o que ele tem mais a dizer. ?Será que ele vai fazer uma pergunta que não tem resposta? Como, por exemplo, ?por que é aceitável que Israel tenha armas de destruição em massa e não um país árabe??, como perguntou o entrevistador da TV Al-Jazeera (do Qatar) a Tony Blair?, questiona.

O processo de demonizar o inimigo e seus associados é uma estratégia usada há muitos anos. E uma das lições aprendidas por governos e seus marqueteiros, segundo Knightley, é que identificar o inimigo com Adolf Hitler é altamente eficaz. Foi assim com Saddam Hussein, na Guerra do Golfo, e com Slobodan Milosevic, na Guerra do Kosovo.

Ele lembra a história de que soldados de Saddam Hussein estavam matando bebês no Kuait, publicada na imprensa ocidental. Segundo Knightley, a história foi inventada sob inspiração da máquina de propaganda britânica usada contra os alemães ainda na Primeira Guerra.

De acordo com aquela história do início do século passado, os soldados alemães atiravam bebês belgas para cima e os apanhavam com as baionetas.

Na versão modernizada da Guerra do Golfo, segundo o escritor, os soldados iraquianos invadiram modernos hospitais no Kuait, mataram os bebês das incubadoras atirando-os para cima, a fim de que as máquinas pudessem ser enviadas ao Iraque. Segundo o relato, uma organização chamada Cidadãos por um Kuait Livre, financiada com dinheiro do governo daquele país, assinara um contrato de US$ 10 milhões com a empresa americana de relações públicas Hill and Knowlton para uma campanha em defesa da intervenção dos Estados Unidos no Golfo.

A Comissão de Direitos Humanos do Congresso dos EUA tinha uma reunião em outubro, quando uma menina do Kuait contou a história dos bebês.

?Ela fez o relato de forma brilhante, sufocando-se com as próprias lágrimas, a voz falhando enquanto lutava para continuar a narrativa. Para a Comissão, ela foi apresentada como ?Nayirah? e a televisão mostrou raiva e determinação no rosto dos congressistas durante o depoimento dela?, conta o escritor.

O presidente George Bush (o pai), segundo Knightley, referiu-se à história dos bebês seis vezes nas cinco semanas seguintes ao depoimento, como exemplo do mal que representava o regime de Saddam. Na votação no Senado dos EUA sobre uso de força militar contra o Iraque, sete senadores mencionaram a atrocidade contra os bebês e a proposta foi aprovada com uma margem de apenas cinco votos favoráveis.

?Dois anos depois, a verdade apareceu. A história era uma total invenção e ?Nayirah?, ensaiada pela Hill and Knowlton para a apresentação no Congresso era, na verdade, filha do embaixador do Kuait nos Estados Unidos. Quando John Macarthur, em seu estudo sobre a guerra de propaganda, revelou esse fato, a guerra já tinha acabado e havia sido ganha. Isso não tinha mais importância?, conta.

A campanha para demonizar Bin Laden e seus seguidores está em pleno andamento. ?No começo, disseram que ele tinha manipulado ações no mercado, que estava por trás do tráfico de drogas ou que quase toda a droga vendida na Europa Ocidental vem do Afeganistão?, lembra Knightley. Na terça, a União Européia disse que não tem elementos para confirmar se Bin Laden e a Al-Qaeda tinham realmente manipulado os mercados. ?Eles dizem essas coisas e, se for mentira, esperam que a gente só se dê conta depois que a guerra terminar?, afirma.

Para o escritor, porém, desta vez a propaganda do Ocidente está enfrentando uma contra-ofensiva brilhante. ?Se eu não soubesse ser impossível, acharia que Bin Laden e Taleban estão sendo assessorados por uma empresa de relações públicas da Madison Avenue?, ironiza. Mas Knightley acha que a boa campanha não tem sido intencional. ?Suspeito que Ossama Bin Laden tem noções sobre como apresentar sua questão, mas acho que o fato de ele ter sido tão bom foi mais por acidente?, avalia.

O escritor não acredita que Bin Laden pretendesse influenciar a opinião pública no Ocidente, e sim apenas a opinião no mundo islâmico, com sua mensagem muito simples, direta e com muita lógica. ?Mas, como tão poucas pessoas sabem tão pouco sobre ele, tudo o que ele fala acaba sendo publicado na mídia ocidental. E estão todos preocupados com isso no Ocidente. Com o que diz, Bin Laden está erodindo a solidariedade na coalizão ocidental. É um herói no mundo muçulmano, sem nenhuma dúvida?, diz.

