Terça-feira, 26 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº959

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Marta Suplicy, Jô Soares e Leonel Brizola

Por Victor Gentilli em 05/11/1997 na edição 33

Marta Suplicy e Jô Soares protagonizaram um duelo verbal interessantíssimo no talk show da sexta-feira 24 de outubro. Marta criticava a televisão brasileira, contra a programação nefasta e prejudicial; Jô defendia a liberdade, contra qualquer tipo de censura. Foi uma das poucas vezes em que Jô debateu, discutiu, enfrentou seu convidado; não o entrevistou. Jô não é jornalista e não pratica jornalismo, mas é um artista respeitado e respeitável, que opera a arte da entrevista com competência.

Os contendores chegaram a quase disputar os aplausos do público. Mas a entrevista não perdeu o tom, e foi um dos momentos mais ricos e inteligentes da atual televisão brasileira.

Entendo que os argumentos de ambos foram acertados, o debate é que esteve deslocado. Marta mostrava que a TV brasileira é ruim, tem problemas graves, influencia negativamente nossa população, em especial as crianças. Jô rebatia que tudo isso podia ser verdade, mas mais grave, em qualquer circunstância, seria a censura.

Marta foi convidada ao programa para apresentar a organização, que defende, de avaliação crítica da TV. Algo assemelhado a este OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA.

Desconheço detalhes da organização capitaneada pela deputada. Pelas respostas de Jô, concluo que o organismo, em alguma medida, pretenda controlar a TV. Assim, entendo necessário mostrar que há uma grande diferença entre o controle da TV e a censura.

Tomemos como comparação o transporte coletivo. A comparação entre a TV e o transporte coletivo não é minha. É de Leonel Brizola, e já é relativamente antiga, mas foi um dos momentos de grande lucidez e felicidade do nosso velho e bravo político gaúcho.

Impedir um ônibus de transitar seria limitar o direito de ir e vir. Nas concessões do Estado, no entanto, ou, mais rigorosamente, em todo o serviço público – e a imprensa é serviço público, essa é uma das premissas deste observatório – o poder regulador do Estado se faz necessário.

Dizia Brizola: "Não me interessa quem é o dono do ônibus. Não me interessa a forma de gestão do ônibus: pode ser pública, pode ser privada, pode ser cooperativa. Do que eu não abro mão é que ele cumpra o trajeto, obedeça o horário e jamais impeça por preconceito alguém de nele entrar. Nenhum dono de ônibus pode dizer: preto não entra."

O que Brizola queria dizer é que Roberto Marinho não tem o direito de dizer que Brizola não pode entrar na Rede Globo.

Parodiando Brizola e oferecendo um argumento à deputada petista, diria: "Não pretendo impedir o ônibus de circular. Mas exigir um certo padrão de limpeza e assepsia aos coletivos só faria bem à saúde de todos. As TVs podem fazer o que bem entenderem. Mas não podem dizer que um Rá tim bum não entra."

Leia também no Jornal de Debates:

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