Segunda-feira, 21 de Agosto de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº954

PRIMEIRAS EDIçõES > LITERATURA E VERDADE

Marines e jornalistas em missão de combate

Por lgarcia em 05/12/2001 na edição 150

JORNALISTAS NA GUERRA

A Marinha dos EUA chegou a solo afegão decidida a levar três repórteres de veículos impressos, um câmera de TV e um fotógrafo para a frente de combate. As empresas noticiosas aplaudiram a decisão e se mostraram surpresas, uma vez que não esperavam a aceitação de jornalistas na missão tão cedo.

"A Marinha gosta de aproveitar oportunidades de mostrar sua história ao público", disse Rob Colenso Jr., marinheiro aposentado e editor-administrativo da revista semanal Marine Corps Times. Um dos repórteres de Colenso, C. Mark Brinkley, de 27 anos, foi escolhido, com um da Reuters e um da Associated Press, para acompanhar a tropa numa pista de decolagem deserta próxima de Kandahar. Colenso afirmou que a operação foi a primeira oportunidade do Pentágono de pôr repórteres em solo lado a lado com soldados e assumir a responsabilidade por sua segurança sem prejudicar a incursão.

Até agora, as imagens de fuzileiros navais bombardeando o território talibã têm sido fugazes, principalmente devido a problemas logísticos em terra e a algumas restrições militares. Paradoxalmente, segundo Alessandra Stanley [The New York Times, 28/11/01], as imagens mais dramáticas registradas não foram de tropas navais, mas de agentes das Operações Especiais, que trabalham sob sigilo absoluto e não permitem repórteres acompanhando as missões.

COURT TV

A caça a Osama bin Laden está fazendo suar a equipe da Court TV. O documentário de uma hora de duração da emissora americana simula o julgamento do terrorista suspeito de liderar os ataques de 11 de setembro. Agendado para 6 de dezembro, o programa acabou antecipado para 29 de novembro.

A correria foi motivada pelo avanço inesperado da guerra. A qualquer momento o Talibã pode se render e bin Laden pode ser morto. E, se isso acontecesse antes de o documentário ir ao ar, dias e noites de trabalho na produção perderiam o valor, de acordo com David Bauder [The Associated Press, 27/11/01]. "Quando dei sinal verde, pensei que teríamos mais tempo", afirmou Henry Schleiff, presidente da Court TV. O show, intitulado Osama bin Laden on trial, foi encomendado cerca de um mês após os ataques terroristas, quando as incursões americanas em território afegão e a caça ao líder talibã apenas começavam.

No programa, nenhum ator foi contratado para protagonizar bin Laden. Em vez disso, especialistas em legislação como Alan Dershowitz, Eric Holder, Ron Kuby e F. Lee Bailey, reuniram-se com Brian Ross e John Miller, correspondentes da ABC News, para investigar provas contra o líder da rede terrorista al-Qaeda e sugerir argumentos viáveis. Advogados conversam sobre como as declarações públicas de bin Laden e seus seguidores poderiam ser usadas contra ele no julgamento, além de ajudar na investigação sobre seu envolvimento nos ataques de 11 de setembro.

 

LITERATURA E VERDADE

Foi estranho ver, no dia de Ação de Graças, a mídia fazendo ganchos entre patriotismo de guerra e patriotismo de compras. É praticamente impossível levar a sério a postura de formadores de opinião, para Joe Knowles [In These Times, 26/11/01]. Vá ao shopping para reviver a economia, vá à igreja reviver a alma da nação. Ambos os imperativos, segundo Knowles, são um só. Não passam de simulações da realidade ? o que é pior que trivialidade direta e assumida. Leon Wieseltier, editor de literatura da revista The New Republic, acertou ao dizer que "sem dúvida a seriedade está na moda."

O crítico James Wood, estrela da equipe de Wieseltier, respondendo a um artigo que o romancista Jay McInerny publicou no Guardian, aproveitou a oportunidade para, no mesmo jornal britânico, estraçalhar o autor conhecidamente superficial. McInerney foi de fato infeliz, mas o verdadeiro alvo de Wood não foi apenas a superficialidade de Nova York, e sim todo o corporativismo da literatura moderna.

Depois de anunciar um desgaste compulsório da literatura, Wood avisou a todos os romancistas que os tempos do efêmero acabaram. Serão estes novos tempos, questiona Knowles, um marco do fim da diversão barata?

Wood fala em prol "do estético, do contemplativo, dos romances que nos dizem não ?como o mundo funciona?, mas ?como alguém se sentiu em relação a algo?." Por que essa hostilidade aos diferentes modos de pensar e escrever? Uma das explicações pode ser encontrada no editor de Wood, Wieseltier. Knowles diz apreciar a análise do editor quanto às superstições do reverendo Billy Graham e de Oprah Winfrey, mas afirma que Wieseltier passa dos limites em uma falsa devoção a si mesmo.

O que Knowles quis dizer pode ser explicado em exemplo recente. Na revista The New Yorker, John Updike descreveu sua visão dos ataques terroristas ao World Trade Center. A descrição primava pela linguagem quase poética com que adornou seu artigo, expressano mais sentimento do que fato. Suas palavras contrastam o horror cru com uma beleza estranha, uma justaposição nauseante que milhões de pessoas também sentiram. Então, diz Knowles, por que não escrever sobre o assunto?

Na visão de Wieseltier, no entanto, esse não foi um tiro certeiro. O editor acusa Updike de tentar suscitar beleza na destruição, como se o pequeno milagre de encontrar palavras para verbalizar uma experiência fosse pecado. "Há circunstâncias em que a beleza é um obstáculo à verdade", disse Wieseltier.

Para Knowles, esse pensamento do editor expõe seu desconforto com a própria verdade. A falta de beleza leva à falta de inteligência emocional, ao ponto de toda a nação ficar indignada com a morte de 6 mil pessoas em 11 de setembro, mas não ficar igualmente indignada com a fome que mata diariamente 24 mil pessoas. Podemos nos contar histórias, com nada a perder e tudo a ganhar, ou podemos nos contar mentiras, colocando em risco a própria existência. E há aí, segundo Knowles, uma diferença vital.

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