Segunda-feira, 11 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº969

PRIMEIRAS EDIçõES > MULHERES APAIXONADAS

Martha Mendonça

Por lgarcia em 12/08/2003 na edição 237

MULHERES APAIXONADAS

"E o Rio parou para ver um tiro", copyright Época, 11/08/03

"Houve um tempo em que capítulos de novela eram sinônimo de surpresa para o telespectador. Já há alguns anos, com as revistas e os cadernos de TV, sabe-se o resumo do que vai acontecer dias antes. Na semana passada, centenas de cariocas puderam acompanhar uma das cenas mais esperadas de Mulheres Apaixonadas, a novela das 8, ao vivo e em cores – alguns da janela da própria casa. A morte de Fernanda, vivida por Vanessa Gerbelli, parou o Leblon, um dos bairros mais nobres da Zona Sul do Rio de Janeiro, na terça-feira. A Rua Dias Ferreira, que corta boa parte do bairro, teve três quarteirões interditados. A imprensa – inclusive correspondentes estrangeiros – e curiosos viram de perto a cena da morte da personagem, por bala perdida, que teve ainda a presença de Tony Ramos. Seu personagem, o músico Téo, leva um tiro de raspão.

A gravação foi o desfecho de uma novela dentro da novela. Em julho, quando o autor Manoel Carlos anunciou que Fernanda, uma ex-garota de programa, morreria por bala perdida de um assalto, a polêmica se instalou na cidade. Apesar de esse tipo de acidente ser cada vez mais comum no Rio, a idéia foi mal recebida pelos moradores do bairro. Empresários da área de turismo e as associações de moradores foram contrários à idéia. A Companhia de Engenharia de Trânsito da Prefeitura chegou a dizer que não autorizaria a gravação – que, por interromper o tráfego, só poderia ocorrer com o apoio oficial. Imaginou-se que seria uma questão política. Mas, poucos dias depois, o prefeito Cesar Maia liberou os trabalhos.

A cena teve tiros de festim, muita gritaria e foi acompanhada com emoção por cerca de 800 pessoas. Janelas e varandas de prédios residenciais e comerciais ficaram lotadas. Ao fim de cada tomada, explodiam aplausos. ?Foi como um teatro a céu aberto?, disse Tony Ramos, ensopado de suor, ao final do intenso dia de trabalho. ?Um dos momentos mais emocionantes de minha carreira.? O ator passou toda a tarde se dividindo entre a concentração que a cena exigia, exercícios de expressão facial e sorrisos e acenos que dava para a multidão que o chamava a cada minuto. O acontecimento foi tão concorrido que a atriz Deborah Secco, que nem sequer participa da novela, era uma das curiosas no local. ?Vim ver de perto?, explicava, procurando não chamar a atenção. Todos só queriam ver o tiro mais anunciado dos últimos tempos.

Moradora do bairro de Queimados, na Baixada Fluminense, a tetraplégica Tânia dos Santos, de 43 anos, viajou duas horas de ônibus para assistir à cena. Sua cadeira de rodas ganhou lugar especial, dentro do cordão de isolamento. ?Minha mãe morreu há 12 anos por causa de uma bala perdida. Essa é a nossa realidade; por que não mostrá-la na televisão??, dizia. A estudante Geniza de Sousa, de 21 anos, matou aula e veio do Irajá para mostrar suas semelhanças com a atriz Carolina Dieckmann, que vive a Edwiges em Mulheres Apaixonadas. ?Assim, assisto à cena e me mostro. Quem sabe um dia n&aatilde;o me contratam para dublê??, comentava.

Moradores do Leblon se dividiam. A dona-de-casa Leila Camacho, de 55 anos, interrompeu sua caminhada matinal para ver os artistas. ?Bandido não escolhe lugar e não acho que suje o nome do bairro?, disse. Gerente do restaurante Pronto – em frente ao local da gravação -, Alberto Pessoa bradava contra a cena. ?É um desserviço à sociedade, ao bairro e ao Rio de Janeiro. Essa novela vai para o mundo inteiro e nossa imagem fica ainda pior?, reclamava. Da cabine da PM, a 20 metros do local da cena, o policial Beliago não perdia um movimento. ?Não acho que prejudique a imagem da cidade nem da polícia. É a realidade.? Transpirando sem parar debaixo do sol do inverno carioca de 30 graus, Nelson Souza, de 35 anos, figurante de um dos carros próximos ao local da cena, não polemizava. ?Não sei se ajuda ou atrapalha, mas vale estar aqui para ganhar R$ 60?, divertia-se. ?Estou desempregado e qualquer bico é bem-vindo.?

