Sexta-feira, 17 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

PRIMEIRAS EDIçõES > A INFORMAÇÃO ENTRE A PRIVACIDADE, A FOFOCA E A IRRELEVÂNCIA

Mass media e Internet escorregam na casca de banana

Por lgarcia em 20/07/1998 na edição 49


Umberto Eco

 

O texto abaixo foi publicado por La Repubblica, jornal italiano, no dia 16 de julho. O jornal antecipou a intervenção de Umberto Eco que viria a público num livro a ser lançado esta semana, pelo Instituto Aspen. O tema, atualíssimo, é central na Itália seja porque está em debate tanto pela Autoridade para a Privacidade, Stefano Rodotà (com status de ministro) como também pela Ordem dos Jornalistas. Eventuais erros na tradução são de minha responsabilidade. Victor Gentilli.

 

C

omo estudioso dos problemas da Comunicação, lanço algumas provocações que concernem à crise do conceito de informação e à crise do conceito de tutela da privacidade. Hoje, não temos mais tempo para ler o jornal, mas sabemos, ainda que precariamente, dos mortos ilustres, dos cataclismos naturais, dos eventuais focos de guerra, em suma, todas as notícias necessárias já vimos nos telejornais da noite anterior. Comprarei um jornal para saber o desempenho da moeda, mas tenho, grátis, um serviço da Internet que me envia diariamente por e-mail todas as cotações dos valores dos países do mundo, aí compreendidos o Zimbábue e o Sri Lanka, em relação à lira.

Para ter este serviço preciso renunciar a parte da minha privacidade porque me requerem todos os meus dados pessoais, excluído apenas meu grupo sangüíneo. Tendo visto as notícias pela TV e sendo acessíveis pela Internet todas as tecnicalidades (chamemo-las assim), que coisa esperar de um jornal que o torne digno de ser lido enquanto estamos no metrô ou tomando um café. O gossip, a intriga, a fofoca. Estamos de frente a este a este fenômeno universal pelo qual o objeto maior da imprensa de informação está se tornando o gossip. Avaliadas o número de páginas e de colunas dedicadas ao Sexygate em confronto ao Iraquegate veremos que o gossip é a matéria-prima da informação.

Quando houve o delito no Vaticano, eu tive que tirar o telefone do gancho porque todos os jornais chamavam qualquer pessoa com alguma qualificação intelectual para ter um suspeito quente que poderia fazer sucesso. Toda a imprensa foi colocada na busca da solução menos lógica antes ainda de saber que havia espalhafato. A solução mais lógica me foi dada por um amigo suíço que me disse: o rapaz é vallese. Os vallesi tem um senso de honra forte, como aqueles dos sicilianos. Uma honra negada é suficiente para justificar um delito de honra.

Não acredito que para cada acontecimento necessitamos sempre buscar a explicação mais econômica do fato, mas esta é uma explicação mais econômica que a de que o coronel pelo olhar suíço talvez seja um espião da Stazi, versão dada por todos os jornais e que não explica de fato o homicídio. Muito menos um suspeito de um triângulo amoroso, porque deveria ser o coronel que teria assassinado os outros dois, não o rapaz. E nem assim um caso de homossexualidade, mas todos os jornais, ao menos no meu país, estão satisfeitos com as únicas três hipóteses não econômicas que se possam fazer sobre o delito do Vaticano. E se avança com a administração da justiça. Este é um grande problema de crise para a informação.

Não faz muito tempo, parecia que certos problemas referiam-se apenas à imprensa italiana, mas o exemplo do caso Clinton nos demonstra que tal não é verdadeiro. Há algum tempo a Paris-Match desacreditava a lenda de que a imprensa francesa não se ocupasse da vida privada dos próprios presidentes. Este é um grande problema, ligado ao problema da democracia. Porque quando a primeira finalidade dos meios de comunicação se torna o gossip, vale dizer que uma sociedade está doente. Fatalmente, a doença se estende também sobre a Internet.

Os sites que disponibilizam as lendas metropolitanas são talvez maiores que aqueles que chegam a mim todas as manhãs anunciando as mudanças dos valores. Portanto, se temos uma profissão intelectual – e isto ocorre em todo o mundo e na imprensa de todo o mundo – a imprensa fica obcecada pela busca em torno do terror que precede o ano 2000. Assim como corria lenda que teríamos terror no ano 1000, toda a imprensa de todo o mundo está em busca do terror do 2000. Ora, a honestidade impõe explicar a todos que não haverá terror no ano 2000.

