Segunda-feira, 16 de Setembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1054
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Marketing político não é bruxaria

Por lgarcia em 16/01/2002 na edição 155

ELEIÇÕES 2002

Chico Bruno

O jogo da sucessão presidencial tomou conta do dia-a-dia da imprensa. O disse-me-disse das fofocas, as pesquisas e os marqueteiros têm espaço garantido na mídia diariamente. Os assuntos em voga são os dois livros publicados por marqueteiros famosos, as pesquisas de intenção de votos para presidente e as fofocas do mundo político que reinam na Ilha da Fantasia.

O jornalista Mario Sergio Conti, em artigo publicado na Folha de S.Paulo, analisou friamente os livros de Chico Santa Rita, jornalista, e Duda Mendonça, publicitário. A análise gerou réplica abusada de Chico Santa Rita e silêncio de Duda Mendonça. Vários jornalistas se posicionaram sobre a análise de Conti. Nenhum profissional do marketing político se posicionou.

Vale a pena colocar a colher na questão para algumas correções acerca do que foi escrito em um dos livros, mais precisamente no de Duda Mendonça. As eleições estaduais de 1986 marcaram definitivamente a organização do marketing político no país, como é praticado até hoje. Para se fazer justiça, foi Geraldo Walter, já falecido, quem criou e instalou o primeiro comitê exclusivo de marketing político eleitoral, ocupando um edifício inteiro de quatro andares na Chapada do Rio Vermelho, em Salvador, para a campanha de Waldir Pires, na qual o adversário, candidato de ACM, Josaphat Marinho, que teve como marqueteiro Duda Mendonça, foi derrotado com uma diferença de um milhão e meio de votos. Aliás, vale informar que, após essa campanha, Geraldo Walter, coordenando grande equipe contratada pela Propeg, ajudou a eleger José Eduardo Santos, presidente de Angola.

É preciso corrigir, também, por dever de justiça, que a vinheta "foi fulano quem fez e fará muito mais" surgiu de 1990 na campanha ao governo da Bahia, criada pela equipe que fez o programa de rádio de Roberto Santos, e só posteriormente adaptada para o programa de televisão do candidato. Roberto Santos perdeu a eleição, por uma diferença de apenas 0,37% no primeiro turno, para ACM, cujo marketing político era coordenado por Fernando Barros: sua agência, a Propeg, é responsável pelo marketing do ex-senador desde 1970.

Não custa lembrar que a esmagadora maioria dos profissionais de marketing político do país é formada por jornalistas, radialistas ou publicitários que preferem o anonimato às luzes da ribalta.

Silvio e o Datafolha

A memória da imprensa brasileira às vezes é fraca, daí o esquecimento de que foi o publicitário Geraldo Walter, coordenando uma grande equipe, quem contribuiu para a eleição de Fernando Henrique e de vários governadores, entre eles Jaime Lerner, Tasso Jereissati, Marcelo Alencar, Antônio Brito, Eduardo Azeredo, entre outros, em 1994. Infelizmente, quem gosta das luzes da ribalta é que é lembrado, erroneamente, pela imprensa, como autor da façanha.

Isso posto, é preciso ficar claro que nenhum dos profissionais citados trabalha sozinho: todos trabalham com profissionais competentes e muito bem-remunerados, que são os verdadeiros criadores dos programas de rádio e televisão do horário gratuito eleitoral. São jornalistas, publicitários e radialistas que formam, em algumas campanhas, um contingente de mais de uma centena de profissionais, no caso de eleições presidenciais, e que, findo o trabalho, retornam a suas atividades cotidianas, sem se locupletar dos governos eleitos. E sem a mínima mágoa por não terem sido aproveitados pelos eleitos para compor seu governo.

Infelizmente, a imprensa nunca dedicou uma linha a mostrar a seus leitores os duros bastidores de uma equipe de marketing político. Ao contrário, cede muito espaço aos que se colocam acima dos candidatos, como verdadeiros bruxos da política e que usam, dessa forma, a imprensa para obter mais clientes. A verdadeira história do marketing político brasileiro ainda está longe de ser escrita. O que se escreveu até agora não passa de mera promoção pessoal.

Em tempo: não dá para deixar passar em brancas nuvens, pois cheira a armação, a inclusão de Silvio Santos na última pesquisa eleitoral do Datafolha e a não-simulação do nome de Eduardo Suplicy. Aliás, o Datafolha corre o risco, com essas atitudes, de perder a credibilidade que sempre marcou suas pesquisas, pois demonstra claramente que o nome de Silvio Santos foi simulado atendendo a alguma pretensão, sobre a qual, infelizmente, só pode responder o próprio Datafolha.

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