Sábado, 15 de Junho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1041
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Matinas Suzuki Jr.

Por lgarcia em 12/09/2001 na edição 138

JOSEPH MITCHELL

"Um segredo", copyright Último Segundo (www.ultimosegundo.com.br), 6/09/01

"Eu queria que essas histórias fossem mais verdadeiras do que factuais, mas elas são solidamente baseadas em fatos? (Jospeh Mitchell)

Minha jovem jornalista,

Pensei em vc hoje. Não sei se na sua cidade está passando o filme ?Crônicas de Uma Certa Nova York?. Se sim, não deixe de ver. Não será o filme da sua vida. Mas é uma rara oportunidade para vc ter uma idéia da vida na revista ?The New Yorker?. E para vc conhecer um pouco a vida de um dos grandes jornalistas do século passado, Joseph Mitchell.

Fiquei surpreso de o filme ter vindo para o Brasil. Isso mostra q os programadores das salas estão atentos a produções de qualidade q não têm grande apelo comercial. Bom.

O filme em inglês chama-se ?O Segredo de Joe Gould?. Há um livro com o esse mesmo nome. Ele traz duas reportagens de Joseph Mitchell sobre o mesmo personagem, Joe Gould. Gould era um tipo q flanava pelas ruas de Nova York. Alguém q Baudelaire imortalizou como um dos personagens da modernidade. Dizia-se o último boêmio vivo. Estava escrevendo a história oral da humanidade.

Joe Gould fascinou a alma de repórter de Joseph Mitchell. A sua primeira reportagem sobre ele apareceu na ?New Yorker? de 12 de dezembro de 1942. Chamava-se ?Professor Gaivota?. A segunda, vinte e dois anos mais tarde, sairia com o título do livro e filme: ?O Segredo de Joe Gould?. Depois de publicar esse texto, Joseph Mitchell nunca mais publicou nada. Não vou te dizer por q, é melhor vc ver o filme.

Na verdade, esse passou a ser o segredo de Mitchell. Ele é considerado um jornalista com status de grande escritor. O q me intriga é q tenha ficado, depois dessa segunda reportagem sobre Joe Gould, décadas na ?The New Yorker? sem publicar nada, apenas editando. São os mistérios q tornam a vida interessante, não é mesmo?

Mitchell gostava de explorar a vida de pessoas comuns, de descobrir grandes coisas em personagens aparentemente secundários. Era um tipo discreto, educado, gentil. Sua maneira de fazer um jornalismo muito próximo da literatura – não no sentido da ficção, mas no da construção do texto e da caracterização dos personagens – é algo sobre o qual não se fala nada nas escolas de jornalismo.

Bem, já escrevi demais. Veja o filme e depois me diga.

M, de Mitchell sem nenhum segredo

PS: Joseph Mitchell é considerado um dos precursores do Novo Jornalismo. Nós voltaremos a falar sobre isso."

 

CINEMA & JORNALISMO

"Glauber, eu e vc", copyright Último Segundo (www.ultimosegundo.com.br), 31/08/01

"?O cinema falado é o grande culpado?, Noel Rosa.

Meu conterrâneo perdido no mundo,

fiz uma lista, a pedido de um ex-aluno q realiza uma pesquisa interessante, dos filmes sobre jornalismo que mais gosto.

Inevitável: ?Terra em Transe?, uma paixão anterior ao jornalismo.Talvez nenhum outro filme tenha fisgado tão dilaceradoramente a idéia da onipotência -no final estéril- jornalística: o jornalista como alguém q não só quer fazer a História, mas como alguém Q-Quer-Substituir-A-Própria-História. Essa impossibilidade fez e faz o heroísmo de tanta coisa boa da imprensa, mas tbém faz parte de certa frustração ressentida do periodismo q o público já não tolera mais.

Quando penso na importância que ?TT? teve na minha vida, quando penso na importância que ?O Bandido da Luz Vermelha?, do Rogério Sganzerla, com o qual convivi um pouco na redação da Folha, teve na minha vida, acho injusto q aquela música linda tenha sido composta como uma reação a uma suposta tentativa de acabar com o cinema brasileiro q teria sido promovida pelo caderno cultural para o qual eu trabalhava.

Vc é parte daquela vida com o cinema. Vc viu de perto no respiradouro do Cineclube da GV (o único lugar onde se podia ver Bressane, Godard, Glauber, nos 70), vc gravando as falas desses filmes para depois citá-las de cor-ação, a CineOlho, os cool killers nas madrugadas da paulicéia…, o FM, certamente personagem de todos aqueles filmes, nos irradiando, nos deixando a sensação de sermos mais inteligentes do q realmente éramos só pq ele nos dedicava seu tempo, seu tempo e suas idéias e palavras de lucidez de uma loucura total.

Não quero fazer deste Cartão Postal para vc uma espécie de acerto de contas comigo mesmo, não é um lugar para isso, mas estava claro q o modelo estatal-monopolista de produção do cinema estava se esgotando financeira e, pior, esteticamente. Nós já não estávamos tão próximos, mas acho q vc também sentia isso. O próprio Glauber não poderia ser tão abertamente barroco, contraditório, prolixo e altamente criativo naquele esquema. Ele ensinou a inventar, não a obedecer.

O Cacá disse para o Mag q havia um má vontade fundamental contra eles. De certa maneira, acho que o Arnaldo, quando veio para essepê, entendeu mais o contraplano das nossas idéias. Não é verdade o q pensa o Cacá, ainda q o meu trotskismo deliciosamente romântico jamais aceitasse o adágio tbém romântico do PESG q dizia q um filme nacional é sempre melhor q um filme estrangeiro. Fui um espectador enternecido de ?Chuvas de Verão?, fui um espectador fascinado com ?Toda Nudez? e ?O Casamento?, e ?Macunaíma?, para mim, sempre foi, como o livro ?Macunaíma? sempre será a minha primeira vez.

Eu sei, vc sabe, nós dois sabemos q não havia uma campanha contra o cinema nacional -parte do cinema nacional é q se defendia desse jeito, desse jeito como alguns políticos sempre dizem q há uma orquestração contra eles. O q eu queria te dizer neste Cartão confuso e prolixo como é a minha maneira de pesar é q talvez só vc, apesar da nossa distância (eu agora com a bandeira sem graça do pé-no-chão, vc um viajante de terras e idéias), saiba q a motivação daquela bela música é injusta e q é compreensível q uma arte tão difícil como o cinema desperte um sentimento de proteção, mas não se cria nada de forte sem a contradição do Outro ou pelo menos sem admitir a presença do Outro dentro de si. O homem é em si, Deus e o Diabo.

Ninguém tem meia verdade nem verdade-e-meia. O campo das idéias é sempre minado e fértil. Hoje em dia, prefiro debater comigo mesmo. O pior, é q continuo perdendo. Peguei bode dos q ganham discussão, todos os meus amigos são os campeões de discussão. Ao vencedor, minhas bananas.

Chega de conversa jogada no tempo q não volta, mas não chega de saudade de alguns momentos com vc. Siga na sua rota da seda, my friend, com muitos camelos e muitos cavalos para transportar sua riqueza.

M, de mesma aldeia sem rio passando por ela

PS: Como vc dizia, bota é fogo o resto é cinza."

    
    
              

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