Segundo o escritor, a coalizão reunida pelos Estados Unidos e o Reino Unido seria frágil de qualquer maneira. ?O espetáculo de duas das nações industrializadas mais poderosas bombardeando um país agrícola de Terceiro Mundo, em meio à fome, nunca poderia ser edificante?, afirma.

O sucesso dessa aliança, segundo ele, depende de que todos estejam convencidos, especialmente o mundo islâmico, que os ataques são dirigidos aos culpados pelos atentados terroristas e aqueles que lhes dão guarida, e não contra os sofridos afegãos.

?Mas sabemos, pelo que aconteceu na Guerra do Golfo e em Kosovo, que a propaganda mais enganosa é a que assegura que os modernos ataques aéreos são tão precisos que nenhum civil inocente vai morrer?, observa. No livro, Knightley relata que nenhum soldado da Otan e muito poucos soldados sérvios morreram em combate na Guerra de Kosovo.

As listas de vítimas estão cheias de civis, entre 10 mil e 15 mil, mantendo a tendência recente em que, na guerra, poucos soldados morrem. ?No começo do Século XX, 90% das vítimas em guerras eram soldados. No fim do século, 90% das vítimas foram civis?, afirma.

Na avaliação de Knightley, o que realmente preocupa o governo é que o próximo vídeo do Afeganistão pode mostrar corpos lacerados de mulheres e crianças afegãs mortas nos ataques de aviões dos EUA e do Reino Unido. ?É por isso que os governos estão tentando intimidar a mídia para que concorde em não divulgar qualquer coisa que venha de Bin Laden?, argumenta. Ele lembra que os rumores sobre mortos civis no Afeganistão têm circulado no Paquistão e comunicados pelo embaixador do Taleban no país. Sem uma verificação independente, porém, é melhor não acreditar nos números.

?Tanto Bush quanto Blair se dão conta que uma imagem, TV ou foto, de uma afegã embalando o corpo do seu bebê morto num ataque aéreo seria o suficiente abalar o apoio à coalizão?, afirma. Segundo ele, essa é uma das razões para que quanto maior o segredo sobre essa guerra melhor para os governos dos EUA e do Reino Unido. ?Parece altamente improvável que venhamos a ter cobertura de Cabul, como aconteceu em Bagdá, na Guerra do Golfo?, prevê. Ele lembra que, desta vez, até mesmo entrevistas com pilotos ou tropas são raras ou simplesmente não estão sendo permitidas.

O autor observa que os governos do Ocidente aprenderam essa lição na Guerra de Kosovo. No episódio, relatado pelo escritor no livro, um piloto entrevistado no norte da Itália disse que adorava seu trabalho. ?É muito divertido. É como jogar vídeo game na montanha russa.?

Para Knightley, toda essa pressão para limitar a cobertura – impedir a divulgação do que diz Bin Laden e pedidos para que a mídia evite ir atrás de rumores e escrever ou falar de especulações para não ajudar o inimigo – é um passo perigoso para a liberdade de expressão.

?Numa guerra de sobrevivência nacional, como a Segunda Guerra, espera-se que a mídia tome partido. Se o governo acredita que esse é o caso agora, então deveria impor censura?, argumenta. No Reino Unido, a censura só pode ser imposta se aprovada por lei, pelo Parlamento, em caso de guerra ou crise nacional. ?Do contrário, o governo deveria ficar quieto?, observa.

O escritor sabe do que está falando. A primeira versão do livro sobre a cobertura das guerras foi publicada em 1975, influenciada pelo relato de seus colegas, correspondentes de guerra do ?Sunday Times?. ?Todos voltavam dizendo como era difícil descobrir a verdade, como os militares tentavam manipulá-los?, conta.

Quando começou, segundo ele, sua idéia era que o correspondente de guerra era um herói e, por isso, a expressão ainda é parte do título do livro. ?Descobri que nem todos são heróis. Também são fazedores de mitos e de propaganda. Alguns com intenção, e outros sem saberem?, acrescenta.

Knightley resolveu atualizar o livro, incluindo novas guerras, como a do Golfo e de Kosovo, que foi republicado no ano passado. Ele tem outros livros publicados, como uma biografia de Lawrence da Arábia (?The Secret Lives of Lawrence of Arabia?, da Editora Nelson). Foi um dos dois únicos jornalistas a serem premiados duas vezes com o British Press Awards e o ?First Casualty? recebeu o prêmio Overseas Press Club of America, nos EUA."

    
    
                     
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