Estamos pouco nos lixando. Estamos apenas pensando em anunciar o maior dano das ilhas Fiji ou das Maldivas, e quando aparecem para dizer que há a seita satânica, o grupo de sacrifício astral, os ufólogos nos explicam que era assim no início deste século. É impossível acertar a resposta de que não existe uma síndrome de terror do ano 2000. Ninguém pensa no terror do ano 2000, a não ser os órgãos de informação, que fazem de tudo para criá-lo. E no fim os historiadores dirão que nós estávamos aterrorizados com o ano 2000.

Esta é talvez uma anedota mas nos demonstra como o gossip corre o risco de prevalecer sobre a circulação daquela forma de informação que está sempre na salvaguarda da sociedade democrática, isto é, a imprensa enquanto a mola das informações que chegam pela Internet não é regulável, e não apenas pela censura ou pelos governos, mas nem mesmo pelos usuários e portanto não é necessariamente garantia de aquisição de saber. O segundo problema é aquele da privacidade. Nunca se falou tanto de privacidade como nos dias de hoje. Na Itália, há inclusive constituída uma autoridade para a privacidade.

Ora, se bem que eu não seja sociólogo, com muito descaramento me permitiria fazer algumas incursões sociológicas. Apenas os filósofos podem permitir-se falarem de tudo. Nunca houve um período, como o nosso, no qual as massas não desejam a privacidade. As massas se expõem continuamente em público, narrando os seus problemas de família nos talk show televisivos, narrando-nos, nos trens, nos seus celulares, todos os seus problemas sexuais, bancários ou de saúde. Fazendo decididamente o serial killer para poderem aparecer nos jornais.

Quem é que deseja a privacidade? São uns poucos ricos. Agnelli não tem seu celular, assim como Clinton. As grandes massas, por razões que não vou discutir, estão ansiosas para adquirir status simbólico, colocando na praça a própria privacidade. Estamos numa segunda fase do “veblenismo”: The Theory of the Leisure Class está completamente reescrita. O status symbol não é mais índice de excelência, mas índice de midiaticidade, porque vem vendido a custo reduzido por todos (menos, porém, para Rockfeller, Clinton, Ieltsin). Qual privacidade podemos ainda defender quando ninguém deseja que seja defendida? Todavia, a privacidade é um valor. Agora, creio que o problema central não seja como defender a privacidade do cidadão mas como educar o cidadão a reconhecer a privacidade como um valor. E este é um problema também para a imprensa.

Vale recordar aos homens de finanças que o primeiro impacto dos mídia sobre o mundo bancário nos vem narrado por Alexandre Dumas no Conde de Montecristo. O Conde de Montecristo, para arruinar o banqueiro Danglars, altera uma mensagem no telégrafo, faz chegar uma falsa notícia e derruba a bolsa: Danglars é arruinado. Por ele, primeira lição para os diretores dos bancos nacionais e internacionais: não confiem muito na mídia.

Agora, ao contrário, vou concluir com uma breve anedota que me parece instrutiva: Nós todos sabemos que se escorrega na casca de banana. Creio que toda língua contenha uma expressão do tipo “escorregou numa casca de banana”. Ontem, li uma coisa extraordinária. Não é verdade que a casca de banana faz escorregar. Isto é, não há nenhum elemento físico-químico que torne uma casca de banana mais escorregadia que um tomate esmagado, que o bago da uva, que uma casca de pera. Por que estamos convictos que a casca de banana faz escorregar? Porque nas primeiras slapstick comedies, quando era necessário fazer escorregar um personagem, a alternativa era um excremento de cão sobre a marcação de cena. Por pruridos se inventou como particularmente eficaz e visível a casca de banana. Portanto, toda a nossa linguagem, o nosso conhecimento do mundo, o nosso modo de andar pela estrada é determinado não por uma falsificação eletrônica feita hoje sobre a Internet, mas por uma deformação construída pela mídia. Porém, onde li esta notícia? Em um jornal. E talvez isto nos deva tornar mais cuidadosos sobre a capacidade quase biológica que o circuito da informação, pode ter de curar as mesmas feridas que inflige.

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