Sábado, 25 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

PRIMEIRAS EDIçõES > MTV

Matinas Suzuki Jr.

Por lgarcia em 07/02/2001 na edição 107

QUALIDADE NA TV

NOVELAS

"Anjo Q Caiu do Céu", copyright iG (www.ig.com.br), 30/01/01

"‘De qualquer modo, o amor é o único triunfo da imaginação sobre a inteligência’ (Uncle Dave, provavelmente citando alguém)

Meu querido Mestre,

Há muito não escrevo para vc, aí nesse endereço desconhecido. Estou louco para saber o q vc anda pensando de muita coisa q anda ocorrendo por aqui.

Não sei o q vc achou de eu ter ficado com as suas taças de dry martini. Perfeitas. Um dos seus grandes desesperos aqui na terra dos Joãozinhos era não encontrar as taças ideais para o drink. A jovem repórter achou q elas deveriam ir para o meu bar. Estão lá. Aguardo um sinal seu sobre essa herança.

Outra coisa: estou usando um bloquinho de anotações q era seu. Com páginas amarelinhas e linhas verdes. Acho q vc comprou-o para escrever, literalmente, sobre o Brasil em linhas corretas. Peguei o bloquinho na esperança de q ele me ajude com as suas idéias surpreendentes.

Sua amiga de Búzios, sempre atenciosa, está fazendo uma exposição lá. Ela me manda uma foto q fez de vc. É de 74, e vc estava então, calculo, com 51 anos. De calção, pullover, uma rolleiflex na mão e mostrando a língua para a fotógrafa – vc dá uma ar internacional para a praia, em contraste com as canoas e as redes de pescadores.

É sempre curioso ver uma foto sua anterior à metade dos 80, quando te conheci. É sempre estimulante ver que vc foi, a vida toda, alguém ‘young at heart’, como canta na minha casa o Francis Albert, sempre q eu me lembro de vc.

Mas, o mais curioso de tudo isso é vc ter virado tema de novela da Globo. Imagino já a sua cara da ironia, ao mesmo tempo em q, no fundo da alma, haveria uma pontinha silenciosa de orgulho em ser reconhecido. A mesma carinha q vc fazia quando recebia o elogio de uma Jennifer ou de uma mulher interessante.

No geral, tenho simpatia pelo Tarcísio Meira. Acho-o uma figura do bem. E pra um Uncle Dave, o visual está ótimo. Os problemas começam quando ele abre a boca e quando nós tentamos entender o q está se passando no mundo de uma novela da Globo.

Os diálogos apostam na estupidez de quem acompanha uma novela. Eles não devem estar enganados, sob esse aspecto. Mas, a TV brasileira continua apresentando a fragilidade na roteirização dos diálogos. E a trama…. bem, deixa pra lá.

Vc deve estar rolando de rir com a idéia de um anjo – vc acreditava neles, principalmente em se tratando de um anjo com sexo, com sexo feminino – governando a sua vida e reaproximando vc da sua família. O seu gesto não permitiu reaproximação. Tinha um encanto radical q não aceitaria jamais a xaropada familiar q vi na TV, na sexta-feira, em um posto de gasolina da beira da estrada, a caminho do Texas paulista q vc tanto gostava (e onde há um anjo moreno que vc iria adorar).

Hoje falei de vc com o nosso amigo T. A falta q vc nos faz é imensa, mas vc está por aí pela cidade me ajudando a pagar em suor a felicidade.

Até logo, Sir.

M, de Meditando-Sempre-Sobre-As-Nossas-Conversas-Impossíveis

PS: Muito tempo depois de vc ter se ido, recebi o livro dos obituários completos do ‘The New York Times’ dos anos 60, do qual vc me falava tanto. Li alguns e são umas maravilhas."

DISNEY LATINA

"Disney vai co-produzir novelas com latinos", copyright Folha de S. Paulo, 1/02/01

"Megacorporação mundial de entretenimento, mais conhecida pelos filmes que produz e distribui, a Walt Disney Company vai co-produzir novelas na América Latina. Vai entrar pela primeira vez em um mercado dominado pela mexicana Televisa e pela Globo, maiores produtoras e exportadoras mundiais do gênero.

A subsidiária do grupo na América Latina, sediada em Buenos Aires, estuda projetos de parcerias na América do Sul. A empresa, que já co-produz programas como o infantil ‘Disney Club’, com o SBT, quer ampliar sua carteira de produtos no continente.

‘Estamos analisando vários projetos de produções originais e locais e também queremos expandir nossos negócios de televisão no Brasil’, disse à Folha Diego Lerner, presidente da Disney na América Latina. Até julho, o grupo deve lançar no Brasil o canal pago Disney Channel.

Na semana passada, a Disney deu seu primeiro passo no ramo das telenovelas. O grupo comprou, para distribuir no México e na Argentina, a novela ‘La Baby Sister’, da produtora venezuelana Tepuy. ‘La Baby Sister’ promete repetir o sucesso da colombiana ‘Yo Soy Betty, la Fea’.