Curiosamente, a cena exata do tiro teve de ser refeita porque foi ofuscada por um flash de máquina fotográfica. Com aparato menor, a equipe voltou ao local na tarde da quinta-feira. A gravação da cena e seu complemento são um marco na história da teledramaturgia. ?Nunca vi tanta gente num set de gravação?, diz Rogério Gomes, um dos diretores da trama. ?Grandes crimes das novelas, como o assassinato da Odete Roitman, por exemplo, foram todos feitos em estúdio. E cenas externas são quase sempre sem grande impacto.? A atriz Vanessa Gerbelli, que, de um papel secundário, foi para o centro da trama, chorou várias vezes ao longo de sua última cena na novela. ?Saio, mas saio feliz?, repetia. Estão previstas para Mulheres Apaixonadas manifestações contra a violência, a reboque do que tem ocorrido na vida real. A morte de Fernanda por bala perdida vai ao ar no fim do capítulo do sábado e na segunda-feira. Foi um mês de polêmica e mais quatro dias de gravação para uma cena de oito minutos de olhos grudados na TV."

 

"Só ricos poderiam morar no edifício da novela das 9", copyright O Estado de S. Paulo, 10/08/03

"O edifício P Wrobel, onde vive metade das protagonistas da novela Mulheres Apaixonadas, da Rede Globo, é real, ao menos na fachada.

Fica na quadra da praia de uma rua transversal do Leblon, bairro situado numa nesga de terra entre o mar e a Lagoa Rodrigo de Freitas, na zona sul da cidade, onde o autor Manoel Carlos ambienta suas histórias. É um imóvel de alto luxo, com cinco apartamentos, um por andar. A cobertura é dúplex e tem ainda dois andares de garagem. Portanto, os moradores não se encontram saindo de casa, como em muitas cenas, só no elevador.

O prédio é perfeito para abrigar as personagens ricas, Lorena e as três irmãs Helena, Heloísa e Hilda, mas não um contador desempregado, como Carlão, pai da ambiciosa Doris, que se sustenta com bicos e com a pensão dos pais, artistas de uma outra época. Dificilmente ele teria condições de pagar o condomínio, não revelado pelo porteiro, João Ruffino, mas calculado por administradoras em torno de R$ 4 mil e R$ 5 mil. O porteiro conta que, ?só de vez em quando?, a Globo aparece lá para gravar a fachada imponente, de mármore importado num tom café-com-leite.

Acesso restrito – Ruffino explica também que a Rede Globo pediu permissão ao condomínio para usar a fachada, mas nem o hall social ou a área de serviço comum do edifício são usados pela produção.

?Apesar de o Manoel Carlos gostar de gravar o máximo possível de suas cenas em locação ao invés de estúdio, seria complicado usar áreas internas de um imóvel residencial habitado?, conta um produtor da novela que não se identifica. ?Além de problemas de iluminação e de colocação de câmera, ia causar muito transtorno na vida dos moradores. Já se tentou isso e acabou em conflito.?

No entanto, algumas cenas estão próximas da verdade, como gosta o autor. Os moradores vão à praia, a menos de 200 metros, só de calção ou biquíni e a rua fica mesmo perto do Hotel Marina, cuja fachada é usada para cenas do Hotel Praia do Leblon, onde outro tanto de personagens se abriga e/ou trabalha. A única cena impossível no dia-a-dia do prédio é alguém aparecer de surpresa, como acontece em quase todo capítulo. Como a maioria dos prédios de luxo, o P Wrobel tem portaria de vidro fumê e um porteiro que só atende o interfone e não permite a entrada sem autorização do morador que receberá a visita."

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