Diego Lerner, no entanto, diz que a Disney não pretende concorrer com a Globo. ‘Nós respeitamos a Globo e sentimos que podemos aprender com sua vasta experiência na produção e distribuição de telenovelas.’"

MTV

"Conhecimento de causa", copyright Folha de S. Paulo, 4/02/01

"Foi lá pelo final dos anos 50 do século 20 que tudo começou. Até então, os jovens não passavam de adultos incompletos, seres em formação cuja plenitude seria alcançada, anos mais tarde, depois do serviço militar (e, quem sabe, uma temporada na frente de batalha), com um emprego fixo, o matrimônio indissolúvel e uma prole numerosa. Enquanto isso não se consumasse, as quase pessoas em questão existiam para serem vistas, não ouvidas.

Não causa surpresa, portanto, que a virada, quando ocorreu, se fizesse acompanhar de muito, mas muito barulho mesmo. A esse barulho que soava estridente, irritante, insuportável aos ouvidos mais velhos, seus ouvintes e fãs davam o nome de música. Não é que se tratasse de melodias tão diferentes, de letras revolucionárias ou de ritmos totalmente inesperados: era antes no papel desempenhado por essa música na vida de seu público que se patenteava a grande novidade.

Os novos meios de reprodução -do toca-discos ao toca-fitas, ao walkman, ao discman, ao MP3 Player- e de difusão -do rádio à TV, à Internet- garantiram que a música, restrita anteriormente a determinadas horas, a certos recintos e a ocasiões precisas, ocuparia, no dia-a-dia dos jovens, um lugar cada vez maior.

As gerações nascidas após a Segunda Guerra Mundial distinguem-se das que nasceram antes menos pelo tipo de música que apreciam do que pelo modo como a ouvem. A todas as estratégias visuais e comportamentais às quais as gerações recentes têm recorrido para marcar sua diferença subjaz um elemento mais central e profundo: o musical. Não é à toa, assim, que, se quisermos ter uma idéia não tanto do que é que o pessoal com menos de 30 anos pensa, mas da batida e do timbre de sua interioridade, o aconselhável é sintonizarmos na MTV.

A adolescência, como se sabe, é um fenômeno que se encomprida nas duas pontas: inicia-se antes e dura mais. Um sinal seguro de que uma criança qualquer está prestes a ingressar nessa, digamos, ‘fase’ é ela estar se interessando pelos programas desse canal. Sob muitos aspectos, a MTV é a cara de uma juventude urbana internacional. Isso é bom ou ruim?

É melhor do que seria de esperar. Comparada a outras emissoras, a MTV se mostra superior em várias coisas. Seus VJs, comentaristas, animadores etc. parecem normalmente pertencer à cultura que promovem ou discutem. Ou seja, ao contrário do que sucede com os bonecos falantes dos outros canais, eles passam efetivamente a impressão de estarem por dentro daquilo de que falam.

Daí ficarem habitualmente mais à vontade e criarem um clima mais informal por meio de gestos aparentemente menos coreografados. É, no mínimo, muito engraçado que, enquanto muitas das caras que aparecem nas emissoras ‘sérias’ estão lá só porque satisfazem algum padrão de beleza, aquelas que habitam a emissora mais zombeteira denotem conhecimento e/ou competência. A faixa etária da qual mais futilidade se espera também cultiva a meritocracia.

Outro aspecto interessante da MTV é exatamente a abrangência dessa informalidade, algo que acaba permeando toda sua programação sob a forma de um tom de perpétua gozação. Afinal, se há uma coisa que os ‘teens’ em geral não suportam muito é a reverência sacralizadora com que são freqüentemente tratados os produtos culturais e outras tantas coisas.

Havia, por exemplo, na novela ‘Laços de Família’, de Manoel Carlos, um núcleo ‘letrado’ de personagens que viviam em torno de uma livraria e discutiam livros e autores. O respeito quase religioso com que eles se referiam a alguém como Hilda Hilst era, no entanto, a maneira mais segura de afastar da obra dela os leitores jovens. Não é difícil concluir que, se o objetivo é fazer algum adolescente ler tal ou qual livro, é um modo não cerimonioso de apresentá-lo, como o da MTV, que surtirá o efeito desejado.

De todas as emissoras, a MTV é aquela que menos parece menosprezar seu público. E isso não se deve apenas a ela se mostrar mais informada acerca dos interesses, dilemas e curiosidades dos adolescentes e dos jovens. Ela lança constantemente mão de uma linguagem mais adequada aos assuntos que aborda e em melhor sintonia com quem a assiste.

É sobretudo o fato de a música ser para ela algo essencial (e não meramente um acompanhamento) que lhe permite uma relação privilegiada com uma faixa etária cujos membros não raro se valem do tipo de música, dos compositores, intérpretes, bandas etc. pelos quais optam para definir a própria identidade.

Um acordo de base, entre emissora e espectadores, a respeito da importância dessas escolhas assegura-lhes uma linguagem comum e garante-lhes a comunicabilidade. Talvez a chave do sucesso da MTV esteja justamente em ter descoberto que o problema não consiste numa escolha maniqueísta pró ou contra a cultura pop, mas sim na criação de cada vez mais vasos comunicantes entre ela e todo o restante."

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